A História de Karin
30 Irmãs Gémeas
Notas iniciais
Mundo Real
Centésimo vigésimo terceiro dia após o falecimento de Kurosaki Karin.
Yuzu fazia sua rotina normal, sem nenhuma aparente modificação. Porém algo importante em si morreu: seu contagiante sorriso. Nem sua comida era mais tão boa, já que esta não era preparada com o costumeiro amor de sempre. Ela não tinha mais nenhum de seus irmãos para cozinhar. Se sentia só. Mesmo com a companhia de seu pai, não era suficiente para abater a sua dor, ela sentia que ele também estava abatido, principalmente por o estado dela mas não conseguia evitar. Queria ver sua irmã, mas não conseguia. Como gostava de ver espíritos como seus irmãos.
No entanto mesmo não os conseguindo enxergar, tinha esperanças de que eles a pudessem visitar. E por isso, todos os dias, no horário das três refeições ela preparava a mesa para toda a família e conversava como se eles de facto estivessem ali com ela.
Isshin por vezes presenciava essas cenas e ficava na dúvida se deveria ou não ser uma personagem do teatro criado por sua filha. O ex capitão sempre que retomava a casa perdia seu lado brincalhão ao encarar o padecimento de Yuzu. Mesmo ela “dialogando” com sua mente, era notório o sorriso vazio em sua feição, os seus olhos opacos, e até seu rosto que era marcado pelas espessas lágrimas que todos os dias ela derramava ao amanhecer e anoitecer.
Muitas das vezes a morena adormecia na cama de um dos irmãos e o shinigami tinha de a carregar adormecida até seu devido quarto. Como pai, o Kurosaki já não sabia o que fazer para amenizar a tormenta dentro de sua filha que foi sempre tão dependente da família. Foi extremamente doloroso para ela lidar com a morte da mãe, e agora era forçada a repetir a experiência com sua irmã gémea. Karin e Yuzu apesar de todas as suas diferenças, eram muito unidas. Faziam tudo juntas. Onde uma estivesse, a outra também estaria. E a morte as separou, as regras rígidas da Soul Society não iriam permitir que elas se vissem regularmente porque era proibido. Até Ichigo para viver com a mulher que amava foi obrigado a afastar-se de seu mundo.
Apesar de todas as emoções negativas que abatiam a Kurosaki, o dia contraditoriamente estava esplêndido. Ela saiu de casa, a caminho do colégio tristemente por não ter Karin que sempre a acompanhava. Inclusive deixou de socializar com seus amigos para não os preocupar ainda mais sobre seu estado. Os pássaros cantavam alegremente porém sua preciosa melodia não comovia a morena que andava monotonamente. Deslocando-se cabisbaixa e absorta acabou por ir de encontro a uma pessoa. Devido ao impacto a Kurosaki desaba na calçada.
— Gomenasai… Estava distraída e… Nani?
Erguendo o olhar para se desculpar, Yuzu é surpreendida. Não havia ninguém. Aliás, nem um mísero objecto se encontrava à sua frente, então contra o que ela esbarrou? Suspira longamente frustrada, sacudindo o pó em sua farda colegial, com as sobrancelhas franzidas.
— Outra vez… Todos os dias bato em algo que não vejo…
Ela exclamou um grito fininho, enquanto depositou suas mãos no cabelo, sacudindo a cabeça.
— Agora até falo sozinha!
Yuzu apressasse a correr, prosseguindo a sua rota para não se atrasar. Ultimamente sempre esbarrava em algo invisível no entanto sempre acabava por ignorar, talvez fosse delírios de sua cabeça. Tudo fruto da solidão com a perda de sua irmã.
Porém Yuzu não conversava sozinha. Havia sempre alguém que escutava as suas reclamações.
Sem saber a morena deixou para trás um rapaz que a encarava curiosa, com uma corrente presa no peito. De algum jeito o espírito simpatizou com a humana, achou cómico seu mau humor... Sorriu com isso e decidiu segui-la. Afinal um espírito não tinha muito mais que fazer no mundo real se não seguir e espionar os humanos.
Antes de se dirigir para a escola, e ter as suas aulas enfadonhas de sempre, ela desloca-se ao túmulo de Karin situado ao lado de sua mão para deixar flores a ambas. Ajoelhava-se entre as duas, unindo as pequenas mãos numa só. Rezando pelo bem estar delas, independentemente de onde se encontrassem. O espírito estava ao seu lado, continuando a encará-la curioso. No ponto de vista dele, Yuzu era uma pessoa alegre e sociável, como se sua alma fosse rósea mas algo ofuscava essa sua personalidade a tornando num cinza sujo. E isso integrava a criança que mesmo morta conseguia sorrir mais verdadeira que a Kurosaki que estava viva.
Afinal a vida é para se sorrir. E a morte para chorar. Então porque ele sorria, e ela chorava?
— Karin-san gostava muito que estivesse aqui…
A criança ergueu uma sobrancelha ao assistir Yuzu dobrar-se num pranto inconsolável. Mas ele pode perceber porque ela estava triste. Tinha saudades de alguém que estava longe de si. O espírito por segundos também ficou deprimido, sentindo a saudade remoer em seu peito. Ele queria sua mãe. Mas tal como a morena, ela não o conseguia ver. E é doloroso quando alguém ama uma pessoa e esta não a pode ver; sofrendo com a sua ausência quando ela estava ali ao seu lado mas era como se não estivesse.
O espírito ajoelhou-se ao lado de Yuzu e colocou uma mão em seu ombro, procurando a reconfortar. Por um momento ela se assusta e olha imediatamente na direcção que sentiu algo lhe tocar contudo novamente não observa ninguém e mais uma vez ignora essa sensação. Limitando-se em levantar e dirigir-se para a sua escola.
Subitamente, um vento mais forte balança sua saia, e ela pode perceber que o céu antes azul agora era cobrido por uma espessa e longa nuvem cinzenta, ofuscando os belos raios solares.
O espírito olha em volta sentindo um mal-estar e rapidamente confirma seus temores. Um monstro. Aqueles que o tinham perseguido diversas vezes. Ele ficou preocupado pela humana, ele atraiu aquele ser até ela, e ele poder-lhe-ia fazer mal. Rapidamente se recordou de quando visitara sua mãe e fazia de tudo para chamar a sua atenção um daqueles monstros apareceu e a devorou. Ele chorou, gritou e fez de tudo para que o monstro a largasse e viesse atrás de si, mas a alma viva o satisfez mais.
— Fuja!
Yuzu rodopia seu corpo na direcção da voz no entanto não encara nada. Mas desta vez não ignora, ela teve a certeza que ouviu alguém, pode sentir nitidamente o desespero em sua voz. Seu corpo tremeu com essa sensação.
— Quem está aí? Apareça!
A colegial começou a procurar alguém enquanto o espírito se afastava dela pronto para distrair o hollow mas este passou pelo rapaz directamente e atacou Yuzu.
Ele ia cortar Yuzu no ventre mas o espírito intercedeu esse golpe. Todavia o hollow se deu por vencido. Persistente, o monstro joga o rapaz longe e novamente ia golpear a morena. O rapaz fica agoniado por não conseguir evitar o próximo ataque. Lágrimas começaram a jorrar de seus olhos inocentes, ele previa que ia suceder o mesmo que acontecera com sua mãe, e o pior ele não conseguia simplesmente desviar o olhar e evitar assistir a essa cena aterrorizante.
Yuzu foi atirada violentamente contra uma árvore, por sorte o impacto não fora muito brusco. Ao abrir os olhos ela estava confusa, não só por não saber o que a golpeara mas pelo que via. Ela não conseguia enxergar nada em concreto, só sombras. Duas sombras. Uma maior que a atormentava por algum motivo desconhecido e uma mais longe, de uma silhueta mais pequena.
A morena não soube explicar o porquê mas correu. Fugiu daquela sombra maior. E assustada percebeu que esta a seguia. Suas pernas ordenaram que ela fugisse e assim o fez, algo a avisava que poderia morrer se não o fizesse. Subitamente, escuta um potente rosnado que perturbou seus ouvidos, e rapidamente identificou a origem desse som à misteriosa sombra. Ao olhar para trás, ela compreendeu que conseguia enxergar mais nitidamente sua forma.
Abstraída com a nova descoberta, ela tropeça numa pedra rachando os joelhos na queda. Com o ardor, ela não consegue levantar-se de imediato e assiste sobressaltada à sombra aproximar-se de si velozmente. Por instinto ela fechou os olhos esperando algum golpe mas este nunca chegou.
Ao reabrir as pálpebras ela depara-se com uma capa branca a esvoaçar. Gradualmente ela identifica a fisionomia de um homem alto com um kimono negro que a protegia. Com um único golpe, sem uma única palavra, ele o destrói. Após isso caminha na direcção da outra sombra sem nunca direccionar seu olhar para Yuzu.
A Kurosaki ao avistar a outra sombra percebe que esta na realidade era uma criança. O rapaz a encarava e mesmo de longe ela percebeu que ele dizia algo para si, por isso focou-se em seus lábios tentando perceber o que este dizia.
— Sua alma é rosa novamente.
Yuzu não decifrou o significado daquele comentário, nem tão pouco compreendeu porque ele sorrira para ela mas mesmo assim retribuiu o sorriso. Sem perceber que fora o seu primeiro sorriso verdadeiro desde que Karin morrera.
Não soube porque o estranho homem de kimono colocou o cabo na testa dele e consequentemente o rapaz começara a brilhar subitamente até desaparecer completamente. Porém, ainda assim, ouviu este lhe dizer uma última coisa.
— Arigato… Graças a você, não me senti tão sozinho antes de partir.
E sem uma razão lógica Yuzu compreendeu, chorando de emoção. Era um espírito, ela finalmente via espíritos como seus irmãos. Tão feliz com esse aspecto que ela nunca reparou que o shinigami de negro desaparecera, nem tão pouco constatara que esse mesmo homem era na realidade seu pai extremamente protector com seus filhos.
Isshin estava contente, ao assistir distante, o retorno da euforia de sua filha. Obviamente ele sentira o considerável aumento de reaitsu da parte dela e já esperava que a qualquer momento ela evoluísse, talvez estaria na hora de ele também voltar a ser aquele pai brincalhão e atrapalhado que ele sempre fora.
A partir daquele dia, Yuzu começa a encarar os espíritos e sente sua solidão diminuir progressivamente. Ela começara a ajudá-los a encontrar a paz no seu mundo, como um dia seu irmão mais velho fizera. Uma pequena ocupação para sua vida, aguardando pela visita de seus irmãos, convicta agora de que os poderia observar quando esse momento chegasse. Por elas ela sentia que havia uma guerra sob sua cabeça e que seus irmãos poderiam estar envolvidos nela, no entanto ela estava tranquila. Sabia de alguma forma, que eles sempre ficariam bem no final.
Porque nem sempre é impossível impedir as relações entre humanos e shinigamis, principalmente se estes fossem irmãos gémeos.
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