A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva

15 Fernando: A fuga rumo aos Revolucionários


Três horas da tarde, e a nossa reunião com o Governante estava prestes a começar. Saímos do quarto, e fizemos nosso caminho até a sala de controle. Estávamos nervosos demais pra falar, então eu revisei o plano na minha cabeça.

Encontramos o Governante na porta da sala de controle, nos esperando. Ele sorriu pra nós quando chegamos.

_Por favor, entrem!

Ele abriu a porta e deixou a gente entrar. Entramos no escritório dele, e vimos a porta da verdadeira sala de controle atrás de sua mesa.

“Não erre Jaqueline”.

Ele fez um gesto que indicava que devíamos sentar, e obedecemos. O Governante estava com um sorriso calmo, mas um olhar inquieto.

_Então, o que os três jovens fazem aqui?

Eu, Felipe e Letícia nos entreolhamos. E começamos a executar o plano. Nós três nos levantamos, Felipe e Letícia foram pra perto do Governante, e eu coloquei as mãos na mesa.

_Dê ordens para os portões se abrirem. Agora!_ Eu disse.

A primeira reação que eu vi dele foi um olhar assustado, que por um milésimo de segundo ele assumiu. Mas logo ele se recuperou, e sorriu calmamente.

_Ah! Entendo._ Ele permaneceu sentado, com o rosto apoiado no punho. _Mas e se eu disser não. Pode ser três contra um, mas vocês são garotos, e eu sou um adulto.

Letícia abriu uma gaveta e tirou uma seringa de lá, cheia de um líquido vermelha. Ele não teve a reação que eu esperava.

_Imagino que saiba o que é isso._ Disse Felipe.

_Sim! Uma seringa.

A calma dele começou a me irritar.

_E quanto ao líquido que está dentro dela?_ Felipe reuniu o máximo de calma que tinha pra falar isso.

Ele riu quase que imperceptivelmente.

_Vocês tem um plano realmente bom, devo dizer. Um plano bom demais, nem parece que foi feito dois dias atrás, logo após a nossa conversa, pela sua querida amiga Jaqueline.

Eu retesei.

_Ela está arriscando tudo por você._ Ele disse, num tom claro de que estava tentando me irritar. _É incrível como ela é fraca. Em tão pouco tempo, confiar em uma pessoa como você.

_Ela não é fraca._ Cerrei os punhos e senti minha voz tremer.

Ele riu, dessa vez mais alto.

_Você é tão patético quanto ela.

_Ela não é fraca._ Eu bati na mesa, reunindo toda a minha força pra gritar. O Governante sorriu. _Você se acha tão esperto, não é? Nem parece a pessoa que teve seus planos frustrados por três eco sobreviventes de 15 anos!

Foi a vez dele retesar, mas de novo, não durou nem um segundo. Ele sorriu de novo. Aquele homem estava se tornando um inimigo pessoal.

_Espero que conheça o fato de que eu sei cada detalhe do seu plano.

Eu assenti.

_Então sabe que não precisa fazer nada do que pretende, não é?

Assenti de novo. Dava pra entender porque ele era o líder do Governo. Ele era poderoso, de todas as maneiras.

_Vamos fazer isso do jeito fácil. Amanhã de manhã, antes do refeitório, eu abro os portões e vocês vão embora sem serem percebidos._ Ele disse bem devagar, como se fôssemos crianças de cinco anos.

_Sério?_ Indaguei.

_Palavra de homem._ Ele sorriu.

Eu olhei pra Felipe e Letícia. Felipe deu de ombros, e eu fiz um gesto para fazer com que Letícia ficasse com a seringa.

_Então tá, Governante._ Eu disse.

Viramos de costas e fomos em direção à saída. Mas o Governante quis me lançar um último insulto, e o pior deles.

_Tão covarde quanto o pai.

Eu senti algo queimar dentro de mim. Um fogo puro, que tomava cada molécula do meu corpo. Eu peguei a seringa e a injetei no Governante. Só tem uma sensação melhor do que ver um inimigo poderoso com medo. Ver cada memória se esvair de sua mente, ver seus olhos desfocarem. Ele estava, mas sem identidade, sem memórias.

As luzes do Governo se apagaram. Eu gritei uma ordem pros meus amigos, pra gente entrar no subterrâneo. Corremos até a área próxima à saída, saímos do subterrâneo, e vimos o portão do Governo na nossa frente. Eu e Felipe o abrimos. Passamos pelo portão, mas antes que pudéssemos fugir, a voz de Jaqueline me chamou.

_Jaqueline!_ Eu falei, sorrindo e me sentindo aliviado. Eu torcia pra que Jaqueline saísse dessa sem ser descoberta. _Obrigado por nos ajudar, muito obrigado, não teríamos conseguido sem você.

_Não tem nada._ Ela disse, meio envergonhada e sorrindo também.

_Desculpe por te meter nessa confusão, me desculpe mesmo...

Ela me beijou, antes que eu pudesse dizer mais uma palavra. Tudo pareceu se dissolver a meu redor.

_Boa sorte, Fernando!_ E ela correu de volta pra dentro do Governo. Eu fiquei em transe por um segundo, até que Felipe me trouxe de volta à realidade.

_Temos que ir, conquistador.

Eu comecei a correr, seguindo Felipe e Letícia. Vi o Governo ficando pra trás, até se tornar apenas um ponto no horizonte.

E foi assim, a minha fuga do Governo.