Notas iniciais
Eu não sabia como era a prefeitura na parte de dentro, então inventei um pouco. Me desculpem se estiver tudo errado.

Eu estava no cenário descrito tantas vezes pelo cara da fita. O chão estava sujo e algumas das janelas estavam quebradas. Essas deixavam penetrar os raios solares no corredor. O lugar parecia totalmente vazio. Parecia melancólico. Se o cara da fita estivesse falando a verdade, quase todo o planeta estava assim.

De repente, um homem dobrou o corredor. Era careca, tinha a barba perfeitamente aparada e usava óculos. Usava uma camisa vermelha e calça jeans pretas. Ele olhou pra mim e disse:

_Garoto, você tem que nos ajudar. Ajudar ao governo de sua época a entender toda essa situação. Você pode nos ajudar no futuro. Só precisa sobreviver a tudo.

Eu fiquei incapaz de dizer qualquer coisa por um momento. Depois falei:

_Por que eu ajudaria vocês? Mesmo se isso tudo fosse real, por que eu deveria me importar?

O homem olhou pra mim com uma expressão de raiva.

_Você pode até pensar que não garoto tolo,_ Disse ele _Mas isso também é o seu futuro.

Um alarme soou e o sonho escureceu. Acordei suado e ofegante na minha cama, com o despertador do meu celular tocando, avisando que era hora de me arrumar e ir pra escola. Enquanto o fazia, tentei organizar os pensamentos. Aquele homem talvez tivesse razão. Se o cara da fita realmente existia, e vivia no ano de 2050, significava que aquele era o meu futuro. Decidi deixar esses pensamentos de lado por enquanto. Era mínima a chance de tudo aquilo ser verdade. Não tinha como uma fita flutuar pelo tempo e chegar até o passado certo? Além disso, o que estaria fazendo um gravador antigo no futuro? Deixei esses pensamentos de lado e fui para a escola. Infelizmente, algo parecia disposto a fazer com que eu focasse todo o meu tempo naquilo.

Era hora do intervalo na minha escola. Estava sentado em um banco com meu amigo e vi dois caras de terno e gravata parar algum aluno, perguntar alguma coisa para ele e quando recebiam a resposta (que todas as vezes parecia ser “não”) deixavam-no de lado. Isso se repetiu várias vezes. Finalmente perguntei pro meu amigo:

_O que será que estão fazendo?

_Sei lá._ Foi sua resposta. Parou um dos garotos que foi questionado e fez a mesma pergunta.

_Estão perguntando algo relacionado a um toca fitas. E qualquer coisa sobre uma fita que surgiu do nada.

Estaquei na hora. Será que eles estavam falando daquela fita específica? Será que alguém mais recebeu a fita e os notificou?

_Lucas? Você tá bem cara?_ Perguntou meu amigo.

_Sim._ Respondi. _Já volto.

Levantei-me e fui em direção aos homens. Eu não estava certo do que ia fazer. Mas, se eles estavam perguntando sobre a fita, era óbvio que sabiam alguma coisa. E aquela era a minha melhor chance de entender o que quer que estivesse acontecendo. Aproximei-me dos dois e cutuquei o ombro de ambos.

_O que quer garoto?_ Perguntou o mais baixo dos dois.

_Ouvi falar que vocês estão perguntando sobre uma fita. Uma fita que surgiu do nada.

_Está certo. Por quê?_ Perguntou o mais alto.

_Bem, eu tenho uma fita dessas. E eu a ouvi.

Os dois se entreolharam. O mais alto disse:

_Está falando sério garoto?

_Por que eu mentiria sobre isto?_ Franzi a testa.

Os dois suspiraram e o alto disse:

_Deixa pra lá. Apareça amanhã na praça com a fita e vamos conversar.

Pensei um pouco antes de responder.

_Ok_ Falei finalmente.

Depois da aula, fui imediatamente para o local marcado. A fita parecia pesada no meu bolso, mas tentei ignorar isso. Os dois homens já estavam lá, me esperando. Pareciam impacientes. O baixo perguntou:

_Está com a fita?

Tirei a fita do bolso e a ergui. Ele tirou, de um modo um tanto rude, a fita de minhas mãos.

_Bom dia pra vocês também._ Falei.

Os dois me ignoraram e olharam a fita com atenção. Depois, olharam pra mim, os olhos arregalados. O alto disse:

_Você precisa vir conosco.

_Por quê?_ Perguntei.

O baixo calmamente explicou:

_Você não foi o único que recebeu essa fita. Outras duas pessoas, mais ou menos da tua idade, apareceram com essa fita em mãos. Queremos descobrir o que está acontecendo, por isso estamos organizando algumas buscas nas escolas. Os dois casos foram parecidos. Eles receberam um toca fitas dos avós e, quando foram olhar, tinha uma fita com “M.E.D.O. 1” escrito. Precisamos de você.

Pensei um pouco. Aparentemente, eu realmente não fui o único a receber a fita. Então quantas mais receberam? Apenas três? E todos com casos parecidos?

_Ok_ Falei. _Vou ajudar vocês.

Os dois sorriram com satisfação. Me levaram até uma limosine preta, onde o motorista nos esperava. Eu não sabia para onde estávamos indo, mas eu confiei neles. Creio que, se quisessem me fazer algum mal, já teriam feito. Logo, fui reconhecendo para onde estávamos indo. No bairro onde ficava a sede da Prefeitura. Estávamos na Cidade Nova. Eu havia estado lá umas poucas vezes com a minha mãe, mas me lembrava de pouca coisa de lá. Soube imediatamente que, se estivesse sozinho, me perderia antes de dar o primeiro passo.

Chegando na Prefeitura, eles pediram para eu sentar em uma cadeira. Disseram que iam trazer os outros que tinham a fita. Alguns minutos depois eles voltaram, acompanhados de um garoto e uma garota. Me levantei e o Alto (cujo nome era Rafael) nos apresentou:

_Lucas, esses são Vitor_ O garoto me estendeu a mão e eu a apertei _e essa é Tatiane_ a mesma coisa aconteceu.

Estudei um pouco os dois. Ele era músculos e da minha altura. O cabelo era espetado e parecia ser bem mais velho, pois já tinha barba. Ela era um pouco mais baixa que eu e tinha cabelos loiros.

_Bem, vamos levar vocês até uma sala e vocês conversam sobre a fita, tudo bem? _ Disse o Baixo (que se chamava Carlos).

Todos assentimos e deixamos que nos conduzissem até a sala. Não se disse uma palavra até chegarmos lá. Ao chegar na sala percebi que ela era para reuniões ou algo parecido. Nenhum som externo entrava e nenhum interno saía. Três assentos estavam postos ao redor de uma mesa e, no meio desta, estava um toca-fitas. Rafael e Carlos nos deixaram lá, disseram para nós os chamarmos quando terminássemos e saíram, fechando a porta. Ficamos em silêncio por algum tempo, olhando para a porta. Finalmente, Vitor disse:

_Eaí? Quem quer falar sobre o futuro desastroso que a Terra provavelmente terá?