A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo
9 Lucas: Ganho um novo medo
Notas iniciais
Quase deixei o telefone cair no chão.
_O quê?_ Engasguei.
_Ela não estava viva._ Respondeu Tatiane. _Estava falando comigo. Estava igual a uma pessoa viva, só que... fantasmagórica.
Esfreguei a mão na testa. Estava trêmulo. Fiquei vários minutos em silêncio:
_Ainda está aí?_ Perguntou ela.
_Sim._ Respondi. _Você disse que ela conversou com você. O que ela disse?
Ela suspirou.
_Ela disse que o futuro da missão de Fernando dependia de nós, e o da nossa dependia deles._ Disse.
Franzi a testa. Dava pra entender porquê a nossa missão dependia deles. Mas por que o contrário também?
_O que mais?_ Indaguei.
_Disse que tem medo de que você se machuque.
_Como assim?_ Gritei, surpreso.
_Ela disse que tem acompanhado seus passos desde que você era pequeno. Sente que você e Fernando são muito parecidos.
Esfreguei a mão na testa de novo. Estava com os olhos arregalados.
_Mais alguma coisa?_ Falei com a voz trêmula.
_Não._ Ela respondeu.
Suspirei novamente. Depois, me despedi de Tatiane e desliguei o telefone. Comecei a sentir uma dor de cabeça muito forte. Uma sensação de cansaço começou a tomar conta de mim. Deitei na cama e dormi. Por sorte, não tive pesadelos.
Cinco dias depois, eu estava de volta a sede da prefeitura. Não havia acontecido muita coisa. Pensei que sempre que encontrava com minha professora de ciências na escola, os olhos dela deixavam de ser castanhos e passavam a ser verdes. Mas, fora isso, nada aconteceu.
Chegando lá, Rafael e Carlos me encaminharam de novo para a sala de reuniões. Vitor e Tatiane já estavam lá dentro. O toca fitas estava sobre a mesa.
Me sentei em uma das cadeiras, e Rafael fechou a porta. Ficamos alguns minutos em silêncio, até que Vitor decidiu colocar a fita para ouvirmos. Tatiane o impediu:
_Temos que falar uma coisa antes._ E olhou pra mim.
Suspirei. E contei tudo sobre o plano, o meu sonho, a professora de ciências e o sonho da Tatiane. Ela confirmou tudo.
_Espera._ Disse Vitor, quando terminei. _Por que eu não tive sonhos?
Franzi a testa.
_Sério?_ Indaguei.
Ele assentiu. Olhei pra Tatiane. Ela parecia meio assutada com aquilo. Eu entendia ela. Aquilo poderia significar mais problemas.
_Vamos pensar sobre isso depois._ Falei. _Por enquanto, só vamos nos concentrar no plano.
Vitor deu de ombros.
_Não sei se tem muita coisa o que descobrir. O governante falou, a mãe do Fernando falou, a professora de ciências maluca falou. O que falta a decidir?
_Bem, como fazer isso, talvez?_ Falei, erguendo a sobrancelha. _E como avisar aos nossos pais?
Ele bufou.
_Os meus vão concordar.
Eu e Tatiane nos entreolhamos. Havia um tantinho de pena na expressão dela. Suspirei. Então olhei pra ele.
_Ok._ Eu disse. _Vamos falar com eles sobre isso. E depois falamos com o governo. Agora, vamos acabar logo com isso. Coloque a fita para a ouvirmos.
Antes de abrir a porta da minha casa, respirei fundo. Assim que entrei, fui direto pro quarto, pegar a fita. Minha mãe apareceu na porta.
_Oi filho!_ Ela sorriu pra mim. _Como foi lá?
_Bem._ Falei. Contei a mesma mentira da vez anterior. _Precisamos conversar.
Ela franziu a testa e se sentou na minha cama.
_O que foi?
Suspirei.
_Bem, acho que devo começar com isso._ E mostrei a fita a ela.
Então as coisas estranhas começaram a acontecer. Os olhos da minha mãe brilharam na cor verde. Fico com uma expressão de medo, como se soubesse o que aquilo significava. E então desmaiou. Não tive sequer tempo de me desesperar, pois o telefone tocou. Estudei o número, mas não o reconheci. Atendi o telefone.
_Alô?_ Minhas mãos tremiam e minha voz falhava.
_É agora._ A voz do governante falou, um tanto rouca, do outro lado da linha.
Minha visão escureceu, minhas pernas estremeceram e eu desmaiei também.
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