A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo

8 Fernando: Sequestradores por todas as partes


Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo.

Felipe estava certo. Em três dias, nós havíamos chegado na cidade. Sem nenhum problema no caminho. Quem sabe não seja tão difícil assim, pensei.

Estava errado.

A cidade era totalmente diferente da floresta. Se na floresta o Sol brigava por um espaço entre as folhas, aqui ele tinha espaço de sobra pra brilhar. Tivemos que nos acostumar com a luz e depois que isso aconteceu, seguimos em frente.

Estava com a corrente ao redor do pescoço. Eu não sabia porquê, mas sentia que aquilo tinha alguma ligação com a minha mãe. Eu não tiraria ela por nada.

Decidimos procurar por suprimentos. Andamos pela cidade em busca de algum prédio que parecesse útil. Ficamos vários minutos procurando, até que finalmente achamos um. Bem, pelo menos parecia ser um lugar onde poderíamos achar algo. Era praticamente sem janelas, e as poucas que tinham estavam fora do nosso alcance. Deduzi que eram apenas buracos na parede, já que havia vidro quebrado por todo o chão. Tentei abrir a porta. Trancada.

_Legal._ Disse Letícia. _Vamos ter que procurar outro lugar.

_Não será necessário._ Falou Felipe. _Acho que consigo arromba-la. Parece que isso já teve dias melhores._ Bateu na porta com os nós dos dedos.

Ele se afastou e voltou com um ritmo acelerado para a porta e colidiu com ela com o ombro. A porta nem se mecheu. Ele tentou de novo. Nada.

_Precisa de ajuda?_ Perguntei.

Ele balançou a cabeça negativamente. Depois tentou mais um vez. De novo, nada.

_Tem certeza?_ Provoquei, erguendo uma sobrancelha.

Ele assentiu. E tentou de novo. Mesmo resultado.

Revirei os olhos e fiquei do lado dele. Preparei o ombro e comecei a correr para me chocar contra a porta. Felipe fez o mesmo. Dessa vez, a porta estremeceu. Mais duas tentativas e a porta cedeu e caiu no chão. Felipe caiu junto com a porta. Eu cambaleei um pouco, mas consegui manter o equilíbrio. Então, olhei para o lugar.

Tirando o fato de estar totalmente sujo, parecia em perfeitas condições. Havia mesas e cadeiras espalhadas aleatoriamente pelo locar. Havia um balcão mais pra dentro e uma cozinha. Um restaurante, pensei. Felipe examinou o lugar também.

_Uau!_ Sussurrou.

Letícia parou ao meu lado e disse:

_Então, o que fazemos agora?

_Procuramos por qualquer coisa que possa nos servir._ Respondi.

_Por exemplo?_ Felipe indagou.

_Comida, água, remédios... coisas assim.

Ele assentiu. E começamos a procurar. Fui pra cozinha ver se achava algo. Encontrei alguns alimentos que de alguma forma, estavam em perfeito estado. Porém, as torneiras estavam sem água. Ouvi Letícia perguntar:

_Essa cidade deveria estar tão abandonada?

_Não nessas condições._ Respondeu Felipe, em tom sombrio. _Quer dizer, o clima é suportável, tem uma floresta por perto e tem tubulação, o que significa que existia fácil acesso a água.

Concordei com ele. Mesmo com a tubulação seca, havia um lago próximo ao final da floresta. Só era necessário algumas pessoas irem lá e pegar.

Continuei a procurar algo. Um alçapão chamou-me a atenção num canto da sala. Abri ele. Parecia sem algum tipo de depósito. Não parecia que guardavam comida ali e sim... bem, não sei. Havia um plástico com algo dentro. Peguei o plástico e olhei dentro dele. Havia um gravador dentro dele e cinco fitas. Franzi a testa. Saí da cozinha e fui até onde meus amigos estavam.

_Ei, gente._ Falei. _Olha o que eu achei._ E ergui o gravador.

_Uau!_ Falou Felipe. _Meu pai falou sobre isso. Era usado em entrevistas antigamente sabe?

Assenti.

_O que você acha que faz aqui?_ Perguntei.

Ele deu de ombros. Depois apontou para a sacola.

_Bem, veio com fitas também, então, pode ser útil._ Falou.

Concordei com ele e coloquei aquilo dentro da mochila. Eu já ia voltar a cozinha quando um barulho repentino me deixou paralisado. Olhei para a porta. Pelo barulho, alguém estava correndo e estava perto do prédio. Peguei minha espada e coloquei minha máscara. Letícia e Felipe também pegaram suas armas. O barulho estava cada vez mais perto até que finalmente, um homem parou na porta, arfando.

Ele parecia um tanto debilitado. Tinha mais ou menos 25 anos, os olhos deixavam claro que não dormia a dias e ele tremia. O cabelo estava bagunçado.

_Me ajudem._ Disse ele. _Eles estão chegando.

Ele olhou para onde veio, e pude ver o porquê do estado dele. Barulhos de cascos vinha, ainda distantes, da direção de onde ele olhava. Cavalos, pensei. Não pode ser bom.

_Venham._ Falei.

Os três me seguiram até o alçapão. Abri ele e disse para que entrassem. Entrei depois de todos. Havia espaço para, no mínimo, mais duas pessoas ali.

Esperamos. O barulho estava cada vez mais perto. Quando finalmente chegou ao restaurante, ele parou. E então passos humanos e conversas tomaram conta do local. Uma voz masculina grave, porém jovial, falou:

_Vamos lá, pessoal. Procurem por aí. Ele tem de estar aqui.

Uma voz, também masculina, mas um tanto mais velha respondeu:

_Eu não entendo porque toda essa obsessão. Quer dizer, ele é apenas um cara comum.

A primeira voz pareceu ficar irritada:

_É por isso mesmo que temos de captura-lo. Essa gente é mais influenciável.

A segunda voz, parecendo amedrontada, falou:

_Ok! Acalme-se.

Então diversos passos foram para direções diferentes do prédio. Tentei me concentrar apenas nos que estavam na cozinha. Por sorte, nenhum parecia estar por perto do alçapão. E, mesmo que estivessem, não creio que nos encontrariam, pois a sujeira camuflava um pouco o local. Mas isso não impediu que meu coração quase parasse de bater quando passos vieram na nossa direção e parou exatamente encima do alçapão. Era a mesma voz de antes (que eu presumia ser do líder), só que agora falava com outra pessoa.

_Ele deve ter fugido. Já procuramos no prédio inteiro._ Disse uma voz feminina.

_Continuem procurando. Quanto mais pessoas, melhor._ Disse o líder.

_Olhe, precisamos descansar._ Disse a mulher. _Estamos nessa caça há dias. Temos pessoas suficientes.

O líder suspirou. Depois disse:

_Ok! Vamos.

E deu ordem para que todos se reunissem no lado de fora para voltar de onde vieram. Alguns minutos depois, ouvimos o mesmo som de antes, só que agora indo para longe de nós. Mesmo quando o som sumiu, esperamos ali vários minutos. Até que finalmente abri o alçapão e saí. Ajudei meus amigos a sair.

_O que era aquilo?_ Perguntou Letícia.

_Eram sequestradores._ Respondeu o homem. _Estavam tentando me sequestrar.

_Isso me parece meio óbvio._ Disse Felipe. _Quem é você?

_Me chamo Erick.

O nome dele não me preocupava.

_Esses sequestradores. Eles eram do Governo?

Ele balançou a cabeça negativamente.

_O Governo só usa camisas brancas. Não sei exatamente o porquê.

Franzi a testa.

_E esses sequestradores usavam...?

_Estavam de preto.

Assenti. Erick suspirou e disse:

_Olhe, eu tenho de continuar. Tenho que voltar para minha cidade. Precisam de alguma ajuda?

Olhei para os meus amigos. A expressão dos dois deixava clara suas repostas.

_Não._ Disse, o que o deixou meio decepcionado.

Ele assentiu e saiu do restaurante. Eu e meus amigos fomos para a porta, ver o homem sumindo no horizonte. Felipe perguntou:

_Por que vocês acham que o governo só usa branco?

_Deve ser tradição._ Respondeu Letícia, erguendo um ombro.

Um barulho me chamou a atenção. Percebi que estava pisando num papel. Peguei ele. Parecia um tipo de cartaz informativo.

_Anh, gente._ Falei, ainda olhando para o papel. _Acho que eu sei porque.

Eles olharam para mim, muito sérios. Mostrei o papel para eles. E falei:

_Eles estão nos dividindo por cor.