Notas iniciais
Olá leitores! Bom, infelizmente o capítulo é bem angust. :/ Pra melhorar o astral, nossos dois belos protagonistas na imagem do capítulo. Boa leitura!

Cap 17 — O Prisioneiro

O restante da noite não havia sido de todo tranquilo. Camus voltou a ter pesadelos pelo menos mais duas vezes e em todos o via envolto em sangue, e acordava em seguida atormentado. Cabia a Milo acalmá-lo e fazer com que voltasse a dormir.
E aquilo se repetia, insistentemente.

Com isso ambos levantaram com a sensação de noite mal dormida, cheios de olheiras. Camus estava levemente mal humorado e monossilábico, Milo cuidou do café que tomaram saindo juntos em seguida.

— Fique bem meu anjo, esqueça estes pesadelos. Mais tarde nos vemos em casa, eu te amo — Milo depositou um beijo carinhoso nos lábios de Camus ao deixá-lo na porta da livraria

— Tudo bem, vou tentar. Também te amo, e se cuida.

Se olharam, em silêncio. Precisavam se afastar, Milo deveria ir, mas não conseguiam. Se abraçaram novamente e trocaram um beijo intenso. O coração de Camus palpitou de forma estranha. Finalmente separaram-se e Milo se foi, em seguida Camus entrou na livraria.

O ruivo entrou dando um bom dia seco a avô e neto, seguiu para o balcão onde tirou e deixou a casaca pesada. Já conheciam Camus o suficiente para saber que ele não estava em um bom dia. Dite foi até ele, mesmo com o avô dizendo para dar espaço e que Camus não estava bem. Ignorou o mais velho e foi.

— Acordou com o pé esquerdo ruivinho? O que você tem?

O tom debochado do loiro o irritou, fazendo com que respondesse com certa rispidez além da seriedade cortante que lhe era característica

— Não é da sua conta, Afrodite. Apenas me deixe trabalhar em paz. Vá procurar o que fazer, ser util ao menos uma vez na vida lhe fará bem.

Dite se retorceu com o tom áspero e o olhar desinteressado de Camus. Uma resposta ácida a altura lhe veio a ponta da língua, mas engoliu a seco. Sabia que entrar numa discussão com Camus não era uma boa ideia e poderia terminar por afastar de vez o ruivo.


**


No jóquei, Milo era quase sempre um dos primeiros a chegar. Chegava cedo para organizar o material de trabalho e dar a primeira alimentação dos cavalos.

No entanto, estranhou que além dele alguém também tinha madrugado e já praticava exercícios montado em um dos garanhões em plena pista. Olhou Julian de longe, estranhou vê-lo tão cedo na pista mas ignorou, virou-se rumo a parte interna para começar seus trabalhos.
Por trás de si, Milo ouvia o som do galope do garanhão, um lindo puro sangue negro. Subitamente o animal relinchou furioso e o barulho de uma queda violenta foi ouvido. Milo virou-se rápido e se deparou com Julian no chão, aparentemente não se mexia.

Movido pelo instinto de ajudar alguém ferido, Milo correu na direção em que o outro estava. A principio Julian parecia desacordado e havia caído de costas. Milo ajoelhou-se e apoiou a cabeça de Julian em suas coxas, afim de livra-lo das pedras que certamente machucariam a cabeça do cavaleiro.

— Julian, Julian! Acorda!

Milo dava tapinhas no rosto do outro que parecia ir voltando a si aos poucos

— Milo...o que aconteceu? Ai...

Julian falava baixo e com uma expressão de dor, levou uma das mãos á perna esquerda e gemeu outra vez. Notando que Julian poderia ter tido alguma lesão grave naquela perna, Milo tentou tranquilizá-lo

— Você caiu. Fique calmo que tentarei pedir ajuda...

Dito isto olhou para os lados e por ser ainda muito cedo não via mais ninguém além deles
Milo lamentou-se internamente e percebeu que precisaria agir ele mesmo. Deixou de lado por um momento sua rusga com o cavaleiro e decidiu ajudá-lo. Julian sentiu seu corpo ser erguido com uma destreza impressionante, logo estava sendo carregado no colo em direção a saida.

Internamente, o cavaleiro comemorava e se deliciava por estar nos braços de seu objeto de desejo. Durante a caminhada Julian sentia o cheiro amadeirado de essência que o loiro usava, o perfume emanava notas de calêndula das cascatas douradas que balançavam com o vento. Aliado a isso o calor do corpo e a respiração acelerada por estar carregando peso fizeram Julian suspirar com o espetáculo que aquele loiro era para ele.

Quando chegou nos portões Milo avistou uma carruagem e falou ao cocheiro já colocando Julian dentro dela

— Bom dia, este senhor está ferido. Pode nos levar?

O cocheiro consentiu, Milo entrou também na carruagem e seguiram para o endereço que o cavaleiro orientou

— Precisará ver um médico, sua lesão pode ser séria — Milo dizia sériamente balançando na carruagem com Julian apoiado a si

— Sim, assim que chegarmos pedirei para chamarem nosso médico de confiança. Ele cuida de meus pais e de mim desde que eu nasci. — olhou para Milo, tentando aproximar mais os rostos — obrigado, Milo. Nunca esquecerei o que fez por mim.

Milo tentou afastar-se, ainda que o espaço fosse pouco e eles fossem obrigados a ficarem quase grudados. Nada mais falou e o silêncio se estabeleceu até a chegada aos portões da propriedade da familia Taylor.

Quando um dos empregados viu Julian dentro da carruagem ordenou a abertura dos portões. O veículo entrou no pátio do que era quase um castelo de tão grande. A mansão dos Taylor era um antigo palacete de mais de oitocentos anos, com suas paredes de pedra, dois andares com muitos quartos e um terceiro andar menor que só era possível ver pela parte traseira da mansão. Em sua volta imponentes jardins com plantas e flores, um lago com cisnes e uma floresta conífera ao fundo.

Milo entrou na mansão com Julian no colo e a pedido deste subiu as escadas para deixá-lo em seus aposentos. Internamente torcia para tudo aquilo acabar logo, queria ir logo embora dali, estava apenas socorrendo alguém que necessitava simplesmente por não haver quem mais o fizesse. O que Milo mais desejava era sair bem rápido daquela casa. Entrar na mansão lhe deu calafrios e uma sensação nada boa.

— Pronto, agora descanse. Pedirei ao seu mordomo que chame o médico, evite mexer a perna — recomendou vendo o outro apenas mexer a cabeça em aprovação.

Achou estranho que nem o mordomo, nem o caseiro tenham estranhado ou mostrado preocupação com o fato de o patrão deles chegar ferido em casa. Olhou a sua volta e a serenidade do próprio Julian o fez suspeitar que aquilo poderia ser uma emboscada.
Precisava sair daquela casa e rápido.

— Obrigado meu querido...

Estas foram as últimas palavras que Milo ouviu.


Subitamente alguém o agarrou por trás e colocou em seu nariz um pedaço de pano embebido em alguma droga que o fez apagar em segundos, sem qualquer chance de reação.


**


Milo começou a voltar devagar. Foi despertando aos poucos e quando terminou de abrir os olhos e recuperar sua consciência, se viu sozinho.

Não estava mais no mesmo quarto, mas ainda no palacete. Percebeu pelas paredes e o tipo de janela, aliás, apenas uma e no alto.
Estava deitado em uma cama grande e confortável com dossel, forrada com lençóis de seda em tom bordeaux, o mesmo do carpete e do estofamento de uma poltrona confortável próxima a uma lareira que já estava acesa, mantendo o ambiente aquecido. Nas paredes de pedra, dois originais de Caravaggio decoravam o quarto, entre eles lamparinas apoiadas a parede iluminavam o ambiente. Ao lado da cama um móvel com uma bacia de porcelana e um jarro com água.

Mas o primeiro lugar para onde Milo correu foi a grossa porta de madeira, óbviamente fechada por fora.
Havia mesmo caído em uma emboscada.

— JULIAN!!! Me tire daqui agora!!!! Abram essa porta!!!

Milo gritava, batia na porta com toda a sua força mas era inutil. A grossa porta fechada e a pequena janela quase inacessível provocava uma sensação de claustrofobia aterrorizante.
Assim ficou por muitas horas, gritava, xingava, estava irado e a raiva incontida se manisfestava enquanto esmurrava a porta sem sucesso. Logo o ira deu lugar ao desespero e Milo já implorava para que o deixassem sair. Desesperado, chorou.

O dia inteiro havia sido vencido e a noite já caía. Milo já não tinha voz para gritar e nem implorar, já não tinha mãos para bater. A voz saía rouca e fraca. Permitiu que seu corpo se esvaísse e recostado a porta encolheu-se no chão. O desespero e o medo o assombravam e ele pensava apenas em um nome

"Camus....Camus.."

Na ampla sala, saboreando sua dose de absinto, Julian havia passado o dia ouvindo o prisioneiro implorar por liberdade. A queda do cavalo (providencial e provocada por ele mesmo afrouxando a sela) não havia lhe rendido mais do que arranhões.
Seu silêncio era providencial. Não enfrentaria Milo naquele momento inicial, o loiro estava irado e coléricco e se fosse até ele, levaria uns bons tapas e perderia seu prisioneiro. Precisava minar-lhe as forças, precisava esperar que Milo se enfraquecesse, sendo vencido pelo medo. O tempo no cativeiro faria a fúria se dissipar e a fera amansar-se para, aí sim, começar a interagir com ele.

**


A sopa já havia há muito esfriado sem que ele nem tocasse nela.

Camus sentia uma estranha agonia de preocupação tomar-lhe. Sacou o relógio do bolso e já passava das três da manhã.

"Milo, onde você está...por Deus, o que houve com você"

Lembrou-se de imediato dos pesadelos, sabia que não eram simples sonhos mas presságios ruins. Sentiu um nó na garganta sofrido e o choro lhe veio, junto a ele as piores coisas lhe passaram a cabeça.
Virou a noite em claro, lutando contra seus piores pensamentos, tentando manter-se controlado e não enlouquecer de vez. Camus não pregou o olho e logo que amanheceu fez o que tinha que fazer, mantendo sua racionalidade e tentando não sucumbir ao pavor de perder seu amado.

— Bom dia senhor. Vim prestar uma queixa por desaparecimento.

Camus encarava serio a autoridade á sua frente, havia ido á base da Polícia de Londres comunicar o desaparecimento de Milo e para tanto um detetive fora designado para resolver o caso. Camus forneceu a ele o nome completo e uma descrição de Milo para uma especie de retrato falado. Deu seus últimos passos e descreveu a rotina do desaparecido.

Saiu da base com a promessa de que não mediriam esforços para encontra-lo, acima de tudo ao ouvirem que se tratava de um Bloedorn, logo, filho de um dos homens mais influentes. Foi um pouco complicado para o detetive entender o que o herdeiro da fortuna de Richard fazia como subalterno no jóquei e porque vivia de aluguel em um casebre, mas Camus lhe explicou toda a história desde o início.

Na livraria, contou aos Svensson o ocorrido. Afrodite preocupou-se com o rosto abatido de Camus que não havia dormido e nem comido nada. Com muita insistência fez o ruivo tomar uma pouco de café e comer um pedaço de pão, mas nada descia na garganta de Camus. Tudo estava amargo e simplesmente não sentia fome alguma.
Apenas um vazio e um aperto sofrido e sufocante.

Ganhou do Sr. Svensson um período de licença até que Milo fosse encontrado para poder se dedicar totalmente á procura, fora que Camus não teria qualquer condição de trabalhar sem poder se concentrar em nada que não fosse saber o paradeiro de Milo.
Voltou ao casebre esperançoso de seu amor estar lá, mas nada. Nem sombra. Milo havia desaparecido apenas com a roupa do corpo.
Buscou uma das camisas do loiro, nela achou alguns fios dourados que ficaram presos ao tecido. Camus abrigou-se na cama, abraçando o travesseiro que Milo usava e a camisa. Afundou o rosto neles derramando lágrimas mudas e exausto adormeceu, finalmente vencido pelo cansaço.


**


Milo despertou assustado.

Não na cama, mas no chão onde o cansaço lhe havia vencido. Tinha esperanças que tudo não passasse de um pesadelo mas se frustrou ao notar que permanecia trancado no mesmo quarto.
Pela pequena janela notou que raios solares entravam parcamente, já era dia.
Viu sobre a mesinha frutas, pães e leite. Alguém havia entrado e deixado um desjejum, mas Milo nem sequer tocou em nada. Não queria comer, apenas sair daquele lugar. Bebeu apenas um pouco de água e começou a sondar cada parte do quarto, vasculhando tudo o que podia.

Vencida a primeira noite onde o desespero imperou, agora mais equilibrado organizava as ideias e tinha em mente apenas uma coisa: precisava sair dali. Era a única certeza que tinha.
Ruminava como uma fera enjaulada, andando em círculos, sem rumo mesmo em um espaço pequeno.
Olhou a janela novamente. Era alta e não havia como alcançá-la, e ainda que pudesse, ela era pequena demais para um homem com o porte dele, certamente entalaria e ficaria preso. Forçou a porta mais vezes, vasculhou gavetas, olhou atrás dos quadros, sacudiu toda a roupa de cama. Com a lareira apagada olhou pelo fosso da chaminé e constatou que este também não comportaria seu corpo.
E assim se passou toda uma manhã. Por vezes o desespero voltava e Milo tornava a gritar e esmurrar a porta, sempre sem qualquer sucesso.

"Camus, meu amor...eu vou sair daqui, eu não vou desistir, não desista porque eu vou voltar..."

Milo pensava no ruivo amado sentado sobre a cama, encolhido dobrou as pernas e abraçou os joelhos, balançando tentando manter-se calmo.


**


Camus saía do Jóquei Clube, onde havia conversado com o Sr. Thompson. O detetive também havia passado por lá e colhido o depoimento do gerente que alegou a ambos não ter visto mais Milo após o chá que tomaram juntos.
Thompson também não citou qualquer suspeito e defendeu-se quando Camus falou o nome de Julian.

— Julian Taylor? Não, não...a história dele com Milo é passado, pelo que sei ele não chegou mais nem perto depois que o Milo o botou pra correr. Ouvi dizer que ele realmente desistiu, ele não faria nada contra Milo, fique tranquilo, Camus.

O tenente não insistiu mas também não se convenceu. Lembrou dos olhares trocados no dia do chá e sabia que Julian não havia de todo desistido de Milo. Julian era sim, para Camus, o principal suspeito.
Pensou também em Richard, e com isso agora se dirigia á Greenford.

Parado frente ao portão de ferro, Camus observou a imponência da enorme propriedade. Uma mansão em estilo britânico, com jardins e um lago com chafariz. Na lateral uma enorme estufa de flores e plantas, o local fora construído a pedido da falecida Christine. Suspirou ao conhecer, finalmente, o lugar onde Milo havia nascido.
Fora recebido por um dos criados, que o informou que Richard se recusava a vê-lo. Sem saída, restou a Camus desistir e ir embora, mas não sem antes deixar um recado a ser passado ao dono da casa

— Diga ao seu patrão que o filho dele está desaparecido e que ao que tudo indica, trata-se de um sequestro. Se ele ainda tem algum amor pelo filho, avise-o para ir á base de Polícia prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações.

Dado o recado se retirou, ainda que soubesse internamente que Richard nada faria.


**


Alguns dias depois

Julian julgou que pelo tempo que Milo havia passado em cativeiro suas forças e sua ira já estariam mais brandas e preparou-se para encará-lo pela primeira vez.
Milo pulou da cama onde repousava apático ao notar que a porta finalmente se abria, depois de todo aquele tempo de silêncio.

— Como está meu mais ilustre hóspede?

Julian entrou com uma bandeja em mãos e nela havia um belo prato de comida, frutas e leite. Milo há dias não comia e foi difícil controlar-se ante a refeição que parecia apetitosa, no entanto, sua fúria e a vontade de ser libertado falaram mais alto

— Desgraçado!! O que pensa que está fazendo comigo, Julian? Me deixe ir embora agora mesmo!

Milo agarrou Julian pela gola, mas por estar debilitado e físicamente mais fraco, não conseguiu se manter em ataque quando o outro se defendeu, jogando-o contra a parede

— Acalme-se!! Vamos, acalme-se querido, assim não conseguirá nada. Já disse que é meu hóspede especial. Oras, todos estes dias mandei que lhe servissem boa comida, mas parece que não se alimentou como deveria.

De fato Milo havia recusado práticamente todas as refeições, não sentia vontade de comer, não aceitava ser servido naquela casa e nem comer daquela comida. Julian pegou o prato e se aproximou

— Coma querido, você está fraco e precisa se alimentar...

Mal concluiu a frase e Julian sentiu todo o prato de comida vir contra seu rosto, Milo bateu com a força que tinha no prato, fazendo-o se chocar contra o rosto de Julian, sujando-o por completo.
Novamente Julian estava sendo afrontado, Milo o fitava com uma raiva quase incontida nos olhos, irritado o dono da casa tentava tirar dos cabelos pedaços de vegetais, macarrão e o que mais havia na comida

— Não é me afrontando que sairá daqui, Milo. Sorento!! — gritou chamando o mordomo que apareceu em seguida, assustando-se com o estado do patrão — chame alguém para limpar toda essa sujeira e mantenham o prisioneiro sem água ou comida por três dias!!


Após a ordem saiu depressa a lavar-se. Milo voltou a encolher-se sobre a cama, nem sequer olhou para os empregados que vieram limpar a sujeira que ficou no chão. Armado, Sorento vigiava Milo para que ele não fugisse enquanto a limpeza era feita.
Milo suspirou cansado, na garganta o embolo misturava angústia, ódio e vontade de chorar. A ordem de ficar sem comida não o preocupava, não tinha fome e não desejava comer nada Apenas se encolheu mais ainda e depois que todos saíram, adormeceu.


**


O italiano pousou as malas no chão da estação de trem. Junto com elas, levava a saudade dos filhos pequenos, o medo de não vê-los crescer, de perder os laços paternais de tal forma que os pequenos, quando grandes, não se lembrassem mais dele. E levava o medo, ou a incerteza de como aquele a quem desejava ver reagiria a sua presença. Tantos anos depois.

Ajeitou a cartola cinza tapando parte dos cabelos quase no mesmo tom, olhou o relógio de bolso e constatou que era a hora. Embarcou no trem que já fumegava, preparando-se para deixar a ensolarada Itália com destino as frias terras francesas. De lá, o navio que atravessaria até terras britânicas, seu destino final.

Sentado, sentindo o balanço do trem que já tomava velocidade e prevendo que passaria muitas horas naquele vagão, buscou entre as folhas amareladas da caderneta um desenho feito parcamente a grafite, nele o rosto angelical de traços perfeitos e bem definidos. Os olhos grandes e expressivos, o nariz delicado e feminino, a boca desenhada milimétricamente em toda sua perfeição e simetria. Emoldurados por longos fios dourados que caíam despretensiosos naquela pintura em forma de rosto.
Suspirou. Em algum tempo o veria.

Precisaria de muita coragem para enfrenta-lo, pois o temperamento ferino, mordaz e ácido vinham na mesma proporção de sua beleza.


**


Camus teve apenas o trabalho de acender uma única lamparina. Não precisava de mais iluminação do que isso.

Sentado á mesa da cozinha esfregava as têmporas, de cabeça baixa. Sentia dores tão fortes como pontadas, a angústia lhe sufocava apertando a garganta. A sensação de perda lhe invadia de forma cruel. Já havia chorado, agora olhava em volta com os olhos ainda inchados. A casa vazia era triste, brutalmente triste sem a alegria dele. Sem a vivacidade contagiante de seu loiro, sem sua voz sempre reclamando de algo e em seguida o seduzindo para se amarem mais uma vez.

"Milo...ah meu amor..."

Já não tinha mais ideia de quantas vezes havia suspirado sofridamente a pensar nele. De quantas vezes se atirou na cama, agarrado a uma de suas camisas, aspirando o cheiro e molhando o tecido com mais lágrimas.
As vezes involuntariamente sorria ao lembrar-se de como sua vida mudou com a chegada dele. O Camus outrora austero e gélido era agora um homem feliz, que via a vida com cores que nunca havia visto, aprendendo a lição de que um sorriso junto a uma boa dose de otimismo e bom humor são fundamentais na vida. Que mais vale sorrir do que trancar-se. Que mais vale amar.

O amor. Quão avassalador este entrou em sua vida, transformando-lhe o brilho dos olhos, a intensidade do sorriso, explodindo e pulsando agora ainda mais e mais. Passou a mão pelo próprio corpo, peito, abdome, pernas, cabelos, boca...não havia nenhuma parte de seu corpo que não tivesse pertencido a ele, que não tivesse recebido seu toque, seus beijos, suas carícias mais ousadas.

Milo despertava seu lado mais carnal, mais quente. O fazia revelar-se, nu, sem medos e sem travas. Se entregava da forma mais luxuriosa sem qualquer vergonha. Camus sentiu um calor subito aquecer-lhe, pensar nele fazia bem, o fazia recobrar as esperanças.
Foi interrompido por batidas bruscas na porta

— Milo?

Pulou na cadeira, despertando do devaneio de amor em que se encontrava. Abriu um sorriso iluminado e correu para a porta na esperança de que aquele pesadelo estivesse finalmente findando.
No entanto, o sorriso se desfez ao abrir e encarar quem o olhava do outro lado.

— Onde ele está, seu desgraçado

Julian mal teve tempo de se defender, a voz de Camus saiu pastosa, fria e junto com ela em um movimento rápido pegou o outro pela gola da camisa, sufocando-o

— Eu sei que foi você, diga onde ele está

Camus era ameaçador, mas sem se alterar ou explodir. Julian sentia a força das mãos do ruivo em seu pescoço

— Camus..me...me solte. Não consigo falar, é sobre o Milo, me ouça

Com isso Camus o soltou, atirando-o contra a parede. Seu olhar rasgava o ar em direção a Julian, fitando-o sem trégua.
Julian notou que Camus não se alterava, mantinha-se equilibrado mas isso não o impediria de ser brutal caso assim decidisse.

— Infelizmente ele não está comigo. — levou as mãos ao pescoço, aliviado e retomando o ar — sei que me citou como suspeito á policia, mas não é o que pensa, eu não o sequestrei.

— Então o que raios você quer aqui? Porque me procura?

— Pra te ajudar a entender o Milo. Ora vamos, Camus, eu o conheço há muito mais tempo que você, não existe sequestro, ele simplesmente se foi! Ele mesmo assim decidiu. Entenda Camus — Julian agora usava um tom mais sereno, quase amigável — ele não o quer mais, Milo cansou de brincar de casinha com você e decidiu voltar para a boa vida que sempre teve. Eu lamento ser o portador dessa notícia, mas ele o abandonou. Acho que o mais prudente é que você retorne para sua casa, para a sua amada França. Sinto muito, Camus.

Camus deixou que alguns segundos passassem, o que para Julian foi como uma eternidade. Os olhos fixos do ruivo em si não davam conta de saber se ele iria desabar e chorar ou se iria matá-lo. Até que Camus rompeu o silêncio, ainda mantendo sua calma e frieza no tom de voz

— O que julga que sou, Sr. Taylor? Acha que sou algum idiota? Olhe bem pra mim e me responda.

Julian o encarava, agora sem ação. Não esperava que Camus fosse reagir daquela forma e não entendia o que aquelas perguntas significavam. Mas Camus prosseguiu, se fazendo claramente entender, falando em tom quase didático

— É evidente que você o sequestrou SIM. Milo jamais deixaria essa casa, nem para voltar para a dele, e muito menos... — Camus riu e retomou a seriedade em seguida — muito menos por você. Não sei o que fez com Milo, mas eu vou descobrir. E assim que eu descobrir vou tirá-lo de onde o colocou. E para o seu bem, não faça nada a ele, ou eu mato você. Com minhas próprias mãos.

Julian emudeceu ante as palavras de Camus. Não imaginava que o amor que sentiam fosse algo tão concreto a ponto de dar-lhe tal certeza. O ruivo estava seguro como uma rocha e isso o intimidou, fazendo com que desistisse de prosseguir com aquele diálogo.
Quando Julian cruzou a porta, Camus teve absoluta certeza que estivera diante daquele que sequestrou Milo, mas desgraçadamente não havia como provar.

Fechou a porta e voltou a mesma posição de antes.
Precisava pensar em um modo de salvar seu amado, ele estava em poder de Julian e saber disso já era um começo.


**


No dia seguinte pela manhã, Camus foi á base de polícia e citou Julian como suspeito pelo sequestro de Milo. O detetive informou que para fazer buscas na casa era necessário alguma evidência e, como Camus não a tinha, restou ao ruivo sair da base sem poder contar com a ajuda do detetive. Mesmo informando sobre a conversa que tiveram, a autoridade não considerou que aquela fosse uma evidência válida.
De mãos ainda atadas, Camus decidiu ele mesmo averiguar o palacete dos Taylor.

Em poucos minutos estava em frente aos portões de entrada da propriedade, lá foi recebido pelo caseiro que o conduziu pelos jardins até a entrada da casa.

— Aguarde aqui um instante Sr. Garret que irei anunciá-lo — pediu o homem

Camus esperava que algum criado da casa fosse recebê-lo na porta, mas para sua surpresa o próprio Julian surgiu, saindo, encarou Camus com olhos raivosos e recebeu do ruivo o mesmo olhar.

— Ora, ora. O que deseja aqui Camus? Procurando seu amado? Sinto muito, mas aqui ele não está.

Camus analisou Julian minuciosamente, sabia que mentia mas precisava ser prudente se quisesse descobrir algo. Se enfrentasse Julian diretamente conseguiria apenas ser expulso de lá.

— Se ele se afastou de mim voluntáriamente como me disse, não seria surpresa se eu o encontrasse aqui, não acha?

Camus falava friamente e Julian notou que estava sendo analisado pelo outro.

Havia procurado Camus na tentativa se faze-lo desistir de Milo e voltar para a França, assim poderia livrar-se de seu principal adversário e do único que poria em risco seus planos.

Dois andares acima, trancado em seu cativeiro, Milo mantinha-se abraçado aos joelhos, de cabeça baixa. Subitamente levantou-se num salto e chegou o mais perto possível da janela.
Ainda que de longe, muito de longe, ouviu aquela voz e a reconheceu

— Camus?? Camus está aqui! CAMUS!!!!!!

Gritou o mais alto que podia.


(continua)

Notas finais
Que tenso! Milo está vivendo mals momentos nas mãos de Julian, será que Camus poderá tirá-lo de lá? Matheo logo estará em Londres e o reencontro entre Dite e seu carcamano promete!