Notas iniciais
Olá cavaleiros e mulheres cavaleiro! Bem vindos a mais um capítulo de "História". Vamos finalmente trazer o Afrodite para a fanfic e também contar sua história (sim, ele tem uma!), será nossa trama paralela e espero que vocês gostem. Este capítulo ficou lindo e trará risadas e emoções, eu amei escrever cada linha dele. Escrever uma fanfiction de época é desafiador, você tem que coisar o tempo todo de não usar elementos que não existiam naquela época, tem que pesquisar, saber o que era costume, o que era tabu, o que era normal, o que era escândalo. Este é um cuidado que tento ter a cada capítulo para termos uma história coerente com a época que ela retrata. Deixem reviews se gostaram, comentem! Boa leitura!

Cap 13 — Proposta Indecente

Camus observava a simpática árvore de natal no interior da livraria.

Os lindos enfeites natalinos, anjinhos de louça, laços e imagens de papai noel talhados e coloridos em madeira se perdiam em meio aos galhos verdes.

A imagem do natal lhe remetia a infância, algo que sempre lhe dava prazer. O clima natalino o agradava, era aconhegante e as pessoas pareciam ficar imbuídas de um espírito mais apaziguador e tranquilo. Lá fora, a neve que cobria calçadas e telhados completava a imagem natalina com meninos fazendo bonecos em meio a algazarra.
Logo o senhor Svensson surgiu do fim de um dos corredores, certamente o que dava acesso a parte de cima do prédio, que era também sua casa.

— Bom dia jovem Camus! Estou feliz em ver que não desistiu do meu convite e veio ao seu primeiro dia de trabalho!

Camus o saudou de volta e o ancião continuou

— Pode deixar sua casaca aqui atrás do balcão, temos calefação e poderá ficar á vontade, usando apenas a camisa e os suspensórios, como eu! Olhe os livros, aprenda a organização das estantes, quero que se intere de tudo o que temos aqui. E não é pouco!

O senhor sorriu bonachão e Camus seguiu as suas ordens, retirando a casaca pesada e olhando cuidadosamente a organização dos títulos. Era uma quantidade estonteante de livros, porém todos muito bem organizados por seções. O cheiro maravilhoso deles misturado ao aroma da madeira das estantes, junto ao silêncio aconchegante, faziam da livraria o paraíso na Terra para Camus.

Após um tempo que Camus não soube precisar quanto foi por estar absorto nos livros, um estranho e prazeroso odor de rosas invadiu-lhe as narinas. O cheiro era bom, inebriante e misturava-se ao cheiro da madeira fazendo-o suspirar.

— Oh, Dite! Venha, me deixe apresentar á você o jovem lord mais inteligente que já pude conhecer!

Camus ouviu a voz do senhor Svensson convidando alguém a conhecê-lo. Fechou e guardou o livro no devido lugar e viu se aproximar dele um outro jovem, que deveria ter a mesma idade. Como era típico dele, Camus não sorriu. Apenas olhou com ar blasé o jovem loiro que lhe abria um largo sorriso, tendo em mãos a fonte do odor inebriante:

uma linda e frondosa rosa vermelha.

— Prazer, Afrodite Svensson

O loiro lhe estendeu a mão, era bem vestido e elegante. Tinha um porte refinado e um olhar profundo em um azul celeste perfeito, acompanhado de um sorriso que transbordava sensualidade. Afrodite era angelical e quase feminino. Camus apertou lhe a mão, amistoso

— Prazer, Camus Albert Garret. Afrodite...curioso o seu nome, o nome de uma deusa.

Camus jamais havia ouvido falar de alguém que se chamasse Afrodite, no entanto, o dono do nome já estava habituado aquela situação

— Sim, a deusa do amor e da beleza. Minha mãe escolheu este nome porque achou que eu era uma menina. Depois de ver que eu era menino, manteve o nome porque eu era bonito.

Afrodite riu, as pessoas sempre riam quando ele contava sobre a origem de seu nome.
Mas não Camus. O ruivo permaneceu sério

— Interessante... — concluiu com ar blasé

A indiferença de Camus ao seu gracejo fez com que Dite perdesse levemente o prumo

— Bom, senhor ajudante, pode me chamar de Dite. Com licença.

Dite saiu pisando duro, irritado por Camus ser o primeiro a não rir de sua história. A postura austera do ruivo realmente o irritou.
Camus voltou aos livros sem dar maior importância ao ocorrido, e o senhor Svensson apenas ria observando de longe os dois jovens. Ele sabia que logo ambos se entenderiam.

"Ohh por todos os deuses, jogaram um dos seus aqui em baixo?? Que espécime lindo é este que me apareceu aqui? O ruivo mais maravilhoso que já vi...ohh Zeus, o que farei?? Nem juntando todas as minhas rosas resultam na beleza daquele homem"

Dite pensava, sentindo seu coração palpitar pelo ruivinho gélido que acabara de conhecer.

Apenas depois que Dite se foi, Camus reparou que nos fundos da livraria havia um portão de madeira e para além dele, um jardim de inverno convertido numa enorme roseira. Literalmente um jardim de rosas
Camus se aproximou, maravilhado com a beleza daquelas flores. Rosas de todas as espécies já catalogadas ao redor do mundo estavam ali, como numa coleção ousada e perfumada.
No meio delas, Dite o observava. Ainda fazendo bico, desapontado pela desfeita que o outro fez ao seu gracejo.

Era a primeira vez que seu coração batia mais forte desde que havia deixado Matheo, seu italiano traidor.


**

Escovando a crina de um lindo cavalo árabe, Milo distraía-se com o que para ele era um trabalho prazeroso.

Quanto mais passava a escova, mas a crina lisa e marrom brilhava, sedosa. O animal, manso e calmo relaxava nas mãos de seu tratador, confiando nele a ponto de fechar os olhos e se permitir ser acariciado entre eles, onde possuía uma mancha branca. O loiro tinha o dom de encantar aqueles animais com suas mãos, deixando-os mansos como gatinhos.

Milo estava tão absorto na companhia do animal, que não notou a presença de Julian encostado ao portão do estábulo, observando-o.
Silenciosamente, Julian matava as saudades daquele a quem em uma noite de loucura se entregou. Depois de algumas doses de wisky e absinto, permitiu que Milo lhe mostrasse o caminho do prazer, algo que ele jamais havia tornado a experimentar com igual intensidade

— Senti sua falta, querido senhor Bloedorn

Ao ouvir aquela voz conhecida, Milo lançou seu olhar na direção de onde ela vinha.

Finalmente agora Julian tinha a atenção que desejava, Milo olhava para ele, sério. E nada disse, apenas voltou a trabalhar tratando o animal com carinho. Julian prosseguiu, sabendo que estava sendo ouvido, ainda que seu interlocutor não o olhasse.

— Soube que voltou e que acabou virando nossa página. O que é uma pena, eu tinha muito a lhe oferecer.

Milo terminou o seu serviço, depositou um beijo na fronte do animal, carinhosamente. Fechou a baia e aproximou-se de Julian, agora encarando-o. Milo demostrava calma e seu olhar era sereno.

— Você não tem nada pra me oferecer, Julian.

Milo já ia andando, pegaria outro cavalo na pista para trazer e tratar na parte interna. Julian foi atrás dele.

— Olhe pra você, Milo Nickolas. Olhe seu estado. Esta barba por fazer, seus cabelos estão mal tratados, suas botas estão sujas. Onde está aquele lord inglês, lindo que um dia eu conheci? Vestido em roupas finas, pele e cabelos perfeitos e um perfume que invadia toda a pista de corrida de tão maravilhoso...ah Milo, você era um deus!

Milo montou no cavalo, mesmo sem sela. De cima do animal encarou Julian

— Bem se vê que você não me conhece. Me julgava pela boa aparência, mas não sabia nada de mim. Se soubesse, me reconheceria ainda que eu estivesse coberto de lama. Oras Julian, vá cuidar da sua vida monótona e tediosa e me deixe trabalhar.

Após as palavras que tiveram o peso de um tapa, Milo saiu galopando para a parte interna, deixando Julian atordoado com aquelas palavras. O jovem ricaço pretendia reconquistar sua paixão, mas só conseguia afastá-lo mais e receber dele mais desprezo.
Milo mal havia começado a trabalhar em mais um cavalo e avistou o outro loiro vindo outra vez em sua direção. Milo revirou os olhos, teria trabalho com Julian.

— Não me trate assim, é claro que eu te reconheceria. Eu me entreguei a você!

— Vai me cobrar por isso o resto da vida? Não te obriguei a nada Julian.

— Não! Mas não me humilhe, eu estou apenas lhe oferecendo ajuda, sendo solidário.

— Não precisa, eu estou bem. E se as notícias realmente correm, sabe que não voltei sozinho da minha viagem á França.

Julian respirou fundo e deu sua cartada, já que Milo havia entrado indiretamente no assunto

— Milo, esqueça este francês. Ele não tem nada pra te oferecer, soube que também foi deserdado, não passa de um miserável. Um coitado de algum buraco na França, um qualquer. O que aquele insignificante pode lhe oferecer? Nada! Venha comigo, eu posso lhe devolver tudo o que perdeu, lhe devolver o mundo do poder e do dinheiro, você voltará a andar na alta sociedade e a entrar neste lugar pela porta da frente. Você não merece esta vida, honey...venha comigo. Eu lhe darei o mundo!

Milo parou de escovar o animal e sorriu.

Acariciou os próprios pulsos, andou calmamente até Julian e em uma fração de segundos este nada mais viu. O soco que Milo desferiu em seu rosto foi tão forte que o jogou em uma pilha de feno, fazendo-o apagar.

Vendo que Julian não acordava, Milo pegou um balde bem cheio, contendo litros de urina de cavalo. O xixi do bicho estava ainda quente, recém feito e tinha um cheiro forte. Serviria para exames veterinários, mas agora teria outro destino.
Milo jogou o líquido sobre Julian em um único jato, se uma vez só, acordando-o

— Acorda Julian!

— Mi..Milo!! O que é isso???

— Mijo de cavalo, seu idiota! Agora some da minha frente.

— Arrggg!! Que nojo! Você me deu um soco...nunca fui tão humilhado, como pôde?

— Eu aguento afronta do meu pai, porque ele me pôs no mundo. Mas de desocupado como você, nunca! Some daqui Julian, e nunca mais me faça uma proposta tão baixa. E o mais importante, nunca mais ouse falar de Camus, você não é digno disso.

Não restou a Julian outra saída se não ir embora sujo e humilhado. Mas se Milo pensava que aquela atitude afastaria Julian, talvez estivesse enganado. Agora, dobrar a fúria de Milo e quebrar seu orgulho e impáfia era para Julian uma questão de honra.


**


— O que? Ele te propôs isso? Quem esse Julian pensa que é?

Camus se mostrava indignado com o ocorrido no jóquei, Milo contava tentando minimizar a importância do ocorrido. O ruivo andava de um lado a outro, como uma fera enjaulada. Não conseguia ser frio diante de tamanha desfaçatez.

— Meu amor, vamos esquecer isso. Eu dei uma boa lição nele, aquele coitado não vai se atrever a tentar mais nada.

— Coitado..pff...se eu pego esse imbecil pela frente, cretino idiota...

— Sim, ele é um idiota, agora vamos esquecer isso... Peraí, você tá com ciumes é Camyu?

Milo não conseguiu esconder o sorriso. Ciumes era um sentimento que Camus raramente demostrava. Não que ele não sentisse, sentia, mas escondia á todo custo sob sua capa de frieza e indiferença. Ainda que estivesse explodindo por dentro.
Mas naquele caso, não conseguiu esconder e ficou na cara que o seguro e controlado Camus estava com ciúmes

— É, eu estou...não quero esse homem perto de você.

Milo abraçou Camus e lhe deu um beijo cálido que se tornou intenso. Naquele beijo, passou para ele segurança e a certeza de que o amor que os unia não poderia ser abalado pelo que havia ocorrido

— Eu te amo. Não nego que é gostoso ver você com ciumes de mim Camus, mas não existe mesmo motivos, não existe nada. Eu não odeio o Julian, nem gosto dele. Ele é apenas indiferente pra mim, só isso.

Camus se sentiu aquecido e seu coração se acalmou. Tornou a beijar seu loiro na boca, abraçava-o, sentindo seu corpo.
Aquele corpo que era só dele. Aquele coração que pertenceria só a ele.

Só ao seu ruivinho francês.


**


Entre suas rosas, absorto em lembranças, Dite acabou se permitindo lembrar dele: de seu ex amor, o italiano Matheo.

Viviam um tórrido romance, Matheo era o primeiro amor do jovem sueco. O primeiro em tudo. Não apenas por isso, mas por realmente amá-lo, Dite tinha pelo italiano uma adoração que fazia com que confiasse nele, sonhasse e fizesse planos de um dia estarem juntos para sempre.

Quando o trabalho que Matheo realizava na capital inglesa acabou, ele precisou retornar á sua terra natal: a ensolarada Nápoli. A partida de Matheo mergulhou Dite em dias sombrios de sofrimento e lágrimas, até que a primeira carta chegou. As rosas já estavam descuidadas, secas, muitas morreram porque o jovem sueco não tinha ânimo nem mesmo para sair da cama, preocupando o velho avô Svensson. Mas aquela carta tirou Dite de sua prostração, uma carta de Matheo declarando seu amor e saudade.

Dite respondeu e ambos trocaram cartas por cerca de dois anos, até que Dite decidiu fazer uma loucura. Matheo não tinha previsão de quando poderia voltar á Londres para vê-lo, então Dite tomou a decisão de ir até ele, em segredo. Seria uma surpresa para seu amado napolitano.

Ainda que sob os protestos do avô, Dite embarcou naquele trem. Ao chegar em Nápoli, sentia seu coração bater mais forte, pisava o chão de seu amado, respirava o seu ar e logo seus olhos de água marinha iriam fitá-lo.
E fitaram, mas não nas condições que Dite sequer sonhava e naquela tarde o dono das rosas teve a pior decepção de toda a sua vida.

Matheo estava cercado por três crianças que corriam e diziam "papai" e junto deles uma bela dama acariciava seus cabelos espetados.

Era sua esposa.

As lágrimas correram mornas, um engulho no estômago e nenhuma palavra saiu, além do nome dele

— Matheo...

Ao ver o lindo sueco, Matheo correu para ele desesperado, mas era tarde. Dite havia visto o que não deveria ver. Matheo chorou secretamente, havia ferido de morte o amor de sua vida.

Apesar de ter esposa e filhos, Matheo realmente amava Dite, mas não tinha coragem de assumir este amor. Assumir o amor por outro homem era uma missão dura, que exigia coragem e Matheo não a tinha.

Desde aquele dia, Dite havia se tornado um homem mais fechado.

Quem desembarcou do trem de volta á Londres não era o mesmo Dite alegre, gentil e doce que havia ido. Mas voltava um novo homem.
Apoiou-se na própria beleza para recuperar seu amor próprio, tão ferido. Havia deixado Nápoli se sentindo um lixo e agora afirmava

"Eu sou mais eu. Eu posso tudo o que quero, eu tenho tudo o que desejo"

Apoiar-se em sua auto estima foi o que o salvou. Ainda que isto tenha feito dele alguém egocêntrico e vaidoso em alguns momentos, mas era sua defesa. Foi essa vaidade que o levantou e não o deixou sucumbir.

Algumas noites em um pub, Dite mostrava seu talento.
Além da rara beleza, pussuía uma voz única e cantava como poucos. Era o momento em que a bela borboleta deixava seu casulo e se mostrava em todo o seu esplendor.

A vida de Dite se resumia a isso, até aquele momento. A chegada de Camus fez com que, pela primeira vez desde o incidente em Nápoli, Dite demostrasse interesse em um homem.
O belo sueco estava fechado, até então. Mas o ruivo francês parecia ser o único credenciado a fazê-lo virar de vez aquela página sofrida.

Ah, um detalhe: até hoje as cartas de Matheo chegam religiosamente. Mas Dite nunca mais respondeu a nenhuma delas.


*


Naquela tarde, véspera de natal, além da carta de Matheo também chegou um cartão de natal que o italiano havia mandado, com uma mensagem

"Meu amado Afrodite,

Que este cartão lhe chegue junto á boas notícias e que seu Natal seja iluminado. Desejo aquecer-lhe, ainda que á distância.
Meu coração nunca se apartou do seu. Nem um único dia.
Responda, eu lhe imploro. Seu silêncio me açoita cruelmente, mas não diminui meu amor.
Eu te amo

Do sempre seu
Matheo"


Dite leu, suspirou. E fazendo uma cara sapeca rasgou o papel em vários pedacinhos, depositando-os no lixo. Para ele, ali era o lugar de Matheo: o lixo.
Era onde ele havia sido jogado, era onde ele agora o jogava.

Em seguida colheu uma linda rosa branca e levou á Camus, que terminava de atender uma cliente da livraria. Camus despediu-se da mulher que levava livros de direito para o filho, fechou o caixa guardando o dinheiro da venda e viu Dite andar em sua direção, sorridente

— Camus, para você!

Camus pegou a rosa branca e aspirou seu cheiro. Era bom, suave. Ele agradeceu, sem sorrir. Dite fez um beicinho.

— Hum, quando vai sorrir pra mim? É sempre assim tão sério? — brincou, debruçando-se sobre o balcão e encarando o ruivo mais de perto, usava todo o seu charme jogando-se para Camus.

— Não é sempre. Eu posso sorrir Dite, mas estou trabalhando

Camus respondeu de forma tranquila, pela primeira vez foi menos blasé e frio e mais doce, simpático. Apenas aquilo bastou para que Dite se derretesse.

Poucas horas depois o senhor Svensson dispensou Camus para que fosse passar o natal em casa. O ruivo despediu-se, trocaram votos de feliz natal e o senhor Svensson lhe presenteou com uma garrafa de vinho. Camus agradeceu emocionado o presente, Dite andou até ele, olhou-o nos olhos.

Os olhos de Camus eram de um verde profundo, Dite quase perdeu-se neles e lhe deu um beijo no rosto. O sueco aproveitou para reparar nas sardas levemente salpicadas e nos traços finos e delicados daquele rosto.

— Feliz Natal, Camus! — disse sorrindo, expansivo

— Feliz Natal, Dite — disse calmo, doce

Camus saiu pelas ruas levando a linda rosa branca nas mãos.

**


— Que linda rosa, quem te deu?

Milo perguntava olhando Camus depositar a flor em um vasinho de vidro e colocar água. Ele apoiou delicadamente no centro da mesa

— Foi o Dite, o neto do senhor Svensson. É um rapaz excêntrico, uma boa pessoa — explicou com ar blasé

Milo sentiu o sangue subir, levemente sorriu

— Dite te deu uma flor. Que lindo...

Camus percebeu logo o sarcasmo nas palavras do namorado, acabou rindo do ciume de Milo e o abraçou antes que a coisa piorasse. Quando Milo se enfurecia era ruim, mas quando ele usava de humor sarcástico e ria, aí sim, era o prenúncio do apocalipse.

— Ei..xiu! Pare com isso, olha pra mim — Milo olhava pros lados, mas teve que encarar Camus quando este virou seu rosto para ele — nós não passamos tudo o que passamos pra você ter ciuminho porque eu ganhei uma flor, não é? O Milo tão destemido e corajoso não ia se deixar abater por uma besteira como essa, não é mesmo?

Camus perguntava o intimando, deixou Milo sem saída e este teve que admitir

— É, não ia...passou, esquece

— Ótimo, agora me dá um beijo porque hoje é natal e...

Milo se sentiu derreter pelos lábios de Camus tão próximos, tão tentadores, desejando os dele daquele jeito. O ruivo o enlaçava pela cintura, apertando os corpos, transmitindo calor

— ... e eu te amo demais, seu idiota

Milo sorriu e as bocas colaram em um beijo longo, intenso, sensual.

*


A noite fria e natalina tinha ruas desertas. Todos estavam em suas casas, comemorando em familia aquela data especial.
Pessoas felizes trocavam presentes, comiam, se confraternizavam.

A neve caía devagar lá fora.

No casebre não era diferente. Milo e Camus tinham apenas pão, o vinho e alguns outros alimentos, porém nada de fartura. A lamparina iluminava a mesa e o fogão aquecia com sua lenha em brasa.

O casal comemorava a data festiva em silêncio, juntos. Sorviam o vinho, se beijavam. Não comemoravam esfuziantes, apenas compartilhavam á dois aquele momento. Até que as batidas na porta os interromperam.
Milo levantou-se para ver quem era, e ao abrir, junto com um sorriso enorme em seus lábios gritou pelo amado

— Camus!!

O ruivo correu até ele, preocupado. Seus olhos se encheram de lágrimas e transbordaram mornas lavando o rosto alvo. Camus mergulhou nos braços de sua amada mãe, que chorava também, emocionada. Depois abraçou Krest, ainda muito emocionado

— Vocês estão aqui! Mãe..irmão..

Camus estava tão emocionado que tropeçava nas palavras e chorava. Aquele era o maior presente de natal que ele poderia receber.

— Camus, meu amor, meu filho!

Anete só conseguia acariciar o caçula, chorando, tocando seu rosto. Krest e Milo se abraçaram forte e o loiro agradeceu a ele por terem vindo. Milo sabia o quanto aquela visita era esperada por Camus.

Mais calmos, Anete foi até Milo. Enxugando as lágrimas, olhou o jovem loiro á sua frente, olhando para cima pelo fato de ele ser mais alto. Anete sorriu e abraçou aquele a quem carinhosamente chamou de genro.
Milo se emocionou e chorou. Aquele abraço cálido e materno era algo que ele havia deixado de experimentar desde a morte de sua mãe.

Todos estavam tão emocionados que nem repararam que Anete e Krest haviam trazido um enorme assado. Depositaram a comida cheirosa sobre a mesa, perfumando todo o casebre. Anete olhou a sua volta, olhou o que seu filho e genro comiam e tornou a chorar. A pobreza que Milo e Camus amargavam era cruel, eles mal tinham de comer e o casebre era muito precário.

— Mãe, não fique assim, nós estamos bem — Camus tentou tranquilizar Anete, que chorava olhando a sua volta — temos pouco, mas somos felizes assim.

— Senhora Garret, me perdoe. Eu ainda darei uma vida melhor ao seu filho, eu prometo.

— Milo, para com isso...

— Não é isso querido — Anete agora falava para Milo, olhando-o com carinho — não estou cobrando nada de você, minha preocupação é com vocês dois. Como podem viver assim?

— Mãe — agora era Krest quem falava — é um começo difícil, mas eles vão vencer. Ao menos uma ceia de natal vamos dar á eles! Vamos comer, gente, isso aqui deve tá divino!

Krest com sua alegria cortou o clima triste, fazendo todos sorrirem. Rápidamente buscaram copos, pratos, talheres. Mais velas para iluminar o casebre e todos se sentaram á mesa, comendo a comida feita com carinho pela matriarca. Há meses Milo e Camus não sabiam o que era comer um bom assado, mataram a vontade, comendo bastante.

Lá fora a neve caía. Milo olhou Camus e viu o ruivo mastigando feliz, enquanto conversava com o irmão e recebia afagos da mãe. O coração de Milo se aqueceu, era maravilhoso ver quem ele tanto amava feliz. Hipnotizado pela felicidade de seu amor, nem percebeu aque ele agora também o olhava, com um olhar doce, flertando como nos velhos tempos.

Ficaram se olhando por alguns segundos e toda a felicidade que sentiam podia ser transmitida apenas com aqueles olhares.

Havia sido, desde crescidos, a melhor noite de natal de suas vidas.

Notas finais
Sobre Afrodite: Eu não vejo o Dite como um personagem vaidoso, nem mesmo egocêntrico. Mas precisarei dar um pouco desta faceta á ele por conta do enredo. Mas não é algo á toa, ou sem motivos. O meu Dite tem motivos para ser assim, não é algo que seja apenas da personalidade dele. E sobre Matheo, será que o Divo deve perdoar seu ex amor?