A História de Nós Dois
4 Impressões
Notas iniciais

Cap 4 — Impressões
A mim e Krest coube a tarefa de ir buscar os irmãos Bloedorn na estação de trem de Aix naquela tarde fria. O outono finalmente estava se assemelhando ao inverno e impondo temperaturas muito baixas, o que me agradava sobremaneira.
Não posso negar. Estava ansioso. Uma ansiedade estranha, como há muito não sentia. Eu e Krest estávamos sentados em um dos bancos na plataforma aguardando o trem á vapor, não apenas nós, mas a estação estava lotada. Certamente pessoas que aguardavam entes queridos que viriam no mesmo trem.
Distraído, olhei os trilhos no vão abaixo e notei que começavam lentamente a tremer. Sinal de que a locomotiva estava próxima. E tremia mais, e mais forte. Já se podia ouvir ao longe o primeiro apito. Eu e Krest levantamos, quem estava nas partes internas começou a vir para a plataforma que lotava ainda mais. Agora os trilhos vibravam tanto que toda a estação vibrava, já se podia ouvir o som da locomotiva e finalmente o apito tão alto que ecoou estação á dentro. Já podiamos ver o trem vindo, entrando lentamente na estação.
Não sei o que tremia mais, os trilhos ou as minhas pernas. Não sei o que causava mais perturbação, a barulheira infernal de um trem a vapor se aproximando ou meu coração querendo saltar pela boca.
Eram as duas coisas equivalentes, iguais. Porém eu não transparecia nada daquilo, meu rosto permanecia sereno.
O trem parou finalmente, e pessoas começaram a sair dele, como formigas debandando de um formigueiro.
— Krest, você os conhece. Veja quando saírem do trem
Pedi para Krest ficar atento, ele conhecia os dois, mas eu não.
No meio da confusão, pessoas se abraçavam, mães saudosas choravam o regresso de filhos, esposas de maridos...guardas desembarcavam mercadorias vindas de todas as partes, fora a fumaça que insistia em nublar tudo.
Olhava para Krest e ele parecia sério. Tive a impressão de que todos já haviam desembarcado, não era possível haver mais gente
— Krest, não os vê?
— Não! Estranho...espere!
Com aquele "espere" olhei para Krest e ele agora sorria. Olhei na direção que ele olhava e só podiam ser eles: um rapaz alto e uma jovem ao lado.
"Lindos e loiros, como dois anjos..."
Lembrei de imediato da frase que mamãe usava para definir os irmãos Bloedorn.
E ela estava correta.
Eu estava diante de minha noiva, iríamos nos conhecer naquele momento, mas estranhamente eu só conseguia olhar para seu irmão, a partir do momento que os vi.
Era um jovem bem vestido, elegante como um lorde inglês. Possuía longos cabelos loiros que caíam como cascatas revoltas sobre seus olhos e seus ombros. Um par de olhos expressivos e tão azuis como o céu de verão. Seu nariz curto e arrebitado dava delicadeza ao rosto de traços bem fortes, junto a lábios volumosos. O corpo parecia esbelto e forte.
Ele era muito, muito bonito. O homem mais bonito que já havia visto até então
Não pude analisá-lo mais, pois agora ele estava abraçado a Krest. Como se conheciam, abraçaram-se longamente. Enquanto isso, eu e Natassia nos olhávamos um tanto assustados.
Ela possuía uma beleza estranha. Parecia não estar mais nesse mundo, de tão branca. Pálida. Como o rosto era muito fino, seus olhos enormes e azuis saltavam como dois faróis da cor do céu em minha direção.
— Nossa Milo, que saudade! Bem, me permita apresentá-los. Este é meu irmão, Camus. Camus, este é Milo.
Milo estendeu a mão á Camus e com ela um sorriso que terminou de arrebatar o ruivo de uma vez por todas. Porém, Camus sabia muito bem ocultar seus sentimentos, e agiu apenas polidamente, retribuindo o aperto de mão
— É um prazer recebê-los, Tenente Bloedorn.
— O prazer é todo meu, Tenente Garret.
O aperto de mão, apesar de formal, havia sido um pouco mais longo do que o normal. Assim como a troca de olhares entre eles.
— Huugg! Uma troca de simpatia entre marinheiros! — bradou Krest, os interrompendo — oras, deixem de tantas formalidades senhores!
— Camus, essa é minha irmã, Natassia
Ao largar a mão de Camus, Milo apresentou a irmã caçula. E noiva de Camus á ele.
Natassia fez uma delicada mesura e Camus beijou sua mão, levemente. O gesto foi suficiente para Natassia flanar em nuvens, estava encantada. Camus era lindo!
Muito mais lindo do que ela sonhava.
— Temos uma carruagem, vamos? Vocês devem estar exaustos! — Pediu Krest, animado
Todos concordaram e saíram para a última parte da longa viagem.
Milo e Camus se olharam ainda mais uma vez.
**
A carroça trepidava um pouco pois a estrada era de terra. Mas nada que atrapalhasse o clima cordial com que fomos recebidos.
Matar a saudade de Krest estava sendo incrível, mas conhecer Camus havia sido sem dúvida o maior prêmio. Minha irmã havia tirado a sorte grande, seu noivo era lindo.
Já rodei o mundo e nunca vi um ruivo tão belo. A pele branca e levemente salpicada de ferrugem, típica de ruivos, seus cabelos longos e lisos naquela coloração linda e diferente. Um nariz fino e reto. Olhos de um verde intenso, levemente rasgados como "olhar de mormaço". E por fim uma boca delicada, mas não tão fina. Desenhada...linda. Ele era um deus, uma estátua. Apenas perfeito.
Camus falava pouco enquanto Krest falava muito. Gesticulava e nos contava coisas que iriamos poder fazer na casa dos Garret. Elogiou o vestido rendado de Natassia umas três vezes durante todo o percurso. Krest não havia mudado nada desde nosso último encontro, ainda garotos.
Alheio a tudo aquilo, Camus mantinha seus olhos fixos para fora, na estrada. Estava sério e parecia pensativo. Vendo que eu notava o comportamento de seu irmão, Krest me cutucou falando baixinho para não ligar, que ele era assim mesmo.
No entanto, devo confessar que nossa rápida troca de olhares mexeu comigo de uma forma diferente. Ainda não sei exatamente como.
Mais alguns quilômetros á frente terminaria a cansativa jornada. A residência dos Garret já poderia ser vista. Anete e Gerrard os aguardavam do lado de fora e se alegraram ao verem a chegada dos jovens.
Gerrard deu um abraço fraterno em Milo, que lhe passou o recado de seu pai. O Senhor Garret lamentou a ausência de seu grande amigo
— Pobre Richard! Espero que se recupere logo e venha se juntar a nós o quanto antes
Anete olhava Natassia encantada. A pequenina havia crescido e virado uma moça linda. Anete a abraçou e a beijou, tocando seus cabelos. A menina sorriu, docemente.
Depois de serem calorosamente recebidos pelos donos da casa, Milo e Natassia entraram e foram guiados para seus aposentos, um quarto amplo e confortável com duas camas de solteiro. Exaustos, desejaram apenas descansar da longa viagem desde Londres até Aix.
— Eu não disse que eram lindos?
Anete se dirigia a Camus que já havia se trancado na biblioteca
— Realmente... — concordou mostrando pouco interesse, olhando um livro
— Estou falando de sua noiva, querido. Não a achou linda?
— Achei mãe..
Camus estava reticente, não queria tocar naquele assunto. Não queria olhar os hóspedes, não queria ver sua noiva. Não queria nem sequer estar alí.
A visão do loiro sorrindo e apertando sua mão não lhe saía da cabeça.
Seus olhos tão azuis. Sua voz.
Aquele aperto de mão quente em suas mãos frias. As mãos dele eram quentes, assim como parecia ser todo o corpo.
**
Já era madrugada quando Milo se revirava na cama de solteiro, sem conseguir dormir. Olhava Natassia que ressonava tranquila ao seu lado, porém ele não conseguia desligar-se. Em sua cabeça apenas uma pessoa: o jovem ruivo. Camus.
O olhar enigmático, o rosto austero, os longos fios vermelhos que ás vezes caíam sobre os olhos, sua voz grave e linda. Sentia um calor intenso só de pensar nele. Mas logo se lembrou do detalhe que estava esquecendo: era seu cunhado, prometido de sua irmã.
Diante disso tratou de espantar tais pensamentos. Camus não era para ele, mas para Natassia.
Levantou-se e vestiu um hobe por cima da calça de algodão, sentia-se enclausurado naquele quarto. Acendeu uma vela para iluminar o caminho e saiu rumo á biblioteca. Talvez fosse melhor ler e distrair-se com algo do que ficar pensando besteira.
Milo abriu a porta devagar, porém foi surpreendido. O local já estava iluminado, de costas encostado á uma mesa, Camus lia um grosso livro de capa marrom. Ao ser interrompido pela porta se abrindo, olhou assustado para o loiro que entrava fazendo silêncio.
— Me desculpe, achei que todos estivessem dormindo
Milo se aproximou, ficando frente á frente, Camus estremeceu ao ve-lo naqueles trajes, com os fios soltos e levemente despenteados
— Eu costumo ficar aqui ás vezes a noite toda, nem vejo a hora passar. Insônia?
— Talvez, não consigo relaxar e vim á procura de um livro
Os dois falavam baixo, se olhando nos olhos. Perigosamente próximos. A pouca luz tornava os olhos de Camus ainda mais enigmáticos e os de Milo ainda mais sensuais.
Ficaram por alguns segundos se estudando, até que Camus se virou e pegou um livro, em uma prateleira mais alta, e o ofereceu á Milo
— Leia este. Já li umas três vezes. Acho que vai gostar
Milo pegou o livro vendo Camus esboçar finalmente um meio sorriso, um gesto que o derreteu. Camus era encantador sendo frio, e ainda mais maravilhoso sendo gentil e amável.
— Obrigado, se não estivesse aqui confesso que ficaria perdido
— Disponha. Com sua licença, irei me recolher
— Tenha uma boa noite Camus
— Você também Milo
Se olharam uma última vez antes de Camus cruzar a porta. Um olhar que significava mais do que parecia. Camus queria ficar e Milo queria que ele ficasse. Mas todo aquele sentimento ainda era prematuro e incompreensível.
Milo acomodou-se em um apoltrona e abriu o livro indicado por Camus:
A Sonata a Kreutzer
Algumas horas de leitura depois, o jovem caiu no sono, finalmente conseguindo dormir, pesadamente alí mesmo naquela poltrona com o livro aberto em mãos.
Silenciosamente alguém entrou na biblioteca, pegou o livro de suas mãos e o cobriu com uma grossa manta para que não sentisse frio, deixando-o descansar alí mesmo. Colocou mais lenha na lareira para manter o local bem aquecido e saiu, em silêncio.
— Camus!
O ruivo quase pulou de susto com Krest o chamando quando já estava voltando para seus aposentos
— Que susto, Krest. O que é que você quer? Vá dormir
— Isso são horas de vagar pela casa como um fantasma?
— Não fale besteiras, só fui....
— Só foi...
— Fui urinar horas!! Um homem não pode mais urinar em paz?
— Urinar na biblioteca? — riu, safado
Camus suspirou
— Milo está lá, não está? Eu vi quando saiu. Vem aqui, quero falar dele!
— Ah Krest, agora não....
— Agora sim, vem!
Krest puxou o caçula, fechou a porta e os dois sentaram na cama. Os olhos de Krest cintilavam, ainda mais verdes. Estava encantado com o loiro e não conseguia esconder isso
— Camus, ele é lindo! Como seu cunhado é lindo! Já que os mais novos irão casar, podiam permitir que os primogênitos também se unissem — piscou
— Ficou louco? Papai mata você, pare com isso. Logo ele também deverá casar-se
— O que é uma pena...ah Milo! Como eu queria beijar aquela boca, aqueles lábios...
Krest verbalizava seus sonhos se jogando na cama, fazendo Camus corar. O ruivo ficava cada vez mais sem jeito com toda aquela confissão, começou a ficar incomodado com aquilo
— Krest, pare com isso. Eu já ouvi o suficiente, boa noite
O mais velho deu de ombros vendo o irmão sair.
Agora quem não dormiria mais era Camus.
**
O dia seguinte premiou a pacata Aix com um céu sem nuvens e um sol que trazia um calor extra aos dias frios de outono.
A melhora no tempo era sempre um bom pretexto para seus habitantes realizarem tarefas ao ar livre. Por todos os lados se via crianças correndo, mulheres sentadas nos campos gramados tomando sol, outras passeando com suas sombrinhas, por não desejarem se expor ao sol em demasia.
Milo terminava seu desjejum junto á todos da casa, porém ainda confuso com a forma como havia dormido.
— Querido, você adormeceu naquela poltrona na biblioteca. Se não fosse a lareira teria congelado! — Anete ponderava enquanto servia a ele um pedaço de bolo
— Sim, eu não percebi...nem mesmo sei de onde saiu a manta que me cobria
Camus engasgou, atraindo os olhares de Milo e Krest. O segundo sabia muito bem o motivo daquele engasgo
— Essa foi a noite das insônias nessa casa! — brincou, vendo o olhar confuso de Milo e o indignado de Camus sobre si — mas vamos mudar de assunto, Milo o que acha de cavalgarmos?
Agora sim Krest estava falando a língua que o loiro gostava de ouvir
— Cavalgar? Mas é claro! É o que mais amo fazer, vai ser ótimo. Natassia, gostaria?
Krest revirou os olhos com o convite de Milo á irmã mais nova e para sua alegria, ela declinou educadamente
— Não irmão, eu prefiro apenas observá-los — sorriu levemente
— Camus, filho, leve sua noiva para um passeio, mostre-lhe a cidade, o que acha?
Gerrard havia feito o que Camus temia: havia se lembrado dele. Com toda aquela conversa a única coisa que Camus desejava era permanecer invisível, sem ser lembrado. Mas seu amado pai tinha que inventar algo
— É claro, vamos sim
O coração da jovenzinha pulou, seus olhos brilharam como dois cristais azulados. Iria sair com seu lindo noivo!
Então todos se retiraram e rumaram cada um para seus afazeres.
**
Camus viu de longe Milo e Krest se mandarem para o estábulo e de lá saírem cada um em um cavalo. Milo cavalgava com pressa, correndo e sendo seguido de perto por Krest que para alívio de todos, havia finalmente colocado calças.
O ruivo foi desperto do transe pelas mãos frias e cálidas que tocaram as suas. As mãos de Natassia. De braços dados, os noivos passaram a caminhar lado a lado pelas alamedas floridas da grande chácara. Natassia desejava quebrar o silêncio, mas não sabia como. Camus não criava qualquer oportunidade de diálogo entre eles. Permanecia blasé, apesar de educado e gentil.
Ele só se pronunciou para explicar sobre aquelas terras, seus limites e como o clã Garret havia construído tudo aquilo. Natassia ouvia atenta, olhando para ele e desejando ser olhada, mas Camus permanecia com os olhos na planícies.
Desejando sua atenção, Natassia finalmente parou. Camus se assustou e finalmente olhou a menina que o olhava com as enormes íris azuis. Num ímpeto ela o abraçou e ele, sem ação, retribuiu, um tanto assustado.
Natassia estava cada vez mais apaixonada.
Com a cabeça delicada e loira em seu peito, Camus viu ao longe em uma planície Milo e Krest. Os dois desceram do cavalo e pareciam estar em uma conversa animada. Camus notou que a animação de Krest com Milo era equivalente ao flerte do irmão com aquele forasteiro no Rendez-Vous. Camus sentiu um arrepio súbito ao pensar que Milo e Krest poderiam estar flertando
— Vamos embora, está frio aqui
A ordem assustou Natassia, que ainda estava aninhada no peito quente e aconchegante de Camus. Seguiram rápidamente na direção da casa.
O casal de noivos sentou-se na varanda, onde Anete já estava e bordava alguns panos de mão com as iniciais C. & N. Natassia se encantou com o capricho da sogra em preparar-lhe o enxoval, já Camus parecia mais preocupado com o futuro cunhado nas garras de seu irmão. Camus sabia muito bem do que Krest era capaz quando alguém lhe interessava.
— Ficaram lindos Senhora Garret
— Ow querida, me chame de Anete — piscou para a mais nova — você não teve mãe, então eu peguei para mim a responsabilidade de fazer-lhe um enxoval. É um prazer!
— Onde está Krest que não volta? — Camus já estava impaciente
— Olhe, aí vem eles
Natassia apontou o dedo fino fazendo Camus olhar os dois que vinham cavalgando na direção deles.
Sobre o cavalo, Milo olhava Camus e Natassia sentados lado a lado, como um casalzinho de noivos próximo ao enlace. Não pôde deixar de sentir um nó na garganta. Camus era tão lindo, tão sério e seu olhar dizia tanta coisa. Tanta coisa que seus lábios desejavam verbalizar mas não podiam.
Camus passou a observar Milo, cavalgava com graça, a forma como seu corpo se movia sobre o animal, o balanço de suas ancas indo e vindo, subindo e descendo ritmadamente, movimentos semelhantes aos de quem faz amor da forma mais plena e doce. Sentiu seu baixo ventre acender pela segunda vez em menos de 48 horas.
Para completar, o loiro o brindou com aquele sorriso que o fizera tremer na estação. Milo não sorria para Natassia ou Anete. Ele sorria para Camus, apenas para ele. E Camus sabia disso.
— Meu irmão cavalga lindamente, não é?
Natassia sorria orgulhosa sem nem imaginar os sentimentos e pensamentos que permeavam internamente aquele momento. Camus a olhou, o ruivo estava de sério a assustado, sem reação. Natassia aproveitou-se da fragilidade temporária de seu noivo e colou delicadamente seus lábios finos e delicados nos dele, em um selinho rápido e inocente. Aquilo era o máximo que a mocinha sabia fazer.
O beijo só piorou a situação de Camus, que voltou seus olhos rapidamente para Milo, temendo que ele tivesse visto.
Milo viu a cena, e apesar de a felicidade de Natassia o agradar, não podia evitar que sentia algo doloroso
Não podia fazer nada, era sua irmã, seu bebe, sua protegida e ela estava feliz, então ele também teria que estar.
Camus e Milo trocaram olhares mais uma vez, e o loiro saiu para levar o cavalo até a baia.
Anete cortou o clima chamando todos para o almoço, as horas havia passado rápidamente
Camus estava ainda mais confuso e Milo percebeu que começava a viver um dilema perigoso.
Em um canto, Krest observou toda a ação, todos os gestos e todos os olhares. O primogênito havia matado a charada
"Bingo! Camus, você está em maus lençóis querido irmão"
**
Milo havia gostado tanto da velha biblioteca que estava lá outra vez, porém não para passar mais uma noite na poltrona, mas instintivamente, queria sentir um pouco mais o universo dele.
O universo de Camus.
Olhava os livros, cheirava-os e o ruivo lhe vinha á mente. Fechou os olhos e se repreendeu mentalmente, como podia estar se envolvendo com seu cunhado? Que espécie de maldição era aquela? Como controlar todo aquele desejo...Milo sentia que Camus era muito mais do que um iceberg gelado, que por trás daquela casca existia um homem cujo o fogo poderia arder mais do que o vulcão mais ativo do planeta. E Milo desejou ardentemente sentir essa loucura.
Mas passar por cima dos sentimentos de Natassia estava fora de questão. Não iria magoar sua irmã amada. Havia acabado de conhecer Camus, já Natassia era seu sangue, ele era o herói dela e sabia disso.
E pra terminar, Camus não deveria ser como ele e Krest, certamente seria hétero, ou normal, como dizem.
"Melhor virar esta página. Ou arrancá-la.."
**
Camus rolava na cama e mais uma vez nada de dormir.
Desde que os Bloedorn chegaram era isso, nunca mais havia dormido. Nunca mais havia tido paz, nunca mais seu coração bateu sem disparar.
Na sua cabeça não havia outra coisa que não fosse Milo. A presença do loiro o irritava ao mesmo tempo que satisfazia os olhos e o coração.
"Mas o que raios estou pensando? Perdendo o sono por causa de um homem? O que há com você Camus, o que está acontecendo? Você não é o Krest!"
Por mais que o ruivo tentasse evitar, as imagens daqueles quadris sobre a cela do cavalo ainda faziam Camus arrepiar e pensar em coisas que fariam até as moças do Rendez-Vous corarem de vergonha.
Levantou-se em um ímpeto, encheu a bacia de louça com água e lavou o rosto, como quem tinha esperanças que tais pensamentos se esvaíssem com a água. Em vão.
Desceu então para seu refúgio de paz: a biblioteca.
Assim como Milo foi surpreendido da outra vez, agora era de Camus a surpresa de encontrá-lo lá.
Camus emudeceu ao ver Milo, pensou em voltar, mas não conseguiu resistir a ficar perto dele.
Ao ver Camus, Milo se alegrou e se lembrou do livro que o ruivo o havia ofertado
— Terminei a leitura que me indicou
Milo sorriu, esticando as mãos com o livro que Camus havia lhe emprestado
— Gostou?
— Muito!
Quando Camus foi pegar o livro as mãos se tocaram levemente, fazendo os dois se arrepiarem. A boca de Camus entreabriu, Milo focou seus olhos nele, mordendo o lábio inferior devagar. Estavam tão próximos que Milo podia sentir o cheiro gostoso de Camus, sua boca entreaberta parecia um convite.
Camus sentiu seu corpo aquecer como nunca antes, só com aquela proximidade sentiu seu baixo ventre reagir ao ver Milo morder os lábios. Outra reação, a terceira. Ficaram ainda mais próximos, nada diziam, apenas se olhavam e se desejavam com uma loucura que os assustou.
Milo lembrou-se de Natassia, seus olhos sempre aflitos e sua fragilidade. Ela morreria se soubesse. Seria uma decepção que mataria sua frágil irmã, e já tão apaixonada pelo noivo.
Camus lembrou-se que era um homem e sentir aquele tipo de desejo por outro homem poderia levá-lo á completa perdição. Com isso se afastaram rápido, quebrando aquele contato, fugindo um do outro.
— Não tarda amanhecer, acho melhor irmos dormir — Camus estava trêmulo
— Tens razão, irei me deitar. Boa noite, Camus
Milo não estava menos nervoso. Ambos saíram, cada um para seus quartos, perturbados.
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