A História de Karin
32 Capitão que coordena o gelo
Notas iniciais
Por vezes, existe uma amizade tão forte, que se prolonga por várias vidas. Às vezes, surge um amor tão poderoso, que percorre universos. O que acontece com um shinigami quando, eventualmente, ele morre?
Será que pode-se realmente morrer de novo? Ele não estava morto para começar? Existe uma Soul Society para aqueles que sucumbem na Sociedade das Almas? Ou na realidade, a vida é, metaforicamente, uma roda que nunca termina, destinada a girar por toda a eternidade, como uma reciclagem de almas mortas em novos corpos, com uma nova vida, um novo rosto, um novo nome?
Se alguém perguntar à maioria dos moradores de Seireitei essa questão, eles suspeitariam que essa mesma pessoa sofreu alguma lesão mental na última briga que tivera com algum oponente, e talvez que deveria deslocar-se para a Quarta Divisão para receber o devido tratamento.
Ninguém jamais conheceu uma alma reencarnada. Isso é um absurdo. No entanto, para onde essas almas perdidas se dirigem posteriormente? Haverá uma segunda Soul Society desconhecida? Haverá seres diferentes, superiores aos shinigamis, por descobrir?
Antes da vida, não da morte… Antes de Karakura, houve Rukongai. E todos os aldeões acreditavam que Hitsugaya Toushiro tornou-se num shinigami por Hinamori Momo. Os fundadores e os apoiantes dessa teoria, não estavam nem perto da verdade. Quem é na realidade a garota de cabelos negros que mudou a vida do actual jovem capitão?
O albino vagueava clandestinamente sob a neve, comandando o gel, que esvoaçava tranquilamente sob o vento, na esperança de o levar até Karin. Como se através de seus flocos, seu corpo também ele se cristalizasse e fosse redirecionado até à pequena Kurosaki.
— Estás condenado, shinigami. Sua alma será devorada por mim.
Hitsugaya sentia a agradável brisa remexer em seus cabelos rebeldes, ignorando completamente o hollow interior. Estava farto daquela companhia macabra e irritante, sempre o tentava deprimir e rebaixar, por isso se deslocou para aquele lugar gélido e ventoso. Onde parecia que seu poder estava conectado com o de Karin, e isso o aliviava de algum jeito estranho, porém aprazível. O inimigo mortal dos shinigamis, uivou de cólera quando reparou que seus comentários já não tinham o mesmo impacto e potência de antigamente. Medroso, constatava que o capitão aumentava seu poder e influência, e isso era reflexo de ele conseguir manter-se mais tempo no comando agora em seu corpo.
— A pensar naquela morena, “Toushirou”?
— Para você é Capitão Hitsugaya, hollow.
— Quanta sensibilidade… Se eu possuísse o corpo da shinigami, já poderia chamá-lo desse jeito?
O capitão riu discretamente sarcástico, surpreendo seu parasita que repensava sua fala, analisando onde pudesse ter dito algo que direccionasse à comédia involuntariamente.
— Qual o motivo da piada, shinigami?
— Como se aguentasse permanecer no corpo da Kurosaki.
— Pela reaitsu que senti, ela não era assim tão forte, um mero lixo como todo o shinigami.
— Temperamento muito forte para alguém como você suportar.
— Ora, ora… Presunçoso, senhor capitão, então e você aguenta?
Novamente, o albino sorriu de canto com a pergunta, não respondendo, finalizando assim a conversa. Apesar de a resposta ser óbvia. Afinal, ele era considerado um prodígio. Lidar com uma Kurosaki, seria árduo, porém bastante prazeroso.
O dragão de gelo apareceu ao lado de seu mestre e mecanicamente lhe mostrou inúmeras imagens, relatando e revelando uma história peculiar. No fundo, era sua própria história com a Kurosaki. Toushirou sorriu, não estava tão surpreendido com aquele conto surreal que mais parecia de algum deus superior, do que propriamente com sua ligação com a morena.
Um shinigami, ceifador de almas considerado um deus da morte, têm diferentes dons. Ou especialidades diferentes. Muitos tinham em mente um ídolo, desejando se igualizar ao mesmo. E quem sabe o ultrapassar um dia. Na Sociedade das Almas, por esta estar bastante hierarquizada, mesmo todos sendo deuses, haviam alguns que se consideravam superiores e por isso a existência e permanência dos ídolos e divindades.
Contudo, Karin não queria ser seu irmão mais velho; que poderia ser considerado o herói desta, ela queria encontrar seu próprio lugar na Soul Society. Ela criou sua própria história, em como conseguiu de facto encontrar seu caminho particular e sua vida pessoal.
O cabelo alvo era camuflado pelo temporal. Como se o seu portador fizesse parte daquele clima insuportável para a maioria. Empunhando sua zanpakutou, treinando para se abstrair, recordou-se de quando conheceu a Kurosaki de uma forma característica. Contornados por circunstâncias inimagináveis, depararam-se no que podia ser considerado uma trapaça do Fado. Eles sempre tiveram uma relação invulgar desde o começo, porém era também única. Algo forma do normal de facto, mas especial.
O relacionamento deles nunca havia sido definido.
E desse jeito, clandestinamente, se apaixonou por uma humana. Apesar de ter negado fortemente os sentimentos que afloravam em seu coração. A morte que sempre é trágica, para ele foi a resolução de seus problemas. Por muito egoísta que isso soasse. Quando Karin adentrou no seu esquadrão cogitou que teria um sério dilema, que tudo desabaria numa eterna confusão. Contudo estava redondamente enganado.
Karin fora a brisa fresca que faltava em seu bantai.
De um jeito singelo, ela modificou e implementou novas rotinas aos seus dias enfadonhos. Ele se tornara shinigami para proteger os que o rodeavam, para controlar seu poder absurdamente enorme. Mas Karin lhe demonstrara que um shinigami também podia manter sua essência humana. Ele não estava morto, estava vivo, sempre o esteve… Mas precisou dela para o acordar para essa mesma vida.
Hyourinmaru assistia seu mestre desferir imensos golpes contra o vazio, no alto do céu, uma serpente singularmente azulada, rodopiava em sincronia com as imensas nuvens. Quando este perdera suas memórias, ele lutou, procurando encontrar aquele que durante tantos anos convocou anteriormente. Quando encontrou seu mestre, aquele a quem revelou seu nome, finalmente não estava mais cercado por sua solidão. O dragão de gelo ficara satisfeito por encontrar o caminho para casa. No entanto, seu mestre agora estava sem rumo, sem conseguir retomar para o seu lar. E podia enxergar, através de seus ataques fatais e gélidos, que seu senhor se sente só. A solidão apertava e consumia aquele que comandava os céus.
Entretanto ele sabia que essa situação era temporária. E como os humanos afirmavam: retomar a casa, era voltar onde o coração sempre esteve.
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