A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo
14 Fernando: A ajuda do inimigo
Ele disse aquelas palavras esperando me animar (ou pelo menos, me deixar menos assustado), mas não conseguiu. Esfreguei a mão na testa, suando frio. Comecei a me sentir tonto e tive a sensação que ia desmaiar de novo, mas consegui me acalmar.
_Você precisa descansar._ Falou Letícia.
_Não._ Falei. _Não podemos ficar por mais um minuto nesta cidade. Temos que chegar ao Governo o quanto antes, lembram?_ Eu me levantei, mas imediatamente me senti tonto e caí no sofá.
_Você não vai a lugar nenhum nesse estado._ Bradou Mário. _Precisa de um bom cochilo e uma boa refeição, então poderá ir.
Eu ia discutir, mas Felipe pareceu perceber e disse:
_Cara, você não está conseguindo ficar de pé, e mesmo que conseguisse, está com o ombro seriamente machucado. Não vai poder usar a espada, caso formos atacados, se não descansar a droga do ombro.
Suspirei, resmungando alguma coisa sobre como eu era idiota por ter deixado aquele lobo morder meu braço. Mário ouviu isso, e disse:
_Veja pelo lado bom. Você poderia estar com o braço todo enfaixado, poderia estar sem o braço ou poderia estar morto.
Eu olhei para ele.
_É assim que se anima uma pessoa._ Falei, sem nenhum sarcasmo na voz.
Ele deu de ombros.
_Eu era sargento do exército do Governo._ Disse, com falsa modéstia na voz. _Era meu dever animar as tropas quando estavam desanimadas.
Felipe franziu a testa.
_Você conhece meu pai?_ Perguntou. _Pedro Marques?
_Ah, você é filho dele?!_ Mário abriu um grande sorriso. _Sabe, ele seria um bom sucessor depois que eu me aposentasse. Era um dos melhores soldados que já vi. Mas desistiu de tudo por causa da sua mãe. Virou um eco sobrevivente e foi morar na floresta. Não o vejo desde então. Como ele está?
_Ele está bem, obrigado por perguntar._ Disse Letícia, com um tom de irritação na voz. _Agora, podemos decidir o que vamos fazer?
Mário assentiu, um tanto envergonhado. Felipe olhou para mim, esperando ordens.
_Bem, não temos muita opção._ Falei. _Vamos dormir aqui e assim que acordamos, vamos continuar com a viagem. Tem problema se ficarmos por aqui, Mário?
_Claro que não._ Respondeu.
_Ótimo._ Falei, assentindo. _Pelo menos, temos um plano que não tem falhas, eu acho.
Eu pensei que não conseguiria dormir (de novo) naquela noite, mas assim que fechei os olhos, eu dormi. Sabia que não tinha dormido muito quando eu acordei, mas me sentia bem descansado. Felipe e Letícia ainda não haviam acordado, e Mário estava na cozinha, preparando algo que tinha um cheiro maravilhoso.
_Sugiro que lave seu ferimento antes de partir._ Falou, apontando para o meu ombro. _Pode tomar banho, se quiser._ E me jogou uma toalha. Agradeci e fui para o banheiro.
Tirei a faixa que cobria meu ombro, e pude ver o quão grave era o ferimento. Sangue seco e buracos feitos pelas presas do lobo cobriam quase todo o meu ombro. Fiz uma careta, pensando que nada poderia ser pior que aquilo, mas então me lembrei de Mário dizendo que eu poderia estar morto.
Após o banho, encontrei meus amigos acordados. Felipe estava sentado no sofá, olhando para o teto. Letícia estava colocando alguns pratos sobre uma mesa. Ela parecia totalmente cansada. Obviamente, não conseguiu dormir bem naquela noite.
Joguei a toalha no lugar ao lado de Felipe e me sentei na poltrona. Agora que havia me aproximado, percebi que Felipe estava com uma expressão assustada.
_Você está bem?_Perguntei.
_Não._ Respondeu. _Tive pesadelos.
Franzi a testa.
_E como foram esses pesadelos?_ Indaguei.
_Eu não me lembro de muita coisa._ Falou. _Mas tinha algo a ver com o meu pai, e fogo.
_Fogo?
Ele assentiu de um modo quase imperceptível. Me levantei e fui em direção a cozinha, para falar com Letícia. Ela olhava pela janela, parecendo estudar cada canto da cidade com um ar crítico.
_Como está o ombro?_ Perguntou quando me aproximei.
_Está incomodando um pouco._ Respondi.
Ela assentiu, ainda olhando pela janela. Ela realmente parecia cansada.
_Dormiu bem?_ Perguntei.
Ela balançou a cabeça e eu perguntei o por quê.
_Você me deu um belo susto, sabia?_ Disse ela. _Se eu não tivesse me distraído e deixado aquele lobo me atacar, você estaria com o ombro em perfeito estado agora.
Pensei um pouco antes de dizer algo.
_Não se sinta culpada._ Falei. _Poderia ter acontecido com qualquer um de nós.
_Não teria, não. E mesmo que tivesse acontecido com você ou Felipe, vocês poderiam se salvar sozinhos, sem precisar da ajuda de ninguém.
Ela olhou para o chão, com uma expressão de tristeza.
_Somos uma equipe, lembra?_ Falei. _Os membros de uma equipe se ajudam, não importa em que situação.
Ela sorriu e olhou pra mim, depois voltou a olhar pela janela.
_Pode ser._ Disse, por fim.
Uma hora depois, estávamos nos despedindo de Mário. Não foi uma despedida longa. Só o agradecemos por ter deixado a gente ficar no apartamento dele e ele deu algumas sugestões de quais caminhos seguir para ir ao Governo. E então, eu e meus amigos retornamos a estrada.
_Seu pai era mesmo do exército?_ Perguntei a Felipe.
_Sim._ Respondeu. _De onde você acha que ele tira esse ódio pelo Governo?
_Bem, ele me disse que trabalhava lá, mas não me disse em quê._ Falei.
_E o fato de ele ser do exército te surpreende?_ Perguntou ironicamente, como se já soubesse minha resposta (e sabia mesmo).
_Nem um pouco._ Falei. _Sua mãe foi eco sobrevivente a vida inteira?
_Sim._ Dessa vez, foi Letícia que respondeu. _Tanto a mãe, quanto o pai eram eco sobreviventes.
_E como os pais de vocês se conheceram?
_Num protesto dos eco sobreviventes contra o Governo._ Respondeu Letícia. _Meu pai tentava controlar a multidão, e minha mãe estava no meio dela. Minha mãe passou mal, meu pai a resgatou, e o resto é história.
Assenti, com vontade de fazer mais perguntas, mas com medo de parecer irritante. Mesmo assim, perguntei:
_Por que os eco sobreviventes estavam protestando?
_Eu não me lembro muito bem..._ Falou Felipe. _mas acho que foi algum tipo de injustiça feita pelo Governo, pois algum eco sobreviventes eram mais privilegiados do que outros. O Governo consertou essa injustiça depois de alguns protestos.
Depois de alguns passos em silêncio, Letícia perguntou:
_Em quanto tempo chegaremos ao Governo?
_Não estamos muito longe._ Respondeu Felipe. _Em cinco dias, no máximo. Iremos dormir essa noite?_ Ele olhou para mim. Eu simplesmente assenti. E depois disso, andamos em silêncio, de vez em quando falando sobre coisas aleatórias.
Era ainda de manhã quando conseguimos avistar uma cidade no horizonte. Essa era bem menor do que a anterior.
_Será que essa está habitada?_ Perguntou Felipe.
_Você fala como se a última não estivesse._ Falei.
_Você entendeu o que eu quis dizer.
Eu e Letícia rimos um pouco.
Foi necessário apenas mais uma hora de viagem para chegar na entrada da cidade. Mas algo estava errada. As pessoas corriam apressadas para a nossa direção. Num primeiro momento, pensei que elas iriam nos atacar, mas depois percebi que estavam apenas correndo para entrar em casas ou becos. Só percebi o porquê quando ouvi um barulho familiar. Felipe e Letícia também perceberam o som, e entraram no beco mais próximo. Eu os acompanhei. Nós três esperamos, enquanto o som ia se aproximando. E então ele cessou e eu espiei, apenas para confirmar o que aquilo era. Os Revolucionários estavam na cidade, fazendo mais vítimas. Havia quarenta ou cinquenta deles.
Um garoto, não muito mais velho do que eu, gritava algo que eu não conseguia reconhecer, pois os gritos dos que eram sequestrados abafava o que ele dizia. Aquele só podia ser o líder. Tinha o cabelo preto, era alto, e seus olhos eram azuis.
Sem olhar para meus amigos, eu disse:
_Só vamos sair daqui se formos com eles.
Uma voz, que eu não reconhecia, disse:
_Na verdade, há uma chance de vocês saírem daqui sem serem sequestrados, mas vão precisar da nossa ajuda.
Virei-me e encarei quem falou aquilo.
Três dos sequestradores do Governo que me atacaram na floresta estavam na minha frente.
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