A História de Nós Dois
2 O Clã Garret
Notas iniciais

Cap 2 — O Clã Garret
O trem finalmente chegou a Aix-en-Provence fumegando naquela manhã outonal. A paisagem ficara ainda mais bela nos tons pastéis do interior da França. Só de olhar pela janela do trem, Camus já sentia-se em casa.
Estava alí a contra gosto, claro, e isso ainda se refletia e muito em seu humor pouco amigável, mas não podia negar que voltar ao lugar de sua infância amada era reconfortante. Um carinho para o coração ainda ferido pela cruel ordem de dispensa. E logo depois de um trabalho tão impecavelmente bem sucedido.
Nunca o Chavelier havia retornado com tão poucas baixas e sua missão brilhantemente cumprida.
Mas nada daquilo importava mais, só o que importava agora era a nova vida que seus pais desejavam para ele. E como se adaptaria a essa nova realidade.
O convés com vista para a imensidão azul do mar agora daria lugar ao verde florido e bucólico da pacata província do interior.
**
Após desembarcar e percorrer mais alguns quilômetros trepidando em uma carruagem rumo á sua velha casa, Camus finalmente chegara.
Logo correram para ele os dois mastiff que ainda eram filhotes quando ele se foi, fazendo algazarra em suas botas. Olhou a casa, a enorme casa onde havia nascido e ela estava exatamente igual. Enorme, imponente e acolhedora.
O lar dos Garret.
Da porta lateral que dava acesso á cozinha saiu sua doce mãe, com os olhos já chorosos e um sorriso incontido. Emocionado. Finalmente Camus sorriu.
— Mãe!
— Camus, meu filho! Gerrard, ele chegou!
Camus se lançou naqueles braços maternos e só naquele momento percebeu o quanto sentiu falta de sua amada mãe. Anete chorava, agarrada aos fios rubros do filho, que eram iguais aos seus.
Separaram-se, ela o encarou como mãe que confere cada pedaço do seu filho verificando se estava saudável e forte
— Deixe-me olhar pra você. Camus, você está lindo!
O garoto tímido e magro dera lugar agora a um homem austero, imponente, de uma beleza séria. Bem vestido como um nobre, bem sucedido em sua vida. Anete era só orgulho olhando para seu caçula, que apenas lhe sorriu docemente, mostrando que o menino magro e tímido ainda estava alí, e desejava um lugar na barra de suas saias, como antigamente.
— Mãe, a senhora é que está linda
Beijou-a na testa e a abraçou novamente.
— Camus, meu filho! Bem vindo de volta em casa, meu caçula amado!
Gerrard apareceu com seus braços abertos para recebê-lo, porém, Camus apenas se permitiu abraçar friamente, não retribuindo o abraço.
— Como vai, Senhor Almirante? Eu estou aqui, como solicitado
Falou sério, prestando continência ao pai na sequência. Gerrard entendeu que Camus estava chateado e o levou para dentro de casa para conversarem.
— Filho, não me trate como um superior. Me trate como seu pai — pediu carinhoso
Camus ficou em silêncio, olhou a velha mobília da sala, tudo estava exatamente como no dia em que foi embora. Nada havia mudado nem um milímetro. Tinha a sensação que apenas ele, Camus, havia mudado. Ele não era mais uma criança e talvez aquele não pudesse ser mais o seu mundo.
— Me desculpe...pai. Onde está meu irmão?
— Ah o Krest tá por aí, daqui a pouco ele aparece..seu irmão...seu irmão não para de me dar trabalho, filho!
— É por isso que eu estou aqui?
Gerrard pensava em uma resposta quando foi interrompido por Anete e uma enorme bandeja de quitutes e doces, aqueles que Camus mais amava em sua infância.
Quando o cheiro maravilhoso entrou pelas narinas afiladas do ruivo, salivou imediatamente, esticando-se sem cerimônias para pegar alguns
— Mãe..aqueles doces..hummmm — falou ainda de boca cheia, se deliciando
O Senhor Garret agradeceu internamente a chegada da esposa, ela e os doces o livraram de um interrogatório difícil com o seu caçula.
— Você ainda gosta filho? Eu fiz especialmente por saber que você vinha, meu amor
— Mãe, são uma delícia, exatamente como naquele tempo — sorriu agradecendo
Mal terminou de falar e entrou ventando pela porta um Krest animado por já saber que seu irmão estava alí. Os vizinhos já haviam feito o favor de contar quando ainda estava no caminho
— CAMUS!! O meu neném voltou!!!!
— Krest!!!
Os dois se abraçam rindo
— Mas já tá enchendo o garoto de comida mãe?
— Oras querido...
— Mas que roupa é essa irmão? — perguntou Camus rindo do minúsculo short que Krest vestia
— Última moda, gostou? Vou arrumar um pra você!
— Nossa Krest que perna gostosa, vem cá, vem....
Os irmãos começaram a brincar, Camus fingia galantear o irmão mais velho e batia em suas coxas bem torneadas, Krest recebia o galanteio rindo e entrando na brincadeira.
— Parem com isso os dois! Krest deixa, seu irmão em paz!
Pararam com os gritos do senhor Garret, Krest estalou a boca em sinal de desaprovação e Camus voltou a ficar sério.
Depois de ouvir da mãe e do irmão como iam as coisas em casa, finalmente foi até seu quarto, o mesmo que dormia em sua infância. Estava quase tudo igual, a diferença era apenas a cama, agora bem maior, e não haviam mais brinquedos.
Camus caminhou até a janela, e de lá olhou a vista para o pomar. Adorava olhar aquela vista quando criança, e depois correr lá e subir naquelas árvores.
Colocou suas malas em um canto, para desfazê-las mais tarde. Tirou o pesado casaco longo verde escuro que usava e abriu os primeiros botões da camisa branca, mantendo o colete fechado, liberando assim o pescoço, ficando mais á vontade.
Espreguiçou-se demoradamente, seus ossos doíam devido á longa jornada.
Removeu as pesadas botas que iam quase até os joelhos, deitou-se na cama e em poucos minutos adormeceu, exausto.
**
Camus estava tão cansado que dormiu direto até a manhã do dia seguinte, frustrando á todos que o aguardavam para jantar novamente em família depois de tantos anos. Porém ficaram com pena de acordá-lo. Anete apenas cobriu seu filho e o deixou dormir.
Camus despertou com a incômoda sensação de estar perdido no tempo, devido a ter dormido tantas horas seguidas. Tomou seu desjejum e em seguida um banho.
Depois de mais algum tempo de conversa com sua mãe, era hora de voltar o local da casa que mais amava: a velha biblioteca. Lá passou o resto da manhã absorto em livros e escritos.
Gerrard havia saído com amigos para caçar e Krest se distraía manuseando e lustrando suas espadas de esgrima.
Entre uma leitura e outra, Camus sentiu um buraco no estômago, sinal que a hora do almoço havia chegado e nem se dera conta. O cheiro do assado logo invadiu o local, o fazendo seguir o aroma maravilhoso até a sala de jantar.
Lá, a enorme mesa posta tinha pães, um purê de batatas bem espesso e outros legumes, vinhos, queijos variados, uma bela torta de amora e o enorme leitão assado no centro dela. Muitos talheres e copos mostravam o quanto aquele almoço era especial.
Era o almoço de boas vindas de Camus, a eles se juntaram alguns amigos da família e alguns de seus primos e tios. Todos comeram, conversando alegremente e Camus matou a saudade da comida de sua mãe.
Durante a refeição um brinde foi oferecido ao jovem Tenente, ele contou sobre sua vida á bordo do imponente Chevalier e claro, não podia faltar o assunto casamento. Gerrard falou com orgulho da sua prometida nora, de como os Bloedorn eram nobres e importantes e que netos lindos o casal lhe daria.
Nessa parte, Camus se manteve calado, sem dar qualquer palpite. Mantendo sua boca ocupada com queijo e pedaços de leitão assado.
Após a refeição, Gerrard reuniu-se com os homens presentes e Anete levou as mulheres á grande varanda da casa, para falarem de bordados, filhos e vestidos. Os homens, reunidos na sala falavam de suas conquistas heróicas e bebiam alegremente.
Camus assistia seu velho pai contar as aventuras de Almirante e suas muitas viagens ao redor do mundo, os navios que comandou e os que abateu em grandes oceanos. O que Camus havia feito com o Chevalier, era apenas a ponta do iceberg comparado ao pai.
Olhou Krest e percebeu o olhar enfadado do irmão, visivelmente de saco cheio daquele papo todo. Apesar de se interessar no assunto, Camus puxou o irmão para a biblioteca para livrá-lo daquela reunião.
— Huff...obrigado irmão, não aguentava mais aquela conversa de marinheiros. Mas sei que você gosta, porque saiu de lá?
— De que me adianta ficar ouvindo, Krest? Aquilo não faz mais parte da minha vida — disse em tom de lamento, pegando um livro
— Eu lamento, Camus. Olha, quer ir ao Rendez-Vous hoje á noite?
— Ir aonde?
Camus arqueou uma sobrancelha perguntando o que era o lugar a que Krest pretendia levá-lo. O mais velho explicou que se tratava de uma casa de diversões, bem humilde, mas acolhedora
— É um ótimo lugar, onde os homens se reúnem para tomar uma caneca de vinho, ouvir boa música e receber o carinho de mulheres bem generosas — sorriu nessa última parte
— Papai te deixa frequentar esse tipo de lugar, é? — interrogou sorrindo levemente
— Ele não tem que deixar ou desdeixar nada. E além do mais, marujo, não banque o puritano comigo. Sei que homens do mar não são nada inocentes
Camus foi obrigado a concordar, apesar de achar o sexo algo quase sempre dispensável, não podia negar que havia tido belas mulheres pelos portos por onde passou. No entanto, sempre sentia que faltava algo, apesar de o considerarem um bom amante. Fazia mais para satisfazer seu corpo, pois o coração permanecia á deriva, como um veleiro sem comando.
— Tá, para de chorar, eu vou com você
— Ótimo, sairemos pouco depois do jantar. Espere papai e mamãe se recolherem e me encontre na varanda, tomaremos a velha carroça que está no estábulo e vamos aproveitar a noite fria de outono em boa companhia!
**
Camus se arrumou e permaneceu em silêncio, espreitando os pais até que se recolhessem.
Usava uma longa casaca negra e levava nas mãos uma cartola. Os fios vermelhos realçavam sobre o grosso tecido escuro.
Saiu silenciosamente assim que a porta do quarto dos pais se fechou. Desceu as escadas, deixando para vestir as botas apenas na saída da casa, afim de evitar o barulho no assoalho de madeira.
Ao chegar á varanda, achou Krest e seu pequeno shortinho negro. Camus não podia crer que ele iria daquele jeito mesmo. Além do micro short usava longas botas até os joelhos, uma camisa com muitos babados decorada com pérolas e jóias. Uma grossa casaca carmim e uma cartola como a de Camus.
— Você é mais maluco do que eu pensava, Krest — disse calçando as botas
— Não reclama, você vai ver o sucesso que isso faz e vai querer um!
— Se papai pega a gente, estamos mortos
— O Almirante não pega nem resfriado mais. Vamos embora!
Devidamente prontos, pularam dentro da velha charrete, saindo em silêncio pela estrada escura rumo á vila que ficava a poucos quilômetros dali. Aos poucos a paisagem cujo apenas a lua crescente iluminava parcamente dera lugar a uma vilinha humilde, com seus postes iluminados á óleo e uma movimentação boêmia e quase totalmente masculina.
Deixaram a carroça em lugar seguro e entraram juntos no tal Rendez-Vous.
O lugar era muito, mas muito pior do que Krest descrevera.
Um verdadeiro antro, com beberrões, forasteiros e sujeitos nítidamente fora da lei. Entre eles circulavam lindas meninas, com decotes generosos, espartilhos bem apertados e a parte da frente dos vestidos erguida de modo que suas pernas ficavam á mostra. Serviam canecas de vinho e cerveja, sentavam-se no colo dos clientes e riam alegremente junto com eles.
No piano, um velho senhor tocava algumas notas para alegrar o lugar que fervia com homens rindo de bêbados com suas cortesãs.
Os irmãos buscaram uma mesa e não demorou para que uma das garotas pousasse no colo de Camus, acariciando seus fios ruivos e colocando graciosamente sua cartola na cabeça dela, fazendo um gracejo.
— Pode por gentileza nos trazer canecas de vinho, querida? — Camus pediu docemente no ouvido dela, fazendo a garota sorrir e atender seu pedido indo buscar a bebida.
Krest sorriu com a cena
— Olha marujo! Você é pior do que eu pensava, seu Don Juan sem vergonha!
Camus riu, na verdade estava acostumado aquele tipo de ambiente, comumente frequentado por marinheiros. Porém estranhou que nenhuma cortesã vinha sentar-se no colo de Krest, em lugar disso, reparou dois forasteiros o engolindo com os olhos. O mais novo ficou preocupado com a segurança do mais velho, ainda mais com as coxas á mostra daquele jeito. Não podia negar que Krest tinha pernas lindas, mas ele ainda era um HOMEM.
— Krest, não devia vir assim a um lugar como esse. Pode ser perigoso, já viu como esses homens te olham?
O moreno deu de ombros, pegando uma das canecas de vinho que a mocinha havia trazido para eles. Camus e Krest brindaram na companhia da jovem moça, que já demostrava interesse no ruivo. Ele a tratava com educação, mas não mostrava interesse algum além disso.
Algumas canecas de vinho e muita conversa depois, Camus já sentia-se levemente alterado pela bebida. Nada que o fizesse perder o juízo, apenas se sentia mais alegre e leve. Já não se importava muito com a vestimenta de Krest, que parecia bem animado com os sinais que um forasteiro lhe fazia.
Camus ao perceber que seu irmão flertava com outro homem tentou cobrar-lhe explicações, mas foi surpreendido pela boca da jovem moça na sua, roubando-lhe um beijo inesperadamente.
Camus a olhou assustado, sua respiração ofegante. Ela se levantou e o chamou sussurrando em seu ouvido
— Venha Senhor Garret, venha relaxar um pouco...
— Vai lá irmão, divirta-se! Aproveite a noite — piscou com jeito maroto
Sem saber porque aceitava aquele convite, Camus se levantou e acompanhou a jovem subindo juntos uma escada que dava para o andar de cima. Teve tempo apenas de olhar uma última vez para trás, e ver o forasteiro de aproximar de Krest, acariciar suas coxas e lhe tomar os lábios em um beijo libidinoso e intenso.
**
No andar de cima, foi levado pela jovem a um dos muitos quartos.
Apenas uma pequena cama, um lavabo sujo e a janela pela qual entrava a luz da lua. O local era parcamente iluminado pelos castiçais com suas velas acesas. De lá se ouviam as risadas e gritos que vinham do andar debaixo e o som de gemidos e gritos de outros casais fazendo sexo nos quartos próximos.
Lá ela se apresentou, se chamava Brigite. Uma linda moça de seus vinte e poucos anos.
Não conversaram muito. Camus sabia o que Brigite queria, e ele queria também. Assim sendo, não havia porque ficar fazendo á corte ou agindo polidamente. Era um homem e seu corpo pedia por aquilo. Pedia sexo, coisa que não fazia havia muitos meses.
Brigite o olhava com olhos brilhantes. Era o homem mais bonito com quem já havia subido para os quartos, e seria o homem mais encantador com quem iria se deitar. Acostumada a rudes forasteiros, homens sujos e bêbados, Camus era como um prêmio. Como um diamante em meio á quilos de carvão.
Entre beijos e já sentindo seu corpo reagir, Camus deitou a moça na cama delicadamente, retirou rápido suas roupas íntimas. Livrou-se da pesada casaca e abriu a braguilha lateral da calça, descendo-as até os joelhos. Deitou-se sobre ela, satisfazendo seu desejo carnal, misturado á vinho e angústia. Nem mesmo tirou as botas, deveria ser rápido e suficiente para satisfazê-lo.
Sem nenhum tipo de sentimento, apenas pelo prazer de gozar — o que não demorou a acontecer — e se sentir satisfeito fisiologicamente.
Depois de recompostos, Camus e Brigite conversaram sobre suas vidas. Ele serviu de ouvidos para a moça chorar suas mazelas naquela vida ingrata, aconselhando-a com sua sabedoria precoce para alguém que não tinha nem 22 anos ainda.
Camus a ouvia olhando a lua cujo a luz prateada entrava pela pequena e precária janela.
— E você, Tenente? Não há nada que te aflija? — perguntou curiosa, fechando o espartilho com a ajuda dele
— Há sim, Brigite. O casamento. Nada me assusta mais do que isso.
**
Camus despediu-se de Brigite dando á ela algum dinheiro. Desceu as escadas preocupado com Krest. O que viu quando subia não saiu de sua cabeça: seu irmão se relacionando com outro homem.
Mas o que viria á seguir era ainda mais surpreendente.
Camus avistou Krest sentado no colo do tal forasteiro, de frente pra ele, em um beijo que era possível até ver suas línguas. A mão do homem acariciava suas costas, seus cabelos, suas coxas, faminto de desejo e fazendo Krest arfar de prazer.
O homem era bem maior e mais forte que seu irmão, tinha barba por fazer e longos cabelos despenteados. Se assemelhava a um dos muitos piratas que Camus viu pelos portos onde parou.
Incrívelmente não sentiu nojo ou repulsa. Sentiu foi uma bela pontada de inveja. Não que desejasse aquele homem, mas desejava aquele estado de prazer e delícia nos braços de alguém.
Nunca havia beijado com aquela loucura e fervor, nunca havia se sentido assim nos braços de ninguém, Krest parecia tão acolhido e feliz, sentindo um prazer que transparecia na forma como agarrava aquele homem, cheio de desejo e vontade.
"Será que um dia amarei desse jeito?"
Não conseguia se imaginar fazendo aquilo com Natassia, nem com qualquer mulher.
A pergunta ecoava, mas Camus precisava se desligar daquele transe, já estava passando das 3 da manhã e precisavam voltar antes que o Almirante notasse a ausência deles.
Terminou de descer as escadas, caminhando a passos firmes até o irmão
— Vamos embora, Krest
Ordenou seco interrompendo o namoro quente do casal que não se intimidava com quem estava em volta
— Ah Cami...jura? Vamos ficar um pouco mais — implorou com um biquinho, enquanto acariciava os cabelos desgrenhados do outro
— Não Krest, agora. Anda, vamos.
O homem que acompanhava Krest tentou intimidar Camus com um olhar, mas não demorou a perceber que estaria entrando em terreno perigoso se enfrentasse o ruivo, que o fuzilava com olhos firmes.
O forasteiro percebeu em Camus a imponência de alguém de alta patente, bem vestido, aparentava alguém poderoso que o rude homem não iria desejar enfrentar.
Krest se juntou ao irmão, resignado dando um último beijo no forasteiro que havia conhecido aquela noite, e saíram dalí para pegar a charrete e ir embora.
**
— Droga Krest! Eu sabia..
— Ai Camus, É O PAPAI!!
Gerrard Garret estava na varanda, sentado em uma das cadeiras com uma grossa cinta de couro nas mãos, com uma cara que dava medo. Ao entrarem no terreno logo viram a figura do pai, ainda de longe.
Podemos dizer que diante da fúria do Senhor Garret não existia imponência ou patente. Não existia valentia ou dureza. Diante dele, Camus e Krest voltavam a ser apenas dois meninos fugindo de uma sonora bronca e uma bela surra.
Os irmãos se olharam, em um olhar cúmplice voltaram aos tempos de infância. Sabiam exatamente o que fazer.
A tática seria a mesma e sem precisar trocar uma única palavra, a colocaram em prática.
Pularam da carroça, andando rápido na direção de casa. Gerrard já se levantava, estalava a cinta preparando-se
— E ENTÃO SEUS MOLEQUES!! QUEM SERÁ O PRIMEIRO??!!!
Gerrard estava furioso e a fúria transparecia em seus olhos amendoados de um senhor de meia idade. A cinta nas mãos ávidas por ver aquelas bundas bem vermelhas depois de umas boas cintadas.
Então correram. Cada um para um lado, Camus correu para os fundos e Krest para a porta da cozinha. Separando-se deixavam o pai sem saber atrás de quem ir.
Claro que o efeito era temporário, o pai acabava pegando os garotos mesmo assim, primeiro um, depois outro. E dessa vez não foi diferente. No entanto, Gerrard não pretendia dar-lhes a clássica surra. Pediu que sentassem no sofá da sala, exausto, após uma cansativa corrida atrás dos dois filhos que agora eram homens e bem mais velozes.
Passou a mão pela fronte suada, sentando-se enquanto recuperava o ar, encarava os dois jovens á sua frente.
O pai apenas desejou saber dos filhos o que faziam aquela hora da madrugada fora de casa. Arregalou os olhos ao ouvir do primogênito onde estavam.
— No Rendez-Vous? Não acredito que levou seu irmão para aquele antro, Krest!
— Eu quis ir com ele pai, não foi ruim — amenizou o caçula, para alívio do mais velho
Gerrard conhecia bem o lugar, apesar de não frequentá-lo para fazer sexo, ele era realmente fiel á sua amada Anete (homens fiéis eram raros), mas já havia ido beber umas canecas de vinho com amigos e sabia o quão mal frequentado era o lugar.
— Aquilo não é ambiente para os Garret. — ralhou com o mais velho e amenizou com o mais novo — Mas então filho, se divertiu?
Aquele "se divertiu" tinha um significado dúbio, e Camus percebeu imediatamente o que o pai queria saber.
— Sim, foi muito bom.... — mentiu, tinha sido frio e mecânico, apesar de Brigite ser agradável.
— E você, filho? — se dirigia agora Krest
— O mesmo de Camus pai — disse sério, mentindo também.
— ÓTIMO! Isso é muito bom! Agora que todos estão mais leves, vão se deitar que não demora a amanhecer.
Os três subiram para a parte de cima da casa, onde ficavam os quartos. Antes que Krest pudesse se trancar, Camus o chamou
— Ei, venha cá. Quero conversar com você
— Tem que ser agora Cami? — coçava o olho de sono
— Tem.
Depois de se livrarem de Gerrard, agora estavam no quarto do mais novo, sentados sobre a cama.
— Porque nunca me contou? — interrogou Camus, agora com um tom mais sereno
Krest sabia do que ele falava
— Porque você estava fora, oras. Mas agora está aqui, e já sabe.
Krest havia levado Camus ao Rendez-Vous entre outras coisas para mostrar quem ele realmente era. Camus não estava chocado, mas preocupou-se com o irmão mais velho
— O papai não sabe, não é?
— Não, só a mamãe. Pra ela eu contei, não tinha como esconder
Anete sabia a verdade sobre Krest e o acobertava. Ela o amava demais para repreender ou para segregar o filho. Camus sentiu-se aliviado em saber que Krest tinha algum apoio.
Agora teria o apoio dele também, do irmão mais novo.
— Estou com você, irmão — disse carinhosamente, abraçando o mais velho
Era raro Camus fazer uma demostração de carinho, mas quando fazia era sincero e intenso.
Krest retribuiu o abraço, uma súbita vontade de chorar o tomou, mas segurou-se.
— Você também mentiu pro papai, não foi?
— Do que tá falando? — perguntou voltando a mesma postura austera de antes
— Você subiu com a cortesã mais bonita e desejada da casa e no entanto voltou com uma cara pior do que foi. Camus...
— Cale-se Krest. Não se atreva a continuar com isso. Vá pro seu quarto e me deixe sozinho.
Camus fechou-se, Krest sabia que quando ele se fechava, nada o abriria. Levantou-se resignado, beijou o impávido iceberg na testa e saiu.
É claro que Gerrard sabia sobre Krest, a um pai como ele nada passava despercebido. No entanto, ele preferia fingir não saber para não encarar a realidade. Agora Camus entendia porque era o único que poderia dar netos e garantir a descendência do clã Garret.
Camus removeu devagar toda a pesada roupa, ficando apenas com a fina calça de algodão que eram as roupas íntimas naquela época. Deitou-se com seu peito aberto e seus longos fios vermelhos espalhados pelo travesseiro, caindo pelas bordas da cama.
Seu semblante frívolo e fechado. Sentiu-se dolorosamente sozinho.
Queria apenas estar novamente no seu amado Chevalier, sentindo sua cama balançar suavemente no rítimo das águas, cruzando algum oceano.
*-*
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