A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo

4 Fernando: Uma reunião familiar animada


Felipe olhou pra mim como se eu tivesse acabado de dar-lhe um soco na cara.

_Como é?_ Disse ele.

_Eu quero ir pro governo_ Falei. _ O Governo vai continuar com os ataques enquanto resistirmos. Se eu for lá, menos pessoas irão se machucar. Além disso, não vai fazer diferença se a gente resistir. Uma hora, eles vão conseguir o que querem.

_Ok, então!_ Gritou ele. _Vá! Mas saiba que não terá a nossa ajuda! Vamos Letícia.

Letícia olhou pra mim com uma expressão de incredulidade. Mas eu não sabia exatamente do quê. Ela hesitou e olhou para o irmão. Depois, a sua expressão mudou. Ela estava com raiva.

_Eu vou com ele. _Falou.

Felipe se virou.

_O quê?_ Indagou.

_Ele tem razão. Se nós tentarmos resistir só vamos fazer com que mais pessoas se machuquem.

Ele cerrou os punhos. Depois disse:

_Olha Letícia, você sabe muito bem que, seja lá o que for que eles querem, não é coisa boa.

_Isso é o que nossos pais dizem_ Respondeu ela. _Mas eu quero descobrir a verdade Felipe. E não há nada do que você diga que vá fazer eu mudar de ideia.

Ele inclinou a cabeça para o lado, fechou os olhos e respirou fundo. Fiz um lembrete mental para não deixar ele com raiva. Depois de se acalmar, Felipe disse a Letícia:

_Ok, mas você vai ter que falar com os nossos pais sobre isso. E é melhor você vir também_ Murmurou ele, dessa vez pra mim. Ele se virou e desapareceu entre os arbustos.

_Não ligue pra ele._ Disse Letícia. _É sempre assim. Se encontra alguém que discorde com ele ou com os nossos pais, explode. Venha. Nossa casa não é muito longe daqui. Iremos chegar lá na hora do almoço, se tivermos sorte.

Franzi a testa.

_Eu preciso mesmo falar com os seus pais?_ Indaguei.

Ela franziu os lábios.

_Sim. Infelizmente, meus pais não irão gostar nem um pouco dessa ideia. Mas, se ouvirem de você, talvez minha mãe deixe.

E começou a andar. Segui ela com ansiedade e preparando argumentos mentalmente.

Como Letícia havia previsto, chegamos na hora exata da qual o almoço estava começando. Felipe havia chegado dez minutos antes de nós, mas não havia falado nada. Letícia fez as apresentações. O pai se chamava Pedro. Era careca, forte e bem alto. Soube imediatamente que os dois haviam puxado a mãe. Ela se chamava Erica. Tinha os mesmos cabelos pretos e olhos castanhos dos filhos.

Nos sentamos na mesa e começamos a pegar comida. Na mesa havia panelas com carne assada, purê de batata, arroz e feijão. Não era muita coisa, mas era delicioso. Quando todos terminaram, Erica perguntou:

_Então, Fernando, meu filho disse que você foi atacado hoje.

Assenti. Ela continuou:

_Também disse que você tinha um plano. Bom, nos conte, por favor.

Suspirei, procurando ficar tranquilo. E contei a minha ideia para eles. Assim que terminei, Pedro se levantou de um salto da cadeira.

_E você quer a ajuda dos nossos filhos para isso?_ Gritou

Assenti, me levantando também.

_É como eu disse senhor. Se a gente for, menos pessoas vão se machucar. Além disso, me parece que eles só estão sequestrando as pessoas pra tentar melhorar a situação do planeta.

_Você é maluco então. Eles não querem saber de salvar a Terra. São um bando de egoístas._ Respondeu ele.

Suspirei. No temperamento, ele era igualzinho ao filho (ou será que é o contrário?). Letícia também se levantou e disse:

_Pai, temos que tentar. Quem sabe eles mudaram? Muita coisa mudou nos últimos anos.

_Você também quer participar disso? Eu acho muito difícil que eles tenham mudado._ Rebateu.

Letícia e eu nos entreolhamos. Ela fez um sinal como se estivesse desistindo. Eu não sabia com ia argumentar com o pai dela. Felizmente, eu não precisei. Erica, que não havia falado nada desde que eu terminei de contar o plano, falou:

_Eu acho que ele está certo_ Para minha surpresa, ela apontava pra mim.

Foi a vez de Felipe se levantar.

_O quê?_ Indagou ele e o pai juntos.

Erica se levantou e calmamente falou:

_Deixe que eles descubram o que está acontecendo. O motivo desse rapaz é nobre. Você não pode dizer que ele não tem razão.

Pedro fez menção de falar alguma coisa, mas ela fez um gesto para que esperasse.

_Além disso,_ Continuou. _se dissermos “não”, Letícia vai ir com ele de qualquer modo. Você sabe que a nossa família não aceita uma opinião diferente da nossa e ela, por ser adolescente, irá não importando o que a gente ache.

Letícia fez um sinal de concordância. Eu quase aplaudi a mãe dela, mas fiquei quieto e esperei ela continuar.

_E tem outro bom motivo. Se eles forem lá, podem tentar libertar alguns eco sobreviventes que não querem colaborar._ Finalizou.

Pedro esfregou a mão no rosto e então deu de ombros. Obviamente, não desafiava a mulher em nenhuma situação. Se eu fosse ele, também não o teria feito. Ela parecia ter argumento pra qualquer coisa.

_Ok._ Disse ele por fim. _Mas o Felipe também irá junto para tomar conta da irmã.

_O quê?_ Perguntou engasgado.

_Concordo._ Disse Erica.

Felipe grunhiu. Letícia riu do desespero do irmão (e eu tenho de admitir que a cena foi engraçada).

_Eu quero que os dois preparem a mochila e descansem. Amanhã vocês vão partir._ Disse Pedro. _E você vai vir aqui amanhã, entendido?_ Se dirigiu a mim dessa vez.

Assenti. Ele fez sinal para que eu o acompanhasse até a porta. Segurou o meu ombro e falou baixinho:

_Olha garoto, não gosto nem um pouco dessa ideia. Se está se perguntando porque eu odeio tanto o Governo, é porque eu já trabalhei lá. Sei o que eles fazem e já fizeram. Eu não quero que você tire os olhos dos meus filhos nem por um segundo. Principalmente da Letícia. Ela sempre quis descobrir o mundo e isso pode a deixar meio afobada. Estamos entendidos?

Assenti nervosamente. Depois agradeci pela comida e fui pra casa preparar as minhas coisas. Peguei as minhas mudas de roupa, um pouco de comida, minha máscara e minha espada. Depois, deitei na cama e caí no sono.

No dia seguinte, lá estava eu, na casa de Pedro, esperando Felipe no lado de fora da casa. Só então percebi como era bem feita. Tinha dois andares e o andar de cima tinha duas janelas.

Letícia, que tinha chegado antes, disse:

_Meu irmão ficou irritado comigo ontem, como se fosse culpa minha. Não faço questão nenhuma de ele ir comigo, mas nem meu pai, nem minha mãe querem mudar de ideia.

Ela parou, obviamente pedindo uma resposta. Pensei um pouco antes de responder:

_Ele só deve estar preocupado. Não creio que ele esteja com raiva de você.

Ela fechou os olhos e suspirou.

_Não gosto nem um pouco do Governo também, sabe?_ Falou por fim. _Mas você tem razão. É o certo e tem de ser feito.

Fiquei feliz por ela estar tão dedicada nisso. Parecia estar mais dedicada do que eu. Afinal, ela tem os pais enquanto eu...

Afastei esse pensamento da cabeça. A única coisa que eu sabia sobre os meus pais é que me abandonaram assim que eu nasci. Fui criado por um eco sobrevivente que me ensinou tudo. Eu não o via desde os meus oito anos, quando ele fez uma casa pra mim. Disse que era a hora de eu me virar. E eu o fiz.

Finalmente, Felipe chegou. Estava com a lança na mão e um arco e flecha nas costas. Ele olhou para mim, depois para a irmã e disse:

_Vamos acabar logo com isso. Temos que ir para o sul, que é aonde a sede do Governo está. Venham.

E tomou a dianteira. Nós os seguimos para a parte de trás da casa onde Erica estava para dar um último “tchau” aos filhos. Depois disso, eu e meus amigos saímos para a nossa aventura.