Tatiane explicou o que queria dizer:

_Primeiro, ela mostrou o lado do Governo, fazendo com que você falasse com o líder deles nos seus sonhos. Depois, ela fez com que você sonhasse com o líder dos revolucionários.

_Mas eles não falaram nada sobre um plano._ Retruquei.

_Mas talvez ela mostre futuramente.

Eu suspirei, tentando achar algum ponto pra concordar com ela.

_Não faz sentido._ Falei. _Ela disse que devia ajudar Fernando. É isso que ela quer.

Ela olhou pro nada, considerando o que eu havia falado.

_Mas o próprio Fernando ainda não escolheu um lado._ Aquelas palavras me atingiram de um modo tão repentino que eu cheguei a ficar tonto. Eu arregalei os olhos, finalmente percebendo que a hipótese dela talvez fizesse sentido.

_Então, ela quer que eu ajude Fernando a escolher um lado?_ Perguntei, esfregando a mão na testa.

_Talvez._ Respondeu Tatiane, assentindo. _E talvez, depois que ele escolher, ela queira que você ajude o lado dele.

Suspirei, suando frio e tentando manter a calma. Aquilo estava ficando complexo demais.

_Vamos fazer o que precisamos fazer primeiro._ Falei, me sentindo irritado.

_Depois vamos achar as respostas dessas perguntas.

Aterrizamos na Bahia por volta de cinco horas da tarde. Assim que aterrisamos, explicamos para nossas mães o plano que havíamos orquestrado no avião. Assim que o fizemos, a mãe de Tatiane saiu do aeroporto imediatamente para cumprir a sua parte. Ela ia cuidar da parte do Tarot.

O resto de nós ia andar e procurar por algo que nos ligasse a fita. O problema era que eu não tinha a menor ideia do que seria esse algo.

_Em que parte da Bahia estamos?_ Perguntei enquanto andávamos.

_Em algum lugar de Salvador._ Disse Vitor, usando um tom de brincadeira.

_Você entendeu.

_Não sei. Você sabe, mãe?

A mãe de Vitor deu olhava ao seu redor, um tanto distraída.

_Acho que estamos perto do Farol da Barra.

Por algum motivo, eu senti uma leve dor na cabeça quando ouvi esse nome.

_Acho que devíamos visitar aquele lugar um dia._ Disse Tatiane. Percebi que ela e

Vitor também sentiram a dor.

_Concordo._ Disse Vitor.

Minha mãe e a mãe de Vitor começaram a conversar sobre a infância delas ou algo parecido (como elas haviam chegado nesse assunto?).

Continuamos andando até que chegamos em uma feira. Barracas estavam montados no meio da rua vendendo todo tipo de coisa. O cheiro de algo que eu achava que era óleo fervendo tomava conta do ar perto dali.

_Acho melhor irmos para o hotel esperar a minha mãe._ Disse Tatiane com uma careta no rosto.

Eu hesitei, sentindo que havia algo ali podia ser de nosso interesse.

_Anh, acho melhor continuarmos andando. Sabe, pra nos distrair enquanto esperamos.

Vitor e Tatiane me olharam, sabendo que aquilo era uma desculpa. Porém, me seguiram mesmo assim.

Se você está se perguntando como são as feiras da Bahia, eu digo: são dez vezes mais exóticas que qualquer outra feira em qualquer outro lugar. Em uma barraca, eram vendidas fitas e pulseiras de todos os tipos. Em outra, eram vendidas pimentas de todos os níveis de ardência (ou, pelo menos, era o que o vendedor dizia). Acho que uma pessoa de outro estado teria uma descrição diferente. Bem, essa é a descrição de um carioca, se querem saber.

Continuamos andando por algum tempo, de vez em quando parando para dar uma olhada em algo que nos interessava. Enquanto andávamos, eu lembrei do primeiro sonho que Fernando descreveu na segunda fita. O cenário que ele descreveu parecia um pouco com o lugar onde eu estava. Eu senti um arrepio na espinha quando pensei aquilo. Balancei a cabeça para afastar o pensamento, tentando ver mais as diferenças do que as semelhanças entre os dois lugares.

Quando senti um formigamento no lado direito do meu corpo, pensei que algo queria que eu fizesse o contrário. Olhei naquela direção e vi uma barraca vendendo camisas. O vendedor não parecia estar por perto, e ninguém parecia muito interessado nas camisas. Eu também teria ignorado mas... Bem, minha mãe dizia que eu precisava de camisas novas.

Olhei para Tatiane e Vitor. Eles não estavam olhando ao redor, preocupados com outras coisas. Andei em direção a barraca. Olhei em volta, pra ver se o vendedor aparecia, mas ele (se existia), não apareceu.

Dando uma olhada, percebi que havia apenas camisas azuis, pretas e brancas. Franzi a testa, lembrando do que Tatiane havia me dito no avião. Peguei primeiro uma camisa branca, esperando ter uma visão ou algo do tipo. Porém, nada aconteceu. Depois, fui na camisa preta, ainda esperando a visão, mas, de novo, nada aconteceu. Olhei pra azul, sentindo o nervosismo fazer minha respiração acelerar. E finalmente, quando a toquei, a visão veio.

Estava numa estrutura ampla, parecendo um depósito. Olhei para o lado, e Fernando estava lá, segurando uma granada na mão direita. À frente dele vinha vários homens, vestindo camisas pretas. Os Revolucionários, pensei, e me sobressaltei ao ver que Fernando também vestia uma camisa preta.

Ele parecia assustado, inseguro. A mão que segurava a granada estava tremendo.

_O que está esperando?_ Falei, me sentindo quase tão assustado quanto ele parecia estar. _Jogue a granada.

Como se tivesse me ouvido, Fernando puxou o pino e atirou a granada na direção dos Revolucionários. E, na hora em que a granada explodiu, a visão tinha acabado.

Tatiane balançava meu braço e Vitor olhava pra mim com uma expressão séria quando eu voltei a realidade.

_Lucas, o que houve?_ Perguntou Tatiane, ora olhando para mim, ora olhando para a camisa.

Eu balancei a cabeça, colocando a camisa de volta no lugar.

_Nada.

_Os seus olhos verdes dizem algo diferente._ Disse Vitor.

Antes que eu pudesse responder, o celular de Tatiane tocou.

_Alô? Oi mãe. Sério? Ok, me passa o endereço. Tá, estamos indo aí.

_Que foi?_ Perguntei, querendo desesperadamente sair de onde eu estava.

_Minha mãe achou o negócio. Disse que parecia diferente dos outros.

Nós três trocamos olhares nervosos. Vitor deu uma olhada para o céu, como se fosse a última vez que fosse vê-lo.

_Bem, o que estamos esperando? Vamos logo.

E nós três fomos, ao lado da minha mãe e da mãe de Vitor, até o endereço que a mãe de Tatiane havia dito.

Tivemos que esperar uma hora para sermos atendidos. Quando finalmente chegou a nossa vez, nenhum de nós parecia conseguir mover um músculo, de tanto nervosismo.

_Vocês querem que a gente vá com vocês?_ Perguntou minha mãe, com uma expressão de expectativa.

_Não._ Falei, enquanto nós três nos levantámos. _É melhor que fiquem.

Começamos a andar na direção da sala em que o "vidente" (perdoe-me se parecer um termo incorreto) atendia os seus "clientes" (mesma coisa de antes).

_Então, como vai ser? Vamos pedir a ele a solução para os nossos problemas, ou vamos ser apenas clichês ou perguntar a ele sobre nosso futuro?_ Perguntou Vitor, esfregando as mãos.

_Não sei._ Disse Tatiane, franzindo a testa. _Eu nunca fiz isso antes. Vocês já?

_Não._ Respondemos eu e Vitor, em uníssono.

_Bem, vamos só... deixar que ele faça o procedimento padrão, se é que isso existe._ Eu disse. Meus amigos assentiram, concordando comigo.

Chegamos a cortina, que servia de porta para a sala dele. Nós três entramos juntos. E quem vimos lá dentro fez com que eu congelasse na entrada.

_Ora, se não são três jovens._ Até a voz é igual, pensei. _O que fazem aqui?_ Perguntou o Governante, o mesmo dos meus primeiros sonhos desde que recebi a fita.