A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
13 Fernando: Mais um plano, mais um risco
Notas iniciais
Acompanhamos Jaqueline até a sala de controle. Lá dentro, o Governante nos esperava. De pele escura e barba, o Governante parecia jovem. Apesar disso, ele parecia cansado. Ele olhou pra nós de um jeito crítico, com os olhos incrivelmente intimidadores.
_Obrigado, Jaqueline. Pode se retirar.
Jaqueline abaixou a cabeça em cumprimento e saiu. A sala era um tanto pequena, mas pela arrumação parecia ter um tamanho perfeito. Uma mesa de madeira estava exatamente no centro, com uma planta em cada canto. Na parede ao lado do esquerdo do Governante, existia um quadro de um cruzeiro em alto mar.
“Devia ser bom viver nessa época”.
_Sentem-se, por favor._ Disse o Governante, apontando três cadeiras atrás de si. Nos sentamos e ele se sentou na dele, do outro lado da mesa. _Creio que não tem ideia do porquê de estarem aqui.
Tentamos não parecer três mentirosos ao concordar.
_Ontem houve uma invasão em uma das salas mais importantes do Governo._ Eu e meus amigos nos entreolhamos. _Pensei que pudessem me dizer algo sobre isso.
_Por quê?_ Perguntei, erguendo uma sobrancelha.
Ele suspirou. Por um momento, eu pensei que ele sabia exatamente o que havia acontecido.
_Apenas um pensamento, uma ideia, entende? Vocês são os primeiros eco sobreviventes que vieram ao Governo...
_Por livre e espontânea vontade?_ Coloquei ênfase na voz. Por um momento, eu e o Governante trocamos olhares de desafio. Eu sabia que ele me achava uma ameaça, mas só naquele momento eu descobri que ele também podia ser uma.
_De qualquer maneira, eu devo pedir que caso saibam de qualquer detalhe sobre a invasão, nos contem.
Letícia deve ter lido o meu pensamento, porque antes de eu ter chance de responder rudemente, ela apertou minha mão com força, me impedindo.
_Tudo bem, então. Mais alguma coisa?_ Falei, com um sorriso quase forçado.
_Não. Estão liberados.
Eu, Felipe e Letícia saímos juntos. Esperamos estar bem longe da sala de controle pra falar algo.
_Ele sabe, não sabe?_ Perguntou Felipe, e eu assenti. _Então, não podemos mais ficar aqui. Temos que continuar.
_Mas como?_ Indagou Letícia. _Não podemos simplesmente sair pela porta da frente.
_E nem podemos utilizar o subterrâneo._ Completei.
Felipe suspirou.
_Então, ou estamos ferrados, ou estamos ferrados?
Eu pensei no sonho que tive. E me senti imediatamente cansado.
_Vamos achar uma saída._ Falei. _Sempre achamos. Mas agora, eu só quero dormir, e vocês?
Letícia bocejou.
_É, estamos precisando descansar e muito.
_Fernando!
Eu olhei na direção de quem havia me chamado e vi Jaqueline vindo em nossa direção.
_Posso conversar com você?_ Ela segurou meu braço ao perguntar, e me puxou antes de eu conseguir responder. Quando estávamos longe dos meus amigos, ela começou o interrogatório. _O que ele queria?
Eu suspirei. Por algum motivo, eu confiava em Jaqueline tanto quanto eu confiava em Felipe e Letícia.
_Você sabe._ Respondi.
Ela olhou pros lados.
_Você tem alguma coisa a ver com aquilo? Foi você que roubou os relatórios?
_Quem mais roubaria os relatórios dos meus pais?_ Eu arqueei as sobrancelhas.
Ela olhou pra mim com um olhar grave e assustado. Por um momento, eu pensei que ela ia me entregar pra algum soldado. Mas ela simplesmente me abraçou.
_Você podia ter me avisado._ Ela sussurrou no meu ouvido. _Eu podia ter conseguido uma permissão pra você buscar os relatórios.
Eu fiz um cafuné na cabeça dela. Isso o que acontece quando você passa mais tempo com animais do que com pessoas.
_O Governante sabe quem eu sou, sabe o meu passado, assim como você._ Ela me soltou e olhou nos meus olhos. _Ele não queria que eu soubesse do meu passado, por algum motivo.
Ela pareceu ficar agitada quando eu olhei em seus olhos.
_Eu juro que não sei de nada.
_Eu sei que você não sabe. Eu acredito em você._ Aquilo me pareceu ridículo. Mas eu conseguia explicar o porquê. _Quando vi você hoje, percebi que confio em você tanto quanto eu confio nos meus amigos.
Eu senti meu rosto esquentar, e pude ver que ela estava ficando vermelha.
_Obrigada. Sabe, eu confio muito em você também.
Eu sorri. Mas meu sorriso sumiu quando eu pensei em algo.
_Ei, sabe se tem um jeito seguro de sair do Governo?
Ela olhou pra mim com uma sobrancelha erguida.
_Quer mesmo que eu te diga algo que já sabe?
Cerrei os punhos e rangi os dentes. Felipe tinha razão, não podíamos ficar ali.
_Por sorte..._ Ela usou um tom de voz travesso. _Eu pensei em um plano enquanto vocês estavam na sala de controle. Acredite ou não, sou mais inteligente do que você pensa.
Eu olhei pra ela, com uma expressão estampada de dúvida. Ela sorriu, de um jeito travesso, mas eu não consegui sorrir de volta. Eu sabia que o plano dela, qualquer que fosse, ia colocar ela, Felipe, e Letícia em risco. E mais uma vez, meus amigos iriam se arriscar por mim.
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