A Hóspede

25 A moeda de um lado só: Descoberta


Notas iniciais
Repostando porque deu erro =S

-Oh! É natal! É natal!! É natal!!! –Gritava Ino alegre como uma garota de dezesseis anos, espalhando bilhetes com dicas de presente por todo o apartamento. Eu me divirto com ela, mesmo suas atitudes infantis sendo irritantes, não há como não se alegrar com a positividade dela.

-Ino, vem nos ajudar a decorar a árvore! –Chamou Hinata impaciente.

-Já tem duas aí, não há necessidade de mais uma. –Negou se jogando no sofá brincando com as pontas do cabelo.

-A cada enfeite que Sakura prega eu coloco cinco! –Falou Hinata me encarando nervosa.

-Não reclama! Eu fui obrigada a te ajudar! –Coloquei um globo de espelhos próximo ao topo do pinheiro e desci da escada.

-Onde vai? –Perguntou Hinata.

-Ver a decoração do quarteirão. –Respondi me agasalhando.

-Mentira Hinata, ela vai comprar o meu presente! –Deduziu a loira com um sorriso contagiante. –Sakura, amor, os óculos da Gucci que escolhi podem ser de outro modelo, não tem problema, só quero eles degrade.

-Aproveita e pega algumas idéias do AP dos outros e trás para cá! –Sugeriu se voltando ao pinheiro mais enfeitado do que carro alegórico de carnaval brasileiro.

-Tá. –Abri a porta.

-Esteja aqui às 22h para irmos tra... –Saí de casa antes que Ino pudesse terminar de dar o aviso. Está certo, adoro natal e adoro as luzes, enfeites, os doces e tudo mais, só que o que eu queria mesmo não se achava em meias ou chaminés e sim na farmácia da esquina. Já é dia vinte e três e nada! Já posso ficar desesperada? Acho que sim. Antes de entrar, verifiquei se uma das duas estavam me observando da sacada. Não estavam. Logo entrei toda cautelosa, procurei pelas estantes o “inimigo” e o coloquei sobre o caixa com o dinheiro junto.

-Boa noite, senhorita. –Cumprimentou o garoto do caixa. Ruivo de orbes esverdeadas. –Mais alguma coisa?

-Sorte. –Saí entes que ele pudesse pronunciar algo. Atravessei a rua que estava pouco movimentada, fui direto para o banheiro-nojento-do-posto-de-gasolina e dei início ao julgamento que iria me condenar, ou não. –Vai, xixizinho! Faça o “inimigo” mostrar só um pauzinho... –Falei baixinho. –Faça algo memorável antes que eu dê descarga e você se torne uma porcentagem inútil do sistema de esgoto. –Respirei fundo com os olhos cerrados. Tirei o teste com o resultado já exposto. Suspirei pesado e joguei o “inimigo” no cesto de lixo quebrado e em sacola.

Não, aquilo não bastou. Peguei “inimigo” do cesto, quebrei-o em duas partes e pisei, pisei, pisei nele até a vontade de me afogar no vaso sanitário desaparecer por uns instantes. Lavei o rosto com a água gélida que despencava da torneira mal instalada, voltei para a conveniência meio em choque, cheia de sentimentos dúbios. Sentei em uma das mesas e comecei refletir enquanto fazia origamis com os guardanapos.

Foi questão de minutos para eu me levantar com uma segurança que mal sei de onde veio, comprei uma garrafa de coca-cola e saí para dar uma olhada no quarteirão e admirar a beleza da época. As luzes em contraste com os sorrisos dos poucos que estavam na rua, agasalhados fazendo os preparativos para a véspera do feriado cristão. Garoava um pouco, mas eu não me importava, tentei substituir ‘chuva’ por ‘lágrimas de Deus’ e me senti melhor, como se eu necessitasse daquele banho de pureza.

Puta que pariu!!! Eu sou mesmo muito imbecil! Muito burra, não, mais do que burra, uma jumenta! Eu insisti para ele usar camisinha e mesmo assim ele não quis, transamos sem proteção... E agora? O que eu faço? Enfio a cabeça no topo da chaminé e espero a fumaça me asfixiar? Até que não seria má idéia. Mas antes de me suicidar, preciso ter certeza. Bebi toda a coca e voltei à farmácia, de novo.

-Boa noite novamente, senhorita.

-Está contando as vezes que venho aqui?

-Só por esta noite. –Respondeu tirando a nota do novo “inimigo”. –Deu positivo, não deu? –Perguntou me entregando a sacola com o “inimigo” dentro. Com o teste de gravidez dentro.

-Isso não é problema seu! –Falei seca.

-Feliz natal! –Desejou sinicamente. Mostrei o dedo do meio e saí correndo para o banheiro-nojento-do-posto-de-gasolina.

-Vamos lá xixi. Não me dê outro susto, por favor! –Joguei a cabeça para trás. –Por favor!!! –Retirei o teste. –Não... Não! Não! Não! Não! Não! Não! Isso não! Ai! Que ódio!!! Que ódio!!! –Chutava a porta com toda a força que tinha, chorando e gritando desesperada. –Xixi malvado! Xixi malvado! –Encostei minhas costas na porta recentemente agredida e fui deslizando aos poucos até sentar-me no chão nojento, abraçada com minhas pernas, molhando os joelhos de lágrimas.

Estava nervosa demais para pensar em algo para fazer, essa era uma situação que iria testar todas as minhas crenças. Como católica, aborto está fora de cogitação. Bom, adoção não é uma boa opção. Como irei saber se ele não será judiado? Se houver uma família para criá-lo, como seria esta? Rica? Pobre? Amorosa? Ausente? Não sei. Talvez, ele nem vai ter uma família e fique trancafiado no orfanato por anos e anos, sozinho... Preciso me acalmar antes de pensar essas coisas para o meu bebê. Meu bebê. Que estranho falar assim...

Nunca mais reclamarei da minha vida porque sei que tudo pode ficar pior, como agora. Só quero é ver o que vou fazer, que explicações darei quando eu não tiver mais argumentos, como vou me sustentar e sustentar uma criança sozinha. Esse é um pesadelo que tive, está voltando a ter vida, voz e forças sobre mim.

Quando perdi meu pai, senti um abandono, uma sensação de solidão que até hoje me perturba em alguns momentos. Fui uma criança ‘indesejada’, um ‘acidente’ como costumam dizer. Não suportaria ter uma criança sem alguém para chamar de pai. Minha mãe tentou me abortar, mas diz ela que a gestação já estava pra lá de quatro meses e seria muito arriscado para ela. Eu sei como dói ouvir isso da própria mãe, ouvir a voz dela dizer que eu nem devia existir. Isso porque eu não fui má filha, imagina se eu tivesse sido. Pelo menos, a situação de vida da minha mãe era três vezes melhor do que a minha na época, ela tinha meios, maturidade, alguém que a apoiou. Tudo o que eu tenho é que voltar para casa, vestir um baby doll e ir dançar para homens bêbados e desocupados para ganhar cinqüenta dólares.

Eu não posso assumir essa criança, não tenho como ser mãe solteira, sustentar duas bocas e um apartamento sozinha. Eu não tenho ‘instinto materno’, não tenho perfil para ser mãe, não agora. Não tenho idéia do que fazer, confesso que estou assustada, desesperada, me sentindo culpada, sozinha. Estou me achando fraca por chorar em silêncio como uma adolescente em crise, como que fosse resolver algo, como se alguém fosse aparecer e me amparar, amenizar a agonia que me tormenta, mas ninguém virá me abraçar e dizer que está tudo bem, já se foi os tempos em que era sensato ter esperança de que alguém aparecesse, mas hoje não. É tudo ilusão, otimismo ao extremo.

Levantei, dei uma última olhadinha para o “inimigo” e fui lavar meu rosto de novo, agora todo vermelho por conta do choro, os olhos inchados e o verde apagado, fosco, sem animação. Quero ver que desculpa vou arranjar para enrolar as meninas. Saí do posto e fui rumo ao prédio onde resido. “Bem, me emocionei com as luzes, Ino” ou “Queria estar com minha mãe neste natal...” Do jeito que a Ino é tola vai acreditar, já Hinata não é fácil de se dobrar, vou tentar ser ao máximo convincente e não mostrar preocupação durante a noite.

._.o0o._.

-Mamãe Noel... –Disse baixinho olhando-me do espelho. Estava trajando uma saia cintura alta vermelho com bordas de veludo branco e um cinto fino prendendo-a melhor na minha cintura; um corpete escarlate com um generoso decote; meias brancas acima dos joelhos; scarpien preto e um gorro. Mais ridículo impossível! –Mamãe Uchiha. –Arrisquei dizer, pronunciando com desgosto forçando um sorriso no rosto para não chorar. Não tinha ânimo para dançar, porém para um suicídio eu estava disposta. É muito difícil dizer que está bem quando não está, exibir um sorriso forçado, como uma máscara para agradar as pessoas, evitar que elas perguntem ‘O que houve?’. Elas matam a curiosidade ouvindo meu problemas, falam palavras comuns e vão embora. Que ajuda! Quero tirar essa roupa e ir para casa, mas eu não posso.

-Vamos, Sah! –Chamou Ino.

Nos posicionamos atrás das cortinas e esperamos os holofotes raiarem sobre nós. Enfim, as cortinas se abriram, a casa estava lotada e o som começou vibrar uma melodia enjoativa e conhecida por todos.

♫Jingle Bell, Jingle Bell, Jingle Bell rock, Jingle Bell swing, Jingle Bell swing...♪

Terminamos a dança e fomos aplaudidas e fotografadas. Ótimo, agora vamos para casa.

-Sah, uns caras da mesa seis vão pagar bebidas para nós, passa um gloss e vamos lá atiçar eles. –Disse retocando o blush, deixando suas bochechas mais rosadas. –Do jeito que um está babando por minha bunda é capaz de me dar aquela bolsa da Louis Vitton que eu tanto quero se eu dormir com ele!

-Ino, você não tem namorado? –A lembrei desse detalhe.

-Não vou contar se você não contar. Estamos entendidas? –Me deu um sorriso provocador. –Quer esse brilho emprestado? É da Victoria Secrets. Ganhei do filho do padeiro...

-Acho que vou para casa de metrô nesse caso. Não estou afim de beber, muito menos de sair com ninguém. –Falei colocando meu cachecol vermelho.

-Nada disso! Vai curtir a noite com agente! –Ordenou com uma voz autoritária. –Os caras são um pão que caiu do céu! O que gostou de você é o mais bonito dos três. –Que milagre! Ela não deu chilique porque o melhor gostou mais de mim do que dela! Preciso filmar esses momentos. –Eu não me importo dessa vez, o que vou pegar tem mais dinheiro e é melhor de cama. –Está explicado.

-Não sei não, Ino. Estou tão cansada... –E estava mesmo.

-De que? Você anda dormindo dia todo! –Realmente. -Anda dormindo muito ultimamente, o que está acontecendo? –Oh não! Fudeu! Ela está desconfiando.

-Acho que... estou meio anêmica! –Anêmica? De onde tirei isso?

-Era de se esperar! Não tem comido nada e tudo o que come vomita! –Putz! –Acho que você não está só com anemia, tem algo a mais. –Fudeu mais ainda!!! –Você está ficando com anorexia com certeza. –Depois dessa eu me considero uma pessoa de sorte por ter uma loira com amiga, sem preconceitos, mas acho que quem disse que essa cor de cabelo leva a pessoa para o caminho da demência e burrice devia ter uma amiga como a minha.

-Anorexia é quando a pessoa come e vomita de propósito. –Expliquei. –Bulimia é o que eu tenho.

-Seja o que for isso é problema do seu plano de saúde! –Não tenho plano de saúde. –Agora vamos nos focar nas delícias da mesa seis! –Desisti. Dei-me por vencida. Ino sempre consegue o que quer, não importa o que seja e não duvido muito que ela consiga uma Louis Vitton só de chupar o pau do cara. Uma coisa eu concordava com ela, era impossível negar que eram homens lindos, não mais do que o Sasuke, óbvio, mas eram lindos do mesmo jeito.

-Olá. –Disse o mais gostoso se levantando para me cumprimentar. Apenas sorri e me sentei ao lado dele, deixando de lado intimidades como beijo da bochecha ou selinho. Fui criada na Inglaterra, lá não tem essas liberdades que as pessoas da América tem umas com as outras. Pode dizer que é hipocrisia minha, afinal, montei em cima de um homem que eu nem sabia o nome semanas atrás, isso é contraditório, mas tem diferenças: primeiro, estávamos privados por quatro paredes; segundo, eu estava entediada; terceiro, ele olhou minhas pernas de uma forma promiscua que eu me lembro muito bem! Tudo favoreceu para que eu trepasse com ele e, teria sido a melhor transa da minha vida se ele não tivesse gozado em mim e me deixado nesse estado em que me encontro. –O que vai beber? –Pensei. Pensei muito. Eu podia me chumbar de whisky, mataria o feto com certeza... Ah! Saia da minha cabeça pensamento macabro!

-Suco.

-Suco? –Perguntou com deboche.

-Estou parando de beber. –Expliquei tentando não ter contato visual com Hinata que me lançava um olhar desconfiado.

-Desde quando? –Perguntou séria, com uma sutileza invejável, mas seus olhos a denunciavam.

-Já tem três semanas. –Ino engasgou. Entendi o porque. Há uma semana nós três ficamos bêbadas e fizemos uma orgia lésbica. Sim, eu era uma péssima mentirosa e Ino é péssima em acobertar minha péssima mentira.

-Não havia notado. –Justificou-se Ino entre as risadas e Hinata me olhava desconfiada. Pelo visto, aquela noite seria difícil.

O cara era gostoso, sim, mas ó falava em sexo e em banalidades. Seu nome era Sasori, estatura média, cabelos avermelhados, olhos intensos. Logo Ino vazou com um dos caras, ia levá-lo para casa, ou seja, eu teria que dormir fora e, infelizmente, seria com o ruivo. Pelo menos esse usou camisinha. Em compensação, é um broxa total. Não ficou dez minutos em cima de mim e já chegou ao clímax, não tive tempo nem de fingir sentir prazer. Eu não sou de simular orgasmos e não ia ter o esforço de tentar só para não deixá-lo sem graça.

-Da próxima você chaga lá, gata! –Falou me dando um beijo e se virando para dormir. Cretino... Vai me procurar na puta que pariu, mas transar com ele de novo nem em sonhos!!! Quando ele caiu no sono, vesti minhas roupas e já ia saindo, só que antes, só de raiva, peguei as roupas dele e joguei janela abaixo. Coitado... Antes tivesse ficado calado. Saí do quarto e fui para qualquer lugar longe dali.

Acabei entrando em uma lanchonete, sentei em uma mesa no fundo do estabelecimento e pedi um café forte, estava com dor de cabeça. Parei para pensar em tudo que vem acontecendo ultimamente, o quanto me transformei de boa moça para uma mulher completamente perdida nas escolhas erradas. Sentia nojo de mim mesma por ter deixado aquele homem me tocar. Me senti a pessoa mais baixa do mundo. Escondi meu rosto pálido e cansado atrás das palmas de minhas mãos e rezei baixinho, conversei com Deus.

Se minha mãe me visse nesse estado choraria, iria se culpar de não ter feito mais por mim. Ela nunca entenderia que nada da minha vida é conseqüência dos atos dela e sim dos meus. Agora estou grávida. O que de pior poderia acontecer?