A Hora Da Estrela - Releitura
1 Capitulo Único
Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras – desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentia tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: Seus olhos faiscavam como o Sol que morria.
Lembrou-se das palavras da cigana: Que ela teria tudo o que sempre desejou. Entretanto, tudo o que sempre desejou não existia. Macabéa nunca desejara nada em sua pacata vida miserável e nunca lhe passara pela cabeça a possibilidade de desejar algo – ou alguém. Macabéa, em toda sua vida, nunca desejou como outras pessoas desejam. Pessoas estas que aspiram a cargos empresariais, salários altos e famílias importantes. Pessoas que transformam seus desejos mais íntimos e mais importantes, seu desejos mais desejados, em metas de vida. Por que, afinal, o que são metas de vida senão desejos supremos?
E esta era outra questão. Macabéa, de tão pobre e de tão ninguém, nunca desejara algo, e não desejando algo nunca teve uma meta. Nunca teve nada, nunca foi nada, era simplesmente Macabéa e não desejava ser outra coisa além disso – mesmo sem saber, exatamente, quem era. Macabéa nunca teve uma meta, e, naquele exato segundo de hesitação, antes de atravessar a rua, ela percebeu que nunca havia desejado algo, alguém, nunca havia criado uma meta – um desejo supremo – e nunca havia sido, propriamente dito, alguém em sua vida.
Não sabia quem era.
Mas como ter tudo o que sempre desejou, se nunca desejou nada? E como poderia se sentir grávida de futuro, se sequer era alguém?
“Sou Macabéa, e é tudo que sei”, pensou a pobre debilmente. Mas quem, exatamente, era aquela pessoa de nome tão incomum? Macabéa era apenas Macabéa. Era sem ser, vivia existindo, como uma pedra ou uma simples gota d’água. Macabéa era nada.
Não sabia quem era, e não fazia ideia do que poderia ser. Um terrível vazio apoderou-se de seu estômago, igual ao que ela sentia todos os dias, causado pelo espírito agourento da fome que insistia em perturbá-la. Um espaço oco tomava conta de boa parte de seu interior justamente pela problemática que a cartomante trouxe: Desejar. Macabéa nunca desejou algo em toda sua vida, como poderia saber o que era desejar? Mas, na verdade, o que é, de fato, desejar algo?
Os desejos podem ser vontades perigosas, traiçoeiras que nos arrastam instintivamente para cumprir nossas ânsias que surgem profundamente do âmago humano. Como animais, farejamos e buscamos aquilo que talvez alivie o que nosso interior mais profundo e obscuro quer. Somos animais, e estes desejos são os mais perigosos. São os desejos de alma, e são os desejos que se transformam em metas e que, quando realizados, fazem da vida de uma pessoa um completo tédio, e ela tem que reaprender a desejar novamente e a construir um novo desejo profundo e enraizado em si.
Macabéa nunca desejara, e devia aprender o que era aquilo. Pela primeira vez em toda sua infame vidinha, a coitadinha tinha que desejar algo e o que mais desejava, naquele momento, era saber desejar. Macabéa, no instante de indecisão, – atravessava, ou não atravessava a rua? Era uma pessoa mudada por palavras! – deu-se conta que sua vida não passava de... Uma existência ínfima. Uma gota. Ela não era uma gota, ou uma rocha ou algo mais desprezível; era um ser humano, era gente. Era uma mulher desprovida de tudo e de todos. Era uma ninguém que tomava consciência de si e do universo como um todo.
Ela se dava conta de que sua vida (explosão!) era ridícula.
Precisava desejar e, para começar o aprendizado, deveria desejar algo simples, para não cair em desilusão: Desejar algo grande demais pela primeira vez, para, logo em seguida, dar-se conta de que nunca poderia ter o que queria. Seria um baque tremendo para uma pessoa que nunca sentira vontade de nada em sua vida inteira. Começaria por algo simples.
“A Senhora Cartomante falou sobre o estrangeiro. Hans”, ela lembrou-se do que a mulher dissera sobre o tal estrangeiro misterioso que, aparentemente, surgiria em sua casa pedindo dinheiro emprestado e que, como num passe de mágicas, mudaria toda sua vida. Daria tudo o que ela sempre desejou. O estrangeiro era a resposta. O homem louro de olhos verdes, ou azuis, ou castanhos ou pretos. Aquele homem era a resposta para sua mortal dúvida sobre desejos.
Ela começaria desejando-o. Começaria saboreando o divino momento em que abriria a porta de sua casa e daria com um louro alto, de olhos escurecidos e pele clara. Macabéa ficaria surpresa, e (explosão!), sorriria a ele.
-Desculpe, senhorita – ele diria num sotaque irreparável de estrangeiro – Preciso de uma quantia em dinheiro emprestada. Será que poderia ajudar-me?
Macabéa pôde sentir um estranho gosto amargo em sua boca desdentada e mal-alimentada. Será que poderia imaginar algo assim? Será que lhe era permitido sonhar com algo tão bom como um moço incrivelmente galanteador batendo-lhe à porta? Ela devia?
(Oh, preciso interromper a narrativa. Sinto-me tão angustiado por Macabéa, a pobre mulher que vejo estar já apaixonada por um homem que sequer viu em toda sua vida. Está, sim!, apaixonada por uma pessoa que vive, que acaba de nascer em sua imaginação.
É este o certo? É este o normal? Macabéa está errada em enamorar-se perdidamente por um indivíduo que nunca viu em sua vida e, ainda por cima, despejar toda sua esperança, todo seu futuro – por mais desinteressante e perverso que fosse antes – e todos os seus desejos – mesmo que ainda não existam? Será que é o certo?
Oh, temo por Macabéa. Temo por esta pequena pessoa, sem sonhos, sem passado, sem presente e sem futuro. Temo por suas esperanças ainda tão infantis e por seus sonhos, ainda tão débeis.)
O gosto amargo em sua boca talvez se referisse ao estômago que já reclamava por alimento, mesmo quando devia estar acostumado com a falta dele. Talvez fosse a bílis subindo-lhe a goela e fervendo-lhe a barriga. Mas Macabéa, pela primeira vez, queria apenas saber de sonhar com seu futuro ainda embrionário. Mudada por palavras e grávida de futuro, a pobre se punha a pensar no que viria a seguir, depois de abrir a porta para seu estrangeiro salvador. Estava como uma mãe verdadeira faria: Imaginando seu filho tão desejado, tão aclamado, e já tão amado.
Macabéa já parecia estar amando seu futuro. E parecia estar ainda mais enamorada por seu salvador. Imaginou abrindo a porta e pensou no homem, alto, entrando em seu humilde apartamento, enquanto as quatro Marias estavam trabalhando nas Lojas Americanas.
-Muito obrigado, Senhorita – ele lhe disse amavelmente. Tinha olhos castanhos bonitos, corados. Não eram como os olhos de Macabéa: opacos, mortos.
Macabéa não sabia exatamente o que fazer. Havia namorado Olímpico, mas ele a trocara por sua amiga, Glória. Claro que a pobre se considerava culpada pelo que aconteceu.
“Glória é bonita. Eu sou feia, mereço isso”. E logo repetia para si mesma, como se fosse um mantra que a mantinha com a cabeça no lugar – ou a consciência: “É assim por que é”.
O homem ainda a observava em sua simples saleta. Macabéa pela primeira vez usou e desfrutou de sua reles imaginação e pôs-se a pensar no estrangeiro que lhe pediria dinheiro emprestado. Pensou-o alto, bonito, com um belo cabelo dourado como os raios do Sol da manhã e olhos castanhos tão profundos quanto poços de água e tão inteligentes quanto uma biblioteca inteira – mesmo sem nunca ter entrado numa.
Ele estava sentado em sua cadeira comum, observando-a como ninguém nunca havia feito antes. Pessoas buscavam não olhar para Macabéa pela feiúra da face, pela morte no olhar, pela falta do sorriso, pelas bochechas magras como a fome, pelos lábios rachados como a sede, pelo cheiro da falta de banho. Por ela ser insignificante demais para ser olhada.
Entretanto, o homem a olhava.
-Quem é? – ele perguntou com uma voz grave e ressonante. Macabéa tirou o tom do locutor de rádio. Ela gostava da voz dele.
-Chamam-me Macabéa – ela respondeu-lhe – Mas não sei quem sou.
O homem franziu a testa, intrigado com o que escutara. Macabéa, longe de sua imaginação, sentiu medo. Certa vez, tivera a mesma conversa com Olímpico, seu antigo namorado, e ele aborreceu-se. Disse que ela não tinha assunto. Será que o estrangeiro faria a mesma coisa? Será que ele a trataria mal?
“A vida é como é”, Macabéa pensou. Tentou voltar à realidade, mas lembrou-se de que, na realidade, era apenas Macabéa, e ainda não havia estrangeiro algum. Seu inconsciente tornou a levá-la à saleta aonde estava o estrangeiro.
-Sou Hans – Ele respondeu – Sou da Alemanha. Já ouviu falar?
Macabéa não sabia o que responderia em seguida. Alemanha? Nunca sequer ouvira falar de outro lugar sem ser o Rio de Janeiro ou sua antiga casa, no sertão do Nordeste. Sempre imaginara o Rio como sendo seu único mundo, seu único país, sua única casa. Os cariocas eram as únicas pessoas no mundo e dentre elas, não havia uma sequer que gostasse dela, ou se preocupasse com sua insignificância.
Estava acostumada a ser tratada como os ratos são tratados. Com certo desprezo, ou pena, e também sem ser tratado de modo algum. Simplesmente ignorado. Por que, assim como os ratos, Macabéa não era importante e não havia ninguém que gostasse de ratos.
O homem ainda a observava. Ela sentiu-se na obrigação de lhe dizer algo.
-Sabia que o Império Romano foi um dos maiores da história? – ela soltou. O homem tornou a franzir a testa e a observá-la. Soltou um sorriso.
-Gosta de história? – ele levantou-se da cadeira – Eu sou pesquisador, sabia? Estudo as antigas civilizações.
Deu-lhe um sorriso. Um sorriso branco e brilhante. E sincero. Era a primeira vez que sorriam assim para Macabéa, e aquilo deixava a pobre (explosão!) emocionada. Era a primeira vez que ela via alguém sorrir-lhe um sorriso sincero de simples satisfação, sem pena, tristeza, escárnio, deboche, ironia, sarcasmo ou outro sentimento do gênero por trás. Era a primeira vez que lhe sorriam um sorriso sem mais nada. Era um sorriso tão comum e tão simples quanto ela, sem mais sentimento algum por trás, e isto era o que fazia Macabéa emocionar-se ainda mais: Era um sorriso sem nada demais, assim como ela.
Macabéa olhou o homem e, repentinamente, sentiu vergonha por isso. Ele era bonito. Era muito bonito, e ela não deveria estar com ele ali. Sentia vergonha por ser o que era, e por não estar adequada o bastante para ficar na companhia de tal pessoa. Não era boa o suficiente para emprestar-lhe dinheiro, mesmo que não tivesse, e nem para receber um sorriso.
-Está muda, moça? – o homem perguntou-lhe num tom divertido. Soltou uma risada baixa – Desculpe, eu cheguei de repente, não foi? E ainda por cima pedindo dinheiro... Que tipo que sou eu.
-Não tenho dinheiro para emprestar ao Senhor, me desculpe – ela murmurou tão baixo que o homem teve de inclinar-se para frente para escutá-la melhor – Desculpe.
-Espere um instante, você pede desculpas por não ter dinheiro para me emprestar? – ele está novamente com a testa franzida. Macabéa, de tão insignificante que era, prestou atenção em seus detalhes insignificantes – não era importante o suficiente para prestar atenção em algo importante. Estava observando as unhas do homem. Eram lisas, brilhantes e bem-feitas, assim com as da Glória, só que sem a tinta vermelha que ela passava.
Ele devia ser rico. Era mais um motivo para ela não merecer estar em sua presença.
Novamente se afastou do pensamento. Era perigoso. Macabéa não se sentia bem, ainda não se sentia acostumada a desejar ou a imaginar algo. Não podia se entregar tão facilmente a débeis pensamentos que logo, logo lhe ocupariam coração e pensamentos. Era uma moça mudada por palavras, e moça mudada por palavras não se deveria levar por imagens bonitas que lhe passavam pela cabeça desmiolada.
Macabéa pensava que não merecia. Não, ainda não merecia tais pensamentos tão bons. Por que havia de um homem como aquele aproximar-se dela e lhe ser agradável e sorridente? Por que alguém como ela lhe prenderia a atenção e lhe despertaria a curiosidade? Por que haveria de alguém como ela receber um sorriso sincero e cuidadoso como aquele?
Não. Ela não era ninguém, era insignificante, e como alguém insignificante, deveria permanecer em seu lugar. “A vida é assim porque é”, quis pensar, mas não conseguiu repetir seu mantra. Sua mente infantil e fraca já se encontrava ocupada com imagens bonitas e desejáveis. Ela queria aquilo, pela primeira vez em toda sua miserável vida, Macabéa desejava algo. Ela desejava aqueles pensamentos.
E sem se dar conta de que já havia cumprido a primeira tarefa, a primeira exigência passada pela Cartomante – desejar algo para ser realizado — , Macabéa deixou-se levar pelos pensamentos tentadores.
O homem foi-se embora tão rápido como chegou. E os dias e as noites também deixavam Macabéa com uma freqüência inacreditável. Ela dormia, roncava, dormia, roncava, e sentia fome. Dormia, roncava e tossia um pouco de sangue. Dormia, roncava e deixava-se sonhar com Hans, o estrangeiro que surgira como uma imagem criada por nossa mente insana.
(Mas não era exatamente isso que ele era, afinal de contas?)
Até que, certo dia, Macabéa estava tossindo um pouco quando alguém lhe bateu à porta. A pobre estranhou: Ninguém a procurava. Ninguém se interessava por ela, por que bateriam à porta...? Talvez fosse para uma das Marias.
Girou a maçaneta e lá estava o homem. Naquele dia, carregava alguns livros contra o peito. Sorria aquele sorriso sincero.
-Olá, Senhorita Macabéa – ele cumprimentou a educadamente – Posso entrar?
Macabéa sentiu o coração correr tão rápido quanto um gato que foge do churrasco. Era aquele estrangeiro novamente, o tal que havia pedido dinheiro emprestado e ainda sorrira para ela. Aliás, estava sorrindo novamente. Era um homem de sorriso fácil.
Ele entrou depois da pobre dar-lhe passagem e pousou os livros grandes na mesa. Virou-se para ela a ajeitou o cabelo dourado.
-Você gosta de história – ele disse – Trouxe uns livros para ler.
Subitamente, estava infeliz. Não sabia ler. Não muito bem. E não poderia ler aqueles montes de livros grossos e cheios de páginas que o homem lhe trouxera. E também não poderia recusar, fora uma gentileza. A primeira em toda sua vida.
-Desculpe – ela começou – Não posso.
O sorriso sumiu do rosto do homem.
-Por que não? São muitos? Não gosta?
Macabéa, ainda olhando para o chão (aliás, ela não olhava diretamente nos olhos do homem. Sempre mirava o carpete puído e manchado da casa sua e das Marias), murmurou outra resposta:
-Não sei ler, desculpe.
O homem parecia atordoado. Não sabia o que pensar. Estava interessado naquela pessoa que mais parecia uma criança crescida demais, em sua timidez extrema, em sua humildade e em sua ansiedade sempre que o via. Pode não parecer, mas Hans gostava daquela pessoa.
-Não sabe ler? – ele andou até ela e lhe sorriu – Pois eu ensino. Sente-se lá, tem papel e lápis?
-Não, desculpe.
-Ora, que é isso, Senhorita? Não peça desculpas – ele disse.
-Está bravo? – pela primeira vez ousou levantar o olhar e este se encontrou com o de Hans. Ele sorria abertamente.
-Não, não estou. Não fico bravo tão rápido – riu-se – Mas posso comprar uns papéis e lápis para nós, e você aprende a escrever. Que acha?
-Acho... – tentou dizer alguma coisa bonita, mas de nada sabia – Sabia que o leão é o segundo maior felino depois do tigre?
Hans gargalhou alto e ficou ao lado de Macabéa. Fisicamente, era trinta centímetros maior que ela, mas para a pobre parecia ainda maior. Talvez fosse por causa da baixa auto-estima de Macabéia. Para ela, era tão pequena e miúda que Hans chegava a ser três metros maior, e não apenas trinta centímetros.
-Macabéa – ele disse – Você realmente é uma pessoa engraçada.
E novamente tocou-lhe o coração.
As fantasias transformaram-se.
Casou-se, em sua imaginação. Casou-se de branco, de véu e grinalda, com direito a buquê de rosas vermelhas e bolo de três andares. O noivo era Hans e ele parecia não se conter de felicidade enquanto a esperava chegar ao altar. Estava vestido de terno preto, blusa branca e calça preta. O cabelo louro lustroso brilhava em sua cabeça de estrangeiro e as unhas estavam brilhantes e bem aparadas. Ele sorria-lhe um sorriso amável.
E Macabéa estava ligeiramente diferente. A pele e os lábios não andavam tão ressecados, as bochechas não estavam mais secas como o sertão, os olhos não era mais mortos e os cabelos tornaram-se lustrosos e bem aparados. Estava bonita, ou pelo menos não tão feia quanto era antes.
Os convidados eram poucos. Macabéa chamou Glória – que não acreditou quando recebeu o convite das mãos da própria noiva, e quase morreu engasgada ao ver o noivo – e seu noivo prometido Roberto – Olímpico descobriu uma amiga de Glória ainda mais rica e bem-nascida que ela, e mudou de planos — , um homem baixo que trabalhava como cortador de carne, no açougue da família. Hans chamou a família; a mãe, o pai e a irmã mais nova – todos louros e bem criados (o mais incrível é que gostaram de Macabéa logo de cara).
Andou ao altar e Hans tomou-lhe as mãos. Glória soluçava e parecia uma foca inchada e vermelha, Roberto segurava-lhe a mão livre e observava a paisagem pelo vitral amarelado da igreja pobre e praticamente vazia. O padre suava como se estivesse numa sauna e murmurava as palavras em latim com certo tédio e má-vontade. Mas nada disso importava. Ela era alguém, e tinha alguém também.
-Maca – ele sussurrou – Eu a amo.
E casaram-se.
(Como temo por Macabéa, perdida nesses devaneios, nessas ilusões criadas pela mente traiçoeira e tratante. No fundo do meu coração, tenho medo de que Macabéa acabe por não querer mais voltar de sua imaginação, agora tão ativa como nunca. Uma pessoa tão simples e humilde, perdida em fantasias de criança.
Se ela não voltar... Que farei? Como farei? Ela há de voltar. Por enquanto, está apenas encantada com tudo o que sua fértil e inexplorada imaginação é capaz de fazer, e não parece querer vir. Não. Ela o fará. Voltará e encontrará, na realidade, seu amado Hans).
Agora, Macabéa estava casada e morava na casa de seu esposo, Hans. Os dois eram plenamente felizes – ou pensavam que era. O que é ser feliz, exatamente? É ter tudo o que gostaria de ter? É viver sem preocupações? É ter quem você quer, ou deseja, ao seu lado? Ou é simplesmente um misto disso tudo?
Eles nunca refletiram sobre isso, mas pensavam ser felizes.
Ela havia saído do minúsculo cubículo que dividia com as Marias e agora vivia numa imensa mansão na orla de Maceió. O marido gostava por demais daquele lugar divino e esplêndido, e decidira – não sem antes questionar a senhora sua esposa – morar por lá. Mandara uns arquitetos desenharem uma planta sofisticada e contratara operários para colocarem a mansão para cima. Durante um ano, eles esperaram pela casa, pacientemente, enquanto moravam com a mãe de Hans, uma senhora idosa de cabelos dourados esbranquiçados e olhos claros como o céu. Ela gostava muito de Macabéa, e sempre lhe chamava para tomar um pouco de chá – bebida que Maca aprendeu a apreciar com o tempo e a convivência.
Um ano e quatro meses depois, a casa estava pronta. Fora desenhada para abrigar Hans, Macabéa, o bebê que estava por vir, e talvez mais um ou mais dois filhos – Hans era uma pessoa muito organizada, e gostava de planejar antecipadamente os fatos. Como ele e Macabéa concordaram em ter somente três filhos, decidiram colocar apenas quatro quartos na casa.
E o quarto do casal era o mais bonito. Macabéa imaginou-se debruçada sobre uma bancada da varanda, observando o Sol dourado e esplêndido cruzar o céu, e observou também o mar e as ondas cruzarem a areia. As crianças corriam umas atrás das outras na praia e as mães gritavam-lhe ordens para não se perderem. Pôs-se a sorrir. Seu bebê brincaria assim também.
Seu bebê. Era um pensamento tão estranho para Macabéa quanto a possibilidade de se tornar outra pessoa, que era o que parecia estar acontecendo. Depois de entregar-se completamente à imaginação que nunca antes havia usado, Macabéa simplesmente não conseguia sair, e estava presa às fantasias (exatamente como eu temia!). Mas parecia bom, e pela primeira vez ela quis ser feliz. Pela primeira vez ela sabia o que era ser feliz – ou tinha uma vaga noção.
No sonho, sua barriga movimentava-se e ela sentia o pé quente e pequeno chutando-lhe o ventre. Fechava os olhos e punha-se a imaginar, dentro do sonho, um outro sonho, onde estaria seu bebê sorrindo e chamando-lhe mãe. Seria uma criança alegre, diferente dela, com cabelos dourados como o pai e olhos azuis como a avó paterna. Não poderia saber da avó materna, pois nunca havia conhecido sua mãe. E da tia... Sequer lembrava seu nome. O sonho fazia Macabéa esquecer quem era.
Hans aproximou-se dela e sorriu ao Sol.
-Está vendo a vista, minha flor? – ele perguntou. Andava ensinando umas palavras estrangeiras à esposa, mas ela não conseguia pronunciar corretamente, e ele vivia se divertindo disso. Os dois riam juntos durante a tarde inteira e, no final, ela desistia e ia conversar com Gretell, a irmã de Hans, que vivia ali perto.
-Bonita – ela murmurou. Ainda falava baixo, como que para não incomodar. Essa natureza tímida e insignificante ainda não havia desaparecido de si – É bonita. Queria ser assim, como o mar.
-Você também é bonita – ele disse – Ao seu modo – Hans sorriu-lhe e virou o rosto de Macabéa para o dele – Gosto mais de você que do mar, Macabéa. Pare de se inferiorizar.
Ela não conseguia. Nem em sua imaginação conseguia deixar de se inferiorizar. Sentia-se menor que todos, como um personagem de um livro que Hans, certa vez, lera para ela. O homem transformava-se em barata por sentir-se inferiorizado e sentia que incomodava a todos, quando era barata grande, e que era insignificante quando era uma barata pequenina. Macabéa sentia-se igual, só que de seu modo.
Era uma barata feliz. E estava satisfeita por isso.
Sua imaginação resolveu mudar novamente, e Macabéa se vê rodeada por duas crianças. Uma garota pequena de seus três anos, talvez, e um menino sorridente de seus dez anos. Os dois sorriam, e os dois tinham cabelos dourados e olhos da cor do céu. Hans sorria-lhe também. Ela reparou que o menino tinha a mesma face do marido.
-Feliz Natal, mamãe – a menina lhe disse e abraçou Macabéa. Era sua filha, e o menino também. Imaginou os dois parecidos com Hans, o marido, e pensou em como eles seriam inteligentes e bons.
Imaginou os dois saudáveis e fortes. E quando fantasiou o abraço de cada um deles, os bracinhos frágeis e quentes segurando sua cintura não tão anoréxica, e lhe desejando feliz Natal, Macabéa sentiu vontade de chorar. Chorar de felicidade. Chorar por uma coisa que ela desejava de todo coração ter.
Ela descobriu que o que mais desejava em toda sua vida era uma família. Alguém que a abraçasse todos os dias, lhe dissesse quanto é importante e, no fundo, mostrasse que ela não era descartável. Ela era importante para aquelas duas crianças e para Hans. Ela era amiga de Gretell, a irmã do marido, e ela tomava chá com a sogra. Ela não podia desaparecer, ela faria muita, muita falta.
E no fim, era tudo o que ela queria. A pobre queria apenas ser amada por alguém – pela cunhada, pela sogra, pelos filhos... Por quem quer que fosse. Ela queria isso tanto quanto queria respirar, tanto quanto se sentia grávida de futuro e sabia que (explosão!) conseguiria tudo aquilo: estava mudada por palavras. Ela conseguiria tudo.
De repente, deu-se conta, ali, parada na calçada, que achava, antes, que era feliz justamente por não ter nada daquilo. Afinal, por não possuir nenhuma vontade, Macabéa nunca se decepcionava com sua vida medíocre. Ela nunca achou que havia uma alternativa, algo diferente do que ela vivia.
Aparentemente, o modo como ela vivia estava errado. Ela deveria desejar. Ela podia ter esperanças. A cigana abrira seus olhos para a vida. E depois de imaginar e sonhar com tudo aquilo – com marido, filhos, sogra, cunhada, casa, felicidade, mar, Sol, sorrisos e abraços – Macabéa acreditava ainda mais nas palavras da cartomante. Acreditava com todas as suas forças.
Estava mudada por palavras e frases encantadoras e isso a fez pela primeira vez desejar, imaginar, sorrir e chorar. Uma lágrima quente escorreu de seus olhos e ela queria voltar ao sonho para sentir os braços quentes em sua cintura novamente, e para sentir o coração palpitar ao ver o sorriso de Hans.
Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão!) sussurrou veloz e guloso: é agora, é já, chegou a minha vez!
E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a – e neste mesmo instante em algum único lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em gargalhada de relincho.
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