A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
5 Fernando: Testes e uma escolha difícil
Notas iniciais
Eu fiquei em silêncio por alguns segundos.
_O quê?_ Falei, meio que gaguejando.
_Precisamos sequestrar pessoas para trabalhar para nós. Era isso, ou a humanidade estaria extinta._ Disse Jaqueline.
Eu suspirei. Jaqueline olhou pra mim muito seriamente e disse:
_Lembre-se que você prometeu não contar pra ninguém.
Eu cerrei os punhos, porém não discuti. Estava cansado demais pra isso.
Procurei meus amigos. Eles estavam na porta do refeitório, junto aos soldados. Conversavam em tom baixo, e com as cabeças abaixadas. Pareciam tão abalados quanto eu. Era difícil ver eles assim.
_Temos que ir._ Disse Jaqueline, se levantando. _Hoje é sábado, então temos muito o que fazer.
Eu franzi a testa.
_Que tipo de coisas?
_Sábado é o dia das notícias. Todos se reúnem aqui, e o líder fala algumas coisas, como resultados de pesquisas, objetivos alcançados, metas a serem alcançadas, etc.
Eu assenti, me levantando também. Depois, fomos em direção aos soldados. Assim que o alcançamos, fui conversar com Felipe e Letícia.
_Hey, como vocês estão?_ Perguntei.
_Bem, apesar de isso ser difícil quando tentam te enlouquecer._ Disse Felipe, fazendo uma expressão de ódio.
Letícia esfregou a mão na testa e fez uma careta.
_Sinceramente, eu ficaria melhor se fosse pro quarto. Acordamos cedo demais.
Eu assenti, concordando e sentindo o sono me dominar cada vez mais. Eu olhei para os soldados, que pareciam conversar sobre o que fazer com a gente agora.
_O que acham que vem agora?_ Perguntei.
Felipe deu de ombros, mas Letícia sabia a resposta.
_Eu lembro de meu pai ter falado que normalmente faziam testes depois de apresentar o Governo para novas pessoas.
Eu franzi a testa.
_Será que vão fazer isso com a gente? Quer dizer, estamos aqui pra fazer relatórios, não?
Letícia deu de ombros.
_Sei lá. É apenas uma hipótese.
Esperamos a conclusão dos soldados, olhando em silêncio para eles. Quando finalmente terminaram de conversar, anunciaram o que faríamos. Acabou que Letícia estava certa. Iam fazer testes durantes algumas semanas, separando apenas uns dias para fazer relatórios sobre a vida de eco sobrevivente. Naquele dia, faríamos testes para soldados.
Enquanto andávamos para a sala onde os soldados treinavam, eu decidi perguntar:
_Então, como é esse negócio de testes? Todo mundo começa fazendo teste pra soldado, ou tem algo mais nisso?
Leonardo explicou sem sequer olhar pra trás.
_Isso é baseado no parentesco mais próximo de vocês.
Eu franzi a testa.
_Como assim?
_Bem, fazemos primeiro os testes baseado na profissão dos seus pais. Por exemplo, se seu pai é um cientista e sua mãe uma médica, vamos fazer primeiro testes pra ver se você será cientista ou médico._ Respondeu Henrique.
Letícia e Felipe olharam pra mim, e eu soube que eles pensaram a mesma coisa que eu.
_Por que Fernando vai fazer o teste, então?_ Perguntou Felipe.
Henrique tensionou o corpo, como se estivesse entrando em um terreno perigoso.
_Como os pais dele não são conhecidos, faremos com que ele acompanhem vocês dois._ Disse olhando pra Letícia e Felipe. Ele não parecia tão seguro no que estava dizendo, porém, fingimos acreditar nessa.
Quando chegamos na sala dos soldados, um homem com o cabelo loiro e olhos azuis (cujo nome era Alex) começou a explicar quanda função do exército. Explicou que havia os que derrubavam os inimigos de longe, usando um arco e flecha ou uma arma cujo o nome, se não me engano, era sniper, os multi-funções, que normalmente usavam espadas ou metralhadoras e os soldados que faziam o combate corpo-a-corpo. Esses últimos usavam ou pistolas, ou facas, ou lanças.
Alex nos mostrou todas as armas e disse:
_Escolham uma, pois vamos colocar vocês em combate.
Eu franzi a testa.
_Vamos usar metralhadoras num teste?
_Não seja tolo._ Bradou Alex. _As armas de fogo atiram tinta ao invés de balas de verdade.
Letícia se aproximou no meu ouvido e disse:
_Por que todos os soldados tem que gritar assim?
Eu dei de ombros.
_Talvez por uma questão de ego._ Falei.
Na hora de escolhermos as armas, eu preferi ficar com a minha própria espada (por algum motivo, eu tinha pego ela quando acordei), Felipe pegou uma pistola, e Letícia teve que pegar o arco e flecha, pois cada um só podia ficar com uma função. Íamos combater contra três iniciantes do exército. A arena era bem feita, com vários obstáculos e uma estrutura bem alta onde os que derrubavam de longe deveriam ficar.
_Não se engane._ Disse Felipe. _Meu pai disse que mesmo os iniciantes já se saem muito bem num combate de treinamento.
Eu assenti. Alex, que supostamente era o líder do exército, começou a dar as instruções:
_Muito bem, assim que começarmos, as luzes vão se apagar, e vai ficar apenas uma luzinha iluminando essa sala. Vocês vão ter um minuto para tomar as suas posições e então, as luzes vão ser ligadas novamente. Aí o combate começa. Alguma pergunta?
Felipe levantou a mão. Alex fez um sinal para que ele falasse.
_Pode se derrubar alguém enquanto as luzes estão apagadas?
Os outros soldados (incluindo Alex) riram.
_Sim, pode, apesar de ser quase impossível.
Até mesmo eu duvidava daquilo, mas Felipe parecia confiante de que ia conseguir.
_Ok, vou começar a contagem._ Disse Alex. _Três, dois, um... Vai!
As luzes se apagaram e eu corri pra direita. Eu parei quando ouvi um disparo, olhei imediatamente para Felipe, que estava com a pistola apontada para algum lugar.
Olhei naquela direção e vi o que fora aquele disparo. Felipe realmente havia acertado um oponente no escuro. Um dos outros caras segurava o braço, fazendo sinal de que havia saído do combate.
_Filha da mãe!_ Falei, alto o suficiente para que ele pudesse ouvir.
Ele sorriu e começou a correr pra direita. Eu fui pra esquerda.
Nos escondemos atrás de um obstáculo e esperamos as luzes se acenderem. Quando isso aconteceu, Letícia atirou uma flecha no outro sniper e acertou. Ah, por sinal, a flecha não era feita para perfurar a pele de alguém.
_Agora é com você, Fernando._ Disse ela.
Eu me levantei, e comecei a correr para o obstáculo mais próximo. Consegui ver o meu oponente, de frente da onde eu estava, era só eu correr reto para alcançar ele. Porém, logicamente, ele não iria deixar que eu fizesse isso tão facilmente. Ele começou a atirar em mim, e eu passei a correr em zigue e zague pra ficar mais difícil dele me acertar. Eu percebi que Felipe tentava atirar nele, mas nenhum de seus tiros acertava o oponente.
Eu finalmente alcancei outro obstáculo. Agora, ele estava mais próximo. Mas não tinha como eu chegar mais perto dele sem levar um tiro. Eu tentei olhar em volta na arena, tentando bolar uma estratégia de como derrotar ele. Havia uma carcaça de van mais para minha esquerda. Era isso! Eu podia entrar nela e fazer com que meu oponente viesse até ela. Quando ele entrasse, eu golpeava ele e acabava com o combate.
Eu respirei fundo, e comecei a colocar meu plano em prática. Corri para a van o mais rápido que pude, torcendo para não ser atingido por uma bala. Por um milagre, eu consegui. Agora era só esperar para que o plano desse certo. Esperei pelo que parecia uma eternidade, até que pude ouvir passos se aproximando, acompanhado de tiros, que provavelmente significavam que Felipe estava tentando derrubar o cara. Sério, me admirava que ele conseguiu acertar um adversário no escuro, e não conseguira acertar no claro.
O meu oponente finalmente entrou na van. Eu empurrei ele, e nós dois caímos no chão. Ele tentou atirar em mim, mas de alguma forma milagrosa, eu consegui desviar. Eu consegui tirar a metralhadora que atirava balas de tinta da mão dele e coloquei a ponta da espada no peito dele.
_Se rende?_ Perguntou.
Ele estava com a respiração entrecortada. Assentiu de forma nervosa. Eu então guardei a espada e ofereci a mão para que ele se levantasse. Meu oponente saiu da van fazendo sinal de desistência. Alex então soprou um apito.
_O combate acabou, e os vencedores são os eco sobreviventes.
Os soldados bateram palmas, um tanto sem entusiasmo e um tanto envergonhados.
Eu sorri, sentindo a garganta seca e a cabeça doendo.
Depois do combate, fomos levado de volta ao noss quarto no Governo. Jaqueline disse para descansarmos, pois mais tarde, teríamos de ir para o refeitório.
_Cara, o seu plano foi incrível._ Disse Felipe, se jogando na cama.
_Falou o cara que acertou um tiro de longe e no escuro._ Falei, sorrindo.
Felipe gargalhou.
_Mas não podemos esquecer também da minha irmãzinha, que acertou uma flechada naquele sniper.
_É mesmo._ Falei, olhando para Letícia fazendo cara de impressionado. _Aquilo foi incrível.
Ela deu de ombros.
_Eu sei.
Nós três gargalhamos por pelo menos vinte minutos. Porém, quando todas as piadas acabaram, falamos de um assunto muito sério.
_Henrique parecia muito inseguro quando falou de seus pais, em Fernando?_ Disse Felipe, num tom de voz grave.
_Também acho._ Falei.
_Eu lembro dele ter me mostrado uma tal sala de relatórios hoje cedo._ Disse Letícia. _Ele disse que ali havia todas as informações de todas as pessoas que moram nesta região.
Eu fiquei alguns segundos em silêncios.
_Acho que sei onde quer chegar.
_Deve haver relatórios dos seus pais lá._ Falou Letícia.
Eu não falei nada, apenas fiquei em silêncio. Peguei a corrente com a foto de quem eu pensava ser minha mãe e a segurei.
_O que estamos esperando? Vamos nessa tal sala._ Disse Felipe.
Letícia balançou a cabeça negativamente.
_Henrique disse que só pessoas permitidas podem entrar lá.
_Ora, e daí? Vamos invadir.
_É muito perigoso.
Percebendo que eles iam começar uma discussão por causa disso, eu falei:
_Gente, parem! Se eu quiser saber algo sobre meus pais, deixam que eu decida, tá bom?
_Mas Fernando, você não quer saber quem são seus pais?_ Perguntou Felipe.
Eu suspirei.
_Sinceramente, eu nem sei. Por enquanto, pelo menos, vamos ficar calmos e fazer o que devemos. Ok?
Felipe suspirou mas assentiu. Letícia fez o mesmo.
_Eu vou tomar um banho._ Disse, me direcionando ao banheiro.
A verdade, é que eu queria mesmo descobrir quem eram meus pais. Mas eu não podia meter meus amigos nisso. Letícia tinha razão, era perigoso demais. E eu não queria botar eles em apuros do que já tinha colocado (até porque, a única razão deles estarem ali era eu). Então eu decidi o que queria fazer.
Eu ia entrar na sala de relatórios de noite, procurar os relatórios dos meus pais, e voltar. Se eu fosse pego, iria pagar sozinho. Sem a ajuda dos meus amigos.
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