A História de Nós Dois
5 O Caos Fraterno
Notas iniciais

Cap 5 — O Caos Fraterno
Nos dias que se seguiram, para desagrado de Krest, Milo e Camus ficaram ainda mais próximos. Passavam muitas horas juntos, quase sempre envoltos em assuntos sobre as Marinhas de seus países, navios de guerra e viagens ao redor do mundo. Trocavam experiências sobre o que viveram no tempo em que serviram suas pátrias. Claro que, tudo isso, com uma dose generosa de rivalidade.
Continham, como podiam, o desejo e os pensamentos que se tornavam cada vez mais fortes, mas em lugar de se afastarem, se aproximavam ainda mais um do outro. Ninguém sabia do que realmente acontecia entre Milo e Camus, da atração avassaladora que crescia entre eles, daquele sentimento que cada dia se tornava mais presente e mais forte.
A única exceção era Krest.
Naquela tarde estavam na biblioteca e Camus lhe mostrava um desenho da fragata que havia comandado: o Chevalier
— É um belo navio. Cheguei a comandar por pouco tempo, mas não como você, com tamanha responsabilidade. Deve ter sido um prêmio.
— Certamente foi, pena os navios ingleses não terem a mesma resistência
— Não tem resistência? De onde tirou essa idéia, Camus? Está enganado — Milo perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas e encarando o francês
— Não estou não, afundei dois dos seus — o ruivo desafiou sem mudar de humor — eram assustadoramente frágeis
— Sua tripulação estava em muito maior número. Uma embarcação da Royal Navy não sucumbe com facilidade. E não seja tão prepotente — desafiou, chegando mais perto — cansei de ver navios de bandeira francesa submergirem
— Não é prepotência, é a realidade. Vocês, ingleses, é que tem o dom da vaidade, não nós
— Vocês tem o dom de não gostar de banho, isso sim!- o loiro deu uma gargalhada
— Ora, seu... — sem continuar, Camus também acabou rindo
Estavam perigosamente próximos, se desafiando como rivais, mas loucos de vontade de calarem um ao outro com um beijo
"Te faria pagar cada um desses desaforos mordendo estes lábios, Milo"
"Ainda quebro essa sua impáfia na minha cama, Camus"
— Parem com essa rivalidade tola!! Aqui nessa casa franceses e ingleses se entendem, bebem e riem juntos!
Gerrard bradou cortando o clima abruptamente, fazendo os dois jovens ficarem sem graça.
Junto com o pai entrou Krest que puxou Milo pelo braço
— Vem, já passou muito tempo com Camus! Ele e papai precisam tratar do casamento, vamos lá pra fora
Milo pediu licença e saiu junto á Krest. Ele e Camus trocaram olhares ainda mais uma vez.
Camus lamentou internamente que Milo estivesse sendo levado, era gostoso estar com ele, ouvir sua voz. Milo tinha a mesma sensação e se pudesse escolher, escolheria passar todo o seu tempo ao lado de Camus, de tão maravilhosa que era sua companhia.
Até para bater boca em discussões idiotas os dois se deliciavam na companhia um do outro. Milo e Camus só desejavam no fundo de suas almas estarem juntos.
**
Chegando na varanda, longe da vigilância do ruivo, finalmente pôde colocar Milo contra a parede. Krest não era bobo e já havia, há muito tempo, notado o clima íntimo entre cunhados
— Gosta tanto assim da companhia de Camus? Não se largam mais...
Deixou a frase incompleta como quem esperava uma conclusão para aquele raciocínio, ao mesmo tempo que espreitava o outro com olhos vorazes de gato, lendo-o por dentro.
— Gosto sim, eu e Camus temos mais em comum do que eu imaginava. Por quê, Krest? Isso lhe incomoda?
Milo sabia ser perturbador, direto, sabia cutucar uma fraqueza se lhe via exposta. Krest havia começado com o jogo, agora que o jogasse então.
— Não, de forma alguma cavalheiro. Só peço que tome cuidado para não despertar ciúmes em sua amada irmã
Krest estava sendo venenoso, por ciúme, usou Natassia para desestabilizar Milo. Ele sabia que a fragilidade emocional de sua cálida irmã era um perigo iminente. Mas o loiro não se abateu
— Não se preocupe com Natassia, ela está feliz
— Claro. E o que acha de também ficarmos?
Krest falava agora ainda mais próximo, já não se preocupava em disfarçar seu interesse, queria Milo e estava disposto a conseguir. Não imaginava estar errando com Camus, afinal, ele estava de casamento marcado, então qualquer que fosse o interesse entre o loiro e o ruivo, não iria passar de flerte sem futuro.
Ao menos era o que ele pensava.
— O que pretende, Krest? Diga logo.
— Te levar ao Rendez-Vous!
— Me levar aonde?
— Ao Ren...ah oras, você verá! Confie em mim. É um ótimo lugar para nos divertirmos. Vamos essa noite!
O moreno piscou animado, deixando Milo meio sem ação, achando tudo aquilo uma enorme loucura.
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Depois do jantar Milo e Krest saíram para o Rendez-Vous, sobre os protestos de Gerrard que insistia que aquilo não era lugar para eles, mas acatou que fossem. Porém, proibiu Camus, pedindo que o caçula fizesse companhia á sua noiva e tocasse um pouco de piano para ela.
Aproveitando um raro momento a sós, Natassia desculpou-se com Camus pela ousadia de beijá-lo, esclarecendo que em Londres as moças eram um pouco mais atiradas do que no interior da França. Camus acatou as explicações da noiva, diante de seus sentimentos tão disformes, julgar Natassia seria hipócrita demais e ele não faria isso. Fora que aquilo nem bem fora um beijo, apenas um roçar de lábios. Camus sabia muito bem o que era um beijo de fato.
Camus tocou o piano, Natassia também, e depois tocaram juntos á quatro mãos, fazendo o casal Garret se derreter olhando os noivos em tamanha sincronia.
— Bendito o dia em que eu e Richard fizemos a promessa de casar nossos filhos! — orgulhou-se o pai.
Por dentro, Camus só pensava no que Krest estaria fazendo á Milo naquele antro que era o Rendez-Vous.
**
Os dois cavalheiros chegaram ao ressinto que naquela noite estava ainda mais lotado do que quando Krest levou Camus.
— Woow, isso hoje está ainda mais animado! — os olhos de Krest já brilharam e não demorou a ver seu forasteiro da outra noite em um canto
— Cristo, que lugar é esse...
Milo se arrependeu por um momento de ter ido, mas agora que estava lá, que tentasse então se divertir.
Os dois deixaram suas cartolas e capas na chapelaria e pegaram uma mesa, a única ainda desocupada. Milo arregaçou as mangas de sua camisa, o lugar era quente como o inferno. Logo todas as meninas estava de olho naquela mesa, em especial no loiro que se tornou em minutos o centro das atenções
Logo uma das cortesãs pousou no colo do visitante, dando-lhe um beijo no rosto
— Boa noite, distinto cavalheiro. Vejo que é sua primeira vez aqui, senhor...
— Bloedorn. Pode nos trazer canecas de vinho?
— Hum mas é claro, vinho e boa diversão, Senhor Bloedorn
A mocinha piscou seus olhos verdes e Milo não demorou a entender o que mais ela queria além de oferecer vinho
— Não sabia que frequentavam lugares assim, Krest — disse aproximando o rosto do francês que tentava fugir dos olhares de seu amante
— Aqui é o lugar onde posso ser o que sou, onde não preciso me esconder. Aquele é Zenon.
Milo olhou na direção que Krest discretamente apontava com os olhos e viu o homem grande, de longos cabelos e cara de poucos amigos
— Parece um pirata. Seu namorado?
— Um caso...mas confesso que existe alguém aqui que me interessa bem mais
Os olhos verdes agora fitavam os azuis á sua frente. Milo já havia notado o interesse de Krest e não sabia bem como fugir daquilo, uma vez que não tinha interesse no moreno, mas um amor platônico por seu irmão caçula.
— Krest, pare com isso. Você vai me arrumar problemas, aquele pirata vai ficar com ciúme e eu não quero essa dor de cabeça, entende?
Logo a cortesã estava de volta com duas canecas de vinho, depositou-as sobre a mesa e abaixando-se permitiu que Milo vislumbrasse seu generoso decote ao falar em seu ouvido
— Se quiser relaxar me procure, temos quartos aquecidos e meninas dispostas a darem muito carinho
Após dar o recado, deu um selinho delicado nos lábios do loiro que mal conseguiu reagir com tamanha ousadia vinda de uma mulher.
— Qual o seu nome querida?
— Fantine — disse, sorridente
— Fantine, então me mostre um destes quartos, por favor?
Milo e Fantine subiram, o loiro piscou para Krest para que sozinho ele pudesse se entender com Zenon.
Ao chegarem em um dos quartos, Fantine começou a tirar logo a roupa, mas Milo a interrompeu.
— Fantine, espere, não faça isso. Eu vim aqui apenas ajudar um amigo, não farei nada com você
Ela se derreteu com o carinho naquelas palavras, acostumada a ser jogada na cama e usada da forma mais bruta, ser tratada com tanto respeito por um homem tão lindo era reconfortante
Milo sentou-se em uma cadeira, com a mocinha sentada a seus pés, com a cabeça apoiada em seus joelhos.
— Vamos Fantine, me fale de sua vida enquanto bebo meu vinho
Ficou alí, sentado saboreando o líquido vermelho, enquanto Fantine abria seu rosário de sofrimentos e dores para aquele homem disposto a ouvi-la pacientemente.
Teve até vontade de desabafar sobre seu amor impossível, mas achou melhor apenas ouvi-la, ela já tinha agruras demais em sua pobre vida.
**
"Mas porque raios Milo quis se deitar com uma cortesã?"
Krest pensava enquanto Zenon o fitava. Ficou cozinhando o amante como pôde, Zenon já estava louco para agarrar Krest, mas o francês não parecia nada disposto a cooperar.
Quase uma hora depois que haviam subido, Milo e Fantine retornaram, para alívio de Krest
— Krest, acho que devemos ir embora, seu pai recomendou que não demorássemos
— Ele só vai quando eu deixar!
Antes mesmo que Krest pudesse responder, Zenon tomou a palavra desafiando Milo, encarando-o perigosamente
Antes de responder qualquer coisa, Milo o estudou, olhando-o por inteiro. Zenon usava um colar de ossos humanos e algumas contas e um anel que Milo logo identificou
— Você é um maldito pirata. E o pior, um maldito pirata francês!
Ao ouvir finalmente a voz de Milo e observar seu sotaque, Zenon bradou
— E você um marinheiro inglês!! Temos um bastardo da rainha aqui!!!
O grito de Zenon fez todo o lugar parar, os risos de moças e bêbados cessaram de repente, todos agora olhavam para Milo que permanecia com seus olhos em Zenon, espumando de vontade de furar aquele pirata
— Sabe o que são piratas, Krest? São ratos. Malditos ratos do mar. Sinto o cheiro á distância!
— Ai meu Deus, Milo!!
Krest gritou apavorado, vendo Zenon partir para cima de Milo e os dois se atracarem numa luta ferrenha.
— PAREM!! NINGUÉM PÔE AS MÃOS NELE! ELE ESTÁ SOB A PROTEÇÃO DA FAMILIA GARRET!
Ao ouvir isso Zenon se descuidou e levou um soco que o fez voar sobre uma mesa. Brigar com alguém protegido do Almirante Gerrard Garret significava a morte. Aproveitando a distração do amante, Krest pegou Milo pelo braço e correu com ele para a charrete do lado de fora
— Vamos embora, Milo!
— Mas agora que tava bom? Você viu o soco que eu dei naquele rato! Acho que consegui arrancar uns dois dentes dele!
— Vocês são loucos! Não conte nada sobre isso a papai e muito menos á Camus, ouviu bem?
— Pode ficar tranquilo, será um segredo nosso.
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No caminho escuro de volta á casa dos Garret, Krest contou a Milo sua história com Zenon.
— Numa noite mais fria eu saí á rua á procura de um pouco de calor e carinho. Estava cansado de andar só. Camus nunca voltava do mar, papai andava sempre ocupado e eu não queria preocupar mamãe com minhas besteiras. Naquela noite encontrei Zenon. Logo ele percebeu o que eu era, ele estava bêbado e enlouqueceu ao me ver no meu micro shorts. Sem que eu esperasse e pudesse me defender ele me agarrou e me arrastou pelos cabelos para o meio do mato e...e me violentou. Eu fui deflorado da pior forma, minha pureza havia sido roubada, mas para minha infelicidade eu me apaixonei.
Milo ouvia a tudo atento, nunca havia escutado uma história como aquela. Ouvir que Krest havia sido violentado, seu amigo de infância e logo por aquele rato era revoltante. Vendo o horror e o ódio nos olhos do loiro, o moreno continuou
— Nós voltamos a nos ver muitas vezes, sempre escondidos de todos. Com o tempo o Rendez passou a ser nosso local de encontro. Zenon me ensinou tudo o que sei, apesar da violência ele me mostrou o que é prazer. Mas jamais o que é amor.
— Não existe amor nisso, Krest
Milo finalmente quebrou o silêncio. Sentia muita pena do amigo
— Eu sei, por isso eu busco o amor, Milo. Sei que Zenon não poderá me dar
— Você merece coisa bem melhor. E vai encontrar — sorriu
Com a conversa o tempo havia passado rápido e os dois já estavam entrando na propriedade dos Garret.
Na parte de dentro de casa, Camus os observava sem ser visto, se valendo da escuridão da noite. Estava preocupado e suspirou em alívio ao ver que ambos estavam de volta. Toda a casa já dormia, apenas o ruivo permanecia acordado, espreitando pela janela os dois jovens que chegavam.
Lá embaixo, Krest olhava Milo. Desejava do fundo de sua alma que o loiro fosse o príncipe que pudesse lhe dar todo o amor que ansiava sentir. Milo se aproximou e tocou o rosto do moreno. Nesse momento Camus estremeceu com aquele contato.
— Você é bom Krest, não merece sofrer
O hálito fresco e a voz aveludada envolveram Krest de um jeito que não houve como resistir. O moreno colocou seus lábios nos de Milo, roubando-lhe um beijo inesperado. Os lábios de Krest pediam passagem, queria que Milo abrisse mais a boca mas o loiro teve receio em retribuir o beijo. Permitiu até que as línguas se tocassem, mas afastaram-se logo.
Observando tudo, Camus sentiu seu coração pular. Não sabia se pelo fato de descobrir que Milo era como Krest ou se por vê-los se beijando. Sentiu seu coração doer, como se um punhal se cravasse nele. Não queria ver mais nada, já havia visto o suficiente. Sentiu seus olhos arderem mas conservou-se em sua postura. O coração não desacelerava e aquela angústia não passava. Talvez passasse se matasse os dois.
"Mas o que são esses pensamentos? O que isso me importa? Se Milo é como ele, que seja. Não tenho que me meter nisso, que se resolvam sozinhos..."
— Krest vamos entrar, está bastante frio aqui fora. Vamos?
Milo tentava amenizar a saia justa que havia se formado com aquele beijo, Krest estava sem graça e confuso em não ser amplamente correspondido. Logo lembrou-se dos olhares trocados entre Milo e Camus, sabia muito bem o que significava aquele tipo de olhar e sabia que Camus só precisaria sair do seu"casulo" para tudo acontecer.
Milo subiu direto para seu quarto com a desculpa de que queria ver Natassia, se a irmã estava dormindo tranquila. Já Krest quase morreu do coração quando foi puxado pelo braço assim que entrou em casa
— O que pensa que está fazendo?
— Ca...Camus? Não sabia que estava aí, eu...
— Você perdeu o juízo? Beijando outro homem práticamente dentro de casa? Deixe para fazer suas imundices longe daqui Krest!
Os olhos verdes do ruivo queimavam, sua expressão era de ódio e assustou o mais velho que estava sem ação. No entanto, Krest não demorou a entender a angústia de Camus
— Eu já entendi tudo, Camus, se você o quer, eu saio do caminho. Eu juro, eu não vou atrapalhar se quiser ficar com ele. Se você o ama, me diga agora e eu entenderei
Nesse momento, Milo que voltava á sala estranhando não ver mais Krest, parou ao ouvir que os irmãos discutiam e que falavam em seu nome. Foi inevitável não ouvir ao menos uma parte daquela conversa
— Do que você está falando? Vou me casar com Natassia, não tenho nada a ver com Milo!
— Oras Camus, está mentindo para quem? É para ele que você olha o tempo todo, é por ele que seu olhar procura, pensa que não vejo o fascínio com que se olham? E não é só você, ele também age da mesma forma! Ele não correspondeu ao meu beijo, ele não me quer.
Camus ficou mudo. Se sentia nu e invadido em seu íntimo. Como Krest havia lido seu interior daquela forma, como havia conseguido esquadrinhar seus sentimentos mais profundos e secretos? Camus se perguntava aflito quando foi que deixou seus sentimentos á mostra para que seu irmão pudesse lê-los de forma tão clara. Milo também estava sobressaltado com aquela revelação, achou melhor sair dalí antes que fosse descoberto pelos irmãos e só piorasse a situação. Camus estava disposto a permanecer negando seus sentimentos
— Eu não sei o que você anda fazendo, Krest, mas seja lá o que for, você está enlouquecendo e vendo coisa onde não existe. Ouça bem, não tenho nada com Milo e nem você terá. Afaste-se dele para o bem de todos nós. Se eu souber que voltou a tentar algo com ele, você vai ter prolemas comigo.
— Você contaria ao papai?
— Não, eu mesmo resolveria com meus próprios meios e você não iria gostar nada dos meus métodos, Krest. Não pague pra ver!
Após sentenciar Krest, Camus saiu subindo rápido as escadas. Estava trêmulo, tenso, seu coração pulava e ele começava a suar de tão nervoso. Detestava aquela sensação, mas era incontrolável.
**
Camus trancou-se no quarto, precisava ficar sozinho e extravasar a loucura que sentia
"Se você o quer, eu saio do caminho. Se o ama, me diga e eu entenderei"
Aquela frase de Krest não saia da cabeça de Camus, perturbando-o a ponto de suas lágrimas finalmente verterem. Camus chorou um choro desesperado, de alguém que se encontra perdido em sentimentos tão intensos e profundos que ele já não sabia por quanto tempo poderia controlar.
"Se eu me entregar á ele, serei morto. Seremos mortos. O Senhor Garret nos matará...Deus, porque me castiga desse jeito? O que fiz pra merecer isso? Eu estou enlouquecendo....
... de amor"
Em seu quarto Milo observa Natassia dormir. A donzela ressonava baixinho, tranquila, alheia á toda aquela confusão.
Milo a olhava e sentia seu coração apertar. O beijo de Krest não havia significado nada, a boca que desejava provar era outra.
"Camus..."
Aquele desejo queimava no peito, a boca entreabriu para mais uma vez verbalizar
— Camus...
"Eu o amo, mas eu não posso. Não posso te magoar minha flor, minha menina. O que farei? Morrerei de culpa ou de amor? Porque entre tantos escolheram ele? Se eu soubesse que não o deseja seria mais fácil, mas sei que o ama, como eu amo. Como escolher entre dois amores...céus, livra-me desse sofrimento...Porque Natassia? Porque me arrastaste para esse caos?"
As lágrimas corriam em meio ás súplicas.
—Eu te amo, Camus...eu te amo
Ao mesmo tempo em que Camus chorava, Milo também chorava.
Um sentimento que crescia avassalador, como uma onda implacável, disposta a varrer tudo e todos em seu caminho, a não deixar pedra sobre pedra. Ambos sabiam que no momento em que se entregassem a esse amor, nada poderia se pôr entre eles, nada poderia impedi-los. Nem o sangue, nem a morte, nem a moral, nem o medo.
Eles seriam maiores do que tudo.
Sozinho e depois de chorar muito, com seu corpo jogado á cama, Camus teve forças apenas para verbalizar baixinho o segredo inconfessável, causador de toda destruição
— Eu te amo, Milo...eu te amo
"Não sei quanto tempo vou suportar, não sei quanto tempo poderei fingir. Vou morrer, não terei perdão. Só preciso fugir, só preciso correr e subir á bordo. Leva-me Chevalier, leva-me daqui para alto mar...
eu te amo tanto que dói"
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