Notas iniciais
Olá a todos os leitores de "História", nossa saga em forma de fanfiction. Chegando com mais um suplício em forma de capítulo...eu sei que tá punk, que tá puxado, que sou uma menina má, massss tudo valerá a pena! Como nem tudo é sofrência, tem personagens secundários novos chegando aí: a Pandy e o Sorento! Fichinhas no final do capítulo ^^ Na imagem, nosso belo prisioneiro em seu cárcere Sem mais delongas, porque tem muita coisa pra rolar nesse capítulo, então vamos á ele! Capítulo escrito e betado ao som de Of Monsters And Men - Yellow Light Boa leitura!

(...)


No líquido vermelho que misturava polpa de frutas, jazia o veneno mortífero capaz de tirar a vida de um homem de cem quilos em poucos minutos.

Milo precisaria de poucos goles para sucumbir e perder sua vida.

Havia rejeitado tantas refeições, mas justamente diante do copo de morte decidira abrir mão de sua greve de fome para alimentar-se de algo. Na realidade desejava a vida mais do que a morte, desejava sua liberdade e sonhava com ela, desejava Camus e seu amor indomável, desejava a esperança de um dia sair daquele cativeiro. E para tudo isso era preciso manter-se vivo.

Aceitou beber o suco como se desse um sinal a si mesmo, de que havia esperança, de que precisaria de forças, de que não poderia entregar-se e enfraquecer-se.

Segurou o copo e olhou o líquido, sairia naquele momento de seu jejum de semanas.

Julian sentiu seu corpo inteiro arrepiar quando viu Milo levar o copo á boca, mas como se o sopro de um anjo agisse naquele momento, Julian cometeu um ato que nem mesmo ele soube porque fizera.
Antes que Milo pudesse dar o primeiro gole, agiu desesperadamente, arrancando o copo da mão do outro, e derramando todo o suco pelo chão

Milo ficou estático e sem ação ao ver Julian jogar-se aos seus pés, gritando o quanto o odiava, chorando copiosamente.

— Eu odeio você!!! Milo, você está me destruindo, me destruindo!!!!!

Gritava em prantos, jogado aos pés do outro que o olhava assustado. Sentia-se o mais cruel dos homens, o mais torpe dos assassinos. O mais sujo dos bandidos.


Julian havia fracassado, outra vez.


Era egoísta demais para libertar.


Era covarde demais para matar.

Milo apenas o encarava, seu olhar misturava pena e repulsa. O olhar azul e inquisidor pesava sobre Julian, que via nos olhos do outro o reflexo de sua triste e humilhante figura.



Cap 19 — Laços de Amizade

Se nos primeiros dias Milo saltava em direção á porta cada vez que ela se abria, na esperança de ser finalmente sua libertação; agora já não o fazia mais. Quando a porta de madeira se abria encontrava-se do outro lado um prisioneiro displicente e desinteressado, cansado de ver em cada abrir de portas uma esperança, Milo agora apenas observava o mordomo entrar portando a bandeja com um novo copo de suco, desta vez, amarelo.

— O que é isso?

— Um novo copo de suco, senhor Bloedorn. Meu patrão arrependeu-se do que fez e pediu que lhe trouxesse outro, desta vez não há qualquer veneno — esclareceu Sorento, oferecendo o líquido

Milo olhou o copo, não estava disposto a morrer de forma tão estúpida

— Tome você primeiro.

— Mas senhor...

— Seu patrão tentou me matar com isso, acha que sou mesmo tão tolo? Vamos, tome.

Sorento em um misto de timidez e medo bebeu uma parte do líquido. Sabia que Julian não repetiria o plano, mas mesmo assim tremeu ao sorver o sumo de frutas. Milo o observava. Esperaram alguns minutos e nada aconteceu ao mordomo.
Finalmente percebendo que não havia veneno, Milo tomou o que restara na jarra. Era sua primeira alimentação em vários dias.

— Vai ficar tudo bem, senhor. Seria bom se começasse a aceitar a comida que lhe oferecemos todos os dias, lhe fará bem.

Sorento tinha um tom amistoso em suas palavras, parecia realmente querer ajudar o prisioneiro. Mas Milo estava a cada dia mais anestesiado, seu coração se fechava e se endurecia a cada dia de cativeiro.

— Escute bem o que vou lhe dizer, Sorento — Milo o encarava, seu tom era firme e assustava o mordomo que sentiu-se estremecer outra vez debaixo daquele olhar azul intenso — eu estou enlouquecendo. Seu patrão está me pondo louco e vou perder a cabeça a qualquer momento. Se ele não me libertar, algo de muito ruim vai acontecer.

Sorento estremeceu ainda mais, o olhar de Milo tinha uma mistura de insanidade e fúria. Loucura e raiva.

**


Com a ausência de Camus, Dite vinha ajudando o avô a tocar a livraria. Tentava fazer o trabalho que era do ruivo, mas sentia dificuldades em não ter o mesmo conhecimento. Apesar do incentivo constante do mais velho, se frustrava por nem sempre conseguir localizar os livros que algum cliente desejava. E naqueles dias, andava especialmente mal humorado.

Colocou o pesado volume de uma enciclopédia sobre o balcão e começou a procurar pela referência que havia recebido, suspirou e tossiu com a poeirada, levando a ponta dos dedos á boca. Quando seus olhos se desviaram por um instante, congelaram na figura diante de si.

Não podia crer no que via.

Piscou algumas vezes, sentiu seu coração acelerar e falhar uma batida, e o sangue gelar subitamente.

Há quantos anos seus olhos água marinha não vislumbravam a figura napolitana, o homem imponente de lábios largos, corpo esbelto e cabelos acinzentados. Nos lábios o cigarro que ele apagou, atirando a bituca no meio fio, antes de atravessar a rua em direção a livraria

"Carcamano maldito, você voltou. Ele tá vindo pra cá...não, não pode ser..."

Dite começou um diálogo consigo mesmo, ao perceber que Matheo iria entrar na livraria pensou em se esconder, fugir rápido para o andar de cima. Mandaria o avô dizer que não estava, que fora viajar, que havia morrido...mas não o encararia. Porém não conseguiu nem sequer sair do lugar, suas pernas o traíram e Dite permaneceu plantado ao chão como uma de suas rosas.

Diante de si um italiano que o encarava, agora frente a frente. Em seus olhos uma lágrima cogitou rolar, mas foi impedida pelo orgulho do pisciano. Não, ele não choraria diante daquele carcamano.

Não mais.

— Afrodite...amore mio

A voz grave cortou o ambiente imponto o sotaque italiano que Dite jurou a si mesmo que jamais voltaria a ouvir. Agora entrava como música em seus ouvidos, aquela voz ecoou invadindo os tímpanos e indo direto ao coração

"maldito....maldito...."

— O que você faz aqui? Vá embora Matheo, eu não quero te ver.

A voz aveludada saiu seca, quase rouca. Virou as costas deixando o italiano para trás, sumindo escadaria a cima. Vendo o acontecido, o Sr. Svensson veio falar com o recém chegado que tinha uma cara triste por não conseguir nem mesmo completar o diálogo com aquele por quem viajou vários quilômetros para ver.

— Como vai Matheo?

— Oh Sr. Frederich, estou bem. E o senhor? Como tem passado?

— Estamos todos bem. Que bons ventos te trazem de volta a Londres?

— Estou de volta, senhor — suspirou profundamente, olhando na direção em que Dite foi — voltei para ficar e recuperar algo que perdi.

O velho lhe deu um meio sorriso. Sabia que não seria fácil domar aquela rosa selvagem e arredia.

— Você conhece Afrodite, Matheo. Sabe que ele é orgulhoso, tem um gênio difícil. Mas ao mesmo tempo um coração enorme e bom. Eu torço para que se entendam.

Matheo sorriu. Conhecia bem o lado difícil de Dite, mas também conhecia seu lado mais doce e queria voltar a tê-lo.


**


Com o tempo e a convivência na vila aos fundos da fábrica, Camus conheceu alguns de seus vizinhos. Acabou fazendo amizade com a familia do casebre ao lado do seu, uma senhora viúva com três filhos.

A filha mais velha chamava-se Pandora, uma bela jovem de dezenove anos. Pele muito clara e cabelos negros que escorriam longos pelas costas em forma de trança. Um par de olhos violeta, expressivos e curiosos. A mocinha esguia se passaria por uma nobre por sua beleza, nem mesmo o velho vestido negro e puído que usava a deixava menos exuberante.

Trabalhava numa das indústrias dos Bloedorn pela manhã e á tarde ajudava a mãe a cuidar de seus irmãos mais novos. Camus achava graça na ironia de Pandora ser, na verdade, empregada de seu sogro. Tinha vontade de dizer "Ei, meu companheiro um dia será seu patrão", mas apenas ria internamente daquela piada da vida.

A amizade começou quando a jovem procurou Camus afim de ter aulas de francês. Além de professor, o que rendia a Camus ganhos extras que ajudavam nas despesas com a casa e Hyoga, também passou a ser amigo e confidente de sua aluna. Conversavam em francês por muitas horas afim de treinar a pronúncia e com isso desenvolveram uma bela amizade.

Pandora gostava de conversar com Camus e admirava a inteligência e beleza do jovem francês. Tentou se mostrar disponível a ser cortejada por ele, mas ao notar o interesse da moça, Camus logo esclareceu que tinha um amor e que não estava livre, sem dar qualquer detalhe. Aquilo minou as esperanças de Pandy, como ele a chamava, mas não afetou a amizade que nasceu entre eles.
Apesar de amigos, Camus ainda não confiava em Pandora para contar sobre Milo e tudo o que estava acontecendo, mas tinha a ajuda da moça para lidar com Hyoga em algumas situações em que se requer uma ajuda feminina.

Naquela tarde estavam fazendo dois meses que Milo havia sumido, mas a angústia permanecia a lhe tomar como se tivesse acabado de acontecer. Permanecia ajudando nas investigações que aquela altura, apenas girava em círculos sem chegar a conclusão alguma.

— Hyoga, guarde seus livros, mais tarde retomamos os estudos. Precisarei que fique na casa da Pandy por algumas horas.

O menino suspirou aliviado, o pai pegava pesado quando o assunto eram estudos. Camus era exigente e fazia Hyoga estudar bem mais do que ele gostaria. Era rígido com regras, horários e exigia do garoto muita disciplina. Por impor uma edução quase militar, Hyoga o chamava por vezes de Senhor Tenente.

— Sim senhor, senhor! — o pequeno fez continência e guardou os livros e cadernos. Camus sentiu vontade de rir daquilo, mas permaneceu sério. Terminou de agasalhar o pequeno, cuidando para que não sentisse frio.

Com o garoto devidamente pronto, levou-o a casa ao lado. Ao ouvir o bater da porta, Pandora abriu e lá estavam o menino loirinho de semblante traquina e seu pai, o austero francês com seus fios rubros sobre uma casaca de veludo negro.

— Boa tarde Pandora, pode ficar com o Hyoga pra mim? Não vou me demorar.

— Oh sim, Camus. Não se preocupe, acabei de fazer um bolo, venha Oga!

O garoto entrou comemorando poder comer um bolo e passar algumas horas sem ter que cumprir tantas regras e tarefas

— Não coma demais! Obedeça a senhorita Pandora, eu voltarei logo.

Pandora suspirou ao vê-lo se afastar. Era tão perfeito, lamentava-se por não ter com ele qualquer chance.

**


— Olá...atrapalho? Seu avô me disse pra subir, que você hoje não estava bem.

Dite deu um pulo da cama ao notar a presença de Camus á porta de seu quarto. Desde que vira seu carcamano, a cabeça e o coração embaralhavam sentimentos, fazendo com que Dite permanecesse fora do ar por horas

— Camus! Não, claro que não. Entre! E então, notícias do Milo?

— Nada, embora eu tenha quase certeza de saber onde ele está, ainda não há nada que eu possa fazer. Mas ele vai voltar, eu sei que ele vai voltar — o olhar de Camus fitava o vazio, de repente encarou o outro, percebendo seu olhar confuso — e você, o que houve?

Camus deixou seus problemas de lado por um momento e prestou atenção no amigo. Notou que Dite não estava bem, não perecia o mesmo. Não via mais o loiro provocativo na companhia de uma de suas rosas, provocando com falas e frases ácidas. Mas um jovem com um olhar confuso e perdido.

— Ele voltou

— Voltou? Ele quem?

— O carcamano. Ele tá aqui, aquele italiano maldito, aquele filho de uma...arrg!!

Arremessou uma almofada longe, como se quisesse poder bater em alguém. Camus assistia a cena sem perder sua postura equilibrada, mas desejou saber mais. Cobrou uma explicação mais detalhada e Dite lhe contou sobre o difícil encontro que teve com o italiano, horas antes.

— Uhum, você deveria ouvi-lo — sentenciou após ouvir todo o relato

— O que? Ouvir aquele maldito? Você só pode estar louco

— Não estou louco. Dê-lhe uma chance de se explicar, você não sabe o que ele tem a dizer. Dite... — o outro tentou interromper, mas Camus prosseguiu sem permitir ser interrompido — só se ama uma vez na vida. Amor de verdade é um só, não existe outra chance. Não perca a SUA chance.

A conversa que teve com Camus quase fez com que Dite cedesse ao orgulho e se entregasse ao amor. Mas o medo de amargar outra decepção foi mais forte e o loiro tomou uma decisão drástica.
Logo que Camus saiu, Dite arrumou-se elegantemente e desceu. Na livraria pegou o papel contendo o endereço do hotel em que Matheo estava, sabia que o italiano havia deixado seu contato caso desejasse procurá-lo. Munido de coragem e sua altivez inabalável, alugou uma charrete e foi até o local.


**


Com a aproximação de mais um inverno, as baixas temperaturas deixavam as noites mais implacáveis.

Milo quase adormecia ao ouvir a porta abrir mais uma vez. Viu a figura subserviente do mordomo entrar, ainda meio sem jeito depois do último diálogo que tiveram. Sorento trazia nas mãos uma farda da Royal Navy, a qual depositou sobre a poltrona. Depois passou a ajeitar a lenha dentro da lareira e ascendeu o fogo com a ajuda da lamparina que trazia nas mãos. Acendeu também as lamparinas das paredes, trazendo luz ao ambiente que já escurecia com o cair da noite.

— Ele sempre te manda fazer o serviço. Apenas lhe dá ordens e você as obedece cegamente. — disse calmamente, sem sair de onde estava, apenas observando o mordomo fazer seu serviço.

A voz de Milo afirmava o que Sorento sabia, a realidade sobre sua vida dura como serviçal dos Taylor, mais precisamente o vassalo pessoal de Julian. Mas ao contrário de seu patrão, Sorento não desejava fazer mal a quem quer que fosse

— Não tenho escolha. Estou aqui desde menino, eu e Julian crescemos juntos. Eu na ala de empregados e ele o filho dos patrões. Quando éramos crianças nossa diferença de classe não nos importava, quantas noites ele dormiu no chão comigo...mas agora, quando a vida adulta chegou, me mostraram o meu lugar.

— Curioso...eu não me recordo de você — Milo estreitava os olhos em direção a Sorento, mas de fato não lembrava-se de vê-lo das vezes em que veio visitar Julian

— Nem poderia. Quando você vinha eu tinha que me esconder, não poderia me juntar aos filhos dos patrões. Julian só era meu amigo quando você não estava. Você sempre foi prioridade pra ele.

Milo voltou no tempo em suas lembranças, quando tinha treze ou quinze anos. Ele e Julian estavam sempre juntos, e lembrou-se de um terceiro menino, da mesma idade, que permanecia sempre arredio, pelos cantos.

— Então era você. Sorento, eu me lembro!

Depois de meses, Sorento viu algo que ninguém tinha visto desde que Milo entrou naquele quarto: um sorriso. Milo sorriu ao lembrar-se do menino que se escondia por ser filho da criadagem. Era Sorento, aquele diante de si, agora.
Sorento também sorriu, mas logo tentou desconversar, com medo de tomar liberdade além do permitido com o prisioneiro de seu patrão

— Sim, mas agora devo ir. Trouxe esta farda por ordem do senhor Julian e a lareira está acesa, manterá o quarto bem aquecido a noite toda, e...

— Não! Não vá...por favor, fique.

Milo em um impulso levantou-se da cama, segurando Sorento pelo braço. Os olhos azuis suplicantes traziam um pedido angustiante, como um pedido de socorro. Sorento estremeceu. Sabia que se desobedecesse Julian poderia ter problemas sérios, mas o pedido de Milo era especial demais para ser negado.
E ver aquele sorriso, valia qualquer sacrifício, qualquer risco que pudesse correr.
Por muitos anos arrastou uma paixão platônica pelo jovem patrão, mas descobria agora que Julian estava longe de ser o melhor dos homens

— Está certo, eu ficarei. Mas só um pouco

Sorriu, e Milo sorriu outra vez

— Obrigado, Sorento. Talvez eu não saia daqui vivo, talvez eu morra. Talvez eu morra de tristeza, de dor ou de saudade. Mas eu morrerei feliz, porque eu provei o amor mais puro que um homem pode provar. Porque eu fui feliz, eu conheci a felicidade plena.

Milo dizia aquelas palavras com uma segurança inabalável nos olhos, estava tranquilo e parecia finalmente resignado com sua condição de prisioneiro.

— Milo, você não vai morrer. Perdoe meu senhor, ele está fora de si. Ele nunca experimentou este sentimento da qual você se refere, nem mesmo eu experimentei.

Os dois homens falavam próximos, em volume baixo para não serem ouvidos. A noite já caía e a iluminação amarelada do fogo fazia sombras nas paredes. O coração de Sorento acelerava incontrolavelmente, acima de tudo quando Milo tocou seu rosto, carinhosamente

— Você é bom. Encontrará alguém muito especial, que irá amá-lo como merece. Todos merecemos.

Apesar de ser um serviçal, Sorento era um lindo jovem. Tinha porte e beleza. Os dedos de Milo estavam pousados em sua face, e ele delicadamente os beijou. Sorento se imaginou beijando todo aquele corpo, se perdendo naqueles lábios, beijando aquela boca. Com tais pensamentos seu pelos se eriçaram e Milo recolheu sua mão em um gesto rápido, percebendo o que causara.

— Sorento...

— Me perdoe, senhor..

— Está tudo bem, venha.

Milo puxou Sorento para si, e em um gesto carinhoso e fraternal o abraçou. O mordomo se deleitou por alguns segundos nos braços acolhedores do loiro, sentindo o perfume que emanava dos fios claros e a respiração quente que ele produzia.
Mas foram brutalmente interrompidos por alguém que não gostou nada do que viu

— Sorento, o que é isso??

A voz de Julian saiu grave, alta e ameaçadora, fazendo Sorento afastar-se subitamente de Milo. Ao contrário do mordomo, que ficou temeroso com o flagra, Milo permanecia calmo e encarava Julian com a fisionomia endurecida

— Me...me desculpe senhor — gagejou, nervoso

— Se voltar a tocar no prisioneiro outra vez, eu...

— Você o que, Julian?

A voz de Milo saiu desafiadora, acompanhada de um arquear de sobrancelhas e um tom jocoso. Estava farto das ameaças e da truculência do dono da casa, tinha sede de enfrentá-lo

— A criadagem deve fazer apenas o seu trabalho, sem tomar liberdades com seus senhores — disse ainda encarando o mordomo

— Quem tomou liberdade com ele fui eu e não o contrário. Venha se ver comigo, seu covarde. Saia, Sorento.

O mordomo obedeceu, aproveitando que Milo o havia tirado da situação. Permaneceram apenas os dois. Algoz e prisioneiro, frente a frente. Se encaravam.

— Então agora dá ordens aos meus criados?

— Eu gosto de Sorento, nos damos bem. Ele é aquele menino que você desprezou a vida toda...quem diria que viraria um belo homem, não é mesmo?

— Uhum...gostou? — perguntou com um sorriso de deboche

— Te digo que seu eu já não tivesse um amor, me interessaria sériamente por ele e o tiraria de você fácilmente. Muito fácilmente.

Milo afrontava Julian, o olhava com ar de superioridade, o desafiava. Era Julian quem estava preso, estava aprisionado pela sua infelicidade

— Você é meu, Milo. Nem de Sorento, nem de Camus. Você é meu — sussurrou perto dos lábios do outro, desejando estreitar o contato

— Nem depois de morto — sussurrou de volta, estreitando ainda mais, fazendo Julian sentir o calor do corpo que jamais iria ter
Enfurecido, Julian saiu rápido, tornando a fechar a porta por fora.

Milo recolheu-se, deitando na cama. Se encolheu e pensou no único em quem pensava sempre: seu amado, seu Camus. Abraçou o próprio corpo, sentindo-se arder de saudade e desejo

"Oh meu amor...se estivesse aqui agora, te faria amor a noite toda. Que saudade dos seus beijos, seu toque, sua voz. Suas carícias, seu corpo pulsando no meu, seu coração batendo acelerado e sua respiração ofegante nos meus ouvidos enquanto geme meu nome...ahh Camus!!"


**


Antes mesmo que Dite entrasse no saguão do Hotel George, seu perfume de rosas pôde ser sentido, anunciando-o.

O lindo loiro desceu da carruagem, indo direto á recepção. A imponência de sua beleza fez pararem os funcionários para olhar aquele que chegava. A casaca carmim contrastava com os cabelos loiros e sedosos, o andar elegante deixava até a mais fina dama desejando aprender a se portar daquele jeito.

— Boa noite. Estou á procura do Sr. Matheo Giordanni

A recepcionista confirmou a presença do hóspede

— Sim, ele está aqui. Aguarde um instante que um dos nossos empregados irá chamá-lo e...

— Não precisa, querida. Eu mesmo posso fazer isso, não se preocupe.

Antes que a mulher pudesse interferir, Dite tomou o corredor na direção das escadas que levavam ao andar de cima. Sabia qual era o apartamento onde seu carcamano estava, iria ele mesmo.
Bateu na porta, vendo surgir do outro lado um Matheo que era uma mistura de susto e alegria

— Afrodite! Amore mio, você veio e...

— Cala a boca, carcamano sem vergonha!

Matheo recebeu no peito um empurrão tão forte que quase caiu no chão, jogando-o pra dentro do apartamento. Dite veio com fúria pra cima, colocando o indicador no rosto do italiano

— Escuta aqui, eu vim te dar um recado. Abre bem esses ouvidos cheios de cera, porque não vou repetir, carcamano! Sai da minha vida, volta pra Italia, volta pra tua mulher porque não te quero aqui!!! Demorei muito a te tirar da minha vida seu salafrário, some da minha frente, maldito!

— Calma, calma amore! Ma olha, eu me separei da minha mulher, eu não estou mais casado. Dite, por favor, vamos conversar?
Um novo empurrão e Matheo foi parar no sofá, caindo sentado. Dite continuava furioso, levantava a voz e colocava o dedo na cara de Matheo, demostrando toda a sua ira

— Conversar coisa nenhuma!

— Eu te amo, minha rosa...

A frase dita com sotaque napolitano fez Dite estremecer. Era assim que ele o chamava nas horas mais íntimas e quentes dos dois.

"minha rosa"

Engoliu seco, sentiu suas pernas bambearem e quase fraquejou. Uma subita vontade de se lançar naqueles braços e beijar aquela boca o resto da noite. Mas decidiu resistir e manter-se firme.

— Tá perdendo tempo carcamano, eu tenho outro.

Matheo que até então estava se contendo, agora tinha o semblante sério. Como sua rosa podia ter outro carcamano?

— Tem outro? Que outro carspita? Ficou maluco!

— Tenho carcamano, ele é francês. Ruivo, inteligente e muito, mas muito mais bonito que você!

— Francês e ruivo? Quem é esse maledetto que eu mato agora mesmo!!!

— Mata nada! Tu não mata nem uma mosca, seu desclassificado! Olha Matheo, o aviso tá dado. Me esquece!

Antes que Matheo pudesse impedir e que seu coração o convencesse que aquilo era uma besteira, Dite saiu pisando duro, sem deixar chances para o outro vir atrás.

"ruivo, francês...ma quem é esse maldito. Vou tirar essa história a limpo amanhã mesmo, na primeira hora!"


**


No dia seguinte, Camus estava novamente na livraria. Ainda não havia retomado o trabalho, mas passava todos os dias para tirar alguma dúvida que Dite pudesse ter com algum livro ou cliente.

Os dois estavam ás voltas com o volume grosso e pesado de uma enciclopédia, quando o italiano entrou ventando pela porta, assustando quem estava dentro. Ao observar o homem ruivo ao lado da sua rosa, não teve dúvidas

— Ei, você deve ser o maldito ruivo que anda arrastando asa pra minha rosa, pro meu Dite!!

O sueco quase caiu pra trás o ver Matheo, já Camus não se alterou. Apenas fitava Matheo com a cara fechada.

— Me chame pelo meu nome: Camus. E você, pelo sotaque italiano deve ser o Matheo

— Ma che! Então já falou de mim pra esse daí é Dite? — gesticulava, indignado

— Que vergonha..arg! Camus, me perdoe o mal jeito desse carcamano. Ele não tem educação nenhuma!

— Ma agora chega de conversa fiada! Esse francês vai ver com quantos saco de farinha se faz um fetuchine!!

Camus viu o italiano furioso vir para cima dele, desviou do soco que vinha na direção do seu rosto, pegou Matheo pela gola da camisa e acertou-lhe um soco no olho esquerdo. Antes que o italiano pudesse reagir, Matheo foi novamente golpeado dessa vez no estômago, ficando arriado e sem ar.

— Senta aí

Camus empurrou Matheu que caiu sentado em uma cadeira e o fez olhar para ele

— Carspita, você bate bem...não esperava tomar uma surra dessa, onde aprendeu isso?

— Muitos anos de marinha, senhor Matheo. Espero que esteja mais calmo agora.

Afrodite olhava os dois homens que agora o encaravam. Recuperando o ar, Matheo cobrou explicações do loiro

— Me fala Dite, foi por ele que me trocou? Por esse francês da mão pesada...ai..

Camus revirou os olhos, desejando internamente que Dite dissesse logo a verdade

— Não, seu carcamano idiota! Eu e o Camus não temos nada, somos apenas amigos!

— Bom Matheo, agora que estamos devidamente apresentados, me deixe tirar essa má impressão lhe convidando para um café. Vamos? Temos muito o que conversar.

Apesar de permanecer sério, Camus lhe estendia a mão em um gesto simpático. Matheo achou franceses ainda mais estranhos depois disso, se perguntava se era um costume dar surras e convidar para tomar café em seguida. Aceitou, ainda confuso.

Restou a Dite olhar atônito os dois homens que a pouco se agrediam, sairem da livraria lado a lado.


**

— Hum...então você e minha rosa são só amigos?

Matheo perguntava entre um gole de café e outro, diante de um Camus ainda sério e sem muita paciência, mas se esforçando para ajudar o italiano desconfiado.

— É como te disse mil vezes, Matheo. Eu e Dite não temos nada. Se deseja a verdade, eu tenho um compromisso, tenho alguém que amo. Mesmo que eu desejasse sua rosa, meu coração está ocupado, entende?

Ao ouvir que Camus tinha um amor, Matheo interessou-se em saber mais sobre este segredo do ruivo. Camus não pretendia, mas acabou contando sobre Milo e sua conturbada história de amor que agora sofria um revés ingrato da vida. Matheo que horas antes queria matar Camus, agora tinha seus olhos marejados, emocionando-se com a história de amor que ouvia, carregada no drama, como todo italiano adora.

— Então você e ele passaram por tudo isso por amor? Abriram mão de tudo, incluindo suas familias?

Matheo perguntava vendo-se na mesma situação, mas diferente deles, não havia tido coragem de enfrentar tudo por amor a sua rosa.

— Sim, nós passamos por tudo isso por amor. Abrimos mão de tudo e de minha parte não há qualquer arrependimento. Eu faria tudo outra vez, Matheo. Ainda que estejamos afastados agora, ele permanece sendo meu único amor. Você sabe o que é abrir mão de tudo por amor?

Matheo se sentiu envergonhado, deveria ter tido antes esta coragem. Coragem para enfrentar tudo e todos pelo seu amor. Seria agora tarde demais?
Despediram-se desfazendo a má impressão. Matheo guardou o testemunho e o aconselhamento de Camus para agir com paciência com Afrodite e não desistir do amor deles.

O italiano estava decidido a não desistir de ter novamente o amor de sua rosa.

**


A conversa entre Camus e Matheo não havia surtido efeito apenas no coração do italiano.

Camus também saiu daquele encontro com a esperança renovada, um amor como aquele não poderia ficar apenas nas lembranças ou sucumbir á loucura de um psicopata doente. Deveria lutar, precisava lutar.

Estava a poucas quadras da mansão dos Taylor. Algo dizia-lhe que Milo estava naquele palacete, ou que haveria no mínimo alguma pista dele.
Foi até lá, munido de coragem, mesmo sabendo que teria de enfrentar novamente um difícil embate com Julian.
Ao ouvir de um dos empregados que Camus estava á porta, Julian fez questão de novamente ele mesmo ir tratar pessoalmente com o visitante

— Boa noite Sr. Garret. O que deseja? — perguntou em tom formal

— Bonne Nuit. Julguei que tivesse notícias de Milo, estava enganado?

Julian não gostou do tom jocoso de Camus

— Sim, está enganado. Já lhe disse que aqui ele não está

Já ia fechando a porta, mas Camus o impediu, retendo a porta com força e encarando Julian com o olhar cortante e acusador

— Você não passa de um sínico. Eu sei que ele está aqui e ainda darei um jeito de tirá-lo daí de dentro, nem que eu perca minha vida eu tirarei Milo daqui.

A afirmação de Camus fez Julian irar-se. De longe, Sorento observava a discussão temendo que o pior pudesse acontecer a qualquer momento

— Você não passa de um pobre miserável, Camus. Pobre miserável que cria agora um pequeno filhote de rato, um moleque de rua que está abrigando naquela pocilga que chama de casa.

Camus estremeceu, Julian falava de Hyoga. O perverso cavaleiro prosseguiu com sua ameaça

— Se tem amor á vida daquela criança infeliz, saia do meu caminho Camus! Pare de me importunar ou mando arrancar a cabeça daquele moleque!

— Se tocar em Hyoga estará cavando sua sepultura, seu verme.

Após trocarem ameaças, Camus saiu tenso pelo portão de ferro do palacete. Encostou-se ao muro, passando a mão pela fronte. Suava frio. Julian havia ameaçado a vida do seu pequeno, ele poderia ser mais perigoso do que imaginava.

— Ei...Camus

Se virou ao ouvir seu nome, era Sorento que escondido de seu patrão, lhe seguira

— O que quer?

— Ele está aqui

Camus estremeceu novamente. Sorento viu nos olhos de Camus uma angústia e um desespero quase incontroláveis. O homem frio, com nervos de gelo sucumbia a emoção

— Ele está aqui? o Milo? Eu sabia, eu sabia! Por Deus, me diga como ele está

Sorento viu uma lágrima rolar no rosto ruivo e uma emoção incontrolável deixar suas mãos trêmulas

— Ele está bem agora, sofre por estar preso, mas está bem. Ele o ama muito, não há um dia sequer que ele não diga isso, senhor Camus.

Camus não resistiu e entregou-se a um choro copioso. A emoção explodia em lágrimas mornas, no coração que batia descompassado em receber, depois de meses, pela primeira vez notícias de Milo. Notícias do seu amado.

— Eu preciso tirá-lo daí, eu preciso tirar o Milo desse lugar. Por favor, precisa denunciar seu patrão á polícia para tirarmos Milo daqui.

— Não posso fazer isso, senhor. Eu serei um homem morto se assim o fizer. Eu sinto muito, peço que apenas confie no seu amor. Um passo em falso, e é Milo quem morre.

Camus sentia-se impotente diante daquela informação. Agora sabia onde Milo estava, mas não podia invadir o palacete, nem obteria ajuda de qualquer um dos empregados. Tinha vontade de invadir o lugar, de sacar uma arma e reder todos, nem que pra isso jorrasse sangue.
Mas e se fosse o sangue de Milo a jorrar? Uma invasão poderia por a vida de Milo em risco, nada poderia ser feito por impulso. Para agir, Camus precisaria pensar, arquitetar uma estartégia para tirar Milo daquela prisão.
Controlou seus impulsos, equilibrando novamente sua emoção.

— Cuide dele pra mim. Diga que eu o amo, por favor. Pode fazer isso?

— Claro que posso, não se preocupe. Agora preciso ir.

Sorento voltou para dentro desejando não ter sido visto e Camus seguiu para casa festejando internamente os últimos acontecimentos. Sentiu o calor reconfortante da esperança invadir-lhe o peito mais uma vez.


**


— Milo? Lhe acordei?

— Sorento? Não, não...estou acordado ainda. Venha, sente aqui.

— Adivinha com que estive agora a pouco e deixou-lhe um recado?

As mesmas lágrimas que Sorento viu rolar na face de Camus, agora via brotar nos olhos de Milo e um sorriso se abrir nos lábios, iluminando todo o quarto.


* ~ * ~


Matheo Giordanni: 26 anos, italiano alto e de porte atlético. Tem cabelos prateados espetados, olhos acinzentados e o hábito de fumar sempre que fica tenso. Casou-se com a ambiciosa Giulia com quem teve três filhos, mas nunca esqueceu seu grande amor, um belo sueco que conhecera em Londres. Herdeiro de muitas terras na região de Nápoli, planeja investir no plantio de uvas e fundar uma vinícola. Esquentado, desconfiado, dramático e expansivo, Matheo é o tipico italiano que gesticula e fala alto. Apaixonado e resignado, fará tudo para reaver seu grande amor.


Sorento Syrenia: 21 anos, possui cabelos castanhos claros na altura dos ombros cujo a franja lhe cai nos olhos esverdeados e bem expressivos. Pele clara e estatura mediana. É mordomo na mansão da familia Taylor desde menino, e empregado pessoal de Julian. Criado desce criança para ser "invisível", discreto aprendeu a vida toda a servir, colocando-se sempre em segundo plano, tendo como prioridade o bem estar do jovem patrão. Nutre por Julian uma paixão platônica desde a adolescência, mas descobre em Milo o exemplo de homem que deseja encontrar. Sensível, bondoso e apaixonado, Sorento passa a ser um confidente e amigo para Milo, por quem passa a nutrir uma paixão secreta, o jovem experimenta pela primeira vez a sensação de ser querido e acolhido, despertando o ciume e a ira de seu patrão.


Pandora Heinstein: 19 anos, a bela jovem de pele clara e cabelos negros possui olhos cor de violeta e o cortume de vestir luto desde a morte do pai. Vive com a mãe e dois irmãos mais novos em um casebre, trabalhando na indústria Bloedorn meio período. Ao conhecer Camus, seu vizinho, a jovem se apaixona por ele, mas não é correspondida. Ainda assim, uma amizade nasce entre eles, e ela o ajuda cuidando de Hyoga quando Camus precisa se ausentar. Pandy não é uma mocinha casadoira, deseja apenas se formar e ser alguém independente na vida, tirando a mãe e os irmãos da pobreza.

Notas finais
Acho que estava devendo a ficha do Matheo pra vocês, aí está!