A História de Como Salvamos a Terra
4 Arco 1 - O Azul que Nutre com a Força [Capítulo 3]
Notas iniciais
Estávamos realmente ferrados. A casa estava cercada. Pelas gretas das tábuas que protegiam as janelas consegui contar pelo menos umas vinte delas e mais iam chegando.
— Alguma estratégia? — Falei ao voltar para a sala onde Cassandra estava.
— Eu queimo, você cura. — Ela disse. Colocando o resto de alimento que ela tinha guardado dentro de uma mochila.
— Esse é o seu grande plano?
— Não ouvi você sugerir um melhor.
Respirei fundo. As vezes ela me tirava do sério, mas as chances de sobreviver sem ela eram menores, precisava suportar.
— Vamos lá. — Ela se levantou e colocou a mochila nas costas. — Vou abrir caminho com as chamas, você protege a retaguarda.
— Ok. — Respondi. Peguei a minha barra de ferro.
Fomos até a porta dos fundos. Cassandra averiguou o perímetro por uma fresta. Parecia estar limpo. Então abriu a porta e saiu, a segui. Assim que saímos percebemos a presença de duas das criaturas. Uma estava no telhado da casa, atrás de nós e a outra sobre o muro esquerdo. Cassandra disparou um jato de chamas contra a que estava no muro, ela saltou sobre nós e pousou sobre o muro do lado oposto. Nesse meio tempo a que estava atrás também saltou, só que em nossa direção. Me joguei sobre a Cassandra e a fiz se abaixar no momento em que a criatura passava sobre nós, se desequilibrava e caia sobre um grupo de latas de lixo logo à frente.
— Sai de cima! — Ela protestou e me empurrou para o lado.
Nos levantamos rapidamente e nos pomos a correr. Passando pela lateral da casa direto para a rua. Sabia que provavelmente seria nosso maior arrependimento, mas lutar para escapar ali seria melhor que dentro da casa ou encurralados no quintal.
Como esperávamos a rua estava lotada daquelas coisas, posicionadas em círculo, bloqueando todos os caminhos.
— Pronto para um pouco de ação? — Cassandra falou ao se virar para mim ostentando um sorriso desafiador.
— Você só pode ser louca. — Falei demonstrando não possuir o mesmo senso de aventura que ela.
— O mundo é dos loucos, amigo. — Ela disse se voltando para encarar seus adversários. — O mundo é dos loucos...
Avançou feroz contra as criaturas, gritando enquanto fazia suas chamas jorrarem como se não tivessem fim. Diante da agressividade dos ataques as criaturas começaram a se afastar e desfazer o cerco. Era a nossa chance.
— Rápido! — Gritei às costas dela, apontando para um espaço recentemente aberto que dava para uma rua logo à frente.. — Por ali.
Corremos. Cassandra primeiro, usando as chamas como escudo e eu vigiando a retaguarda. Uma das criaturas até tentou se aproximar de nós por trás, mas eu estava preparado. Ela saltou, girei para o lado e desferi um golpe na cabeça dela, de cima para baixo. Mas não foi suficiente para nocauteá-la. Cassandra se virou a tempo de ver a criatura caída no chão, girar seu corpo e estender seu braço em direção a meu peito. Ambos percebemos o movimento, mas não havia tempo para reagir, então senti o toque e no mesmo instante a mão da criatura explodiu em uma nuvem de pó e todo o seu corpo gradativamente, do local do toque até a ponta de sua cauda.
Não esperamos para processar o que havia acontecido, seguimos caminho. A rua em que entramos era estreita, o que impediu que um grande número delas nos seguisse pelo chão. E eram bem burras, porque superlotaram o espaço no ímpeto de conseguir nos pegar. Isso atrasou uma parte delas, mas outras, que tiveram o caminho bloqueado decidiram saltar sobre as casas e nos perseguia sobre os telhados.
— Que merda foi aquela? — Cassandra perguntou enquanto corria ao meu lado.
— Não sei… — Falei pensativo. — Aparentemente minhas habilidades impedem que elas possam me tocar também.
— Isso é bom. — Ela falou com malicia no olhar. — Agora posso usá-lo como isca sem sentir remorso por isso.
— Que!? — Ela apenas riu e apertou o passo.
Seguimos correndo sem olhar para trás. Nosso objetivo era chegar ao centro da cidade, encontrar um meio de transporte funcional que nos permitisse fugir mais rapidamente e seguir até o abrigo em que meus pais estavam. Durante o percurso Cassandra repelia as criaturas que ousavam se aproximar mais, para impedir que saltassem sobre nós. Estávamos a poucos quarteirões do centro quando uma explosão sacudiu as construções à nossa volta. Uma onda de impacto tocou meu corpo e senti minha pele formigar e tive uma sensação familiar. Ocorreu relativamente próxima à nossa posição. Sabia disso pela nuvem de fumaça que subia em direção ao céu escarlate.
— Você sentiu isso? — Cassandra perguntou.
— Senti. — Respondi.
— Acho que deveríamos ir até lá.
— Tem certeza? Estamos realmente perto do centro agora.
— Essa sensação estranha que senti… — Ela disse pensativa. — Algo me diz que veio de um cristal… Quero dizer, senti algo semelhante quando fiz contato com o meu.
— Eu também percebi isso. — Falei. — Então… Você vai na frente?
Ela não respondeu, girou o corpo e correu na direção da nuvem de fumaça. Eu a segui. Em poucos minutos chegamos ao local. Era a rodoviária da cidade. Estava aparentemente vazia. Metade da construção tinha ruído e como se a destruição tivesse seguido uma linha reta, outras construções estavam igualmente avariadas. Também não encontramos criatura alguma no perímetro.
— Vamos entrar. — Cassandra nem esperou minha reação, apenas seguiu em frente.
Por sorte a entrada não havia sido bloqueada. Adentramos o enorme saguão da rodoviária. As lojas que ficavam no térreo estavam saqueadas. A área de desembarque, à nossa esquerda, estava arruinada. Então avistamos um corpo caído mais à frente. Corremos até lá e nos deparamos com uma garota. Aparentava ter a mesma idade que nós. Pele negra, seu longo cabelo cacheado em um tom de castanho se espalhava em torno de sua cabeça. Estava usando um curto short jeans, uma blusa amarrada em torno da cintura, camiseta regata branca estampada com o que parecia o desenho do crânio esquelético de um animal com chifres, provavelmente um touro, e estes estavam ornamentados com flores e outras coisas.Cassandra se ajoelhou ao seu lado e tocou o pulso dela.
— Está viva. — Disse. — Deve estar desacordada.
Ela deu um tapa leve no rosto da garota e ela acordou assustado, se sentando de sobressalto.Olhou em volta, possivelmente procurado pelas criaturas, como não as achou relaxou os ombros.
— Tudo bem? — Perguntei.
Só então ela pareceu perceber nossa presença e se assustou.
— Calma, estamos do seu lado. — Cassandra disse.
— O que aconteceu? — Ela perguntou, confusa.
— Esperamos que você pudesse nos dizer. — Falei.
— Ouvimos uma explosão, seguimos a nuvem de poeira resultante até aqui e encontramos você ai deitada. — Cassandra completou.
A garota ficou pensativa por um momento e então começou a falar.
— Eu ia viajar… voltar para casa… Quando tudo começou. — Ela se levantou. — Foi uma loucura. Aquelas coisas começaram a surgir do nada, uma delas caiu do céu logo no estacionamento dos ônibus e não teve cerimônia para vir atacar quem estava aqui dentro. Gente desesperada correndo para todos os lado… Eu subi pro andar de cima e entrei em uma das cabines de venda de passagens que estava aberta, fechei a porta e esperei… — Ela apontou pro alto, na direção de onde ficavam as cabines. — Imaginei que logo a polícia, exército ou alguma coisa do tipo viria para nos ajudar. Mas a ajuda não veio… Tempo depois tudo ficou muito quieto. Espiei pelo vidro e estranhei ao perceber que uma luz azul pulsante que preenchia todo o espaço. Tomei coragem, sai da cabine, me aproximei e vi do que se tratava. Havia um pequeno cristal flutuando sobre o chão e dele o feixe de luz subia e parecia atravessar o teto do terminal em direção ao céu.
Eu a observava atentamente enquanto relatava os acontecimentos. Já suspeitava o que ela diria em seguida, mas apesar disso, precisava ouvir mais uma vez para confirmar para mim mesmo que não fora coisa da minha mente, não agora que duas outras pessoas vivenciaram a mesma experiência.
— Aquele cristal mexia comigo, me atraia. — Ela continuou. — Avancei em sua direção e não resiste a tentação de tentar tocá-lo e nesse instante tudo pareceu ser absorvido pelo meu corpo como se eu fosse uma esponja. Assim que a luz sumiu as criaturas voltaram, prontas para a sua sobremesa, eu. Voltei a me esconder e tentei ficar assim o máximo que pude, mas estava sem comida e morrendo de sede, decidi que seria melhor morrer tentando sobreviver do que como uma covarde, então me arrisquei em busca de comida, mas as criaturas me acharam, avançaram contra mim, por instinto coloquei as mãos em frente ao corpo e um raio de energia azul saiu dela e destruiu tudo pelo caminho. — Ela encenava tudo enquanto contava — Foi tão potente que explodiu tudo e a onda de impacto destruiu as demais criaturas. Me senti fraca e tudo pareceu desaparecer à minha volta.
— Uau! Uma história e tanto. — Cassandra disse.
— Pois é… — Ela falou pensativa, ainda revivendo os momentos em seus pensamentos. — Mas quem são vocês e como chegaram até a aqui sem nenhum arranhão?
— Eu me chamo Jonas. — Falei, oferecendo a mão para um cumprimento.
— Alice. — Ela apertou.
— Essa é a Cassandra. — Falei.
— Cass! — Ela me censurou com o olhar.
— Então, Jonas e.. Cass. — Alice falou. — Qual o segredo de vocês? Porque depois de eu contar toda essa historia mirabolante não esboçaram nenhuma reação adversa. O que significa que estão de alguma forma familiarizados com o que contei. O que posso deduzir disso é que, ou vocês estavam escondidos aqui e presenciaram tudo ou possuem alguma referência de experiencias prévias. qual das duas é?
Fiquei impressionado diante daquele discurso. Seja quem fosse aquela garota, ela era esperta e bastante inteligente.
— Somo como você. — Cassandra disse. — Encontramos cristais também. Verde e vermelho. — Ela apontou para mim depois para si mesma.
— Não me entendam mal, mas preciso de uma prova. — Ela disse.
Vislumbrei um olhar desafiado vindo da Cassandra. Pelo pouco que havia convivido com ela já podia imaginar que aquela ideia de provar suas habilidades era extremamente tentadora. Foi o que ela fez. Estendeu as mãos à frente e preencheu o hall com suas belíssimas chamas avermelhadas.
Alice apenas observou calada. Seus olhos percorriam todo o corpo de Cassandra como se pudessem ver sua anatomia e analisava tudo. Quando a exibida retrocedeu as chamas o olhar analítico dela caiu sobre mim.
— Minhas habilidades não são tão impressionantes como as dela. — Falei, fazendo uma busca rápida com os olhos pelo corpo dela e localizei um corte, em seu braço direito. Não era nada demais, mas era suficiente para uma demonstração. — Posso? — Apontei para a ferida e estendi a mão.
Um tanto relutante decidiu depositar seu braço direito em minha mão. Pus a mão sobre o local da ferida e me concentrei, então a luz verde veio e quando removi a mão era como se nada estivesse lá.
— Interessante... — Ela estudou o próprio braço. — Suponho que agora seja a minha vez de provar que minha historia foi realmente real...
Ela se virou, em direção onde a estação já estava avariada, apontou a mão direita em direção aos escombros, fechou os olhos, respirou fundo e quando tornou a abrir pareceu que havia uma canhão de laser embutido em seu braço, porque um feixe de luz azul saiu dele e atingiu o alvo fazendo-o ser quase que totalmente pulverizado.
— Parece que minha teoria de que haja mais de nós seja realmente real. — Cassandra disse.
— Também acredito que seja possível. — Alice disse. — E seja lá o que for que esteja causando todo esse caos, suspeito que nossa existência seja uma forma de impedir que isso continue. Se assim for, há uma chance real de conseguirmos parar toda essa loucura se conseguirmos nos unir.
— E então, o que faremos? — Perguntei.
— Precisamos saber mais sobre isso. — Disse Alice. — Estamos no escuro aqui, conhecimento é sempre bom. Se esses cristais capazes de combater as criaturas estão sendo deixados para que sejam encontrados e usados para este fim, então alguém ou alguma coisa está promovendo isso e se pudermos descobrir essa origem conseguiremos entender melhor o que está acontecendo e encontrar os demais de forma mais fácil.
— Falar é fácil. — Disse Cassandra. — Como é que vamos fazer tudo isso?
— A ligação... — Falei. Era uma ideia que me surgiu de repente, não estava muito certo que seria possível, mas não custava tentar. — Consigo sentir que o poder dos cristais tem uma ligação uns com os outros... Se podemos sentir isso, imagino que seja ainda mais forte essa ligação com a fonte, com aquilo que originou todo esse poder.
— Faz sentido. — Disse Alice. — Só precisamos descobrir como acessar esse elo.
— Talvez eu tenha alguma ideia. — Cassandra disse.
— Ótimo. — Alice disse contente. — Vamos experimentar...
Ela começou a falar, mas parou subitamente. Seu olhar se perdia no céu ao longe. Acompanhei a trajetória e avistei do que se tratava. Em algum ponto da cidade, que eu suspeitava ser o centro, as nuvens se condensava, de forma estranha, se misturando como se algo causasse uma perturbação, então um raio caiu dela direto para o chão. Foi o raio mais poderoso que já vira. Não fora como aqueles filetes azuis de eletricidade de cortavam o céu, era escarlate e extremamente grosso. O impacto fez o chão vibrar até onde estávamos e o barulho foi tão alto que imagino ter sido possível ouvir até mesmo nas cidades vizinhas. E no instante em que tudo isso aconteceu os pelos do meu corpo se eriçaram e eu soube na hora que não era coisa boa. Senti frio, mas meu corpo estava quente e um imenso vazio no peito, como se meu pulmões tivessem sido arrancados e agora havia um imenso espaço extra. Olhei para as meninas e pela palidez em seus rostos estavam sentindo o mesmo.
Naquele momento eu soube que as criaturas tinha sido apenas o começo. Seja lá o que as mandava para cá e produzia toda essa desgraça, tinha planos muito mais sangrentos para nós.
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