A História de Nós Dois
16 Em Nome do Filho
Notas iniciais
Cap 16 — Em Nome do Filho
Naquela tarde, Camus havia deixado a livraria um pouco mais cedo. Iria se encontrar com Milo no jóquei clube.
Caminhava sobre a brita pelo caminho de árvores centenárias sentindo o vento primaveril lhe varrer os fios vermelhos com delicadeza. Não demorou a avistar a entrada da área de estábulo que ficava além da pista de corrida, de longe dava pra ver o loiro lhe sorrindo com sua alegria quase infantil, graciosa. Sorriu de volta, apertando o passo afim de chegar logo até ele.
Pra encurtar a distância ainda mais, Milo passou a também se mover na direção do ruivo, até que vencida a distância, jogaram-se em um abraço apertado. Parecia que não se viam há meses dado o calor e urgência daquele contato, seguido de um beijo demorado, saboreado por ambos sem pressa. Nem parecia que dormiam e acordavam juntos todos os dias, cada dia era como se fosse o primeiro, cada beijo como se fosse o último.
De longe, o Senhor Thompson observa o casal. Inconcientemente, se permitia ser tocado no coração pela imagem de dois homens dividindo um momento de amor. Algo impensado para a maioria das pessoas naquela época, no entanto, o gerente via beleza naquela imagem. Imediatamente pediu a um de seus empregados que fosse até eles, e os convidassem a um chá.
— Chá? O Sr. Thompson quer tomar chá conosco?
Milo perguntou incrédulo ao ouvir o convite que vinha através do mensageiro. Camus e Milo se olharam sérios, porém aceitaram. Seria grosseiro declinarem ao convite sem um motivo convincente.
Ao entrarem na suntuosa sala forrada de carpete e cortinas verde escuro, Milo fez as apresentações
— Sr. Thompson, este é o Sr. Garret
— Oh, é um prazer!
— O prazer é meu, pode me chamar de Camus
Ambos apertaram as mãos cordialmente. A reação amigável do gerente fez Camus abrandar um pouco seu comportamento defensivo e se mostrar menos áustero.
Os três se sentaram em torno de uma mesa posta com aparelho de chá e todos os apetrechos para o chá inglês. Uma prática que Camus apesar de não ser um local, já havia absorvido. Havia aprendido com Milo a tomar chá todos os dias, se tornou um adepto do "British House" dos mais variados sabores, puro ou com leite á noite.
A conversa ia animada entre xícaras de chá á moda classic british (chá preto com pouquíssimo leite) e scones (pães doces) até que alguém os interrompeu, batendo á porta e pedindo licença para dar um aviso ao gerente.
— Com sua licença Sr. Thompson, vim apenas lhe avisar sobre aquela compra de cavalos
Mesmo de costas, Milo reconheceu de imediato a voz familiar de Julian. Ele e Camus se viraram e lançaram um olhar cortante na direção do que falava. Julian devolveu o mesmo olhar, primeiro a Camus e depois a Milo.
— Ah claro Julian, estamos tomando um chá, gostaria de se juntar a nós?
O gerente tentava ser cortês, mas notou de imediato o clima tenso entre os homens
— Não, obrigado. Apenas vim avisar que fechei a compra de novos cavalos, serão três puro sangue e devem chegar em no máximo seis meses. Estão vindo do Líbano.
Julian falava ao Sr. Thompson, mas seu olhar revezava entre Camus e Milo, recebendo o olhar sério de ambos.
Camus aproveitou para olhar bem no rosto de Julian, tinha a nítida sensação que ainda teria muitos problemas com ele. Já Milo simplesmente deixou de olhá-lo, se atendo a mirar a paisagem através da janela. Não tinha mais a mínima vontade de olhar na cara de Julian, enquanto Camus seguia o fuzilando com o olhar.
E assim foi até que este saísse de seu campo de visão, despedindo-se e se retirando.
Notando que a presença de Julian havia deixado um mal estar no ambiente, o gerente tratou de espantar o clima ruim oferecendo-lhes mais pãezinhos.
Depois de mais algum tempo de conversas, Milo e Camus agradeceram e saíram levando uma boa impressão daquele encontro. O gerente do jóquei também havia ficado com uma boa impressão do casal.
Caminhando pelas alamedas rumo a saída de empregados (a que Milo podia usar, já que lhe era proibido o uso do acesso principal), não notaram que alguém os espreitava. Nem muito longe que pouco pudesse ver, nem tão perto que pudesse ser notado. Julian se preservava a uma distância suficiente, porém com boa visão e audição.
Alheios, Milo e Camus pararam pouco antes da saída. Milo tomou o amado pela cintura colando os corpos. Camus retribuiu agarrando-lhe a nuca e Julian de onde estava presenciou um beijo cinematográfico, algo dígno de um quadro, ou uma foto. Os dois homens em meio ao verde, corpos colados, lábios colados, mãos que se acariciavam e beijos que estalavam de tão prazerosos que eram.
O sangue do que espreitava oculto ferveu de tal maneira que desejou entrar entre eles e separar o casal, dizendo abertamente o quanto os odiava. Mas não podia e nem iria fazer isso. Teve de se contentar em assistir a imagem daquele amor e ainda por cima ouvi-los
— Humm...que delícia ange, seu beijo é tão gostoso...dê-me mais
Milo chupou delicadamente o lábio inferior de Camus e depois as línguas bailaram outra vez juntas.
— Uhh Camyu...vamos pra casa amor, e te darei mais do que isso
Os punhos de Julian cerraram em ódio, uma lágrima correu de raiva pela face ruborizada pelo nervoso.
Não tolerava mais ser desprezado e ao mesmo tempo ver Milo devotar a Camus suas palavras mais doces, o calor de seus lábios e de seu corpo.
A inveja e o ciume o cegavam agora, definitivamente.
**
Civita de Bagnoregio — Italia
Os gemidos se tornavam a cada passo mais e mais audíveis.
Pela casa, nem sinal dos meninos. Certamente estaria com a vizinha, como ela volta e meia deixava. Matheo foi se aproximando do quarto, e pelos gemidos, ora masculino, ora feminino, sabia e muito bem o que iria encontrar.
Estava sendo traído. Em sua própria casa, em sua cama.
Mas para um homem como ele talvez protestar soasse hipócrita. Ele já havia feito o mesmo, inúmeras vezes. Agora era hora de Giulia dar-lhe o troco.
— Cagna!* Na minha própria cama, maledetta!!!
Giulia saiu de cima do homem, abaixando o vestido. O amante se recompôs rápido, entre surpreso e assustado.
— Matheo, esta é la tua paga! Por tudo o que me fez sofrer na vida, ou acha que me esqueci do que me fizeste tantas e tantas vezes?
A bela e farta italiana tinha sua razão. Matheo era infiel e ela sabia de seu segredo inconfessável, soube quando Afrodite entrou em suas vidas.
— Não faça nada contra ela, carcamano!
O homem com quem Giulia havia se deitado tentou reagir e protegê-la. Matheo sacou um revolver e apontou para a cabeça do sujeito
— Ma cala tua boca infelice! Ou enfio uma bala na tua cabeça!
— Matheo, não!!
Giulia abraçou o marido e implorou para que o amante fosse embora antes que uma tragédia acontecesse. Com medo da fúria do italiano de cabelos grisalhos e espetados, o amante fugiu temendo por sua vida.
— Onde estão os bambini?
— Na vizinha. Matheo, eu quero a separação. Não há mais lugar pra você aqui nessa casa, vá embora!
Matheo olhava para Giulia. Imaginava que um dia isso aconteceria, um dia sua esposa não suportaria mais sua infidelidade. Além de dar o troco, Giulia decidiu por um fim naquele casamento desastroso que só se arrastava.
— Eu quero meus filhos, não vou deixar meus filhos para trás.
— Ah você vai sim, ou eu conto pra toda essa vila o sodomita que você é! Conto que gosta de se deitar com machos, carcamano!
Matheo congelou ante a ameaça de Giulia.
Ter sua vida íntima devassada não seria terrível apenas para ele, mas acima de tudo para os meninos, ainda muito novos para lidar com tudo aquilo. Bagnoregio era pequena, provinciana e preconceituosa.
— E o que vai dizer á eles? Vai dizer que eu morri? Que o papa morreu? — perguntou sentindo um desespero lhe subir. Matheo amava seus filhos apesar de tudo.
— Não sei ainda, vou pensar em alguma coisa. Por enquanto diga que vai viajar — pediu, friamente.
Matheo apenas pediu para ver os meninos, precisava ver os filhos uma última vez pois sabia que aquele era o fim definitivo.
Quando os garotos chegaram, beijou os três meninos de idades próximas, o mais novo ainda ia no colo.
— Papa vai precisar viajar, capicci? Mas obedeçam a mama, cuidem dela, sejam bons ragazzos.
— Papa, quando volta?
O maiorzinho perguntava já derramando as lágrimas e amolecendo o coração do pai que também não se segurava
— Não sei, mio filho. Mas papa ama vocês, muito! Não esqueçam disso! Tu já é um uomo, cuida de tua mãe.
Matheo abraçou os filhos, chorando copiosamente.
Depois arrumou as malas deixando o grande casarão para trás, local onde havia jurado formar uma familia com Giulia, e assim havia feito, até que o amor desviasse sua rota.
Desde que um sueco cruzou seu caminho, Matheu jamais foi o mesmo. Apenas aquele loiro de olhos água-marinha podia entrar em seu coração, apenas a ele poderia jurar fidelidade e amor eterno.
*Vadia
**
Já se aproximava a noite.
Camus deixou a livraria levemente cansado. Não que lidar com livros o exaurisse, mas lidar com pessoas por vezes era delicado. Na livraria, Camus precisava usar um certo jogo de cintura para lidar com a diversidade de pessoas e a quantidade de coisas que elas buscavam em livros. Desde jovens estudantes e senhorinhas muito idosas, passando por letrados e ignorantes. Para todos, de alguma forma, um bom livro servia.
Ganhou a movimentada avenida caminhando tranquilo, encontraria Milo em casa para jantarem juntos enquanto contavam um ao outro como o dia de cada um.
"Deve ser bem mais fácil lidar com cavalos...Milo tem sorte"
Envolto em pensamentos, não notou que um homem vinha em sua direção e trazia certa ansiedade no olhar, como se demostrasse surpresa e ao mesmo tempo encantamento em vê-lo
— Senhor Tenente Garret!
O homem parou diante de Camus e após bradar sua patente, prestou-lhe continência, trazendo nos olhos e nos gestos reverência e respeito.
Camus a princípio assustou-se. Não era mais tratado como Tenente haviam muitos meses, mas notou no outro a reverência que seus comandados costumavam prestar-lhe em serviço. Fitou o homem com atenção, forçou a memória, apertou o olhar...mais alguns segundos e lembrou-se mágicamente de quem se tratava
— Soldado Beaumont! Então é mesmo você?
Perguntou examinando o homem de cima a baixo. Parecia meio mudado, tinha agora barbas que antes não possuía, mas era ele mesmo. Beaumont era mais um dos comandados de Camus na vitoriosa tripulação do Chevalier.
— Sim, eu mesmo senhor! É uma honra revê-lo. Espero te encontrar em boa saúde, senhor Tenente.
— Oh soldado, agradeço a lisonja, mas não sou mais um tenente há algum tempo. O Almirante destituiu-me do posto. Não precisa prestar-me mais continência ao me ver.
— Ah, não sabia, lamento profundamente senhor. De todo modo, sempre será para mim o maior comandante que já vi a frente de um navio de guerra, com inteligência e tino que nem mesmo os mais experientes demostraram. Lembra-se daqueles recifes de coral entre aquelas ilhas no Caribe? Quase encalhamos se não fosse sua habilidade com o timão, se não fosse seu espírito de navegador. O senhor é um herói para mim, senhor Tenente e eu sempre lhe prestarei continência quando vê-lo.
As palavras do soldado saíram cheias de genuína emoção. Emoção esta que contagiou Camus e o fez perceber que havia deixado um legado, que seria lembrado pelo serviço exemplar prestado em sua breve carreira.
Camus deu um abraço caloroso em seu ex companheiro de expedição e seguiu para casa, com um sorriso no canto dos lábios. Com a deliciosa sensação de ter cumprido honrosamente seu dever.
**
Já haviam se passado dias, mas a visão daquele beijo no jóquei ainda perturbava e tirava o sono de Julian.
Finalmente havia decidido depois de muito amargar sofrimento, agir. Dessa vez não desastrosamente ou até ingênuamente como antes. Não ficaria a mercê de outra surra ou novas humilhações como um banho de urina. Dessa vez agiria cirúrgicamente, com inteligência e muita calma.
Traçou na mente um plano ardiloso que não poria em prática sozinho. Ele precisaria de um importante aliado na nova empreitada.
Para isso chagava á mansão em Greenford, a propriedade dos Bloedorn.
Ao atravessar os pesados portões de ferro, lhe veio imediatamente a lembrança do jovem que ali habitava. Suspirou lembrando dos velhos tempos em que ia visitar Milo para um jogo de gamão, um jantar ou apenas uma boa conversa. Era carinhosamente recebido por seu pai e irmã, que lhe faziam sala até que Milo descesse as escadas e o arrastasse para onde pudessem ficar a sós e conversar "coisas de homens", ou coisas de "jovens homens". E assim passavam horas e horas na companhia um do outro, no entanto as horas passavam tão depressa...estar na companhia do loiro, fitando seus olhos tão azuis e brilhantes, ouvindo sua voz aveludada e grave, observava a naturalidade de seus movimentos e gestos que passeavam entre o másculo e o delicado com destreza. Uma mistura maravilhosa que faziam de Milo o homem mais interessante que Julian já havia posto os olhos.
"Ah como era bom aquele tempo. Que saudade, Milo..."
Lembrou-se também do dia em que o viu fardado pela primeira vez. A farda da Royal Navy lhe caía com perfeição, se assemelhava a um príncipe. Milo tinha dezessete anos a iria fazer sua primeira expedição. Para a ocasião, a familia deu-lhe uma festa de despedida.
Julian suspirava e suspirou novamente, mas suas lembranças foram interrompidas pela chegada da governanta da casa. Uma senhora que trabalhava para os Bloedorn já há muitos anos
— Boa tarde Sr. Taylor. Venha comigo, o Sr. Richard está a sua espera.
A criada levou Julian até o escritório onde Richard passava a maior parte do tempo quando não estava enfurnado na fábrica. Na verdade passava cada vez mais tempo em casa, devido ao mal estar que sentia com cada vez mais frequência. Havia recebido ordens médicas para trabalhar em casa e moderadamente.
— Como vai, Julian.A que devo a honra da visita?
Os dois homens se cumprimentaram e Julian foi direto ao assunto logo após ser convidado a se sentar e degustar uma dose de conhaque que o próprio dono da casa o serviu
— Serei direto, Sr. Richard. Lamento informar, mas eu precisava alertá-lo sobre seu filho e do que ele vem fazendo.
— Filho? — arqueou uma sobrancelha embranquecida pelo tempo e fitou Julian com seus olhos intimidadores e muito azuis — não tenho filho algum, acaso não sabes?
Julian engoliu seco, e prosseguiu
— Milo prevarica com seu amante em plena luz do dia diante e de todos. Seu filho está arrastando o nome dos Bloedorn na lama, Sr. Richard. É uma vergonha e toda cidade já comenta — suspirou fundo, após vomitar tudo o que queria de uma única vez
Richard que estava de costas servindo-se da bebida assim permaneceu por alguns segundos.
Imóvel.
Virou-se e encarou Julian com uma cólera no olhar que fez o mais novo tremer e quase urinar nas próprias calças de medo. Agora entendia de quem Milo herdara a fúria e a impaciência
— MISERÁVEIS!! MALDITOS MISERÁVEIS!!! Desgraçado, quer me matar...ele quer me matar! Ai...ahhhh!!
Richard pôs a mão no peito e com a outra apoiou-se sobre a mesa, quase caindo. Percebendo o mal súbito, Julian o acudiu, sentando-o na cadeira por trás da mesa.
— Sente-se Sr. Richard, por favor...quer que eu busque um copo de água, eu...
— CALA A BOCA! Não quero água, preciso agir. Não posso deixar que aquele degenerado destrua a reputação que eu construí a duras penas, a vida toda!
Richard respirava com dificuldades, tomou um gole de conhaque para acalmar-se. Julian prosseguiu, vendo que o mais velho se recuperava
— É exatamente por isso que vim. Quero lhe oferecer minha ajuda, posso resolver isso Sr. Richard, só preciso que me apóie
— Quero que suma com ele — decretou friamente
O olhar cortante de Richard veio acompanhado de um tom de voz grave e pesado. Era um pedido cruel acima de tudo vindo de um pai, mas ele não via mais saída
— Eu farei. Milo vai desaparecer, em poucos dias.
Julian sentiu o peso das próprias palavras. No íntimo tinha medo, mas a vontade de ver separado o casal falava mais alto. Dividiu com Richard suas maquinações, tendo do mais velho a aprovação para agir.
**
Mais tarde, em sua mansão, Julian manda que os criados preparem um dos quartos de hóspedes.
O que ficava na parte mais alta da casa, o mais isolado de todos os cômodos.
Mandou por tudo de primeira. Os melhores lençóis, a cama mais confortável, a melhor tapeçaria. Uma ampla bacia para banhos, grossas cortinas nas janelas e mandou limpar a lareira que deveria funcionar perfeitamente para manter o ambiente ainda mais aquecido.
Tudo muito fino e confortável.
Julian queria receber seu hóspede em grande estilo.
E logo agora que seus pais estavam fora, em uma longa viagem que duraria muitos meses. A casa era só dele e a criadagem cumpria suas ordens.
**
O dia transcorreu tranquilo para Camus, a não ser pelo fato de Dite parecer-lhe mais provocante do que de costume.
O loirinho lhe fazia galanteios constantes, o observava entre as estantes, suspirava.
— Afrodite, Afrodite. O que tanto quer comigo? Não tem que cuidar de suas rosas?
Camus já demostrava certa impaciência. O outro deu de ombros
— Amo provocar-te! Quero ver até onde pode me ignorar — brincou, dando para Camus mais uma rosa, dessa vez, vermelha.
— Você não me provoca, se é o que pretende. Apenas atrapalha meu trabalho — disse pegando a rosa e agradecendo com um gesto.
Camus usou sua arma mais mortífera: a indiferença. E a indiferença era algo que Dite não suportava.
— Até quando irá me resistir? Não pode me ignorar pra sempre, Camus — disse aproximando-se perigosamente, encurralando Camus entre seu corpo e uma estante de livros de literatura
— Me solte Afrodite, ou terei de usar a força — reagiu, calmo — está cansado de saber que tenho um compromisso, eu tenho um amor e vou preservá-lo. Agora me deixe trabalhar.
O que nenhum dos dois notou foi o avançado da hora. Camus havia combinado com Milo de o namorado vir buscá-lo aquela tarde. Milo entrou na livraria e viu parte da cena. Respirou fundo e manteve a calma
— Camus, meu amor, algum problema?
Ao ver Milo, Camus empurrou Dite livrando-se rápido, mas não demostrou embaraço algum, afinal, não fazia nada de errado
— Não, está tudo bem mon cher. Que bom que chegou, vou buscar minha casaca para partirmos
Dite lançou seu olhar cortante para o outro loiro que devolveu da mesma forma enquanto Camus ia até o balcão falar com o senhor Svensson. Voltou o mais rápido que pôde, saindo e tirando Milo dali, antes que ele e Dite se matassem.
— Tenha uma boa noite senhor Svensson! — Milo cumprimentou de longe o mais velho que sacudia as mãos e abria um sorriso retribuindo o gesto.
Saíram os dois lado a lado caminhando, antes que dobrassem a esquina, Dite correu para observá-los na esperança de presenciar algum mal estar, bate boca ou até mesmo uma discussão entre eles.
— Ei, desfaz essa cara vai...toma, pra você!
Camus estendeu a mão ofertando a rosa vermelha ao amado. Milo desarmou-se diante do gesto gracioso e sorriu, pegando a flor e aspirando o perfume em seguida.
De longe, Dite apertava os pulsos de raiva por ver Camus dando sua rosa de presente ao namorado.
A rosa que ele havia lhe dado.
— Dite, filho...não olhe Camus com estes olhos, irá se machucar
O alerta do avô entrou por um ouvido e saiu por outro e o loiro subiu batendo os pés e levando para o andar de cima sua beleza transtornada pela rejeição.
**
— Hyoga, volte aqui seu moleque!!!!!!
A gorda senhora corria desajeitada tentando alcançar o garoto rápido e ágil sem sucesso.
O menino loirinho e de expressivos olhos azuis tinha por volta de seis anos, órfão de pai e mãe vivia no orfanato desde nascido, porém as cuidadoras sofriam com as fugas do garoto.
No total, já haviam sido sete e aquela estava sendo a oitava
— Uh! Eu desisto! Madre, Hyoga fugiu outra vez!
A religiosa bufou ao constatar que outra vez o garoto havia fugido
— Já chega disso, deixe-o ir!
— Mas Madre!
— Não tem jeito Dona Nicole, ele sempre foge, sempre vai fugir. Não vamos mais perder tempo com esse moleque, ele não tem mais salvação. A rua que o ensine a viver a partir de agora!
Nicole era quem cuidava de Hyoga e sentiu um pesar ao ouvir aquelas palavras. Afinal, tratava-se de uma criança de apenas seis anos. Correu aos pés de sua santa de devoção e passou a rezar para que ela guiasse os passos do pequeno e o protegesse.
Feliz por estar outra vez livre, Hyoga roubou uma maçã numa banca de frutas, fugiu se esgueirando rápidamente e escondido num beco saboreou a fruta matando a fome. O menino maltrapilho tinha roupas puídas, as botinhas furadas e cabelos embaraçados.
Coincidentemente estava perto da esquina em que conheceu o homem de quem jamais esqueceu-se.
"Foi ali...foi bem ali que eu o vi. Aquele homem bom, o ruivo alto que me chamou de petit...era tão carinhoso"
Hyoga sorriu com a lembrança e sentiu um calor no coração que lhe acendeu as esperanças de um dia revê-lo.
**
Camus se viu em um labirinto de muros altos.
Além dele, um céu cinzento era a única visão que tinha além dos muros. Corria, buscando a saída.
Já estava exausto quando viu Milo em um dos corredores. O namorado lhe sorria.
Sorriu também e correu para ele, mas não conseguia alcançá-lo.
Quanto mais corria, mais longe Milo parecia ficar.
Camus começou a desesperar-se, o cansaço o vencia, o pânico o tomava.
O labirinto parecia não ter saída, nem fim, nem começo. Apenas corredores intermináveis, voltas e mais voltas. Sentia que estava andando em círculos.
No rosto de Milo não mais o sorriso, mas agora angústia.
Camus corria pelo labirinto e Milo parecia cada vez mais inalcançável
— CAMUS!!!!!
Milo berrou seu nome, tomado pelo desespero.
Havia sangue e o cheiro de morte. Camus não via mais Milo e o sangue varreu todo o chão....
— MILOOOO!!!!
Camus ergueu o tronco, sentando na cama. Suado e mais branco do que o normal, seus cabelos grudados pelo suor na face pálida e trincada de pavor.
— Camus, meu amor..calma, foi só um pesadelo
Milo tentava acalmar Camus em seus braços, o ruivo tinha as orbes gélidas e travadas, abertas olhavam um ponto fixo. Camus foi voltando a si aos poucos, despertando
— Milo...eu tive um pesadelo horrível — balbuciou com voz rouca
— Eu percebi querido, mas já passou, olhe pra mim, estou aqui
Milo tentava tranquilizá-lo o acariciando. Camus o olhou fixamente e ajoelhado na cama mergulhou nos braços do amado. Os dois ficaram abraçados um longo tempo.
— Shiii...calma, vamos ficar assim até você se acalmar, está bem? Vamos, fique abraçado a mim.
A voz doce de Milo foi finalmente o acalmando. O coração que batia acelerado foi começando a acalentar, a respiração ofegante começou a diminuir.
Havia sido tudo muito real. Assustadoramente real.
Camus sabia que não era um mero pesadelo, mas um terrível presságio.
Algum tempo depois foi finalmente vencido pelo sono e voltou a adormecer nos braços de Milo que se manteve acordado velando o sono de Camus até se certificar de que ele dormia tranquilo.
A cariciou a face do ruivo que já ressonava outra vez, entregando-se ao sono
— Isso meu amor, durma. Durma tranquilo...
Depositou um beijinho carinhoso em seus lábios e sorriu.
*
Fale com o autor