A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo

6 Fernando: Minha mãe pede desculpas


Notas iniciais
Mais um capítulo curto. Espero que gostem!

Durante a nossa caminhada, acertamos todos os detalhes do plano. Felipe dissera que se tudo desse certo, estaríamos no Governo em uma semana e meia, mas que estaríamos na cidade em três dias. Esperava que ele explicasse o que podia dar errado, mas ele não o fez.

Andamos por várias e várias horas. Vez ou outra, ouvíamos um farfalhar nos arbustos, alguns rosnados e asas batendo. Por via das dúvidas, saquei minha espada. Por sorte, nada atacou.

Quando começou a escurecer, decidimos parar para descansar. Abri minha bolsa e peguei algumas frutas para comer. Letícia fez o mesmo. Felipe simplesmente colocou um lençol no chão e deitou. Letícia franziu a testa e perguntou:

_Não está com fome?

_Não._ Respondeu.

A expressão dela deixava claro que isso não era comum.

_O que está havendo?_ Perguntou ela.

Felipe sentou-se e recostou-se numa árvore. Depois disse:

_Tirando o fato de eu estar nessa maluquice, não, não aconteceu nada.

Letícia revirou os olhos, suspirou e rebateu:

_Eu não pedi a sua participação, ok? Foi o pai que te obrigou.

_Se você não tivesse dado aquela maldita ideia, ele não teria me obrigado.

Os dois começaram a discutir e gritar. Eu pensei que, uma hora ou outra, algo iria aparecer para nos atacar.

_Ei, vocês dois, vamos parar!_ Gritei. _Olha Felipe, vamos fazer um acordo, ok?

Ele bufou em sinal de desdém. Mas assentiu. Eu disse:

_Se você não reclamar até chegarmos lá, assim que fizermos o que temos de fazer, vou deixar que bata em quantos caras quiser, mas também terá de deixar que eu assuma o comando, ok?

Ele ficou com uma expressão de surpresa. Quase pude ver as engrenagens da cabeça dele funcionando. Quando saí da casa dele, pensei em deixá-lo ser líder, pois ele sabia o caminho. Mudei de ideia porque ele ficava com raiva muito facilmente. Eu sabia que podia confiar nele, mas não podia deixa-lo como líder. Por fim ele aceitou a ideia. Alguns minutos depois, estava dormindo.

_Bom trabalho._ Disse Letícia. _Você conseguiu fazer um acordo com o inflexível.

_Você é exagerada demais._ Falei. _Ele só defende as próprias ideias com unhas e dentes.

Ela riu. Algo me incomodava nela. Decidi perguntar algo que estava na minha cabeça desde o momento do ataque:

_Por que você quis vir comigo? Por que você quer ir pro Governo? Eu quero o verdadeiro motivo.

Ela suspirou.

_Meu pai é preocupado demais, sabe?_ Começou. _Ele nunca me deixou ir pra muito longe. Na verdade, ele não gosta que eu saia de casa por muito tempo. Pelo menos, não com meu irmão. Eu queria sair, ver o mundo como ele é. Minha mãe estava certa. Eu fugiria de casa se recebesse um “não” do meu pai.

Eu não soube o que responder. Ficamos ali vários minutos em silêncio. Por fim, ela perguntou:

_E quanto a seus pais? Eu não os vi no dia em que você foi atacado.

Fiz uma careta.

_Eu nunca vi meus pais._ Comecei. _Eu não sei nada sobre eles. Bem, na verdade, tem uma coisa que eu sei. Ela era eco sobrevivente e ele era um cara do Governo.

Ela assentiu, mas não disse nada. Depois simplesmente deitou e adormeceu. Fiquei acordado para ficar de guarda. Felipe acordou pouco depois, dizendo que queria ficar de guarda.

_O que houve?_ Perguntei.

_Pesadelos._ Respondeu.

Não discuti muito quanto aquela decisão. Deitei e em poucos minutos adormeci. E tive um sonho mais real do que jamais teria naquela noite.

No meu sonho, eu estava no lago que eu ia beber água todos os dias. Estava literalmente nele, com a água na altura das coxas. Mas algo não parecia normal. O lago parecia mais... fantasmagórico. Percebi o que estava errado. Havia névoa no lago. Aquilo me deu arrepios.

Dei um pequeno passo para trás e ouvi um som metálico. Olhei para baixo e vi que estava pisando numa espécie de corrente. Franzi a testa. Eu não deveria ouvir aquele som, deveria? Quer dizer, não seria possível um som tão nítido ser escutado através da água, não é?

Não dei importância para aquilo naquele momento. Simplesmente peguei a corrente e estudei um pouco ela. Tinha um daqueles negócios onde você podia colocar uma foto. Abri aquilo e olhei pra foto que lá tinha. Era uma mulher. Tinha cabelos ruivos, olhos castanhos claros e um sorriso bem bonito. Olhar para foto me fez ter saudades. Mas eu não sabia exatamente do quê.

De repente eu ouvi um sussurro na minha cabeça. Uma voz de mulher dizendo “Desculpe, eu podia ter evitado”. A voz continuou a falar na minha mente, cada vez mais alta. E de repente tudo escureceu e eu acordei com a respiração trêmula.

Já era de manhã. O Sol estava brigando por um lugar entre as folhas. Letícia e Felipe já estavam acordados e estavam comendo algumas frutas.

_Dormiu bem?_ Perguntou Letícia.

Assenti. Apesar do sonho, me sentia totalmente descansado. Decidi comer também, mas, quando fui mexer na mochila, percebi que algo frio estava enrolado em meu dedo. Puxei para ver o que era, embora já soubesse muito bem.

Lá estava a corrente com a foto da minha mãe. E eu senti que a voz que pediu desculpas em meu sonho era dela.