A Hora Das Almas
1 A Hora das Almas
Naqueles vagos minutos em que o laranja traça uma linha no horizonte, antes do sol sair, há pessoas que param à janela para observar a luz começando a corromper a sombria noite. E, desses, são poucos os agraciados com a sensibilidade para ver aquelas formas de um sutil azul-claro, caminhando por entre as ruas como se ainda estivessem vivas.
Alguns, aterrorizados, se recolhem na segurança de suas casas. Outros, céticos, simplesmente afirmam que a luz da manhã está lhes provocando uma ilusão de ótica. Há também aqueles que consideram isso um dom, e ficam felizes em manter uma rotina de tomar seu café da manhã com a visão direcionada ao exterior de seu lar.
Esses últimos acabaram por ‘apelidar’ esse momento. A Hora das Almas, onde os espíritos que morreram há menos de três dias vêm vagar pela terra, se recusando a ir para o que quer que lhes esperasse após a morte sem antes se despedir daquilo que lhes era importante.
No geral, eles vagueavam por suas antigas casas, dando uma última olhada em suas famílias, lhes desejando um ‘boa sorte’ que nunca seria ouvido. Havia alguns materialistas, que visitavam seus bens, querendo arranjar alguma maneira de levá-los consigo. Por vezes, também aparecia um ou outro que não tinha família ou bens que se importasse, e simplesmente caminhava – talvez pensando no que o esperava.
E, então, ao que o astro diurno se erguia, as despedidas acabavam, a tênue linha entre terra e espírito era desfeita, e o destino daqueles que vagavam era selado.
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