A História de Florai

1 Capítulo 1 ao Capítulo 5


1.

Era outono, e apesar do clima estar esfriando aquele dia estava realmente quente. As ruas do reino estavam desertas porque era dia do Rei Imperador escolher as pessoas que seriam sacrificadas em seus estranhos rituais. O Rei não media esforços para conseguir o que queria e isso aterrorizava bastante a população escrava, eles poderiam muito bem se rebelar contra as condições de vida em que eram submetidos, porém não havia resistência, o Rei era aliado às forças ocultas e as criaturas que dominavam a Dimensão X. Todo o miserável comércio estava fechado e, como se entendessem o que poderia acontecer, nem os cães abandonados ousavam perambular pelas ruas tortuosas e cheias de perigo daquele lugar.

Próximo a um templo abandonado dedicado ao Demônio Interplanetário, havia uma jovem com as roupas simples e rasgadas caminhando. Ela se chamava Beatriz e era uma órfã de rua. Apesar da pouca idade Beatriz já havia vivido muitas experiências ruins morando na rua e não temia ser escolhida pelo Rei, na verdade ela sabia que nunca seria escolhida, pois seu sangue não teria nenhum valor para os rituais do Imperador.

Beatriz tinha seus 18 anos e estava caminhando em busca de algum alimento caído no chão ou até mesmo de um pequeno animal para matar sua fome. Seus olhos negros estavam atentos a qualquer indicio de comida, ela então parou em frente a uma espécie de açougue e começou a vasculhar no lixo que estava lá fora algum resto dos animais lá comercializados. Achou uma fina carcaça de um Ilusionário, um animal que cria ilusões nas pessoas para se alimentar de suas vítimas, e sem pensar começou a comer com voracidade, explorando cada pedaço de carne que restava na pequena carcaça. Com a mão desocupada ela arrumou seu embaraçado cabelo castanho para trás a fim de evitar que ele viesse a atrapalhar seu momento de alimentação, na situação em que se encontrava Beatriz parecia um animal qualquer nas ruas do Setor Agonia.

Após se alimentar, a garota ficou em pé e ajeitou a postura e as precárias vestes revelando assim um belo corpo para alguém que não possuía nenhum tipo de cuidado. Seus seios fartos eram camuflados pela roupa larga que usava, ela não se incomodava com a situação em que estava. Foi para a ponte acima do rio de veneno que separava o Setor Agonia do Setor Tormento e começou a pensar em tudo na sua vida e naquele lugar.

Beatriz era frustrada com sua situação. A Dimensão X era um lugar de sofrimento e ela não entendia o motivo dos deuses ou qualquer coisa que havia criado todo o universo terem feito um lugar tão mesquinho e desprezível. Pensava na miséria em que reinava no local, na forma em que o Rei ditava as ordens do lugar. No fundo do seu coração ela possuía o forte desejo de fazer toda a diferença no mundo, se ela tivesse a oportunidade sem sombra de duvida iria ajudar a todos daquele lugar, iria libertar o seu povo de todo o tipo de maldade que dominava seu lugar. Lembrou dos boatos que havia nessa dimensão, boatos de um portal que levava para a Terra, um lugar numa outra dimensão completamente livre e sem criaturas infernais, ela não sabia como era as pessoas de lá, não sabia se havia outro tipo de maldade lá ou se realmente esse portal existia, mas a Terra era um local em que ela sonhava conhecer. Apoiada na ponte ela estava perdida em pensamentos e não notou que estava na hora do sol se por. Ela sabia que a noite os perigos de lá eram piores e decidiu se apressar a ir para o seu esconderijo.

No caminho percebeu que estava sendo seguida e acelerou mais ainda seu passo, temeu olhar para trás e começou a suar frio.

- Meus deuses, se é que vocês realmente existem não permitam que algo aconteça- fez essa pequena prece sem esperar que fosse ouvida. Com sua visão periférica pôde perceber que era um soldado do Rei e temeu ser a escolhida.

- Moçinha, pare imediatamente ou invocarei os cães assassinos!- O soldado possuía um tom arrogante na sua voz. Beatriz se lembrou dos corpos das pessoas mortas pelos cães assassinos e temeu muito, sem pensar parou- Boa garota, você é esperta e prudente, sem dar um pio me acompanhe agora!

A garota esticou os braços para ser algemada e começou a caminhar ao lado do soldado, seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela lutava consigo mesma para engolir o choro e não demonstrar fraqueza para o soldado. A medida que iam andando ela podia ver o enorme palácio do Rei surgir e ela começou a observar o seu mundo por uma ultima vez, sabia que nunca mais iria ver aquele lugar novamente. O soldado então passou a levá-la para um caminho perpendicular, era um beco deserto a quadras do castelo e a dizer:

- Garotinha, se pensou que seria levada ao Rei saiba que hoje é seu dia de sorte, você não é digna e seu sangue não vale nada para os rituais, mas tenho uma boa noticia... Felizmente para saciar meus desejos sexuais eu não preciso de um sangue bom, qualquer uma com uma linda grutinha entre as pernas serve — E começou a passar a mão em todo o corpo de Beatriz.

- Pare com isso, por favor – Seu pedido de súplica só instigava mais ainda os desejos carnais do soldado – Não quero, não aceito, por favor... NÃO – Gritou.

Porém seu grito apenas serviu para que o covarde soldado colocasse algo tampando a boca da jovem e sem piedade rasgou suas roupas deixando ela completamente nua.

- Minha pombinha, a festa vai ficar melhor quando meus amigos chegarem – O tom de maldade que saiu essa frase fez a Beatriz temer mais ainda o que poderia acontecer. E como se fosse um chamado, outros dois soldados apareceram no beco abandonado.

Já estavam com seus órgãos enrijecidos e prontos para o ato e sem piedade estupraram a pobre garota, os três soldados pareciam estar aproveitando cada momento e cada pedaço daquele belo corpo de uma menina de rua. Sem possuir nenhum respeito por ela além de molestar, eles agrediram ela alegando que pessoas de rua não eram dignas de nenhum respeito. Após a humilhação completa, eles deixaram Beatriz caída no beco completamente nua e ferida. Sabiam que ela nada poderia fazer e por isso saíram rindo e humilhando ela com pontapés e cuspes.

- Adeus minha linda garota, você nos deve um agradecimento. Nunca nenhum homem irá querer te comer novamente, faço questão de te usar sempre que eu tiver afim – disse o primeiro soldado que a havia prendido.

Beatriz, sozinha, permaneceu deitada no chão e se entregou as lágrimas. Pensou na gravidade que seria caminhar a noite e nua pelas ruas do Setor Tormento e por isso preferiu se arrastar para o canto do beco onde acabou adormecendo.

2.

Em seu descanso, Beatriz estava sonhando com o dia em que ela finalmente passava pelo portal que a levaria à Terra. Era uma sensação tão boa para ela poder sentir o ar puro daquele lugar, diferente do cheiro de medo e morte que assolava seu reino. O verde tão vivo tomava conta das praças acompanhado de crianças brincando e casais de namorados que declaravam o amor, entrava em contraste com o que ela vivia na Dimensão em que ela vivia onde havia gritos constantes e as pessoas viviam em constante medo e terror. Porém sua visão começou a ser manipulada e havia sangue em todo o lugar, a Terra não era assim. A jovem tentou gritar mais uma vez, porém sua voz não saía, ela fechou os olhos com muita força e percebeu que era um pesadelo e que estava sendo atacada pelos infernais MOUX’s.

Dormir não era fácil, pelo menos para Beatriz, pois todas as vezes que seu subconsciente relaxava e ousava sonhar ela era vítima de outra criatura daquela dimensão: os MOUX’s. Esses pequenos seres eram menores que uma unha, os corpúsculos redondos com as pernas desproporcionais e as garras com que se conectavam a mente da pessoa atacada além de possuir um olhar bem sério. Seus ataques consistiam em entrar na mente das pessoas para bagunçar os pensamentos e fazer brincadeiras zombeteiras. Não se alimentavam da vítima, apenas se divertiam.

Beatriz deu um grito e começou a esmagar todas as criaturinhas que atacavam ela. Após de livrar dos monstrinhos, a jovem situou onde estava e lembrou-se do que aconteceu pouco antes de seu breve sono, ainda era noite. Na ponta do beco havia alguém, Beatriz só pôde ver a sombra da pessoa que lá estava, e segurou a respiração.

- Olá? Tem alguém aí no fundo?- Disse a pessoa que, com a voz, revela-se do sexo masculino.

O rapaz começou a adentrar o beco com cautela, como se esperasse um ataque de alguém ou algum animal. Foi quando no cantinho viu a garota completamente nua, havia sangue na região da genitália, ela estava com os olhos cheios de lágrimas esperando outro ataque. Ao entrar no campo de visão de Beatriz ela viu que era outro soldado, mas apenas pelo olhar dele ela percebeu que era alguém diferente, mesmo assim não hesitou:

- Por favor, vá embora. Vá embora ou me mate de uma vez. Só me deixe em paz e sozinha – Ela falava num tom de desespero enquanto nitidamente podia se perceber que ela segurava as lágrimas.

- Mas é claro que não! – O rapaz foi direto, porém sua voz demonstrava uma sincera preocupação – Olhe seu estado garota, tome a minha blusa para se cobrir enquanto levo você até sua casa.

- Por favor, vá embora, não faça esse joguinho que vocês, soldados, amam fazer com as garotas desse reino.

- Sim, vou embora assim que eu deixar você em segurança em seu lar, você sabe o quanto é perigoso ficar pelas ruas? Não devia estar aqui até essa hora – o soldado cobriu a jovem com a blusa dele – você foi atacada por qual criatura?

- Aquela de sua espécie – Beatriz começou a perder o medo dele, pois a voz dele passava realmente segurança, mas ainda mantinha uma distancia de segurança – E alguns MOUX’s...

- O que fizeram com você? Pode confiar em mim, venha – Ele esticou a mão para ajudar a garota a se levantar – Vou te levar para a sua casa.

- Eles me estupraram e os MOUX’s bem, você já sabe o que eles fazem – Ela decidiu dar um voto de confiança, mas ainda assim pegou um caco de vidro e o escondeu na blusa do rapaz para caso ele viesse a agir diferente.

- Idiotas! Faremos uma denúncia e prometo justiça a você, me chamo Rodrigo. Você mora no Setor Tormento ou no Setor Agonia?

Eles começaram a caminhar e à medida que a luz melhorava Beatriz pôde perceber o quanto o soldado era bonito e diferente dos que a atacaram. Ele era forte, possuía o cabelo escuro e estava desarmado.

- Meu nome é Beatriz, e eu não tenho casa, fico pelas ruas... Não se preocupe, sei me virar bem – A jovem não queria que Rodrigo sentisse pena dela

- Mas é claro que não! Digo... Não posso permitir que você fique na rua sozinha, você poderia ir para a minha casa se quiser, é claro – Ele estava tentando ganhar a confiança dela.

- Não sei se seria uma boa ideia, na verdade nem sei se posso confiar em você – Ela estava com medo, mas um pouco instigada a conhecer mais o rapaz que se mostrou prestativo.

- Sem problemas, te faço companhia na rua até amanhecer então, mas sozinha não vou te deixar – Seu tom era decidido e Beatriz percebeu que não adiantaria nada discutir com ele mas gostou da atitude de carinho.

- Tudo bem, você ganhou, aceito ir com você, não me decepcione – Disse sem pensar

- Dê-me um voto de confiança, sei que sou um dos únicos a lhe estender a mão nesse inferno em que chamamos de reino – Rodrigo falou isso e deu um sorriso, era realmente bela a forma em que seus olhos se fechavam quando ele sorria.

A intuição de Beatriz de certa forma sabia que ele estava falando a verdade e ela o seguiu, passaram pela ponte que ligava os Setores e foram em direção a casa de Rodrigo.

A casa de Rodrigo era muito simples, na sala havia apenas um sofá velho e alguns quadros de uma mulher que fez Beatriz supor ser alguma familiar do soldado. Assim que entraram ele pediu ela para se sentar enquanto buscava as roupas de sua falecida mãe para que ela usasse:

- Logo ali fica o banheiro, se limpe bem e tome um pouco de água que fica em cima da mesa da cozinha, é do lago de Sangue do dragão, a água de lá pode ajudar a curar e pode melhorar os ferimentos – Acompanhou ela até a porta do banheiro e se retirou para deixar a garota a vontade.

Quando entrou ela viu que lá era bem simples também possuía uma simples pia com uma escova um tanto quanto descabelada e uma pasta de dente que parecia não conter mais creme dental, um vaso sanitário, que apesar de não possuir tampa, estava muito limpo e cheiroso. Despiu a blusa que Rodrigo lhe passou no beco e ligou o chuveiro. Havia tanto tempo que ela não tomava banho que aproveitou cada segundo, afinal, não sabia quando seria o próximo.

Após o banho ela vestiu uma calça jeans e uma camisa de um tecido que ela não soube identificar, mas que caiu muito bem em seu corpo. Ao sair do banheiro viu que Rodrigo estava sentado aguardando ela com a água para ela beber.

- Beba tudo e descanse, amanhã iremos conversar sobre o que fazer sobre o estupro e seu destino tudo bem?

- Você está sendo fantástico comigo, mas nem me conhece porque está me tratando tão bem? Não seria mais simples para você me deixar?

- Sim, não te conheço mesmo. Eu quis te ajudar, pois assim estou cumprindo uma promessa que fiz a minha mãe no leito de morte dela. Quero te ajudar, mas não vou forçar nada, você que decide se vai querer minha ajuda ou não – Ela percebeu que ele tinha que conter as lágrimas ao falar sobre a mãe.

- Tudo bem, me perdoe – Ela estava de certa forma agradecida a mãe de Rodrigo por fazê-lo prometer isso, nada daquilo estaria acontecendo se não fosse essa promessa e ela estaria na rua ainda.

- Sem problemas – O sorriso encantador voltou — Vou levar você para o quarto que irá dormir.

Beatriz o acompanhou e viu que havia apenas uma cama, uma luminária e uma cômoda no quarto de Rodrigo, na cômoda havia outro porta retrato com a mãe de Rodrigo e alguns manuais da organização em que o rapaz trabalhava chamada de A Defesa.

- Onde você irá dormir? Não quero atrapalhar você – A garota mal podia acreditar no quanto ele era prestativo com ela.

- Não se preocupe Beatriz, irei caçar alguns Ilusionários agora e encher as garrafas com água do lago de Sangue do dragão e deitarei na sala. Não irei dormir tão cedo, qualquer coisa me deito no sofá. Você é minha convidada e quero te tratar da melhor forma possível – Rodrigo deu um beijo na testa dela apesar de Beatriz estranhar o ato e saiu do quarto.

Sozinha no aposento ela olhou para a cama e esta parecia cantar uma linda canção hipnótica, induzindo Beatriz a deitar, como nunca havia acontecido ela se sentiu confortável naquele lugar e teve uma sensação de segurança. Deitou e ficou observando a mãe de Rodrigo, os olhos azuis da fotografia parecia de uma deusa a zelar pela paz no ambiente. Beatriz não resistiu e se entregou ao sono, dessa vez sem medos e com uma sensação de tranqüilidade, estava tão cansada que sequer sonhou.

3.

O conforto que a cama de Rodrigo havia proporcionado para Beatriz foi tão grande que a jovem não teve noção do tempo e despertou somente no horário do almoço. Ao sair do quarto, ela percebeu que a casa estava tomada por um aroma saboroso de comida, não conseguia definir o que era pois não sentia um cheiro de comida fresca há muito tempo. Com certa timidez, Beatriz chegou na cozinha e se deparou com Rodrigo de avental e sem camisa, ele estava de costas para a porta e isso fez com que a garota reparasse em como era forte e musculoso o dorso do rapaz, Beatriz se manteve em silencio enquanto observava como ele agia, a forma como manuseava a faca instigava, inconscientemente, a menina. De forma instintiva ele se virou e viu que ela estava observando ele.

- Eeer... Ei, digo, bom dia – Disse a garota um pouco sem graça – Acho que dormi demais.

- Bom dia! Não preocupe, você conseguiu descansar bem? Algum barulho incomodou? Juro que não foi minha intenção... Vem, vamos comer e conversar sobre o que ocorreu – Beatriz notou que Rodrigo estava bem nervoso ao falar.

- Fique tranqüilo, o tratamento que você esta me dando é algo que nunca tive desde que moro nas ruas – Falou em um tom tranqüilizador

Os dois sentaram um de frente para o outro na pequena mesa circular, e o soldado colocou muita carne no prato da garota, era nítida a forma estranha que ele estava agindo.

- Está tudo bem? Você me parece nervoso – Disse Beatriz mostrando preocupação.

- Não é nada demais, complicações na hora da caça, mas não vem ao caso. Mas precisamos conversar, o que aconteceu com você foi um absurdo, não acredito em soldados que devem zelar pelo bem e justiça agindo assim, temos que tomar uma atitude para que não aconteça nada parecido novamente.

- Como tomar atitudes se sou mulher e não posso me voluntariar para a Defesa? Muito menos tenho condições de pagar um treinamento de auto defesa e nem sei onde fica o portal para a Terra e muito menos se esse portal realmente existe e...

- Calma – Foi interrompida – Eu não iria sugerir algo se não tivesse pensado em algo. O Grande Conselheiro pode ajudar você, ele mora nas Colinas da Vanguarda Estelar, fica a 2 dias de caminhada seguindo pela rua do medo, no setor Agonia. Chegamos lá e procuramos saber quem são esses soldados e assim podemos denunciar e ter justiça. Acompanho você se quiser.

- Não irei atrapalhar seu serviço como soldado? – Perguntou a garota com os olhos iluminados de emoção pela atitude de ajuda do rapaz.

- Soldado? Eu não sabia que... – Rodrigo cortou seu próprio raciocínio e logo falou – Pensando em voz alta, não será problema, podemos partir agora mesmo, o que acha?

- Claro, vou só arrumar a cama. É o mínimo que posso fazer por você que esta sendo tão gentil comigo – Beatriz levantou e deu um beijo na bochecha do rapaz e mais uma vez estranhou porque ele estava extremamente gelado.

Beatriz estava de costas para a porta do quarto e sozinha e mal percebeu Rodrigo entrando. Ele pulou nela de uma vez e começou a esganá-la. A garota não teve reação porque além de perder o ar não podia acreditar que o soldado que foi tão bondoso com ela estava atacando sem mais nem menos. Amaldiçoou-se por ter confiado em alguém e jurou em silencio que se saísse viva de lá que jamais confiaria em alguém novamente.

A medida que a vida ia se esvaindo dela seu olhar cruzou com o de Rodrigo e ela percebeu que não havia carinho ou misericórdia. Estava se movimentando com dificuldade mas para se livrar das mãos pesadas do soldado decidiu arriscar e pensou em atacá-lo também. Soltou a mão que tentava impedir o enforcamento das mãos do agressor e lhe deu uma unhada no olho o que fez, por reflexo, Rodrigo soltar o pescoço e de imediato chutou sua barriga, deixando o rapaz sem ar.

- Maldito! Eu sabia que não deveria ter confiado em você! – Disse a garota massageando o pescoço enquanto saia correndo do quarto e ia em direção a cozinha.

- Sua vagabunda, vou te matar e ofertar seu coração num ritual! – Murmurou Rodrigo com ódio nas palavras enquanto se recuperava para perseguir a garota.

Imediatamente ao chegar na cozinha, Beatriz pegou a maior faca que viu e preparando-se para atacar foi surpreendida com um tapa no rosto que lhe jogou imediatamente no chão. A força de Rodrigo não era humana, apesar disso ela estava sendo rápida em seus movimentos, rolou, pulou e se esquivou de alguns ataques e entre um ataque e outro do agressor Beatriz não pensou duas vezes e esfaqueou-o na barriga, imediatamente a imagem dele tremeluziu.

De repente não era mais a imagem de Rodrigo lá e sim de uma das criaturas completamente deformada. Possuía duas cabeças, os braços eram diferentes e desproporcionais, o tronco era feminino e estava completamente nu. O ser estava sentindo muita dor por causa da facada e não atacou novamente, Beatriz com nojo afastou um pouco e perguntou.

- Quem ou o que é você?

- Aquele que tudo é e tudo pode ser, aquele que quase te enganou, aquele que não devia ter subestimado os dons de uma vadia de rua, sou o Metamorfo 666. A criatura mais perfeita que pode se transformar em qualquer ser que quiser. Agora venha cá, preciso de seu coração, juro que farei isso ser menos doloroso possível – Metamorfo 666 estava com muito sangramento e tentou golpear Beatriz porém uma ira tomou conta do corpo da jovem que partiu pra cima da criatura e lhe golpeou com mais duas facadas, uma na coxa e outra nas costas.

- Desgraçado! Você me enganou todo o tempo! — Sem pensar e dominada pelo ódio e pela frustração ela lhe golpeou mais uma vez, quando o monstro caiu, e com ódio colocou a faca no pescoço da criatura que soltou um gemido de misericórdia.

- Só um instante, poupe-me, preciso de um coração para o ritual...

- Diga então o porquê ter feito isso comigo? Porque não me matou simplesmente naquele beco? Por que fez questão de me enganar? – Beatriz ainda mantinha a faca no pescoço do monstro.

- Rodrigo não te enganou, ele estava caçando quando eu o abordei, tentei negociar você com ele mas ele não aceitou e por isso eu o ataquei.

- Ele está morto? – Beatriz pressionou com mais força a faca na garganta do Metamorfo 666.

- Sinceramente, creio que sim. Liberta-me e juro que procurarei outra pessoa para o ritual, preciso de um coração feminino...

- Não permitirei que você mate outra pessoa, você matou a única pessoa que se importou comigo...

E em meio as lágrimas Beatriz cortou o pescoço da criatura e continuou esfaqueando o corpo mesmo depois dele estar sem vida, depositando toda a sua raiva e frustração.

Após se recompor a jovem estava muito confusa, não sabia o que fazer nem para onde ir. Pensou um pouco e concluiu que arriscaria mesmo ir atrás do Grande Conselheiro em busca de respostas. Beatriz não sabia se era verdade o caminho para as Colinas da Vanguarda Estelar pois era mistério para a maioria da população sobre o templo do Conselheiro. Juntou alguns alimentos que estavam na cozinha e saiu da casa, ela não queria estar lá quando o Metamorfo 666 se autocurasse. Próximo a casa de Rodrigo ela sentiu vontade de procurar por ele e fazer um sepultamento justo mas temeu entrar na floresta e jurou que não confiaria em mais ninguém, só lamentou mentalmente a perda do suposto amigo e foi em direção a rua do medo se lembrando do poucos e bons momentos que teve com Rodrigo.

Atravessar a rua do medo era uma tortura psicológica que havia no setor Agonia. Beatriz chorou quando viu seus medos aparecendo para ela como se fossem reais, seu pai lhe abandonando, a imagem do frio e da fome que sempre sentia, quando as crianças tacavam-lhe pedras, viu até o dia anterior quando foi estuprada por fim viu o Metamorfo lhe perseguindo e arrancando seu coração.

Após passar pela rua do medo, sua viagem seguiu quase tranqüila, exceto pelo susto que tomou quando viu os soldados do Rei acorrentando a filha de um camponês para levar ao Supremo. Seguiu pela área da floresta pois era mais fácil para se esconder. Para dormir se deitava próxima as arvores onde poderia se camuflar com as folhas caídas.

Foram dois dias de intensa caminhada até avistar as colinas e subir incansavelmente a grande escadaria até se deparar com uma caverna e um bilhete:

“Olá meu amiguinho, você está realmente preparado para me ver? Creio que não, olhe seu estado... Entre na caverna, alimente-se e descanse, quando seu coração ordenar vista a túnica da santidade e inicie a subida, nada deves temer aqui a não ser o seu futuro.

O.S.”

Beatriz tentou se convencer que era uma armadilha, mas o lugar lhe dava uma incrível sensação de paz que ela não resistiu, entrou na caverna e aproveitou para descansar um pouco.

4.

Dor. Era essa a palavra que definia tudo o que estava sentindo, não tinha forças para abrir os olhos, e seus músculos estavam adormecidos. Com certo esforço, apalpou em sua volta e sentiu a mão passar sobre algo muito úmido. Abriu os olhos e tudo estava embaçado, aos poucos toda a região em volta foi tomando forma e conseguia ver apenas sombras, deduziu que era muito tarde. Pensou em gritar por socorro pois se algum soldado estivesse fazendo ronda provavelmente iria lhe prestar ajuda. Ao abrir a boca percebeu que a garganta estava extremamente seca e que o som emitido não poderia ser ouvido a muitos metros dali. Como ultimo recurso uniu as duas mãos em forma de concha e mergulhou-as no liquido que estava a sua frente, sem pensar bebeu. Instantaneamente após o primeiro gole sentiu uma amenizada na dor que sentia e a medida que ia saciando sua sede sua mente ia se recordando dos últimos acontecimentos antes de apagar na beira do lago. Apesar do ferimento, Rodrigo não estava morto.

Sentiu-se com muita sorte porque o lago Sangue de Dragão tinha efeito curativo e quase ninguém sabia disso, foi algo que ensinaram no quartel. Levantou e já podia sustentar seu peso sem cambalear muito, tomou o caminho de sua casa enquanto ia refletindo sobre o que aconteceu. Lembrou da forma feminina e esbelta que o Metarmorfo 666 tinha se transformado para lhe convencer a matar Beatriz. Após uma discussão um forte golpe foi o suficiente para lhe apagar, odiou a covardia da estranha criatura em atacar um homem desarmado e alem disso matar uma garota inocente.

O que surpreendeu Rodrigo é que quando entrou em sua casa tudo estava perfeitamente normal. Um apetitoso aroma que saía da cozinha abraçava-lhe e ao entrar na cozinha viu Beatriz, ela estava exalando sensualidade e deu um sorriso muito cativante para ele.

- Você esta aí. Pensei que algo havia acontecido a você. – disse a garota com uma ternura na voz que cativou o intimo do seu ser, torceu para ser verdade, já não era mais segredo Rodrigo estava se afeiçoando muito a Beatriz.

- Está tudo bem mesmo? Acho que o Metamorf.. – Rodrigo estava agindo com cautela pois a situação estava tranqüila demais. Havia algo de errado.

- Apenas feche os olhos. Tudo será rápido – Beatriz o interrompeu com certa sedução e indo em sua direção ao mesmo tempo que começava a tirar as roupas.

Era uma situação perfeita porém havia motivos para não se entregar aos braços da linda garota e sentir seus corpos numa perfeita sintonia. Numa ultima tentativa de testar se tudo era real, Rodrigo fechou com força os olhos e afastou seus pensamentos para algo completamente fora do contexto em que estava inserido no momento. Nesse momento pode sentir uma fisgada na perna.

Abriu rapidamente os olhos e ainda estava na floresta sendo atacado por um bando de Ilusionários. Mesmo com dor chutou os que estavam próximos dele e correu. Lutando mentalmente contra as ilusões que as criaturas estavam criando. E dessa vez sim, no mundo real, correu para a casa.

Ao abrir a porta se chocou com a imagem que se deparou. Havia uma poça de sangue e estava tudo bagunçado, contendo as lagrimas temeu que o pior havia acontecido com Beatriz. Não sabia qual atitude deveria tomar e não havia ninguém para dar respostas. Nesse momento sentiu que uma corrente de ar passou por ele e imediatamente decidiu. Iria ao Grande Conselheiro para obter respostas e não pensou nas conseqüências que essa atitude traria ao seu emprego como soldado do rei.

Rodrigo entrou no seu quarto e rapidamente fez alguns curativos nas feridas que mais lhe incomodavam, após trocar de roupa foi à cozinha acendeu o fogo e numa silenciosa oração ofertou ao Grande Conselheiro um pedaço frio de carne em prol do bem de Beatriz.

Saiu de sua casa, foi ao lago armazenar mais líquido para a viagem que faria e dessa vez agiu com cautela para que não fosse mais atacado por alguma criatura estranha da floresta. Não sabia ao certo o caminho para as Colinas da Vanguarda Estelar mas seguiu sua intuição e foi em direção a rua do medo.

5.

Estava tudo bem na caverna e nos sonhos de Beatriz, havia uma energia extremamente positiva no lugar. Ao acordar, a garota analisou o ambiente e notou que alguém havia passado no local porque no pé da cama tinha uma roupa diferente e deduziu que era a túnica da santidade, ao lado da roupa havia um pão que possuía um cheiro exótico com um aspecto de pão comum. A jovem não sentia fome porque estava ansiosa para conversar com o Grande Conselheiro, mas forçou a alimentação, pois sabia que após a alimentação iria demorar mais para comer novamente. Retirou sua roupa e colocou a túnica, não havia espelhos no local para avaliar como estava, mas ela tinha a sensação que a veste ficava folgada em seu corpo como um saco de batatas, conseguiria se infiltrar facilmente com os sacerdotes se usasse aquela roupa em outros lugares. Beatriz já estava na entrada da caverna quando fez uma pequena prece:

- Se existe mesmo alguma criatura superiora que zela pelas pessoas, que ela me proteja e que não permita que o meu passo seja uma cilada.

Deu o primeiro passo em uma escadaria gigantesca, havia centenas ou talvez milhares de degraus forjados na montanha. Eles subiam, desciam, passavam dentro das montanhas num caminho que parecia infinito. Certo momento Beatriz encontrou corpos em decomposição no canto e próximo aos corpos, na parede, escrito com sangue: “ELES PERDERAM A FÉ DURANTE A ESCADARIA DA INICIAÇÃO”. Após passar pelos cadáveres a atmosfera do caminho foi ficando escura, como se o Grande Conselheiro estivesse testando a fé da garota, que seguia firmemente sem aparentar nenhum sinal de mudança ou cansaço, ela estava realmente determinada a conversar com a criatura.

Em certo momento começou uma chuva muito forte e os corpos começaram a tornar parte da escadaria e em cada um deles havia a frase sobre a perda da fé. A garota não sabia quanto tempo se passou desde o início da caminhada ou se estava de dia ainda, era impossível saber naquele momento.

Após algumas horas, os degraus acabaram e Beatriz estava em frente uma pinguela que parecia que iria ceder e arrebentar no primeiro passo da jovem. A madeira estava muito suja de sangue e nas faixas iniciais da madeira havia outra frase escrita novamente com sangue: “AS ALMAS DELES ERAM BARULHENTAS DEMAIS PARA ENFRENTAR A PONTE DO SILÊNCIO. NÃO PERCA A FÉ.”. A garota começou a caminhar e a cada passo a pinguela parecia mais instável e balançava com mais intensidade, não era possível olhar para o chão, pois estava em um lugar muito alto, com certeza não havia como se salvar de uma queda. Caminhou cerca de 300 metros quando pisou em uma madeira podre. A perna da jovem mergulhou no vazio, apesar disso não havia risco dela cair, ela ficou com a perna presa e ao forçar para tirar se feriu. Ela olhou para algum ponto aleatório nas montanhas que cresciam fortemente nas proximidades e gritou:

— SE PENSA QUE SOU COMO OS OUTROS QUE DESISTEM VOCÊ ESTA ENGANADO. VAI TER QUE PIORAR SEUS JOGUINHOS, CONSELHEIRO!

Não obteve nenhuma resposta e prosseguiu na sua caminhada. Logo após andar mais 400 metros, Beatriz saiu da ponte e deu de cara com uma barreira que marcava o fim do caminho. Ficou irada, e se agrediu para ter certeza que não era uma ilusão ou miragem. A barreira estava intacta e, como de costume, alguns corpos empilhados no canto.

- Não acredito que o final é aqui! Há algo de errado – exclamou a garota. Beatriz acalmou sua respiração e começou a raciocinar, analisou os cadáveres empilhados e pelo estado em que se encontravam, a garota deduziu que haviam sofrido uma queda. Para se certificar do que teria que fazer, a jovem decidiu tirar os corpos da base para procurar alguma frase e, de fato, ela encontrou: “A LIMPEZA DA ALMA NÃO É POSSIVEL QUANDO OS PENSAMENTOS ESTÃO NAS COISAS MUNDANAS. SUA FÉ NÃO IRÁ LHE SALVAR NA ESCALADA DA PURIFICAÇÃO”.

Beatriz fez um breve alongamento para poder escalar a barreira, suspirou fundo, procurou desligar sua mente de qualquer pensamento ou memória que pudesse atrapalhar sua escalada. Iniciou. Num primeiro momento, estava tudo bem, ela manteve firmemente focada, mas parece que algo estava realmente querendo testar a jovem porque a chuva parou e uma forte ventania começou. Ela ignorava qualquer mudança ou fator climático e mantinha-se firme, nem mesmo o momento que se desequilibrou ela demonstrou alguma emoção.

A persistência da jovem foi tanta que em pouco tempo ela já havia alcançado o topo.

- Não sei, mas acho que convenci alguém. Sério devo ser a primeira pessoa a subir aqui...

Olhou para a esquerda e viu uma espécie de tirolesa primitiva feita com folhas e cipós e temeu. Beatriz sabia que estava sendo testada e não quis mostrar que estava abalada nem pensar muito. E assim o fez, amarrou os cipós em volta de si e se lançou do topo da montanha. Seus movimentos foram tão rápidos e automáticos que ela não leu a frase “A DESCIDA DA LIBERTAÇÃO NÃO GARANTE SUA SALVAÇÃO”.

Estava escuro e ela não pôde ver qual o caminho que a tirolesa estava fazendo quando o cipó arrebentou. A queda não foi mais que três metros e então Beatriz se permitiu gritar um palavrão. Nem acreditava que estava viva, pois pensou que seu acreditar não tinha sido o suficiente e que o Grande Conselheiro tinha cansado de jogos e resolveu matá-la. Levantou e olhou para a ponta da montanha que não estava longe e avistou um pequeno templo. Seu coração se encheu de esperança que a garota se levantou imediatamente e começou a correr para o caminho em espiral que levava para o templo quando tropeçou em algum corpo.

Beatriz se culpou por não ter se situado no local que estava cheio de corpos destruídos, não por um acidente ou queda, mas sim por um ataque.

- Merda! Merda! Isso não é um bom sinal. – Falou com os dentes cerrados e começou a movimentar lentamente, mas já era tarde. Beatriz estava cercada por uma criatura que ela nunca tinha visto, só ouvido boatos da periculosidade desses seres. Eram os Karazefras, seres que tinham inúmeros chifres na cabeça, um bico de alguma ave lotado de dentes de tubarão, a pele da caixa torácica era transparente que essa possível ver o fluir de seu sangue.

Os seres rosnavam como cães para a garota que imediatamente pôs-se a correr para a trilha que levava ao templo. As criaturas perseguiram e algumas conseguiram morder a perna da jovem. Beatriz corria numa velocidade que nunca havia experimentado e seu foco era o templo que ela nem prestou atenção nas inúmeras escrituras e desenhos sagrados que tinha no chão, as histórias lendárias sobre a Dimensão X e alguns demônios.

Ela estava em vantagem do bando, mas um mais astuto Karazefra agarrou a perna da garota que se arrastou para a escada do templo, assim q sua mão tocou o degrau, a criatura se soltou e fugiu, o bando se escondeu nas sombras como se alguém houvesse ordenado que parassem o ataque. Com dificuldade, Beatriz subiu a pequena escadaria e parou em frente às portas do templo.

Ao abrir as portas, uma luz cegou a jovem que teve que tampar seus olhos com a mão para se acostumar com a claridade. O interior era gigantesco e não era proporcional ao tamanho que o templo parecia visto de fora. Havia 6 pares de pilares brancos com pinturas primitivas, certas profecias e desenhos e um tapete dourado que levava até o centro do templo. Lá no meio, no altar, estava um gigantesco trono e sentado uma criatura que exalava sabedoria.

- Seja bem vinda, Beatriz das ruas, você é digna de estar aqui. Ajoelhe-se perante o Oráculo Selvagem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.