Notas iniciais
Olá queridas leitoras de História! Chegando com capitulo novo. Fiquei muito feliz que tenham curtido o capítulo extra, foi pra descontrair mesmo ^^ Dessas ideias que vem á cabeça e a gente passa pro papel porque é tão sem noção que chega a ser bom! Mas chega de comédia e voltemos ao drama!!! HIAIAHIAHIAHIAHI (risada malégna do Saga) Esse capítulo terá dois POV, um do Milo no começo e um do Camus no final. Estarão sinalizados e em itálico. Ah, vamos fazer um pequeno salto no tempo, ok? Um agradecimento especial a quem está favoritando a fanfic agora, sejam todas bem vindas! Boa leitura!

Cap 24 — Despedida Inesperada

POV Milo


Estávamos no final de janeiro do novo ano, 1816.
Havíamos eu, Camus e Oga passado as festas de Natal na casa da familia Heinstein. Passaríamos os três em casa, mas eles nos chamaram para cear com eles. Foi muito divertido, Oga gostou muito de estar com os irmãos mais novos de Pandora e abrir presentes. Eu e Camus o presenteamos com um cavalinho de madeira que compramos juntando nossas economias. Nunca vou me esquecer dos olhinhos brilhantes dele olhando o brinquedo.
A familia Heinstein é numerosa e muito acolhedora, fizeram uma ceia maravilhosa e nos receberam muito bem.


Eu voltei a trabalhar no jóquei, exatamente como antes e Camus na livraria. Camus todos os dias trazia livros e ensinava Oga, ele estava alfabetizando o menino que aprendia rápido. Camus era um professor exigente, mas conseguia ensiná-lo de forma admirável. Já eu estava ensinando-o a montar a cavalo, eu o levava para o jóquei comigo e ele me ajudava a cuidar dos animais. Ele gostava muito e se divertia enquanto eu trabalhava.

Acho que apesar das condições adversas, eu e Camus estávamos conseguindo dar uma infância feliz para o Oga. Não éramos abastados, não tínhamos qualquer luxo, mas éramos muito felizes os três juntos. Mesmo o pequeno não tendo nosso sangue, eu via coisas minhas em Oga e via coisas do Camus também. Acho que pela convivência com a gente ele foi absorvendo muitos dos nossos hábitos e jeitos.

Eu e Camus estávamos felizes, muito felizes mesmo. Nos amávamos a cada dia mais e mais, nosso amor só cresceu com a chegada do Oga, estávamos nos saindo bem na missão de sermos pais para o pequeno e isso fortalecia a nós dois como um casal. Claro que ainda haviam muitos olhares de reprovação, a maioria das pessoas achava abominável dois homens vivendo como um casal e ainda por cima criando uma criança. Apenas a familia Heinstein nos apoiava em toda a vizinhança pois para o resto, eu e Camus éramos dois sodomitas pecadores e maldosos, que iríamos arder no inferno e arrastar um inocente junto.
As pessoas simplesmente não enxergavam o amor que havia em nossa familia.


Ás vezes encontrávamos o Dite e o Matheo para um chá, ou uma taça de vinho no Pub Venon. Algumas vezes saíamos juntos como dois casais e era sempre bem divertido. Dite já não cantava mais, ele dizia que os tempos de tristeza haviam passado e agora todos seriam felizes.

Eu ainda carreguei a culpa pela morte do Julian durante muito tempo. Eu me sentia mal pois achava que não havia sido feita justiça. O certo seria eu pagar e não meu pai assumir algo que não fez. Uma sucessão de mentiras que me assombrou durante muitos dias. Mas com o tempo eu percebi que eu também não merecia ser punido, que aquele ato foi minha única chance de viver. Se eu não tivesse agido, ia acabar morto, ou iriam matar Camus. Éramos nós ou ele e eu fiz a escolha certa.
Entendido isso, o mal estar passou e eu me curei daquela culpa definitivamente.


Por falar no meu pai, eu havia rondado a mansão em Greenford algumas vezes. Era estranho ver de longe a casa onde nasci e me criei, onde eu entrava e saía a hora que bem entendia. Lembrei de como eu, Natássia e papai éramos felizes lá. Mas eu não estava ali pela saudade de ser rico, eu estava ali porque desejava ver meu pai. No entanto eu não tive coragem de me aproximar, apenas observava de longe a enorme mansão com seus jardins suntuosos e suas muitas janelas.
Nada havia mudado.


Mas ainda assim não sentia qualquer arrependimento. Eu era feliz no meu casebre, lá estavam as pessoas que eu mais amava e por quem eu morreria.

Aquela tarde era fria, era quase fevereiro e já não havia mais neve, mas ainda um frio cortante e muita garoa. Londres e sua garoa quase constante, seu tempo sempre chuvoso e nublado, provocando aquele mar de guarda-chuvas e cartolas em meio as carruagens nas avenidas principais. O mal tempo fazia com que quatro horas da tarde parecesse dez da noite devido ao acúmulo de nuvens.
Eu e Oga corríamos para casa, Camus já estaria chegando em seguida pois largaria da livraria em poucos minutos. Entrei em casa com o pequeno protegendo a nós dois da garoa que apertava e se convertia numa chuva fina. Em baixo da porta um envelope com o endereço do Convento das Madellonnetes.


Meu coração saltou, era o convento para onde minha irmã Natassia havia ido.
Depois de entrar, tirar a minha casaca e a do Oga que estavam molhadas e acender o fogareiro, deixei o pequeno brincando e fui abrir o envelope, meio trêmulo. Eu não tinha notícias de Natassia há mais de um ano. Logo Camus chegou, também correndo da chuva que já o havia molhado. Ele acendeu as lamparinas, nos beijamos, ele beijou Oga e nos sentamos lado a lado para ler a carta.


Nela Natassia relatava que estava feliz, que vivia bem e havia de fato encontrado sua vocação no sacerdócio. Que passava os dias a orar e jejuar por todos nós. Disse que desejava que eu e Camus estivéssemos bem e felizes e acima de tudo que papai estivesse bem.
Pobre irmã, não tinha nenhuma ideia sobre os últimos acontecimentos. Por fim, ela desejou que todos ficássemos com Deus e que eu mandasse recomendações á familia Garret, que ela tinha muitas saudades de Anete.
Como minha irmã havia mudado. Muito diferente da menina frágil que eu cuidava, ou da noiva possessiva e problemática com que Camus iria se casar.


Sorrimos um para o outro. Camus ponderou que eu deveria escrever de volta e contar a ela sobre Oga e sobre como estão as coisas com nosso pai. Eu concordei, embora tudo o que eu saiba dele foi o que vi naquela base de policia. Não sei como está sua saúde, não sei como ele está emocionalmente, se está se cuidando, se está bem. Eu não tinha muito o que contar a Natassia, mas decidi que iria escrever uma carta em resposta.

Camus também estava disposto a fazer o mesmo, responderia a carta de sua mãe contando sobre nosso pequeno garoto. Tanto eu quanto ele tínhamos certeza que Anete e Krest iriam vibrar com a notícia de terem agora um netinho.
Escrevemos e enviamos as cartas e assim se passaram alguns meses


**


Setembro de 1816, início do Outono
7 meses depois

Milo e Camus ainda não haviam recebido resposta pelas cartas que enviaram meses atrás. As correspondências de fato levavam muito tempo para ir e vir, meses dentro de um navio, dias chacoalhando em um vagão de trem.

Naquela noite já haviam jantado, Hyoga já adormecia e Camus distraía-se com a leitura de um livro. Deitado, Milo tossia muito sem conseguir dormir

— Ange, o que está havendo? — Camus perguntou realmente preocupado com a saúde de Milo que parecia debilitada há alguns dias

— Não sei, não me sinto bem...

Camus ficou encarando-o. Sabia que Milo trabalhava em condições adversas. Passava o dia lavando aqueles cavalos, exposto ao vento e ao frio do lado de fora quase o dia todo. Sempre achou aquele trabalho pesado demais e temia que um dia a saúde de seu companheiro lhe cobrasse o preço de tanto sacrifício

— Milo, precisa largar este trabalho. Isso está acabando com você — foi direto e sério. Camus estava preocupado e a preocupação se convertia em seriedade na expressão gélida do ruivo

— Camus...eu não posso — suspirou e tossiu mais

— É claro que pode. Você está adoecendo, por favor ange, pense nisso.

Camus podia afirmar sem medo pois Hyoga já havia lhe relatado sem Milo saber como era o dia a dia no jóquei. O menino havia contado, mediante as perguntas feitas de forma inteligente pelo pai, que Milo se sacrificava em uma rotina pesada para ganhar mais dinheiro e ajudar melhor nas despesas de casa

— Você pode ser forte fisicamente, Milo, pode parecer que aguenta uma rotina como essa, mas seu corpo está cobrando o preço. Por favor, me escute e pare com isso.

Milo olhou para Camus sériamente, sentando-se na cama e se controlando para tentar tossir menos

— Parar? O que está me propondo Camus? Ficar de braços cruzados sem fazer nada o dia todo, me sentindo um inútil? De forma alguma!

— Ange — suspirou — eu posso segurar as despesas sozinho. Conseguimos economizar algum dinheiro, temos o básico para viver, para nós e para o petit. Eu posso fazer isso.

— Não é justo... — disse em tom de lamento

— É justo com a sua saúde. Eu te amo e não quero ficar viúvo agora.

— Eu também te amo e é por isso que peço que me entenda, Camus. Eu não posso abandonar o meu trabalho.

Os dois foram então dormir sem ter chegado a um senso comum. Camus desejava que Milo deixasse o trabalho pesado e Milo insistia que poderia dar conta do serviço mesmo com sua saúde cada vez mais comprometida.

Nos dias que se seguiram, Milo só piorava da tosse e como se isso não bastasse, tinha febres durante a madrugada. Extremamente preocupado, Camus decidiu sair um dia mais cedo da livraria e foi até o jóquei ver como o namorado estava trabalhando.

Ao chegar, ficou estático com a imagem que viu.

Milo estava sem camisa, apenas vestido da cintura para baixo, porém sem as botas. Os pés dentro da água, os cabelos úmidos, ele lavava um dos puro sangue que se comportava docemente com o toque das mãos do seu cuidador. Em dado momento, Milo montou no cavalo sem sela para lavar-lhe a parte de cima melhor.
Seria uma cena linda, dígna de uma pintura aquele deus grego quase sem roupa, molhado, sob o cavalo. Sua musculatura úmida parecia ainda mais convidativa e sensual. Mas não era isso que Camus via. Camus via seu amor se expondo ao clima frio, sem qualquer cuidado. Ao ver aquela cena, entendeu porque Milo amargava noites intermináveis de tosse e febre.

— Milo, o que pensa que está fazendo? — perguntou enérgico, aproximando-se rápidamente de onde o loiro estava

— Camus? O que faz aqui? Eu não sabia que vinha, eu...

Milo estava visívelmente desconcertado

— Olhe pra você, está encharcado. Acha que isso lhe fará bem? É um absurdo que te deixem trabalhar em tais condições — dizia o ruivo, furioso

— Camus, é o meu trabalho — ele respondeu, agora mais sério

— Vai ser a sua destruição, isso sim

— Olha — suspirou, levando as mãos aos cabelos que pingavam — eu já terminei com este. Vou tomar um banho e encerrar meu dia. Me espere e vamos para casa juntos, está bem?

— Tomar banho? E posso saber onde fará isso? Não vejo água quente aqui.

— Água quente? — Milo riu, e Camus permaneceu sério, muito sério — não existe água quente para empregados, ruivo.

Milo caminhou até uma grande tina de madeira que já continha água limpa, terminou de tirar o que ainda usava de roupas e entrou na água fria. Um vento gelado cortava o ar dentro do galpão onde estavam e Camus apavorou-se ainda mais

— É assim que você não quer que eu me preocupe? Expondo sua saúde desta forma absurda e irracional? — Camus falava de forma cada vez mais dura e Milo era cada vez mais sarcástico

Camus vestido, Milo nu e os dois discutindo

— É o que temos, Camus! Não vê? É o que posso fazer, é meu trabalho. Ainda mais depois que você me arrumou um filho pra criar e sustentar!

Aquela última frase fez Camus apertar os punhos

— Não jogue sobre Hyoga um problema que é nosso, Milo. Você está sendo irracional e idiota

— Eu estou sendo realista. Agora será que você pode calar a boca e me deixar terminar?

E aquele foi o ponto final na pior discussão que o casal já havia tido. Depois de tanto tempo de amor intenso, uma briga realmente séria. Camus jogou para Milo uma toalha e saiu em seguida, dando as costas ao companheiro. Saiu pisando duro e xingando mentalmente em francês, Milo ficou em igual estado de irritação, também falando palavrões enquanto vestia-se.

Algum tempo depois, Milo entrou em casa. Encontrou Camus sentado á mesa, sozinho. Apenas uma lamparina iluminava o ambiente escuro.
O ruivo sentiu as mãos masculinas sobre seus ombros e logo o calor de sua voz lhe preencheu os ouvidos

—Onde está Oga?

— Na casa da Pandora — respondeu seco

Milo então acariciou os ombros de Camus

— Me perdoe, Cam.... Eu não quis dizer aquelas coisas...

Camus virou-se, levantou e encontrou o olhar de Milo sobre si. As bocas estavam próximas

— Aquilo doeu, Milo

— Eu sei, doeu em mim também

— Eu só queria que você entendesse que...

— Eu já entendi.

Camus ficou fitando Milo sem entender. O loiro então colocou em suas mãos um papel dobrado. Camus abriu e viu escritas com a letra de Milo as palavras que formavam um pedido de demissão.
Era a carta de desligamento de Milo de suas funções.

— Então você... — Camus não conseguiu completar, perplexo

— Eu fiz depois que você saiu. Eu pensei muito e entendi que você estava certo

Camus sorriu e acariciou a face do seu loiro amado

— Não é questão de quem esteja certo, ange. Isso não é um duelo. É sobre você, sua saúde e minha preocupação com isso. Obrigado por entender.

— Não vai ser fácil pra mim, eu estou preocupado com o pequeno. Eu não queria ter dito aquilo mais cedo, eu amo nosso filho

— Eu sei, ange. Eu sei. Vai ficar tudo bem.

Os dois então selaram as pazes com um beijo longo e intenso.


**


No dia seguinte Milo trabalhou normalmente e ao fim do dia subiu até a sala do gerente Thompson com quem desejava conversar. O mais velho o recebeu e pediu educadamente que se sentasse, sem rodeios, Milo lhe estendeu um envelope contendo sua carta de demissão.
Thompson a recebeu chocado, não imaginava que Milo abriria mão do emprego que tanto gostava, mas ao ouvir o mais novo tossir quase intermitentemente entendeu seus motivos.

— Eu lamento muito. Agradeço pela oportunidade que me deu de trabalhar aqui, mas o serviço externo está minando minha saúde nos dias mais frios. Essa cidade não lida bem com doentes e se meu caso se agravar certamente morrerei a espera de uma vaga no hospital que está lotado de tuberculosos, doentes de peste e lepra. A situação é muito caótica e não seria prudente arriscar.

Thompson ouviu atento as explicações do mais novo e entendeu seus motivos. Sentia pesar em perder um funcionário tão dedicado e trabalhador

— Eu também lamento, Milo. Mas te entendo, compreendo seus motivos. Recebo com pesar sua carta de desligamento de suas funções, mas por outro lado, desejo um dia que você volte. Não para tratar dos animais ou circular pela área de empregados. Mas que volte pela porta da frente, para montar nossos mais nobres garanhões e voltar a ser nosso principal pontuador. Aquele time sente sua falta até hoje.

Milo deu um meio sorriso. Ouvir aquilo era reconfortante, mas no entanto, via cada dia mais distante a possibilidade de voltar a vestir a farda de couro e montar um dos cavalos do time de polo. Era algo com a qual ele já nem sonhava mais.

Agradeceu e após um aperto de mão e um abraço amistoso deixou as dependências do jóquei clube sem olhar para trás. Sem saber se um dia voltaria a pisar naquele lugar.

Era uma tarde fria e sob o cavalo o loiro reparava nas árvores que já perdiam suas folhas devido ao outono. Uma garoa fina ameaçava apertar e para não tomar aquela chuva, apertou o galope, disparando entre carruagens e guarda-chuvas.


**


No fim do dia Camus entrou em casa com um convite para ele e Milo. Era um convite de Afrodite e Matheo para irem ao pub se distraírem um pouco.

Em uma conversa entre amigos, Camus confidenciara a Dite que Milo precisaria abandonar o trabalho e temia que aquilo fizesse mal emocionalmente ao companheiro. Ao mesmo tempo, Dite desabafava com Camus o fato de Matheo estar feliz com ele, mas sofrendo longe dos filhos. Os dois amigos se viram angustiados com seus problemas, e então o loiro teve a ideia de uma noite divertida, em que os casais sairiam juntos e se distrairiam, esquecendo suas mazelas por uma noite.

Milo agradou-se da ideia, não beberia por conta de sua saúde, mas estava disposto a acompanhar Camus no que poderia ser uma noite divertida. Perguntaram a Hyoga se ele gostaria de dormir na casa da tia Pandy aquela noite e o menino animou-se em um eufórico "sim". Pedido que foi aceito por Pandora e que os dois agradeceram imensamente.

Assim sendo, saíram pela noite fria de Londres dois belos lordes, trajando suas casacas negras e sobretudo na mesma cor. Luvas e botas de couro negro completavam o visual daqueles dois homens que atraíam a atenção por onde passavam pela beleza e imponência que tinham. Milo usava uma cartola para proteger-se do sereno e Camus prendeu seus fios vermelhos no meio das costas. O perfume masculino que exalavam ia ficando em cada rua e em cada beco por onde o casal passava. Parecia um casal de vampiros noturnos rondando no escuro da noite londrina.

Ao entrarem no pub Venon, lá estavam Dite e Matheo já na mesa que haviam reservado para eles. Dite também estava de negro, mas usava uma trança que caía lateralmente sobre seus ombros. Matheo usava uma casaca verde escura que contrastava lindamente com os cabelos cor de prata.

Milo e Camus deixaram a cartola e os sobretudo na chapelaria e seguiram para a mesa onde já estava o outro casal. Se cumprimentaram e sentaram os quatro.

— E então, o que vamos beber? — perguntou Dite animado

— Pra mim vinho tinto — Camus respondeu

— Io quero uma boa cerveja da casa — animou-se o italiano

— Não irei beber hoje, me perdoem — esclareceu Milo, o menos animado

— Oh que pena! — lamentou-se Dite — aqui eles servem uma bebida, chama-se acho que Virgin Strawberry, é a base de morangos, limão e soda. Talvez você goste Miluxo. Ah eu também vou querer uma cerveja!

— Vamos ange, faça um esforço. Não deve ser tão ruim.

Camus acariciou os cabelos de Milo, incentivando-o. O loiro deu um meio sorriso e aceitou a oferta. Dite foi ao bar fazer os pedidos, já que lá não haviam garços servindo mesas. Quando as bebidas chegaram todos brindaram animados.

— Gostaria de propor um brinde á amizade — iniciou Camus — que nós possamos todos viver a felicidade de um mundo sem julgamentos e em paz

— Por mais tolerância e amor. Por mais compreensão — concluiu Milo, fazendo Camus sorrir ao ouvir as palavras do companheiro. Os dois não resistiram e trocaram um beijo

— Bueno — interrompeu Matheo — eu quero fazer um brinde especiale! Quero fazer mais que isso, quero declarar meu amor por este uomo maravilhoso que está aqui, ao mio lado!

Matheo levantou-se e atraiu a atenção de todos. Todos no pub se viraram para ele. Dite sentiu seu coração palpitar a ponto de quase pular pela boca. Seu amor estava prestes a fazer aquilo que ele sempre sonhou: assumir o amor deles diante de todos.

— Afrodite, amore mio. Olhem, olhem todos este uomo lindo que tá aqui! Este é mio Dite, mio amore! Eu um dia machuquei o coração da mia rosa, eu não fui uomo pra ele. Eu não tive coragem. Mas agora io tenho! Agora io estou aqui dizendo pra tuti questa gente que io te amo, te amo mais que tuti mio amore! E io sou tuo!

Dite já em lágrimas levantou-se e beijou Matheo diante de todos. No pub se ouviram aplausos, alguns olhavam se perguntando se Dite era homem ou uma mulher vestida de homem, a algazarra que os bêbados faziam não atrapalhou o beijo do casal que agora estava mais unido do que nunca.

Camus olhou para Milo e encontrou aqueles faróis tão azuis sobre ele, fitando-o

— Eu te amo, ruivo

— Eu também te amo, ange

— Valeu a pena tudo o que nós vivemos até aqui, não valeu?

— Valeu sim, eu faria tudo de novo

Então Milo e Camus também se beijaram e logo todos os casais, fossem homens com mulheres, homens com homens ou mulheres com mulheres repetiram aquele gesto e dali em diante o Pub Venon ficou conhecido como o local onde o amor livre era aceito e respeitado, passando a ser amplamente frequentado por pessoas que viviam aqueles mesmos dilemas. Artistas, estudiosos, intelectuais naquele lugar se sentiam livres para simplesmente ser o que eram, longe da aristocracia preconceituosa.

Já passavam das três da manhã quando Milo e Camus voltaram para casa. Milo, sóbrio por não ter bebido, carregava Camus que havia abusado um pouco do vinho. E sob o efeito do álcool, o ruivo não era nem de longe o francês polido e austero. No entanto, Milo sentia seu desejo pulsar ao sentir seu corpo roçar o corpo quente do homem que amava. Pressionava Camus contra a parede e se colocou entre as pernas do seu ruivo, roçando os corpos com vigor e as ereções que levantavam dentro das calças.

— Cam...beije minha boca como se não houvesse amanhã — sussurrou, sendo atendido pelo ruivo que sugou seus lábios sem nenhum pudor, fazendo barulho e invadindo a boca do loiro com sua língua de forma ávida, voraz.

Os dois arrancaram a roupa e se amaram intensamente o restante da noite, até os primeiros raios do novo dia apontarem na vidraça da janela.

**


POV Camus


Os dias que se seguiram foram de intensa paz em nossa casa. Eu seguia trabalhando na livraria, ás vezes levava o petit comigo para que aprendesse um pouco mais além do que eu vinha ensinando.
Na verdade ele só gosta de ir á livraria para ficar rodando o globo terrestre que tem lá e para comer os doces que o Dite fica oferecendo, mesmo sob meus protestos. Ele está crescendo, ficando a cada dia mais esperto e mais parecido com o Milo. Estamos ensinando francês á ele e para tanto, eu e Milo falamos apenas em francês com ele. O petit está aprendendo rápido.


Apesar de tentar esconder de mim o fato, eu percebia que Milo estava insatisfeito em não trabalhar. Ele era um homem e me ver trabalhando sozinho, sem sua ajuda, não era algo que o agradava e eu entendia isso. Eu não podia reclamar dele, eu agiria da mesma forma se fosse comigo: me sentiria frustrado e incapaz. Mas Milo não é nada disso e essa situação é apenas uma questão de tempo.
Ao menos é o que eu sempre digo a ele, na tentativa de animá-lo. Eu me sentia na obrigação de fazer algo, afinal, a ideia de ele largar o trabalho havia sido minha e nós tinhamos até brigado feio por causa disso. Mas creio que no fim das contas foi melhor assim, ele está bem melhor de saúde agora.


Milo é muito ativo e inquieto, ele não para e mesmo em casa sempre arruma algo para consertar, para pregar, para arrumar. Eu acho isso positivo, ele ensina nosso petit a ser sempre útil de alguma forma. Só esta semana ele pregou as telhas que estavam soltas, cortou lenha, cerziu algumas roupas que estavam puídas, trocou uma vidraça quebrada e pregou o dossel da nossa cama que quebrou outra vez.
A única coisa que ele não consegue fazer é cozinhar.


Eu e o petit sempre damos boas risadas das tentativas frustradas dele de fazer algo na cozinha. Eu acho graça, mas acho ao mesmo tempo muito amável que ele tenha essa preocupação. Temos diferentes talentos, eu sei cozinhar mas não seria capaz de dominar um cavalo com a facilidade com que ele faz isso. Ou ainda controlar um cavalo com uma mão e com a outra controlar um taco a ponto de acertar uma bolinha que deve rolar na grama até acertar seu alvo. Ou de fazer tantas coisas em tão pouco tempo.

Estes dias reencontramos o Sorento. Ele veio ver como Milo está, passamos algum tempo conversando e ele contou que está abrindo seu próprio negócio, já que não pretende mais trabalhar para os Taylor. Pandora também passou por aqui na mesma tarde e, como sou bom observador, notei o interesse mútuo que surgiu entre Sorento e ela.
Eu e Milo decidimos ajudar a juntar este casal. Eu digo que Pandora merece ser feliz, Milo afirma que Sorento também merece. Então...voilà ce que nous devons faire!
(é o que devemos fazer)


Olhando para trás, eu percebo que nestes anos eu mudei muito. Amadureci em muitos aspectos. Eu achava que ser o comandante do Chevalier me faria mais adulto.
Eu estava errado.


Enfrentar tudo e todos como eu e Milo enfrentamos foi o que me fez mais adulto.

Eu era sério e austero porque eu achava que seria mais respeitado assim, e porque eu achava que essa casca de aparente indiferença pudesse me proteger do lado mais amargo da vida. Mas bastou Milo surgir pra isso tudo desabar como um castelo de cartas. Ser centrado e metódico são características minhas, a timidez me faz ser mais sério com quem não conheço. Mas aquela austeridade? Eu não precisava daquilo, e hoje eu percebo isso.


Eu sonho em um dia voltar a comandar o Chevalier, nem que seja por uma última expedição. Eu não comento isso com o Milo, é uma coisa muito íntima minha, algo que guardo pra mim. Uma das poucas coisas que guardo apenas para mim mesmo. Eu sei que ele também tem pensamentos que são só dele e que ele não divide comigo. Eu não vejo problema nisso, afinal, nós nos amamos mas ainda somos individuais.

Eu e Milo desejamos ter uma grande familia, decidimos que, desde que estejamos juntos, estaremos dispostos a tudo. Não queremos parar no petit, desejamos ter mais filhos. Existem mais crianças por aí precisando de um lar.
Ah, e isso não é um sonho só meu, é uma vontade que temos em comum e decidimos juntos.


E estava eu, perdido em todos estes pensamentos soltos quando a voz do Dite me tirou do meu mundo, eu olhava um livro mas meus olhos apenas corriam pelas letras. Minha cabeça estava longe dali

— Camus! Venha, me ajude com o bolo!

Bolo?

Foi o que pensei. O que raios Dite queria com um bolo no meio da livraria? Um bolo enorme, apoiado sobre uma mesinha que ele arrastava com dificuldade riscando o assoalho de madeira. Corri para ajudá-lo, o Sr. Svensson nos observava por cima das lentes dos óculos parecendo não crer no que via. Até que Dite finalmente quebrou o mistério daquela surpresa


— Parabéns vovô!! Feliz Aniversário!!

Ele exclamou feliz para espanto do ancião e mesmo meu, que fiquei olhando os dois sem muita reação.

— Sr. Svensson, então é seu aniversário? Eu não sabia, meus parabéns — eu fui até ele e lhe estendi a mão. Ele retribuiu o gesto, meio sem jeito e eu pude ver em seus olhos azulados e já muito envelhecidos uma estranha tristeza.


— Oh meus filhos queridos, muito obrigado. Não precisava de tudo isso...

Ele tentou mas sem sucesso disfarçar que estava emocionado e levemente desapontado com aquela comemoração. Dite não o deixou continuar, o abraçou e lhe estendeu a mão com um pedaço do bolo em um pratinho de porcelana chinesa pintada á mão. Quando o mais velho pegou o prato, eu percebi algo que me assustou: Frederich tremia. Tremia muito.

Eu pedi que sentasse, percebi que ele estava desconfortável. Fechamos a livraria por algumas horas, virando a plaquinha com a inscrição "CLOSED" para fora, na porta de vidro da entrada. Nos sentamos os três bem próximos e eu pude reparar em Frederich finalmente. Meu patrão e quase um professor, um mentor intelectual que é como o considero estava muito, muito idoso. Sentava-se com dificuldade, levantava o garfo para levar o bolo á boca com dificuldade. Enxergava mesmo com os óculos, com dificuldade. E o pior de tudo: ele não me parecia feliz.

Então ele parou de comer e olhou profundamente para mim e depois para Dite. Eu não sei se o Dite tava vendo as coisas que eu estava vendo, eu quero pensar que ele estava.

— Afrodite, filho — ele iniciou, com uma voz mais fraca — é bom que estejamos os três aqui, juntos, pois há algo que eu estou protelando em dizer há muitos dias, mas creio que já não posso mais esperar.

Dada a seriedade com que ele proferiu aquelas palavras, eu e Dite calamos e apenas olhávamos para ele.

— Eu já estou velho, como podem ver, e já não tenho mais forças para esta vida que venho levando. Para os dias de hoje fui até muito longe, as pessoas não costumam viver tanto. Eu estou completando hoje 87 anos.

Ele sorriu levemente e eu ergui uma sobrancelha, surpreso. Não sabia a idade do Sr. Svensson e não imaginava que fosse tão avançada. Quase ninguém passava dos 80 anos. Creio que a longevidade dos homens e mulheres irá aumentar futuramente, mas nestes nossos dias, a marca de Frederich é um feito.

— Minha hora não tardará mais tanto a chegar e eu não gostaria de morrer aqui. Eu escolhi a Inglaterra para viver, mas a Suécia é o meu lar. Estocolmo é o meu lar, e é lá que eu quero passar meus dias derradeiros. É lá que eu quero morrer, junto aos meus filhos e meus outros netos.

Eu não sabia até pouco tempo, mas Dite tinha pelo menos cinco tios. Frederich havia tido ao todo oito filhos, destes dois morreram. Netos são quase incontáveis. Uma familia enorme e saudosa de seu patriarca.
Dite também havia me confidenciado que prometera á sua mãe retornar a Estocolmo assim que concluísse a faculdade de biologia e ele havia terminado seu último período no final do ano passado.
Então eu juntei as coisas e senti o chão faltar debaixo dos meus pés


— Vocês vão...partir? E a livraria? — eu perguntei com medo da resposta

Os olhos azulados do mais novo e do mais velho me miraram com pesar e eu já tinha a resposta. Ainda assim, Frederich explicou-se, verbalizando o que eu não queria ouvir


— Eu sinto muito Camus, meu filho, mas eu vou fechar a livraria e vender esta casa. Eu não queria fazer isso com você, mas eu não posso mais, filho...

Eu tinha que entender, é claro que eu entendia

— Então aquilo foi uma despedida? — eu perguntei ao Dite, me referindo á noite no Venon


— Eu não queria que fosse - ele se sentou ao meu lado, ficamos cara a cara e eu o olhava de forma cortante, eu não conseguia reagir de outra forma— você se tornou tão especial pra mim, um amigo tão doce e maravilhoso que eu pensei em simplesmente ficar e encarar isso aqui sozinho com você e o carcamano. Mas eu vi que meu lugar também não é aqui. Eu vou levar o vovô pra casa, vou passar um tempo com a minha familia e depois eu vou viver com o Matheo na Italia

Eu não pude resistir e sorri. Minha cara amarrada deu lugar a um sorriso quando eu me dei conta de como meu amigo tava feliz. Ele ia ser feliz com seu maledetto carcamano, finalmente.

— Ele quer voltar pra Italia pra ficar perto dos bambini dele — explicou, imitando o jeito de Matheo de falar— e eu tenho que entender esse lado, ele tem três filhos que não tem culpa de nada disso. E eu quero estar do lado dele.

Afrodite falando de filhos comigo, como se eu não entendesse perfeitamente o sentimento do Matheo. Acariciei os fios loiros do meu amigo, eu ia sentir falta dele. Das suas brincadeiras e do seu humor rápido e por vezes irônico que eu fingia me irritar, mas no fundo adorava. Lembrei de nosso primeiro contato, de quão frio eu fui com ele e da irritação que causei por conta disso. Lembro da primeira vez que o vi, vindo em minha direção com uma rosa nas mãos e um olhar de curiosidade. Ele me fez um gracejo e eu o julguei alguém agocêntrico e desagradável, por isso o destratei.

Como eu estava enganado.

— Afrodite, como a deusa. Sua mãe pôs esse nome por achar que você era uma menina — eu ri, relembrando nosso primeiro diálogo


— Você lembra disso! — ele exclamou, já deixando uma lágrima rolar.

— Eu me lembro de tudo.

Lágrima que eu também não consegui conter.


Nos abraçamos, ainda não era a despedida definitiva, mas a saudade já me doía aguda no fundo do peito. Abraçado a Dite olhei á minha volta, por cima dos ombros dele. Frederich havia sumido, eu via os livros, as altas estantes, os globos terrestres, os mapas. O cheiro de livro invadiu minhas narinas e me fez chorar mais.

Lembrei da primeira vez que pisei ali, e de como aquele cheiro me invadiu as narinas e me deixou apaixonado. Então eu vi Frederich e depois de um diálogo rápido ele me convidou a trabalhar ali.
Como eu ia viver sem aquele lugar?

E o pior: Milo estava sem trabalho e eu agora perdia o meu. Voltamos á estaca zero.


Voltamos a mesma situação em que estávamos ao desembarcar daquele trem, fugidos de Aix-en-Provence. Sem futuro, sem perspectiva, na incerteza do dia de amanhã.

E agora com uma criança para criar.

Eu estava de volta ao começo e no meu peito uma dor aguda de saudade.


Isso é o que acontece quando alguém marca a sua vida. E eu estava me despedindo de duas que marcaram a minha.

Para sempre.

Notas finais
Naquela época o saneamento básico ainda não era total na cidade de Londres. Existia ainda esgoto a céu aberto e muitas valas acima de tudo nas periferias. Com isso, os ratos faziam a festa e muitas doenças se alastravam. A saúde Pública era caótica e era muito comum as pessoas adoecerem por diversos motivos, acima de tudo pelo clima, higiene e água não tratada. O clima frio da Europa era naquele tempo uma preocupação. Se hoje o frio europeu é sinônimo de turismo e beleza, naquele tempo era um problema que desencadeava doenças sérias. O frio matava idosos e crianças e adoecia trabalhadores. Assolava os mais pobres que sofriam diretamente com o cilma (lembrando que nossos protagonistas vivem exatamente nesta camada mais pobre da sociedade) Esse POV foi tipo um momento na cabeça ruiva e pensante do Camyu e as milhares de coisas que ele pensa ao mesmo tempo: Milo, petit, casa, futuro, Chevalier, familia...um breve tour por essa mente brilhante! Uma paçoca pra quem chorou nesse final de capítulo :/