A História de Nós Dois

18 O Pequeno Ladrão de Maçãs


Notas iniciais
Olá! Chegando com capítulo novo Sei que estamos numa fase bem angustiante da história, mas teremos uma surpresinha para diminuir um pouco esse clima dark. Um agradecimento especial a quem tem deixado seus comentários, obrigada por não desistirem no caminho. Obrigada também a quem está chegando agora, sei que temos leitores novos! E pra quem ainda não está por aqui, só digo que estão perdendo!!! Essa fanfiction reserva surpresas incríveis, quem desistir, infelzimente vai perder a melhor parte!! Boa leitura!

Cap 18 — O Pequeno Ladrão de Maçãs

— Camus!! Estou aqui...CAMUS!!!!


Desesperado, Milo tentava sem sucesso alcançar a pequena janela que ficava no alto, inacessível.
Gritava desesperadamente pelo nome de Camus a quem jurava ter ouvido a voz. Insistiu o quanhto podia, o quanto sua garganta aguentou, deixando-o quase sem voz. Mas foi inútil. Nenhuma resposta, não ouvia mais as vozes e o silêncio sobreveio, deixando apenas o barulho das folhas batendo ao vento nas copas das árvores e o canto dos pássaros.

Cansado de gritar, silenciou já não ouvia mais a voz do amado. Desistiu de sua empreitada, recostando-se á parede, cansado, lamentava-se. Estaria tão louco que ouvia a voz de Camus sem que ele estivesse alí? Ou realmente esteve, mas foi embora sem tê-lo ouvido.
E de fato foi o que aconteceu. Pelo lado de fora, a janela dava para os jardins dos fundos da mansão e Camus havia estado na parte da frente. Por mais que Milo gritasse não haveria como ouvi-lo. Julian escolheu aquele cômodo estratégicamente.

Camus retirou-se da propriedade bastante cismado. Sabia que Julian mentia, mas não via como desmascará-lo. Pensava que talvez Milo pudesse estar escondido na mansão, mas não tinha como provar e com tantos empregados não tinha como invadir o lugar sozinho. Aquele diálogo com Julian era inútil e desgastante, seria besteira continuar persistindo. Não arrancaria nada dele.

O ruivo melancólico caminhou pelas ruas atordoado e lamentando-se. Se sentia impotente diante daquela situação. Preocupava-se com Milo, se estava bem, se comia, se tinha frio ou fome. Como estaria sofrendo seu loiro dos olhos de céu, sentia a saudade sufocar. Mas confiava acima de tudo em seu amor, sabia que onde estivesse, estaria pensando nele.
Angustiado, Milo também se entregava aos seus pensamentos. Dentro da clausura onde via sempre as mesmas paredes, ao menos sua mente era livre para viajar por além daquela janela.

Voltou no tempo lembrando-se de sua chegada a Aix-en-Provence, de como ficou maravilhado ao ver pela primeira vez o belo ruivo de olhos misteriosos e semblante frio. De como se olharam. Lembrou-se que sorriu abertamente, recebendo de volta a reação austera de Camus, que não lhe retribuía o sorriso. Mas aquilo não o intimidou, muito pelo contrário. Soube, imediatamente, que por baixo daquela casca de gelo existia um calor ardente.

Calor este que conheceu no primeiro abraço, no primeiro beijo. Alta noite no estábulo na mansão dos Garret quando tentava cuidar do ferimento no lábio delicado de Camus e aconteceu da forma mais natural aquela entrega. O melhor beijo de toda a sua vida.
Ainda que seu amor fosse comprometido com sua irmã.

Pensava em Natassia, Milo pensava em como havia seduzido o noivo de sua própria irmã, como havia ido para a cama com ele e de como tudo aquilo terminou: com os dois em fuga dentro de um trem, deixando para trás duas familias em fúria.
E agora qual era o resultado disso? Era o que Milo se perguntava. O resultado era ele preso em um cativeiro por um louco e seu amado Camus sozinho, longe de sua familia, longe de seu país, sem direito a sua herança, sem sua farda e sua condecoração. Sem nada.

Sentiu-se culpado. Camus não merecia aquilo. Ele não merecia aquilo.

"Camus, meu amor...me perdoe, me perdoe..."

Mais uma vez se entregou as lágrimas e vencido pelo cansaço, dormiu.

Ao entrar no casebre vazio, Camus atirou-se na cama mais uma vez. As lágrimas de saudade molhavam o travesseiro.
Seria mais uma noite dura e solitária.


**


Nos fundos da Temple Church*, aos pés de um grande anjo que servia também de abrigo para os pombos, Hyoga acomodou-se com o pedaço de cobertor que usava para dormir.
Sonhava noite após noite em encontrar uma familia, um lar. Assim passou a noite fria, protegido pela estátua naquele pequeno espaço.

Ao amanhecer, sentiu o estômago reclamar. Era hora de ir á venda da esquina roubar mais uma maçã. Sem nenhuma ajuda, sem rumo e perdido no mundo, roubar era a única coisa que o garoto sabia fazer para poder se alimentar.
Como sempre, esgueirou-se pelas paredes, se abaixou e chegou bem próximo a banca lotada dos frutos vermelhos. Esticou a mãozinha suja, arrebatou uma e correu o máximo que pôde com suas curtas pernas, escondendo-se mais adiante. Para seu azar, o dono da venda lhe viu, mas para sua sorte, apenas a tempo de ameaçar-lhe e nada mais

— Maldito ladrãozinho!! Pare de roubar minhas maçãs, da próxima vez te pego e lhe dou uma bela surra de tirar o couro!!!

Hyoga suspirou de alivio ao notar que havia conseguido fugir sem dar chances de o homem por as mãos nele. Escondido em um dos muitos becos da velha Londres, mordeu o fruto matando a fome. Era uma maçã grande, bem vermelha e suculenta.
Sua única refeição naquele dia, muito provávelmente.

Só conseguia comer algo mais quando alguma senhora se compadecia de ver uma criança com fome e lhe oferecia algo. Pra isso, normalmente perambulava próximo a cafés e restaurantes, mas sempre era pego pelos donos e funcionários e mandado para longe. Nessas oportunidades, já chegou a ganhar pães, pedaços de bolo e até sorvetes. Também ganhou restos de uma refeição completa, cheia de carne de porco. Certamente o dia em que Hyoga mais comeu em sua vida.
Todos que passavam por ele se compadeciam da condição miserável do menino, mas nada faziam. Infelizmente, naquela época, crianças e adultos perambulando pelas ruas com fome e doenças eram muito comuns e as autoridades pouco faziam.

Para a Inglaterra industrial só o que importava era o crescimento de suas fábricas, a descoberta de novas formas de produção e o enriquecimento de seus donos.

**


Camus sentia o corpo e a mente retorcidos pelo cansaço. Por mais racional que fosse — Camus era do tipo que racionalizava tudo, procurando sempre sobrepor a razão acima da emoção — era cada dia mais difícil manter-se dentro dessa proteção de equilibrio e domínio próprio que ele mesmo criara para si, para não sucumbir a tristeza e enlouquecer de saudade e preocupação. Precisava agir com certa frieza, ainda que estivesse prestes a explodir por dentro.

Por vezes, deitado na cama de casal que agora abrigava um só corpo, seus pensamentos devaneavam e incertezas o assolavam, por mais que ele evitasse tais pensamentos. Lembrava das palavras de Julian quando este lhe disse que Milo não havia sido sequestrado, mas sim o abandonado por vontade própria.

Oras, quando seu amado Milo seria tão covardemente cruel a este ponto? A ponto de abandonar aquele que jurou amar até seus últimos dias? Tentou outra vez espantar tais pensamentos terríveis, mas veio em sua mente a imagem de em algum dia passar pela rua, acabado, triste e envelhecido pela tristeza de sua ausência e vê-lo inesperadamente no alto patamar da sua posição aristocrata a olhar-lhe por cima, e pior, com Julian ao seu lado a ocupar o lugar que um dia foi dele na vida de Milo.

Sacudiu a cabeça ruiva espantando tais pensamentos terríveis e brigou consigo mesmo

"Não, Camus, não!! Pare de pensar tamanha besteira, ele jamais faria isso...Milo nunca faria isso. Não o meu Milo, ele não"

Para espantar os pensamentos ruins, Camus lavou bem o rosto com a água gelada que estava na jarra. Aprumou-se vestindo a pesada casaca negra, fez um rápido desjejum e saiu. Ficar trancado em casa não o ajudaria em nada.


**


No palacete, os insistentes socos na porta de madeira eram ouvidos. Junto deles gritos de ódio e todo tipo de xingamento. Por vezes, Milo descontava sua ira na porta de madeira num fio de esperança de ser ouvido.

— SORENTO!!!!! ALGUÉM!!! EU QUERO BANHAR-ME!!!

Agora gritava o nome do mordomo insistentemente pedindo por um banho, já que não havia banheira no quarto. Em todo aquele tempo, Milo não pediu por comida nenhuma vez. Apenas pediu água e agora, um banho.
Por ordens de Julian, Sorento subiu ao terceiro andar para atender o pedido do prisioneiro. Abriu a porta com cuidado e recebeu o olhar colérico de Milo

— Eu quero lavar-me, me sinto imundo

— Sim senhor, eu mandarei trazer a banheira de carvalho e tudo mais o que precisar. Aguarde, por favor.

Sorento saiu e pouco tempo depois voltou com mais dois homens que traziam a banheira e baldes de água quente que foram nela colocados. Deixaram vidrinhos com essências, sais de banho, sabonetes e shampoos. Por fim toalhas do mais puro algodão com as iniciais JT bordadas em dourado e uma muda de roupas para trocar: uma calça de algodão marrom e uma camisa branca com cadarço na gola.

— Desfrute do banho, senhor Bloedorn.

Foi tudo o que Sorento disse ao sair com os demais empregados. Milo estava tão sedento por limpar-se (coisa que não fazia há dias), que saiu jogando tudo o que estava nos vidros dentro da água, misturando aquilo tudo. Arrancou toda a roupa e se colocou imerso na água morna e cheirosa.

Enquanto esfregava-se, sentia seu estômago roncar. O banho lhe atiçava ainda mais a fome, mas estava disposto a permanecer sem comer. Olhou o próprio corpo e notou que havia emagrecido e sua musculatura já não era tão vigorosa como antes. Então lembrou-se de outro corpo...

O corpo do seu amor. Lembrou-se de como Camus era lindo e sua musculatura definida na medida certa. Nem muito, nem pouco, apenas o suficiente para fazê-lo imponente, vistoso, um belo rapaz. Era tão gostoso estar em seus braços exatamente daquele jeito, nu. E sentir o corpo dele da mesma forma, a entrega total quando se amavam e juntos se tornavam apenas um.
Suspirou de saudades.

Depois de banhar-se, se secou e vestiu a roupa que lhe trouxeram. Sentou-se na poltrona e começou a desembaraçar os longos fios dourados. Neste momento viu a porta se abrir, julgou que eram os empregados novamente, mas era Julian. Fechou a cara e não quis encarar o outro.

— Vejo que aproveitou bem o banho. Sente-se melhor querido?

O cheiro bom invadia todo quarto, as essências perfumavam a ambiente e entravam pelas narinas de Julian. Milo nada respondeu, e ávido pela sua atenção, Julian se colocou a seus pés, ajoelhando-se diante dele. Se apoiou no braço da poltrona e pousou a mão sobre uma das coxas do outro, que apenas o encarou ainda mais sério.

— Oras Milo, vamos...desarme-se, renda-se de uma vez. Não vê que faço o melhor pra você? Pode parecer cruel agora, mas com tempo me dará razão. E me dará algo mais...algo que já tive um dia e gostei muito

Julian falava com malícia na voz e intensificou as carícias, deixando sua mão deslizar na direção de algo que desejava tocar entre as pernas de Milo. Mas antes que pudesse alcançar o que desejava, Milo parou a mão assanhada de Julian

— Não vê o papel ridículo que faz? Pare de mendigar amor, é tão vergonhoso. Não vou ser seu, nunca. Este corpo pertence a apenas um homem, e apenas ele irá me tocar.

— Não fale daquele francês detestável...

— Falo, é o homem que amo e morrerei amando. Me mate, Julian, acabe com isso. Antes de pertencer a você amarrarei uma corda naquela janela e me enforcarei, prefiro a morte a permitir que sua sujeira sobreponha as marcas do amor que Camus deixou em mim.

As palavras ditas com firmeza e o um olhar cortante pesaram sobre Julian como um soco no estômago, não restando a ele outra opção senão desistir daquela investida naquele momento e retirar-se.
Novamente sozinho, Milo terminou de pentear-se e voltou a se encolher, refugiado na cama a esperar as horas passarem, incerto de seu futuro.


**


Apesar do susto que levou da outra vez em que roubou maçãs na venda, Hyoga não podia desistir de tentar pegar mais frutos, eram sua única fonte de alimentação naqueles dias.
Voltou ao mesmo processo de sempre, esgueirando-se entre as paredes, se abaixou, apanhou uma maçã e correu. No entanto, sua corrida foi interrompida pelo dono da venda que, já precavido da visita indesejada do pequeno ladrãozinho, ficou devidamente escondido esperando a hora de dar-lhe o bote

— Te peguei seu moleque miserável!! Agora sim, vai levar uma surra para nunca mais se esquecer!!

O coraçãozinho do pequeno batia rápido de pavor, o homem era muito maior e mais forte, se batesse com vontade, acabaria com ele em pouco tempo

— Socorro, me solta!! Tenha piedade senhor, eu lhe imploro...

Hyoga começou a chorar enquanto se debatia, mas o homem não demostrava pena

— Pensasse nisso antes de me roubar, vem roubando minhas maçãs há dias, pensa que não sei??

O homem já erguia a mão para bater no garoto quando ouviu uma voz grave e firme o refrear

— Pare com isso agora mesmo! Solte-o!

Hyoga olhou na direção de onde vinha a voz e seu salvador não podia ser outro senão aquele em quem pensava todos os dias em rever: o belo ruivo que demostrou por ele doçura e carinho numa véspera de natal.

— Quem é você? Não se meta, esse menino vem me roubando há dias, é um ladrãozinho da pior espécie!

— Você está falando de uma criança, já disse, solte-o!

Camus permanecia firme no propósito de salvar o garoto, não sabia exatamente porque estava fazendo aquilo, mas apenas deixava seu senso de justiça falar mais alto. Sabia que poderia estar arrumando confusão para si mesmo, mas estava disposto a livrar o pequeno de levar uns bons tapas

— Ele me deve maçãs, roubou várias. O que acha que devo fazer?

— Não seja por isso, eu pago as maçãs que ele lhe roubou.

Diante daquela afirmação o homem finalmente largou Hyoga, que correu para os braços do ruivo escondendo-se atrás de suas pernas. Camus deixou nas mãos do homem todas as moedas que tinha nos bolsos para pagar as maçãs roubadas.

— Aqui está, isso paga as maçãs. Agora o senhor não tem mais prejuízo algum e o pequeno não voltará a roubar-lhe, não é? — agora se dirigia a Hyoga, cobrando com o olhar uma posição do garoto

— Si...sim! Nunca mais roubarei! — jurou com sua voz infantil, sem saber se poderia de fato cumprir o juramento

Confusão desfeita, Camus se afastou com o menino. Percebendo que o pequeno tinha fome, foi com ele a um café já que ainda tinha algum dinheiro. Sentaram-se e Camus pediu ao garçom que trouxesse leite, pães doces e um pedaço de bolo.
Camus observava curioso cada gesto do pequeno menino. Lhe lembrava Milo em seus trejeitos, o modo de falar e de sorrir. Ou seu grande amor lhe fazia enxergar Milo em tudo o que via, ou realmente havia uma incrível semelhança entre eles.

— Tudo isso é...pra mim? — perguntou o garoto ao ver a comida chegar

— Sim, notei que tinha fome. Vamos, coma.

— E o senhor, não vai comer?

— Não obrigado, não tenho fome.

Hyoga notou que havia angústia no olhar de Camus, uma sombra triste que não havia da outra vez que se viram. Depois de algum tempo se analisando, Camus quebrou o silêncio

— E então, petit. Por que roubava maçãs?

O pequeno contou a Camus sobre suas fugas do orfanato, sobre os maus tratos sofridos desde muito pequeno e dos dias de frio e fome. Comovido, Camus percebeu que o garoto não conhecia o amor e o carinho de um pai, pelo contrário, recebia da vida apenas pedras. Era um fardo pesado para uma criança tão pequena.
Apesar de estar passando um momento difícil com o sumiço de Milo, Camus não poderia ser indiferente com a história daquele menino. Talvez Hyoga fosse um sinal, um sinal de que as coisas iriam mudar. Hyoga era incrívelmente parecido com Milo: os mesmos cabelos loiros, os olhos de um azul intenso, a mesma esperteza e energia.

— O senhor não me disse seu nome ainda — perguntou com a boca suja de chantily. Camus sacou um guardanapo e limpou o garoto

— Meu nome é Camus. E o seu nome, Hyoga, quem lhe deu? Não é um nome britânico.

— As mulheres no orfanato me deram esse nome, não sei porque. Meu nome mesmo eu nunca soube. Mas você não é daqui, né? Seu inglês tem um sotaque engraçado — o garoto rui, fazendo Camus rir também

— Não, eu sou francês Hyoga, por isso tenho um sotaque diferente, falo este "erre" arrastado

— Humm, entendi. O senhor parece um anjo francês.

Camus riu novamente, Hyoga era um menino doce e inteligente. Pensou em como alguém teria coragem de maltratar uma criança tão amorosa. Não teria como devolver Hyoga para as ruas, faria o que seu coração estava mandando, sem medo das consequências

— Hyoga, gostaria de ter um pai? Gostaria de ser criado em um lar, humilde, mas um lar?

O menino apenas fitava Camus, sério. Alguns segundos depois uma lágrima correu dos olhinhos muito azuis.

— Senhor Camus, não me ofereça o que não pode me dar, isso dói. Sabe quantas vezes fui adotado e em seguida abandonado outra vez? Quantas vezes eu senti o sabor de ter um lar e isso me foi tirado da forma mais cruel?

Camus naquele momento emudeceu, um embolo na garganta quase o fez chorar também, mas segurou-se. Precisava mostrar a Hyoga que ele era diferente.

— Hyoga, não estou lhe oferecendo nada que não possa cumprir. Te ofereço um lar e te darei um lar. Como disse, humilde. Não tenho posses, não sou rico, mas um lar, comida e educação eu posso lhe dar. E o mais importante: o amor de um pai. Você quer?

Hyoga foi das lágrimas ao sorriso e respondeu com um gesto. Levantou-se e abraçou Camus intensamente. O ruivo o acolheu naquele abraço e sentiu um amor paternal lhe aquecer o peito de forma inédita. Era um amor diferente de tudo o que ele já havia sentido na vida.
Pouco tempo depois, estava entrando no casebre com Hyoga.

— Chegamos, filho. Aqui é sua casa a partir de agora. E a primeira lição é: não quero que você roube, nunca mais. Prometa-me que nunca mais irá roubar.

— Sim, eu prometo!

Hyoga olhou o casebre humilde. Humilde para alguém como Camus, nascido em uma mansão, mas um palácio para alguém como Hyoga, que morava nas ruas.

— Você mora sozinho aqui?

A pergunta fez Camus respirar fundo. Um sorriso esperançoso se estampou na face alva do ruivo, que lhe respondeu prontamente

— Não, não estaremos sozinhos Hyoga. Logo teremos de volta o outro morador desta casa.


**


Cansado de ficar tanto tempo enclausurado no vagão, Matheo agradeceu aos céus por estar próximo a estação ferroviária de Londres. A capital parecia um pouco mais fria do que da última vez que a visitou.
Espreguiçou-se amplamente, esticando os longos braços. Levantou-se e buscou sua bagagem, sendo um dos primeiros a descer assim que o trem á vapor finalmente parou na estação lotada.

Carregando as malas pesadas, pediu uma carruagem de aluguel e que o levassem ao Hotel George, onde ficaria hospedado. Apesar de levar uma vida simples na Italia, Matheo possuía uma pequena fortuna herdada de seu pai, um fazendeiro abastado. Filho único, herdou toda a fortuna sozinho, mas como nunca teve grandes gastos, o dinheiro permanecia guardado esperando o que o jovem faria de seu futuro. Tinha planos de abrir um negócio, talvez seguiria os passos do pai, que eram o mesmo do avô: produzir vinho. As terras italianas eram propícias para isso, e ter sua própria vinícola lhe parecia interessante.

No entanto, não desejava realizar este sonho sozinho. Matheo queria que outro alguém também estivesse nisso.

Ao chegar ao hotel, acomodou-se numa das suítes. Lavou-se, e vestiu roupas mais confortáveis. Depois de saborear a comida que lhe foi servida no quarto, sacou a caderneta com o desenho que havia passado a viagem quase toda contemplando. Confirmou o endereço que já conhecia e torceu internamente para que a velha livraria ainda existisse no mesmo lugar.

"Dite, amore mio...eu voltei e amanhã mesmo estaremos juntos. Será que irá me perdoar?!"

Matheo gelava só de pensar que o loiro poderia odiar vê-lo, poderia rejeitá-lo abertamente e estaria em seu pleno direito se assim o fizesse. O último encontro dos dois havia sido uma dolorosa despedida e alguns anos já haviam se passado.
Mas para Matheo, era como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. O rosto belo e lavado de lágrimas nunca lhe saiu da cabeça.


**


Julian observava a lua na forma de um pequeno arco brilhante. A lua minguante deixava a noite lá fora escura e mais fria. O ambiente era o reflexo perfeito de seu coração: escuro e frio.
Análisava-se, em uma subita tomada de conciência, se perguntava como havia chegado aquele ponto. Sequestar Milo havia sido uma ideia arriscada, fruto de sua obseção doentia, um ato desesperado, uma tentativa desesperada de tentar possuir o que julgava ser seu.
O coração do belo loiro.

Mas como conseguiria se tudo o que tinha era ainda mais e mais ódio e asco por parte dele? Cada vez que tentava se aproximar, o afastava ainda mais.
Olhava pra si mesmo, era o único herdeiro de uma familia abastada, tinha o futuro garantido, era jovem, bonito. Mas porque não conseguia ser feliz? Porque o amor parecia ser para ele um sonho impossível e inalcançável?
Sabia que Milo jamais iria amá-lo, todos aqueles esforços seriam inúteis. Poderia libertá-lo, simplesmente deixá-lo ir, mas sabia que Milo voltaria para Camus e que ele, Julian, estaria condenado a apenas ver os dois felizes, desfrutando de uma felicidade que ele jamais poderia provar.

Não, não seria tão generoso. Se Milo não poderia amá-lo, se não poderia ser dele, de Camus também não iria ser. Se não podia tê-lo como desejava, então ninguém mais o teria.

Se a vida de Milo não poderia ser sua, então era melhor que ele simplesmente

não a tivesse mais.

Julian sacou do bolso o pequeno vidro contendo o veneno. A porção era suficiente para tirar a vida de um homem em poucos minutos. Ordenou que Sorento lhe trouxesse um copo de suco de frutas, nele colocaria o veneno que seria oferecido ao prisioneiro.

Sabia que seria infeliz e desgraçado pelo resto de sua vida após este momento, mas estava decidido a acabar com toda aquela angustia e infelicidade de uma vez por todas. Nunca mais seria rejeitado, nunca mais teria seu amor não correspondido.


**


— Por Deus, Hyoga, quanta sujeira!

A tina de madeira com água morna comportava o pequeno menino, cujo corpinho era esfregado por um Camus assustado em ver tanta sujeira agarrada a pele alva e delicada da criança.
Esfregava com a esponja as costas, lavou os longos fios loirinhos, tendo que remover deles alguns piolhos que o menino tinha contraído, esfregou-lhe os pés imundos. Não parou até que o menino ficasse realmente limpo.
Depois do banho, cortou as unhas de pés e mãos, aparou um pouco os cabelos e vestiu nele uma camisa sua.

— Esta noite dormirá com uma roupa minha mesmo. Amanhã cedo saímos para comprar uma muda de roupas para você

Camus riu do pequeno com uma camisa sua, as mangas sobrando nos bracinhos curtos e a cintura da camisa batendo quase nos pés dele.

— Sua camisa parece um vestido em mim!

Os dois riram e Camus levou Hyoga para a cama

— Agora durma, já é tarde. Irei ler um pouco e já me junto a você. Bonne nuit, mon petit. — depositou um beijinho na testa do pequeno, que virou-se se acomodando sob as cobertas.

Camus na verdade não pretendia ler. Há dias não tinha concentração pra nada, nem mesmo para isso. Só o que fazia era entregar-se a angústia, saudade e preocupação com seu amor.

Mas desta vez, existia um motivo especial para fazer algo diferente.

Buscou nas gavetas da cozinha um pedaço de papel e o lápis de chumbo. Sob a luz de uma lamparina e o calor da brasa ainda acesa no fogão, pôs-se a desenhar.
Na folha ia surgindo dos traços bem delineados de Camus o rosto daquele que amava. O rosto em que pensava todos os dias, todas as horas.


**


Julian começou a subir as escadas.

Nas mãos, apenas a bandeja contendo a morte em forma de suco de frutas.
Abriu a porta de madeira, girando a chave devagar. Lá dentro encontrou um Milo olhando para a mesma lua que observava a pouco. O loiro percebeu sua presença, mas o ignorou, fazendo Julian ter de chamá-lo.

— Milo, querido. Lhe trouxe um suco. Sei que não quer comer, ao menos aceite a bebida.

Milo olhou para Julian que lhe estendeu o copo.

Exitou por alguns segundos e em seguida pegou o copo, observando o líquido vermelho vivo.

Lhe pareceu apetitoso.

Milo esticou a mão, aceitando a bebida. O estômago reclamava de fome e por mais que tivesse decidido a não ingerir nada, estava definitivamente tentado a aceitar desta vez.

Ao pegar o copo, levou-o a boca sob o olhar atento de seu algoz.


**


— Humm...papai, não vem dormir?

Camus julgou que Hyoga tivesse pego no sono, mas o menino veio até ele coçando os olhinhos. Justo quando havia terminado o último detalhe do desenho perfeito daquele rosto. Pegou o pequeno e o colocou sentado em seu colo.

— Veja Oga, sabe quem ele é?

O menino olhou o desenho e abriu um sorriso que iluminou tudo á sua volta

— Não, mas ele é lindo. É um anjo?

— Não exatamente — Camus riu — mas é seu outro pai. O nome dele é Milo.

— Outro pai? Eu terei dois pais? Oba!! Onde ele está? — perguntou, numa mistura de euforia e sono

Após um longo suspiro, Camus respondeu

— Um homem muito ruim tirou ele de nós, mas ele vai voltar. Vai voltar pra mim e pra você.

— Você o ama, papai?

— Muito, petit. Com todas as minhas forças.

Camus abraçou Hyoga sentindo seu coração subitamente se encolher numa dor lancinante e intensa.

Uma lágrima pingou sobre o desenho, fazendo um pequeno borrão.

* ~ * ~


*A Temple Church tem grande importância histórica em Londres, pois foi construída pela Ordem dos Templários no século 12, para abrigar os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão.