Ao recobrar a consciência pode ver uma silhueta debruçada em sua cama como Yohan fazia antigamente, antes que pudesse chamar o nome do amigo percebeu que na verdade era sua mãe que estava ali agora, olhou em direção a porta e viu sua avó conversando com o medico local.

—Mamãe?porque esta aqui? — Chamou ele. — Por quanto tempo eu estive dormindo?

—Ah meu querido Serafim,você nos deu um susto. — disse sua mãe com uma expressão de dor e alivio ao mesmo tempo.- Você esteve dormindo por 3 dias.

— 3 DIAS! — disse nervoso — Yohan...Yohan esteve aqui?

— Ah querido ele não esteve e receio que nem virá, pois ao que parece ele fugiu com uma jovem ontem a noite é só isso que se fala no vilarejo está manhã.

Serafim não conseguia mais chorar, derramou apenas uma unica lagrima solitária e em seu peito não havia mais nada estava completamente vazio.

O tempo é algo que não se pode parar, logo suas vidas voltaram a rotina como se aqueles dias felizes ao lado de seu único amigo nunca tivesse ocorrido, hoje não passavam de lembranças distantes de um sonho bom,nunca mais sequer ouviu falar de Yohan, alguns meses depois sua avó faleceu, Serafim se lamentou e sentiu muito, mas não chorou, seu pai já havia se estabilizado em outra cidade e decidiu levar sua esposa e seu filho para junto de si, os anos passaram Serafim tornou-se um belo homem, conheceu uma bela jovem com quem se casou e teve dois filhos,uma menina a mais velha e um menino que por desventura herdou a doença respiratória do pai.

Logo após a morte de seu pai decidiu mudar-se com sua mãe, esposa e seus filhos, conseguiu uma casa próximo a capital, onde se estabeleceu, conseguiu um bom emprego em um escritório de contabilidade na cidade que lhe pagava muito bem, oferecendo-lhe certo conforto para ele e sua família.

Um dia como qualquer outro, seus colegas de escritório o convidaram para um happy hour após o trabalho, foram a um bar que ficava em uma estrada de chão afastado da cidade que dava acesso ao vilarejo onde a maioria deles moravam pois os imoveis na capital era demasiados caros para se manter, foram entrando e pegando seus acentos enquanto pediam seus chopps, sentaram, conversaram, beberam, alguns tempo depois Serafim levantou-se para ir ao banheiro, quando estava chegando em frente a porta, um homem alto e encorpado saiu meio cambaleando e esbarrou nele, o homem levantou o rosto para falar algo, mas quando se viram não puderam segurar a emoção e abraçaram-se, era Yohan.

—Cachinhos dourados é você! — exclamou Yohan parecendo muito feliz em vê-lo.

— Pelo amor de Deus Yohan não me chame assim em publico — protestou Serafim — já não somos mais crianças; Eles se olharam e caíram na gargalhada.

— Nossa quanto tempo! você cresceu bem.

— Pensei que nunca mais ia vê-lo, desde que fugiu com sua namorada.

— Nem eu achei que encontraria você em um lugar como este.

Eles sentaram-se juntos e conversaram, contando o que havia se passado em suas vidas desde que perderam contato, Yohan havia se casado com Estella e teve duas filhas a mais velha estava com 12 anos e a mais nova tinha 5, viviam nas proximidades e tinham uma pequena alfaiataria que abrira com sua esposa, após uma longa conversa, Serafim despediu-se pois tinha que ir, e eles combinaram de se encontrar naquele bar sempre após seu expediente.

Por muitos dias encontraram-se, conversaram, riram, beberam, mas Serafim cogitava contar para Yohan que fora apaixonado por ele na juventude, na verdade ainda era, seu amor pelo seu melhor e único amigo nunca deixou de existir, apenas conformou-se que nunca iria se concretizar.

Serafim estava saindo de seu trabalho para encontrar-se com Yohan no bar de costume decidiu a contar seus sentimentos reprimidos, mas recebeu a noticia que seu filho estava tendo crises de asma e sem pensar duas vezes correu para casa, o trajeto era longo e levaria algumas horas para chegar ate lá.

Enquanto isso Yohan foi para o bar esperar o amigo, ele não sabia o que havia ocorrido e lá ficou, enquanto esperava Serafim chegar foi bebendo, bebeu por horas esperando o amigo, mas quando estava anoitecendo percebeu que seu amigo não viria e decidiu ir embora, ele já estava bêbado e mal conseguia andar em linha reta, foi saindo e esbarrando em quase todas as mesas que se seguiam ate a porta, cambaleando na beira da estrada, o tempo estava ruim, prestes a chover, ele tentava pegar o relógio de bolço para ver as horas, quando foi surpreendido por dois ladões que estava a espreita.

Yohan tentou reagir mas eles estavam armados com pedaços de madeira com o qual começaram a agredi-lo, um dos colegas de Serafim que estava passando por ali, viu e reconheceu Yohan e foi buscar ajuda para acudi-lo, e correu ate a casa de Serafim, que estava cuidando de seu filho que felizmente já estava melhor e agora dormia tranquilo, o homem foi a te Serafim e contou-lhe sobre Yohan, Serafim vestiu um sobretudo e saiu correndo, a chuva já caia forte, mas ele parecia não senti-la, sentiu sua respiração falhar e um aperto no peito, aquela não era uma boa hora para ter um crise, não agora depois de tanto tempo, correr já estava difícil mas ele se esforçava para não perder o ritmo, em uma curva perto de pastiçal avistou o corpo caído de Yohan na beira da estrada, desesperado e quase sem ar Serafim jogou-se sobre o amigo gritando seu nome, mas não havia resposta, tentou sentir seu pulso mas já era tarde Yohan estava morto.

Serafim chorou, chorou como quando era jovem, como se todos os sentimentos guardados por anos viessem a tona de uma só vez, o homem que havia lhe acompanhando voltou com mais pessoas mas agora para ajudar a remover o corpo do amigo da estrada, após se recompor Serafim decidiu ele mesmo levar a noticia a Estella, e assim como ele ela caiu em prantos e teve que ser amparada por Serafim para não cair ao chão.

O dia seguinte começou cinzento com muita dor e lagrimas no enterro de Yohan, Serafim se culpava pela morte do amigo, ele achava que se tivesse ido avisa-lo antes de ir para casa o amigo não teria morrido, ele se sentia responsável e sua dor era imensurável, tamanha era a culpa que sentia que comprometeu-se a ajudar Estella, tanto financeiramente quanto na criação de suas filhas, com isso suas famílias ficaram bem próximas e seus filhos foram criados como se fossem parentes.

Os anos foram se passando, mas a expressão de dor e exaustão parece que nunca mais deixaram a face de Serafim, nunca mais o viram sorrindo, brincando ou se quer saindo com amigos e colegas, ele carregou por toda sua vida a morte e o amor de seu amigo, Serafim morreu aos 84 anos de um ataque cardíaco enquanto dormia e em seu rosto estava um sorriso como o de alguém que descansa em paz.

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