A História de Nós Dois

14 Sobre o Chá das Cinco e Rosas


Notas iniciais
Olá amores de meu Deus! Capítulo novinho saindo ^^ Não tenho muitas observações a fazer desta vez, apenas me digam se estão curtindo o quase "love triangle" Milo x Camus x Dite. Ele não estava programado, mas...aconteceu! Aquelas ideias que surgem enquanto você escreve e se pergunta "porque não?" Boa leitura!

Cap 14 — Sobre o Chá das Cinco e Rosas

Janeiro, 1814


Os recessos de fim de ano haviam passado e todos os trabalhadores voltariam a seus postos.

Anete e Krest haviam passado as festas em Londres para ficarem junto a Milo e Camus, agora retornavam para a França. Anete se sentia mais esperançosa, confiava em seu filho e seu genro e rezaria todos os dias para que seus anjos da guarda e santos de devoção os guardassem.

O assunto "Camus" ainda era um tabu na casa dos Garret, mas Anete sabia que internamente Gerrard pensava no filho mais novo.
Richard também proibira o assunto "Milo" dentro da familia Bloedorn, entre primos e tios. Contava com orgulho que a filha havia seguido carreira religiosa, mas escondia os motivos. Monitorava seu primogênito de perto, ainda que não agisse, conhecia cada passo de Milo.


**


Na livraria, Camus organizava uma pilha de livros em uma estante alta. Havia trabalhado o dia todo quase sem pausas. Dedicava-se com afinco e amor ao que fazia, perfeccionista como era em tudo.

— Camus, filho! Já passa de cinco horas, termine isso amanhã. Vá para casa e descanse!

O senhor Svensson o alertava da hora, se deixasse, Camus trabalharia muito além do horário.

— Está certo senhor Svensson, mas faltam apenas cinco livros, termino isso em um minuto!

O ancião riu da determinação do mais jovem, que desceu finalmente depois de concluir o que fazia. Tudo sob o olhar atento de um certo jovem dentro de um jardim de rosas.
Dite havia passado o dia a observar Camus e agora o via vestir sua casaca e se preparar para ir embora.

Tinha uma curiosidade cortante para saber sobre a vida amorosa do ruivo. Já havia lhe perguntado indiretamente, mas não obteve nenhuma resposta satisfatória.
Quando perguntou de forma mais direta, teve um "tenho um compromisso" como resposta

"Tenho um compromisso...tenho um compromisso...
Oras, só isso??"


Dite pensava curioso. Porque não dizia o nome, não falava dela?

"De certo deve ser uma mocinha dessas bem frescas, chatas, com ar de superioridade...arrg!"

Pensou em como seria a namorada, noiva ou o que quer que fosse de Camus.

Casado sabia que não era, já que não havia aliança. Então um namorico? A curiosidade o corroía, tanto que quando viu Camus sair, correu, vestiu também a casaca e saiu atrás dele

— Ei, onde vais Dite?? — o senhor Svensson gritou vendo o neto sair ainda enfiando os braços nas mangas apressado, sem nada dizer
Dite cuidou para não ser visto e passou a segui-lo.

Milo e Camus haviam combinado de se encontrar entre duas avenidas, em uma esquina menos movimentada. De lá, iriam juntos para o casebre.

Dite parou quando viu Camus parar naquela esquina, escondeu-se atrás de uma pilastra com cuidado e ficou observando. De longe viu um outro homem loiro de belo porte se aproximar de Camus e...

E beijá-lo!!!

"Estão se beijando...ó ceus, se beijam na boca! Então Camus é..."

Dite estava estarrecido, boquiaberto.

Na verdade não havia sido um beijo exatamente, estavam em público. Havia sido um selinho bem discreto, mas para Dite era o suficiente para matar a xarada e entender o tal "compromisso" que Camus tinha.

"Então é um homem"

Alheios ao outro que os vigiava, Milo e Camus caminharam tranquilos para casa, saindo do campo de visão de Dite, que ficou ainda um tempo ali, digerindo aquela descoberta.


*


No dia seguinte, Dite levantou de sobressalto.

Não pensava em outra coisa, mal havia conseguido dormir. Precisava que Camus chegasse o quanto antes para tirar aquela história a limpo.

Depois de fazer seu desjejum e arrumar-se, desceu rápido para a livraria, queria estar lá quando ele chegasse.
Camus não demorou a chegar, era pontual. Cumprimentou o senhor Svensson, tirou a casaca e guardou suas coisas atrás do balcão e logo se pôs a organizar e catalogar livros. Dite o vigiava inquieto e Camus percebeu-se vigiado. A sensação começou a incomodar o ruivo, que encarou Dite com cara amarrada.

— Ei! Psiu...quero falar com você, Camus.

Dite o chamava aos pés da escada onde Camus havia subido. O ruivo olhou o outro lá em baixo e desceu. Tanta urgência deveria ter um bom motivo.

— O que deseja Afrodite? Estou trabalhando e tenho muito o q...

— Calma! — interrompeu — é rápido, não tomarei tanto seu tempo. Pra começar, me chame de Dite. Serei direto Camus, eu vi você e o outro rapaz loiro ontém.

O rosto de Camus congelou-se em certa ira, Dite havia o visto com Milo e a impressão que teve foi de estar sendo vigiado. Reagiu de forma mais firme.

— Não te dei o direito de se meter na minha vida, o que quer me perseguindo? Você é um atrevido Afrodite, não se meta com o que não é da sua conta!

— Ei calma aí! — o sueco também reagiu — não fale assim comigo que eu é que não te dou liberdade pra isso! E sim, eu te segui, confesso. Estava curioso para saber mais sobre você, é sempre tão fechado e discreto...sabia que não falaria nada nunca, então fui atrás.

— Se não quer que eu fale assim, então me respeite! Já disse, não é da sua conta.

Os olhos de Camus estavam semi-cerrados e ele falava com firmeza

— Eu vi que era um homem — Dite abrandou o tom e falou docemente — Camus, não precisa esconder isso de mim, eu te entendo melhor do que pode imaginar. Eu sou como você e como ele?

— É como eu e ele? Como assim é como eu e ele? — indagou ainda irritado

— Exatamente assim como você entendeu, Camus. Sou como vocês e guardarei seu segredo. Quero apenas mostrar á você que pode confiar em mim.

Dite mostrava sinceridade e Camus percebeu que seu segredo estava realmente bem guardado com o sueco. Não que ele e Milo desejassem se esconder, mas era bom serem o mais discretos que pudessem. Mais seguro e agora menos duro, Camus finalmete contou o que Dite almejava saber

— O nome dele é Milo Nickolas, somos casados há poucos meses.

— Casados?

— Sim, claro que é simbólico, qual padre faria tal cerimônia? Mas é como nos sentimos, unidos.

Os olhos de Camus começaram a emitir um brilho especial, sua boca falava com um tom mais doce, tudo isso por falar de quem amava.

— Ele é meu companheiro, meu amor. Nós enfrentamos muita coisa para estarmos juntos, nossa história é longa e complicada, envolve nossas familias e muitas brigas.

— Uau, uma história de amor á lá Romeu e Julieta! Isso é lindo e esse Milo é mesmo um cara de sorte por ter alguém como você, Camus — Dite derreteu-se ao elogiar o ruivo que ficou sem graça e decidiu abreviar a conversa

— Como disse, é uma história complicada, Dite. Vamos deixar este assunto para outra hora, tenho muito trabalho a fazer.

Após cortar a conversa com o jovem sueco, Camus subiu novamente na escada, deixando Dite lá embaixo o admirando outra vez.

"Ele é mesmo especial, agora ainda mais. Ele é como eu...ah lindo Camus, você é como eu! Ao menos me chamou de Dite"

Dite passaria o resto do dia lembrando da graciosidade dos lábios de Camus ao pronunciarem seu apelido finalmente.


**


Com o passar dos dias, Camus e Dite se tornaram mais próximos.

Uma amizade começou a nascer entre os dois jovens. Por parte de Camus apenas uma bela amizade, mas para Dite, nascia um sentimento maior, mais complexo.
Uma paixão não correspondida, um sentimento perigoso que poderia levar o lindo sueco a sofrer.

Um dia, entre uma conversa e outra nos jardins de rosas, Dite decidiu ser ousado

— Camus, o que acha de mim?

Junto com a pergunta, ele ficou de pé, exibindo-se. Usava uma linda casaca carmin, os fios soltos e sedosos caíam loiros.

— Acho você um rapaz culto, uma boa pessoa

A resposta de Camus dada com seu típico ar blasé não agradou Dite

— Não Camus, quero saber o que acha de mim físicamente. Me acha bonito? — aprumou-se mais, como um galo estufando o peito

— Acho. Acho lindos os cabelos loiros, Milo é loiro, acho que é algo que me agrada. Ele também tem olhos azuis como você, mas o rosto dele é mais másculo. Ele tem cara de homem, eu gosto disso. Eu gosto de tudo nele... — suspirou

Dite bufou, era para falar dele e não do bendito namorado

— Camus, quero saber o que acha de mim e não do seu amado Milo.

Camus voltou ao ar blasé

— Você é bonito Dite, mas eu só tenho olhos pra um homem. Desculpe...

Dite bufou outra vez, desistindo. Não tinha jeito, não ganharia galanteios do ruivo nem que implorasse por eles. Logo lembrou-se de Matheo

— Humpf...o último homem que me cobriu de elogios foi aquele maledeto!

— Maledeto? — arqueou uma sobrancelha, confuso

— Sim, o maledeto do Matheo

— Quer me contar sobre ele?

Dite titubeou mais acabou aceitando abrir o coração para Camus e lhe contou sua conturbada história de amor e traição com o italiano.

— Então ele ainda te manda cartas? Talvez ele ainda ame você, não acha?

Camus ponderou depois de ouvir tudo, concluiu que Matheo errou, mas poderia ter se arrependido de fato. No entanto, Dite ainda estava irredutível

— Não, não acho! Quem ama não trai, e ele me traiu. Não quero mais saber daquele maledeto.

Camus riu de Dite que cruzava os braços como um menino ao falar de Matheo. Para o ruivo, estava na cara que aquele sentimento era uma brasa quase apagada, porém, ainda conservando algum calor.


**


Poucos dias após a conversa reveladora no jardim de rosas, o senhor Svensson chamou Camus para uma conversa.

Não seria nada relacionado a trabalho, o desempenho do jovem francês era algo acima da média e além das expectativas do feliz proprietário. Ele não poderia estar mais satisfeito com seu empregado.
No entanto, Svensson era um senhor bem vivido. Já havia sido casado, teve seus filhos dos quais dois já haviam falecido (entre eles o pai de Afrodite, seu filho Albafica Svensson), estava viúvo haviam muitos anos, mas em sua juventude já havia experimentado a doce mágica do amor.

Sabia reconhecer os olhos de quem amava, e via isso claramente em Camus.
Sabia também que não se tratava de qualquer donzela ou mocinha. Ele sabia que Camus era diferente, assim como seu neto Afrodite.

Certa tarde, decidiu que era hora de ter com Camus aquela conversa. Sabia também do temperamento reservado do jovem francês, mas havia conquistado de forma definitiva a sua confiança.

— Camus, filho. Confie em mim, eu quero ajudá-los.

Camus estava sério, sentia-se acoado. Por um momento odiou Dite julgando que este havia contado sobre ele, mas logo Svensson esclareceu que sabia antes mesmo que o neto pudesse pensar em insinuar algo. Ao perceber que Camus resistia em se abrir, foi mais longe

— Eu já vi casos como o seu. Não apenas a história de Dite e Matheo...ah aqueles dois! Mas já vi muitos outros, e entenda filho, não vou te julgar. Nunca julguei, quero apenas oferecer minha ajuda.

— O senhor já me ajuda muito me dando este emprego, acredite. Eu e ele preferimos nos resguardar, por favor senhor Svensson, já sofremos demais.

As palavras de Camus tinham um peso que fez o coração do velho sueco apertar. Sentiu pena do mais novo, na flor da idade carregando um fardo tão pesado junto ao seu amado companheiro.

— Eu entendo, mas quero realmente estender minha mão. O que acha de um autêntico chá das cinco?

— Está convidando eu e meu companheiro para tomar chá com o senhor?

— Sim, estou convidando ambos! Assim posso conhecê-lo. Camus, és para mim como um filho, por favor, me dê esta alegria?

Camus finalmente deixou que um sorriso ainda tímido lhe brotasse na face, aceitando o convite.


**


Claro que a aproximação entre Camus e Dite já era motivo para que Milo demostrasse certo ciúme. Mas o loiro estava tentando não levar a sério aquela aproximação, tentava não ver, ou ao menos fingia não ver que a cada dia que chegava em casa, Camus tinha uma história diferente pra contar envolvendo o outro loiro.

Milo evitava brigar, ele e Camus estavam bem, passavam felizes juntos o tempo que tinham, conversavam sobre seus dias de trabalho e quando faziam amor nenhum fantasma ou ciume ficava entre eles.
No entanto, a novidade daquele convite fez seu coração subir á boca e uma súbita ansiedade o tomar

— Tomar chá com seu patrão e o neto dele? Camus, acho que não devemos expor nossa intimidade assim...

Milo tentava fugir, sabia que conhecer Afrodite poderia ser a pior coisa para ele. Sabia que o tal sueco deveria ser bonito.

— Não se preocupe ange, pode confiar no senhor Svensson e no Dite, são boas pessoas.

Boas pessoas realmente deveriam ser. Saber que o tal Afrodite era também como eles deixou Milo ainda mais inseguro, mas tentava a todo custo não demostrar que estava enlouquecendo de ciumes. Sabia que Camus detestava cenas de ciúme e fazia de tudo para se segurar.

Resignado, teve de aceitar a ideia de ir tomar chá com os Svensson.

*

O dia do chá chegou.

Esperto e deliciosamente mal intencionado, Dite usou sua melhor roupa: uma casaca azul que combinava com seus olhos, uma calça branca que realçava suas formas, os cabelos soltos e uma sensualidade estonteante.
Ele não admitia, mas inconscientemente, Dite se vestia para chamar a atenção de Camus e rivalizar com o tal Milo. Mostrar que era melhor.

Milo não ficou atrás, desejava também mostrar quem era o dono do coração do francezinho. Decidiu ir de preto, a cor realçava seus fios loiros e os olhos azuis. A casaca preta mais alinhada que possuía, junto a calças brancas que realçavam suas coxas grossas. Os fios soltos e revoltos caíam levemente nos olhos.

Já Camus era o menos preocupado, ele era o único que ia apenas tomar um chá com seu patrão e amigo e não para um desfile de machos matadores. Certamente porque ele não precisava chamar a atenção, era a atenção DELE que seria disputada. Escolheu uma casaca cinza escura e calças pretas. Prendeu sua enorme cascata vermelha lateralmente, fazendo com que suas costas ficassem livres.

Milo e Camus chegaram pontuais ás 17 horas daquele sábado ainda gelado, mas já prenuncio de primavera.
O senhor Svensson os recebeu e pediu que ambos subissem para o andar de cima que era convertido na residência. Camus mostrou a Milo o interior da livraria rápidamente e subiram.
Camus cumprimentou os donos da casa, por trás dele um Milo tímido e pouco á vontade fez o velho Svensson sorrir

— Então você é o Milo! Camus fala muito em você, meu jovem. É um prazer conhecê-lo!

— Ah fala? Nossa, que bom — sorriu, apertando a mão do mais velho — o prazer é meu, senhor Svensson.

Enquanto isso, Camus admirou a casa aconchegante muito bem organizada. De dentro de outro cômodo, surgiu Dite. Sorrindo, se dirigiu direto a Camus, o abraçando. Não era um costume, na verdade nunca haviam sequer tocado um no outro, aquele abraço assustou Camus fazendo-o repelir o sueco rápido. Conhecia seu amado e sabia que aquele gesto podia lhe arrumar encrenca com Milo.

E quase arrumou, Milo respirou fundo ao olhar a ousadia de Dite

— Milo, lhe apresento meu neto, Afrodite!

Dite veio na direção de Milo, trazia no rosto um ar de curiosidade. Já Milo o encarava sério.

"Mas realmente é bonito esse tal de Dite, parece até uma boneca de louça...mas preciso me controlar, não posso decepcionar o Camus e armar uma confusão aqui. Mas eu quebro essa boneca no meio se continuar assanhada assim..."

— Prazer Afrodite, Milo Nickolas.

"Uh, realmente ele é lindo! Camus escolheu bem, não vai ser fácil competir com um homem desses. Mas eu sou mais eu...eu posso"

— O prazer é meu, querido. Fique á vontade.

Depois que os dois loiros apertaram as mãos, numa cordialidade que escondia a vontade de se matarem alí mesmo, foram todos para a mesa de chá que já estava preparada.

Além da fina louça de porcelana chinesa, haviam bolos recheados, tortas cremosas, doces variados, delicados macarons e outros mimos. Camus, amante de doces, salivou só de olhar. O dia estava perfeito para ele: doces, o patrão que admirava e dois deuses do olimpo duelando internamente por ele.
Além da fina porcelana que comportava o chá e os doces, haviam muitos vasos com rosas de todas as cores enfeitando e perfumando aquele ambiente tão requintado. O local, mais um aconchegante jardim de inverno, tinha uma grande janela de vidro de onde se viam os jardins dos fundos da casa e acima uma claraboia que permitia vislumbrar o céu.

Milo mal conseguia segurar a xícara, de tão tenso. Enquanto Dite era expansivo, simpático e seguro de si, Milo nem comia de tão acoado.
Percebendo a aflição de seu amor, Camus decidiu ajudá-lo deixando-o mais seguro. Segurou em sua mão e trocou com ele um olhar cúmplice.

— Ei, pare com isso. Você não tem que rivalizar com ninguém, mon cher. Eu te amo.

As palavras sussurradas ao pé do ouvido de Milo o fizeram sentir um calor gostoso no coração e uma segurança que o deixou passar o resto da tarde tranquilo e sem se importar com a presença provocativa de Dite.
Mais relaxados, puderam conversar com o senhor Svensson que adorou conhecer o companheiro de Camus, e prometeu que estaria com o casal, fosse como fosse.

— Vocês são dois jovens muito corajosos! Poucos tem tamanha audácia, ainda mais se deixam para trás fortunas, heranças, posição. Sua familia, jovem Bloedorn, é hoje a mais rica desta cidade. Seu pai ergueu um império incalculável e você deu as costas a tudo isso por amor. Isso é para poucos! Vocês dois tem minha profunda admiração!

Milo e Camus sorriram felizes de ver que haviam ainda pessoas capazes de entender o gesto deles, sem julgá-los.

Por outro lado, Dite se entristeceu. Não por Milo e Camus estarem juntos, mas por Matheo.
Lembrou que seu carcamano não teve igual coragem, e aquilo ainda machucava.


*

Dite não era do tipo que se abatia por muito tempo.

Decidido, espantou os pensamentos melancólicos no italiano, retomou a postura elegante e superior que adotara desde a chegada, fitando seu alvo, o belo ruivo. Não como em um flerte descarado, Dite não seria tão cafajeste, mas com descrição e sutileza lançava seu olhar azul por vezes á ele. Entre um gole de chá, uma fatia de bolo, sempre simpático.

Por outro lado, Milo se segurava o quanto podia. Não iria frustrar Camus se comportando mal, sendo grosseiro ou rude. Usou toda a sua educação aristocrata e se comportou como um lord, para orgulho do amado ruivo. Mesmo que por dentro, desejasse ser um pirata ignorante e esganar o sueco.

— Camus e Milo, gostaria de convidá-los ao pub Venon! Eu irei me apresentar lá amanhã e adoraria que fossem me ver. O que acham?
Milo e Camus se olharam, supresos com o convite de Dite. O senhor Svensson sorriu, mostrando que sabia e incentivava aquela atividade do neto

— Vão jovens! Vão gostar do pub, é um lugar agradável e Dite mostra seu talento vocal em ocasiões especiais por lá.

— Então você canta, estou surpreso, não esperava.

Camus falou com ar de surpresa e ao mesmo tempo com um meio sorriso. Só isso foi suficiente para Milo revirar os olhos e perceber que não teria como recusar o convite do anfitrião.

— Sim querido amigo, não é sempre, mas é algo que gosto de fazer. Principalmente quando existe alguém tão especial em minha platéia.

Aquele galanteio fez Camus olhar Milo de relance, com medo que o loiro reagisse. Mas este ainda se controlava como podia.
Educados, aceitaram o convite e veriam Dite cantar no dia seguinte.

**

Era noite de domingo e o Venon estava bastante cheio.

Cavaleiros e damas escolhiam os melhores lugares para sentar, garçons passavam servindo as mais variadas bebidas nas mesas do local apertado, porém bem arrumado.

Em uma mesa, na companhia de uma dama, Julian pedia uma dose de wisky. Olhava para a jovenzinha mas desejava outra companhia. Pensava no belo loiro que o havia afrontado da última vez que se viram, mas por quem ainda sentia uma paixão insistente e obsessiva. Ela pediu um martini e ambos brindaram.
Mal as taças tilintaram em um brinde e os olhos felinos dele fitaram algo que ele não esperava, mas recebeu a novidade com um sorriso

Milo acabara de chegar. Ao lado dele, Camus.

Julian murchou ao vê-lo acompanhado, mas só de poder quem sabe trocar olhares com o homem que tanto cobiçava, já era motivo para comemorar.
Milo notou a presença de Julian mas decidiu ignorá-lo totalmente. Ele e Camus pediram uma mesa, sentaram-se e foram servidos de duas canecas de vinho.

"Impressionante. Mesmo um pobretão sem eira nem beira ele continua lindo..."

Julia pensava, fitando seu objeto de devoção.

Camus decidiu fingir que não viu Julian e seu olhar insistente sobre Milo, sentia-se curioso para ver Dite cantando. Ao mesmo tempo, tinha receio de ter problemas com seu amor por conta do ciumes que ele sabia que Dite provocava.

No camarim, Dite foi avisado de que seus convidados especiais haviam chegado.
O loiro caprichou na escovação dos cabelos para que ficassem mais glamurosos. Vestia uma longa túnica branca que lhe cobria até os pés. O tecido era enfeitado com pedrarias azuis que combinavam com seus olhos.

Quando as luzes se apagaram, restando apenas o foco de luz no palco e Dite surgiu nele, era a visão de um verdadeiro artista.
Abriu sua boca e junto aos musicos que o acompanhavam passou a entoar uma melodia triste, porém linda. Cantava com a alma, passando não só com a voz mas com suas expressões toda a emoção que a melodia tinha.

"um livro em branco
enorme para ser visto. Somos um livro.
Vemos. E somos vistos. Lemos. E somos lidos. Somos esquecidos.
E também esquecemos.
Caracteres em degelo. Rumo à primavera..."


Entre uma frase e outra, Dite buscava o olhar de Camus. O ruivo o olhava, não com qualquer outra intenção, mas com admiração. Era mágico ver o belo Afrodite cantar.

"Vive bem! Vive eternamente bem!
Quanto a mim, logo vou te perder.Meu coração prestes a se romper!
Vive bem! Vive eternamente bem!"


Quando a melodia terminou, todos aplaudiram de pé. Rosas foram jogadas aos pés de Dite, que se curvava elegante em agradecimento.
Camus aplaudiu, porém sentado. Estava estasiado em ver o quanto seu amigo era surpreendente, mas ao olhar pro lado notou a tristeza escurecer os olhos do seu amor.

Milo estava mordido, sentia-se menor diante de tanto brilho que seu rival emanava. Sentia-se um nada, ele não era ninguém e Afrodite era tudo.

Julian estava atento a cada expressão no rosto do seu alvo de desejo e notou a tristeza de Milo. Comemorou internamente, havia descoberto um ponto fraco no casal que parecia inseparável. Por um momento achou que Camus não saberia ser um namorado ousado o suficiente para mudar a situação em que seu par se encontrava.

Mas estava enganado.

Camus olhou Milo, tomou seu rosto para si e fez o que jamais se imaginou que ele pudesse fazer.
Camus mergulhou em seus lábios, em um beijo intenso. Colando as bocas, enlaçando as línguas e sorvendo a saliva, ávido. Um beijo em público, diante de todos, fazendo chocarem os presentes.

Mas pouco importava para ele, importava apenas mostrar ao seu amor que ele estava ali, que ele o amava e faria qualquer coisa para provar que ele, seu amado Milo, é que era o centro de sua atenção e de sua vida.
Julian sorveu o wisky com raiva ao ter que ver Milo nos braços de Camus, e Dite que estava até então radiante com sua noite de estrela, teve seu sorrido removido do rosto ao ver entre os aplausos, Milo e Camus se beijando, totalmente alheios á ele.
Apesar de muitos se sentirem chocados e até ultrajados, ninguém teve coragem de reagir ou de fazer qualquer coisa contra eles. Se sentiam seguros, não desejavam mais esconder aquele amor.

Julian levantou-se e se retirou. Dite fez o mesmo, indo para o camarim.

*

Desfez-se da túnica branca, sentia uma lágrima teimar em descer pela face.

Dite sentia seu coração doer outra vez. A terrível dor do amor não correspondido era cortante.

"Ele o beijou, na minha frente. Na minha noite, no meu momento! Era pra eu ter ganho o prêmio e no entanto....você deu á ele...beijou ele...Camus.."

Os pensamentos dançavam dolorosos, o sentimento de rejeição não era inédito.

Lembrou-se de Matheo

"maledeto carcamano, olha o que me fez!! Jamais serei feliz de novo, está satisfeito? Ele não me quer, está feliz? Ele não me ama!!
Camus não me ama, Matheo não me ama..."


A noite tornou-se curta para o mais belo afogar suas lágrimas em largas doses de martini, sorvidas ao som do violino triste que entoava melodias no pub já vazio.

Apenas ele, e mais dois ou três..e a madrugada que rompia gélida como o olhar do ruivo, em busca de um novo dia para esquecer.

"Matheo....


MATHEO!!!!!!!!!"

Notas finais
Gente, deu dózinha do Dite :/ Vem Matheo, pleaseeeee!!! Como eu sei que a galera ama ver o Miluxo com ciuminho, ta aí um capítulo especial! Mas também, como o Divo em cima do macho dele, como não pirar né non? Espero que tenham se sentido em na Londres do séc XIX, com direito a vida noturna dos pubs e o clássico chá das cinco! Tradições inglesas que são costume até hoje.