A História de Karin
37 "Haverá Geada"
Notas iniciais
Mundo Real
Os pequenos raios de sol queimaram os olhos, ainda fechados, de Karin. Com preguiça de despertar, resmungava enquanto bocejava.
— Droga. Estou atrasada.
Sem grande cerimónia, foi tomar o pequeno almoço onde todos estavam reunidos, mesmo de pijama. Afinal, quando ela partisse para a Soul Society bastava sair do gigai. Não precisava vestir-se. Por isso nenhum dos presentes se surpreendeu com o estado da morena. Bom, talvez alguém sim.
— Ah! Karin-chan! O que está fazendo? Você vai-se atrasar e ainda nem vestida está!
— Tem calma, Yuzu.
— Karin-chan, não fale com a boca cheia!
A terceira oficial limitou-se a revirar os olhos com os raspanetes de sua irmã gêmea. Yuzu parecia uma professora em casa sobre etiqueta, não somente com ela… Ichi-nii, e o próprio pai também. Momo ria disfarçadamente de todo o ambiente familiar, já o patriarca Kurosaki encontrava-se estranhamente quieto. Karin espiou o ex capitão pelo canto do olho, observando sua feição séria enquanto bebia o chá tranquilamente.
— Karin. Você e aquele filho ingrato se continuarem com esse feitio nunca arranjarão namorados, ficarão sozinhos e…
— Velho tarado! Deixe de dizer asneiras!
— Espera, Karin-chan! Onde você vai?
— Está na hora de ir. Vamos Hinamori!
Yuzu e Momo se entreolharam, porém não se atreveram a pronunciar nada. Em vez disso constatavam a mesa quebrada ao meio, onde o médico estava estendido, encharcado pelo chá entornado.
— Isto… é sempre assim?
— As manhãs são o pior. Mas já estamos acostumados.
A tenente sentiu um arrepio gelado percorrer sua coluna ao imaginar aquele cenário quotidiano. Porém, o que a mais assustava era o sorriso encantador e meigo que Yuzu tinha enquanto falava sobre as discussões familiares.
E eu pensava que a Karin era a mais assustadora…
Fugindo da cozinha, seguiu a morena que se encontrava na entrada à sua espera. Uma aura assustadora fluía sobre ela. Contudo, ela pareceu tranquilizar-se quando se focou no olhar cabisbaixo marrom.
— Eu ficarei bem Yuzu, não precisa se preocupar.
A humana sorriu reconfortada, apesar de continuar perturbada. Momo as encarava aleatoriamente entristecida, quando notou uma presença masculina atrás de si. Em silêncio, ele não se despediu, limitava-se a observar as filhas. Foi quando a tenente percebeu como a casa deveria ficar terrivelmente silenciosa sem Ichigo e Karin. Aquela rotina barulhenta e agradável para os Kurosaki, desfigurara-se. Finalmente compreendendo a angústia deles.
— Não se esqueça de comer bem, Karin-chan! Você precisa de forças.
— Sim, sim. Não ouso desrespeitar as suas ordens culinárias, Yuzu.
Espontânea, Yuzu abraça a irmã. Deixando esta ligeiramente desconfortável, com uma comichão irritante no olhar. Apesar de ser incomum, a shinigami retribuiu com força o abraço. Permitindo matar a saudade antecipada.
— Adeus, Karin-chan.
— Não. É um “até breve" Yuzu. Eu venho visitar vocês!
Um sorriso largo foi o suficiente para entusiasmar a humana, que saltitara até o pai, o alertando que ele estava atrasado para o trabalho. A terceira oficial virara as costas, seguindo rumo até a loja de Urahara com Hinamori. Rubra, sem ter coragem para o encarar directamente.
— Velho, obrigada… por tudo.
— Não tem de quê, filha ingrata.
As duas shinigamis seguiam silenciosas o seu caminho até a loja. Reparando na paisagem alva que era capaz, inclusive, de as cegar com sua branquidão de tão intensa que era.
— A neve deixou tudo lindo por aqui…
— Verdade. Devia nevar mais vezes em Karakura. O Toushirou podia fazer nevar em suas visitas… Seria engraçado ele fazer nevar até no Verão.
— No Verão?
— Sim. Odeio calor.
Não era mais desconfortável conversar acerca do albino, era até agradável, para ambas. Um momento tão belo e comovente, que por meros instantes as fizera esquecer da guerra que ocorria sob elas. Karin inspirou fundo o ar fresco, para em seguida o expirar com um riso aberto.
— Os problemas vão começar, parece que…
—…. Haverá geada.
Disseram as duas em simultâneo se recordando do mau humor de um peculiar albino, que sempre brigava com a incompetente de sua tenente, acerca de seus afazeres. Gargalhavam como se fossem amigas de longa data pela sintonia de suas palavras e pensamentos. No entanto, Momo parou de repente, observando com severidade Karin.
— O que foi?
— Karin… É que…
— O que aconteceu?
— Suas roupas…
Temerosa, a tenente apontou com o indicador para as vestes da oficial. E só nesse instante, compreendeu os olhares estranhos que lhe lançavam. A briga matinal de seu pai a fizera ignorar um detalhe importantíssimo! Estava andando, quase passeando, com o pijama que Rukia lhe oferecera com coelhinhos Chappy’s.
— Maldição! Tudo por culpa daquele velho!
Soul Society
A guerra ainda estava longe de acabar. O Esquadrão Zero fora obrigado a interferir contra os quincys. Muitas almas com menor poder espiritual tinham falecido com a batalha de reaitsus em sua volta. A pressão era forte demais para alguns aguentarem. Até para alguns tenentes podia ser difícil de suportar aquele cenário.
Os corpos caídos em nada diminuíram. Pareciam pó amontoado. Como se não tivesse fim… A Sociedade das Almas precisava de limpar a morte avassaladora que se implementou como uma peste. Apesar, que era uma ironia. Todos ali já tinham padecido anteriormente.
— Não percebo… Hinamori. Quando morremos não nos tornamos partículas espirituais que compõe a Soul Society?
— Sim, mas… Os quincys estão a roubar a reitsu. Estão a alterar o nosso funcionamento e assim… Os corpos são só cadáveres a atrapalhar nossos passos, nos fazendo tropeçar.
— Então… Significa que os quincys já sugaram o poder espiritual deles?
— Certo, antes de morrerem. Por isso não se tornaram parte da Soul Society. Dessa forma, ela também não se recompõem.
— Compreendo.
Se a okaa-san ainda fosse viva, talvez o ódio dos quincys não provocasse uma guerra…
A Kurosaki levantava as pernas exageradamente, evitando pontear alguns corpos caídos. Era uma questão de respeito. Não conseguia desprezar aqueles seres, mesmo que já estivessem mortos. Um dia estiveram vivos… Nem queria imaginar as torturas que eles foram forçados a suportar.
— Karin, cuidado!
A oficial só tivera tempo de avistar Hinamori chocar contra si e um raio azul, que estava a milímetros delas. O empurrão da tenente fez com que ambas se atrapalhassem e caíssem no chão.
— Droga! Meu pé! O que aconteceu?
— Nos voltamos a ver, querida shinigami.
Aquela voz... Não pode…
Cautelosas, as duas shinigamis se ergueram e, inconscientemente, encostaram as costas uma na outra. Uma medida de protecção enquanto encaram seus inimigos.
— Toushirou!
— Kira-kun!
Os olhares dos quatro se cruzaram, procurando requisitos do passado. Algo que mostrasse a essência de cada um, que ainda habitasse neles. Porém, o único que encontraram foram os olhos negros e as mãos marcadas pelo sangue dos derrotados.
Karin colocou instintivamente a mão no cabo de sua zanpakutou, “confie em sua zanpakutou”.
Seria este o fim dos shinigamis?
Fale com o autor