A primeira horda. Nada como a primeira horda...

O sangue correndo em suas veias, a descarga de adrenalina, a dilatação das pupilas, os arrepios percorrendo o corpo. A tensão.

Mas a pergunta era a seguinte: assim como tudo na vida, sempre há uma primeira vez e, também, uma última. Como seria a última horda? Será que sempre haveria as mesmas sensações? Ou nos acostumaríamos com isso? Será que seria por ela que morreríamos?

Ficamos alguns dias nas estradas à procura de um lugar calmo, se é que isso ainda era possível. Durante uma parada rápida em um pequeno centro comercial, encontramos um outro grupo em uma farmácia, procurando por medicamentos, como nós. Se escondiam assustados com a nossa presença. Parecia que confiar em humanos agora era difícil para alguns. Talvez, devido a situações passadas. Um casal, Sandro e Alice. Seus dois filhos: um garoto já adolescente, Gabriel e uma menina uns dois anos mais velha que Cristina, Manuela. Uma jovem, Isabela. Um recente adulto, Bruno. E um menino calado, talvez um pouco mais velho que eu, Nicolas.

Demorou um pouco para confiarem em nós e seguirem conosco. Bom... Então aconteceu.

Se passaram duas noites e continuávamos na loja. As crianças e os mais jovens se divertiam comendo as balinhas de vitamina C que havia na farmácia e compartilhando histórias engraçadas de antes do acontecido. Sure! A resposta para qualquer pergunta numa aula de inglês quando você não está prestando atenção é SURE! Certo? Sure!... Os adultos, porém combinavam o plano que no dia seguinte viria a acontecer.

Logo que amanheceu se prepararam. Boa parte ficou na farmácia. Eu, Cristina, Manuela, Gabriel, Nicolas, Isabela e os Cavalieri. É claro, os “mais frágeis”. Aqueles que não podiam lutar com os monstros e se arriscar em uma missão: tomar uma galeria a alguns quilômetros dali. Pelo o que disseram era razoavelmente grande, tinha varias lojas que poderiam servir como abrigo. Era um ótimo lugar. Perto de restaurantes e comércio. Quase tudo estava ao alcance.

Então ouvimos barulhos de tiros. Mas não tínhamos armas. Apenas facas e bastões de metal para nos defender.

Uma explosão.

O teto da farmácia havia caído, provavelmente uma bomba.

Cristina e os Cavalieri estavam em uma parte mais interna da loja, enquanto os outros espiavam pelas janelas e esperavam os adultos voltarem da missão. Foram soterrados. A pequena criança que nem completara uma década de vida e o casal de idosos que descansava em um sofá pequeno foram soterrados.

Logo em seguida gritos. “Corram! Apenas corram!” Fomos para os carros e saímos de lá, não sem deixar mais alguns para trás. Marta e Carlos desesperados tentavam chegar até a filha e foram mortos por tiros. Militares. Um bombardeamento militar.

Partimos. Sem comida, sem água. Nada. Tudo foi deixado.