A História de Nós Dois
25 De Pai pra Filho
Notas iniciais
Cap 25 — De Pai para Filho
POV Camus
Aquela tarde caiu de forma estranha pra mim. Eu me vi vagando pela rua em um dos dias mais tristes da minha vida.
Olhei para trás e o crepúsculo da tarde pintava o céu em tons de laranja e vermelho por entre as nuvens de chuva que vagarosamente se uniam, no prenuncio de que logo as vias estariam molhadas com o tipico sereno daquelas noites.
E lá estava a livraria Svensson, ficando para trás. Eu não conseguia imaginá-la fechada, eu não conseguia imaginar minha vida sem todos aqueles livros e aquele ar que eu amava respirar. Me senti então culpado, senti o peso do que fiz com Milo.
Me lembrei do quão frio e implacável eu fui ao exigir que ele abandonasse seu trabalho. Apesar de tudo, ele devia amar cuidar dos seus cavalos como eu amava estar entre os livros. E eu arranquei isso dele, sem qualquer piedade. Eu insisti até que ele saísse, até que ele abandonasse, como se isso fosse a coisa mais simples.
Não era. Agora eu via que não era.
Quando entrei no casebre, engoli meu choro. Eu havia me segurado durante todo o trajeto e agora eu via as duas pessoas mais importantes da minha vida diante de mim.
Milo havia acabado de fazer Oga dormir e nosso petit já ressonava nos braços do pai, tranquilo. Seu rostinho de criança era sereno, quase sorria. Ele estava tão feliz.
Olhei pra Milo e ele me olhava com carinho, mas me fitava com atenção. Ele havia notado, é claro que havia.
— Bon nuit — eu cumprimentei, minha voz saiu quase trêmula
— Bon nuit, amour. O que houve?
— Il n'y a rien, ange (não é nada) — eu respondi, sem conseguir esconder o desânimo
É claro que ele não se convenceu com a minha resposta. Estava na minha cara que nada estava bem. Então ele levantou-se com cuidado, tirou a cabeça de Oga que estava em seu peito e apoiou no travesseiro, cobrindo em seguida o petit com as grossas mantas. Levantou-se e veio até mim. Ele olhou no fundo dos meus olhos e em seguida me tomou nos braços, me abraçando.
Aquilo foi o suficiente para que eu desabasse finalmente em um choro copioso e incontrolável. Eu chorava de soluçar, chorava como uma criança.
Ele não estava entendendo nada, é claro que não estava. Então quando eu consegui me controlar, sentamos á mesa. Ele acendeu uma lamparina pois a noite já havia levado qualquer luz diurna que pudesse entrar pelas vidraças. Então, frente a frente eu contei á Milo tudo o que havia acontecido na livraria.
E a reação dele não poderia ter sido outra. Ele me apoiou, me abraçou novamente e me prometeu que tudo ia se ajeitar. Eu queria crer naquilo, eu queria ter aquele otimismo, mas naquele momento eu não estava conseguindo. O desânimo estava me vencendo, como nunca havia acontecido antes.
Naquela noite eu só quis me aninhar no peito dele e dormir, apenas isso. E assim foi.
No dia seguinte e nos que se seguiram, ainda tive de trabalhar catalogando e guardando cada livro em grandes caixas de madeira que seriam enviadas a um depósito. Todo o acervo da livraria ficaria guardado lá até que o novo dono decidisse o que fazer com aquilo. O Sr. Svensson pretendia vender a casa com todo o acervo da livraria junto. Então lá fomos nós para aquele árduo trabalho.
Só não foi tão ruim pois Milo esteve comigo todo tempo, ele nos ajudou na empreitada. Eu, Milo, Dite, Matheo e Frederich demos conta de todo o serviço em poucos dias. Logo tudo estava devidamente guardado no depósito. Quando eu entrei no espaço da livraria, agora vazia e com suas estantes desmontadas, não pude resistir e chorei outra vez.
Naquela noite, Dite nos ofereceu um jantar de despedida.
Pusemos uma grande mesa no meio do salão, agora vazio, da velha livraria. Eu e Milo sentamos com Oga entre nós dois. Dite ao lado de Matheo e Frederich na cabeceira. Foi um jantar alegre e ao mesmo tempo triste. Me despedir de pessoas tão queridas era doloroso demais. O jantar transcorreu animado e no fim brindamos prometendo manter contato, trocaríamos cartas sempre.
Eu iria sentir saudades daquele lugar, muitas saudades.
Ao sair da casa, me dei conta que era a última vez que eu havia pisado naquele chão, que eu havia olhado aquelas paredes. Se não fosse pelo apoio do Milo, que me deu muito amor naquele momento, eu não sei se teria aguentado.
No dia seguinte fomos á estação nos despedirmos pela última vez de nossos amigos. Dite estava lindo, usava um sobretudo carmim, os cabelos loiros presos lateralmente e uma cartola preta, que pendia levemente para um dos lados, muito elegante. Seus olhos tão claros brilhavam, meu amigo estava embarcando para sua felicidade. Tão diferente do Afrodite que eu conheci, mas ao mesmo tempo com a sua mesma essência boa, gentil, amorosa.
E claro, seu cheiro inconfundível de rosas que entrou em minhas narinas aumentando a sensação de saudade que eu já sentia. Quem diria que seríamos tão amigos?
Todos nos abraçamos quando o trem á vapor finalmente chegou á estação, um mar de gente andava para todos os lados como um grande formigueiro. Funcionários na plataforma já buscavam as bagagens dos passageiros para colocarem no trem. Dite conferiu seus tickets e os de Matheo e Frederich para que pudessem embarcar rumo á Liverpool, de onde partiria o navio que os levaria á Suécia. A fumaça da locomotiva nublou o ambiente, fazendo um casamento perfeito com o cinza do tempo do lado de fora da estação, aquela tarde ainda mais fria e a chuva insistia em deixar Londres ainda mais introspectiva.
Meu coração se apertou quando Dite passou a mão coberta por elegantes luvas negras de couro em meu rosto. Nos abraçamos, era nosso último contato. Eu apenas agradeci por tudo o que ele fez por mim, o mesmo com Frederich Svensson, o homem que do alto de sua sabedoria me ensinou tanto. Milo também os abraçou, assim como também trocamos abraços com o Matheo. Ele insistiu em me chamar ainda de francês da mão pesada, e eu apenas sorri.
Quando Dite ia entrando no vagão, ele olhou para trás e trocamos um último olhar. Ele estava feliz, eu vi nos olhos do meu amigo o quanto ele estava feliz e isso me deixou feliz também.
Por fim, eles embarcaram. Eu, Milo e Oga ficamos olhado o trem partir lentamente até sumir no cinza de neblina e fumaça.
**
POV Richard
Eu estava cansado, realmente cansado.
O avançar da idade nunca havia sido um peso para mim tão grande quanto naqueles dias. Minha saúde já não era a mesma e a cada dia me sentia mais fraco. A cada dia a dor aguda no peito me assolava com mais frequência, trazendo junto a falta de ar. Minha cabeça totalmente branca mostrava que eu já não tinha mais tanto tempo para estar neste mundo, assim como minha visão a cada dia mais falha.
Se não fosse a ajuda de Kanon naqueles dias, eu realmente não sei se daria conta de todo o trabalho. Eu estou velho, cansado, me esqueço das coisas fácilmente.
Já não me sinto mais forte o suficiente para continuar presidindo as industrias de enlatados.
Kanon, meu sobrinho, um dos filhos gêmeos de meu irmão John havia começado por baixo, trabalhando como operário da linha de montagem da fábrica. Mas logo o rapaz mostrou serviço e talento e começou a subir. Não por ser um Bloedorn, eu realmente não o favoreci por ser da familia, mas porque ele de fato mostrou preparo. De operário a chefe de setor, de chefe a gerente júnior, de gerente júnior a gerente geral.
Hoje Kanon é meu braço direito e a maior autoridade na fábrica abaixo de mim.
Naquela tarde, em casa, eu cogitava a possibilidade de Kanon herdar todo o meu patrimônio, uma vez que ele já estava mesmo á frente de tudo junto comigo. No entanto, ao abrir uma gaveta na minha escrivaninha e ao ver o pequeno soldadinho de chumbo, meu coração apertou.
Aquele brinquedo havia sido de Milo. Meu filho Milo. O filho que eu reneguei.
As pessoas não sabem, mas o simples fato de pensar nisso já me dói. Dói ver essa casa vazia, escura, silenciosa. Casa que um dia abrigou aquela energia ativa e inquieta chamada Milo Nickolas.
Eu peguei o soldadinho e o apertei na minha mão, sentindo o chumbo gelado. Olhei para os jardins por entre a vidraça da janela e lá fora já não via mais o dia branco e nublado daquele outono, mas uma bela tarde de verão. A natureza nos brindava com flores e um colorido alegre debaixo de um sol agradável. O céu aberto e sem nuvens, raro para Londres. Lá fora, Catherine passeava pelos jardins floridos da nossa mansão com o pequeno bebê nos braços. O bebê loirinho, de pele branca como leite e olhos azuis como os nossos.
Nosso filho.
Ele havia sido feito em meio a tanto amor. A muito amor. Eu e Catherine nos amávamos muito e nos orgulhávamos de ver o fruto desse amor nascer e crescer. Eu me olhava no espelho, eu estava jovem. Meus cabelos loiros estavam longos, caíam sobre meus olhos. Acho que meu garoto ficará parecido comigo.
Logo ele não era mais um bebê, logo ele corria, o garoto esperto e rápido, corria entre os jardins e sua irmã mais nova corria atrás dele. Eu os observava, estavam tão felizes.
Mas eu já não era mais o mesmo, pois o sol se converteu em nuvens de chuva e a alegria do amor em tristeza profunda e luto.
Catherine, minha Catherine. Deus a havia levado.
E Milo era só um rapazinho começando a vida, no entanto era daquele rapazinho que provinha a força que me mantinha de pé. Eu desejava morrer, eu já não tinha forças. Eu não podia seguir sem minha Cath.
Milo me ergueu, nos ergueu. Eu olhei para meu primogênito e não via mais o rapazote, mas um homem. Milo era um homem. E eu via os olhos de Cath nos seus olhos.
Voltei meus olhos para dentro, sobre a escrivaninha, papéis e contratos esperando serem assinados.
— Papai, posso entrar?
Então Milo abriu a porta e entrou no escritório. Suas botas tinham lama e eu briguei com ele. Milo sempre se sujando por andar com aqueles cavalos. Ele riu, saiu e depois retornou, com as botas limpas. Eu não queria que ele sujasse meu tapete. Foram caros.
Ele veio até mim, me dando um daqueles sorrisos que iluminavam tudo. Abaixou-se e seus cabelos loiros cairam para o lado quando ele me beijou no rosto. Milo tinha a beleza de um cavalo selvagem e era livre como eles. Para minha tranquilidade, estava desertando da Marinha para me ajudar com sua irmã mais nova. Eu não estava conseguindo ser um pai para Natassia.
— Finalmente você voltou. Não vai mais para o mar, não é filho?
— Não pai, eu agora vou ficar aqui com o senhor e minha irmã. Vamos ser uma familia!
— Ótimo! Tenho muito a te ensinar, um dia você irá ocupar meu lugar á frente de tudo aquilo.
Ele me sorriu outra vez. Ali eu vi que Milo não se importava em ser o dono de nada, ele apenas desejava ser feliz.
Abri meus olhos e estava novamente sozinho.
Eu havia me perdido momentâneamente em lembranças e tudo o que eu tinha agora era a solidão de uma vida vazia e aquele pequeno soldadinho de chumbo em minhas mãos. Lá fora não mais a tarde ensolarada de verão, mas novamente o frio do outono. Senti frio e notei que a lareira estava apagada. Levantei-me e fui até lá.
Peguei alguma lenha e coloquei na parte de dentro, chamei nossa governanta para que me trouxesse uma tocha com fogo da cozinha para acender a lareira, mas quando fui fazer um movimento brusco senti meu coração falhar. O ar me faltou nos pulmões e perdi minhas forças.
"Um filho....Milo tem um filho..."
As palavras dele aquele dia em frente a base de polícia ecoaram na minha lembrança. Mas aquilo era absurdo, dois homens não poderiam procriar. Que diabos...
Me desequilibrei quando tentei me apoiar para levantar, a dor aguda aumentou de forma assustadora. Tudo o que consegui foi levar uma das mãos ao coração e com a outra tentei me apoiar, porém em vão. Logo tudo escureceu e minha consciência me deixou.
A última coisa que ouvi foi a voz de Catherine
— Ele vai odiar você. Seu filho vai odiar você!
**
Aix-en-Provence — França
Anete acorda no meio da noite com os gemidos de Gerrard. Ao seu lado, o marido parecia estar em meio a um pesadelo terrível, pois se debatia e gemia, bastante suado enquanto dormia.
— Gerrard, Gerrard!
— Ohh!! Camus!!
Ele gritou o nome do filho ao acordar, atordoado. Seu olhar perdido fitava a parede
— Gerrard o que aconteceu? Teve um pesadelo? — ela perguntou preocupada, secando o suor do rosto do marido com um pano
— Um pesadelo terrível, com Camus. Sonhei que meu filho me odiava, Anete. Ele me odiava.
Gerrard dizia aquilo em uma mistura de pavor e perplexidade.
Anete apenas o fitou, séria.
**
— Hum, isso parece delicioso
Milo admirou a beleza do guizado de porco que Camus colocava á mesa. O francês havia feito um dos seus pratos favoritos para o almoço daquele dia. Hyoga sorriu ao aspirar o cheiro bom da comida recém preparada
— Tá com um cheiro bom demais, quero comer!
Os dois mais velhos tentavam não transparecer ao pequeno o quão delicado era o momento que estavam atravessando. Faziam de tudo para manter Hyoga blindado de todas as dificuldades. Para o garoto, diziam sempre que tudo estava bem, que tudo iria se ajeitar.
E eles de fato se esforçavam para acreditar nisso.
Aquele guizado havia sido feito com o que ainda havia de comida, a verdade é que Milo e Camus não sabiam o que dariam para o filho comer no dia seguinte. Cada dia era um dia, cada dia precisava ser conquistado. Os dois trocaram um olhar cúmplice e observaram o pequeno comendo com vontade.
Após o almoço, Milo ficou arrumando a cozinha e Camus buscou livros e cadernos para estudar com Hyoga. Batidas na porta interromperam o silêncio.
Ao constatar que havia um mensageiro, Milo pegou algumas poucas moedas e pagou o serviço, recebendo assim a correspondência que vinha de Paris
— Veja Camus, é uma carta de Krest
Camus animou-se, era a resposta a última carta que havia mandado ao irmão. Milo e Hyoga ficaram olhando para Camus enquanto este lia as folhas escritas á tinta e pena. Ao terminar, Camus encarou Milo e repetiu o que havia lido no papel
— Krest e Zaphiri estão nos convidando a irmos embora para Paris, viver com eles lá.
Um silêncio que durou alguns segundos se estabeleceu, até que Milo o rompeu
— Paris? Nós morarmos em Paris? — Milo indagou e em seguida olhou para o pequeno que não parecia entender muito bem o que acontecia
— Krest diz aqui que ele e Zaph estão bem de vida lá, estão em uma casa boa e grande e que podem nos ajudar se formos viver lá
Novamente o silêncio. Camus tinha um semblante indecifrável, como uma esfinge.
— E você quer ir? — Milo perguntou, de forma simples
— Eu não sei...mas acho que nada mais nos prende aqui. Ou prende?
Milo sabia a que Camus se referia. Ao seu pai.
Os dois então se encararam por alguns segundos. Camus tentava desvendar nos olhos de Milo o que o namorado desejava realmente fazer.
— Eu posso ir brincar? — interrompeu o pequeno, tirando os pais daquele transe em que estavam
— Claro mon cher, vá... — Camus acariciou o filho e voltou seus olhos para Milo, que permanecia fixo nos dele
— Eu acho que podemos ir — disse, esboçando um sorriso — acho que pode ser uma saída
Camus riu de volta, e seu sorriso já dizia tudo.
Tanto Milo como Camus haviam prometido um ao outro que venceriam sem depender de ninguém, que no momento em que optaram abrir mão de suas heranças e cair no mundo juntos, eles não iriam pedir ajuda a ninguém de suas familias. Mas a oferta de Krest estava vindo em um momento que eles não tinham outra alternativa, não havia outra opção.
Mais tarde Milo iria até uma fazenda perto de Romford domar um cavalo selvagem que não aceitava a montaria do seu dono. O dinheiro que ganharia pela doma garantiria o almoço do dia seguinte. Camus daria mais aulas de francês a Pandora, o que também renderia mais algumas libras. Com sorte, conseguiriam pagar o aluguel daquele mês.
**
Camus já havia começado a escrever a carta em resposta a Krest quando novas batidas na porta foram ouvidas. Pousou novamente a pena sobre a mesa, tampou o tinteiro e foi atender a porta. Do outro lado uma senhora tinha um olhar de preocupação e procurava por Milo
— Por favor, o Sr. Milo Nickolas está? — ela perguntou, trêmula
— Não, ele saiu á trabalho. Posso ajudá-la senhora?
Camus olhava a mulher confuso e preocupado. Era uma senhora de meia idade, de olhos puxados, certamente de origem oriental. Estava bem vestida..
— É muito urgente. É o pai dele — ela esfregava as mãos, úmidas de suor — eu sou Mayura, governanta dos Bloedorn
— O pai dele? O que houve com o Sr. Bloedorn?
— Ele...ele está muito doente. Ele está morrendo e eu preciso achar o Milo
Uma lágrima de desespero correu pela face da mulher. Foi o suficiente para Camus tomar uma atitude
— Avise ao Sr. Bloedorn que Milo estará com ele em poucas horas, eu irei buscá-lo
A governanta agradeceu aliviada e em seguida entrou na charrete que a levaria de volta para a mansão.
— Oga, pegue sua casaca e cubra a cabeça. Vamos sair
Camus vestiu sua casaca, pôs Hyoga sobre o cavalo e subiu no animal em seguida, saindo a galopes rápidos na direção da fazenda onde Milo havia ido trabalhar aquela tarde.
**
Na fazenda, cerca de dez ou quinze empregados assistiam perplexos o trabalho do homem que havia sido chamado para domar aquele garanhão selvagem.
O tal cavalo não deixava nem que chegassem perto dele, ameaçava dar coices e saia pulando como uma fera indomada. Monta-lo então, era tarefa impossível. No entanto, lá estava Milo e o cavalo selvagem juntos. Ele o acariciava entre os olhos e conversava baixinho.
Os funcionários faziam força para ouvir o que Milo falava, mas era quase inaudível. O fato é que o animal já estava bem mais calmo. Milo colocou os arreios, encilhou o animal, tudo sem que ele mostrasse resistência. O dono sorria, incrédulo. Aquele cavalo até então jamais havia aceitado usar uma sela. Primeiro fez com que o cavalo andasse com a sela apenas e em seguida o montou, para surpresa de todos.
— Oh! Isso é magnífico! Você conseguiu domá-lo!! É alguma especie de magia?
O dono do animal perguntava, perplexo e maravilhado em ver seu garanhão selvagem agora manso como um cachorro
— De forma alguma, não há mágica. Apenas amor, é só isso o que eles querem — Milo esclareceu sorrindo, ainda em cima do animal
Mal concluiu a frase e pôde ver de longe Camus vindo a galope rápido com Hyoga junto a ele sobre outro cavalo. Mesmo de longe, Milo pôde notar a aflição no rosto do seu parceiro. Como o trabalho já estava concluído, entregou o cavalo agora domado ao seu dono e recebeu o dinheiro.
— Camus, Oga...o que fazem aqui? Aconteceu algo? — perguntou curioso e já sentindo-se antecipadamente aflito. Sabia que se Camus havia tido o trabalho de ir até onde ele estava, é porque algo realmente grave havia
— Milo, é o seu pai. Parece que ele está muito doente e precisam de você. Ele mandou que lhe chamassem — Camus respondeu, sério
Milo o encarou de volta, sentindo um engulho estranho no estômago, uma sensação ruim. Subiu em seu cavalo e saiu em disparada junto a Camus e Hyoga que logo o seguiram.
**
Em poucos minutos, Milo, Camus e Hyoga estavam ás portas da mansão em Greenford.
Camus sentiu-se estranho ao entrar na mansão, a casa estava fechada e escura, tinha uma aura estranha, sombria. Hyoga olhava tudo com seus olhinhos impressionados, nunca havia pisado lugar tão suntuoso e grande, nunca havia visto cortinas tão longas e grossas, vidraças tão grandes e lustres tão suntuosos em um teto com afrescos pintados á mão.. Era tudo impressionantemente grande para o pequeno menino que abraçou as pernas de Camus, encolhendo-se
— Milo, finalmente chegaste! Venha por aqui, por favor. O Dr. Aiacos saiu daqui não tem muito tempo, ele já foi medicado e está um pouco melhor.
Mayura, a governanta por um momento esqueceu que Milo sabia muito bem o caminho até os aposentos de seu pai, devido ao tempo que ele já não era mais habitante daquela casa
— Vocês me esperem aqui, eu voltarei logo — pediu, se dirigindo a Camus e Hyoga que foram convidados a se acomodarem no sofá de ébano escuro e estofados carmim. Mayura ofereceu algo aos visitantes, Camus recusou e afim de tirar o pequeno daquela situação, Mayura convidou Hyoga para ir á cozinha da mansão comer alguns doces e bolos. Camus deu permissão e o menino sumiu contente pelos corredores junto á governanta.
Ao entrar nos aposentos do pai, Milo ficou estático com o que viu: a figura moribunda de seu pai, muito doente e debilitado deitado á cama.. Seus olhos semi cerrados fitavam fracos o filho que se aproximava. Milo acomodou-se na cadeira ao lado da cama e tomou em suas mãos as mãos envelhecidas, fracas e levemente geladas de seu velho pai
— Papai.... — foi tudo o que Milo conseguiu balbuciar, com o coração apertado ao vê-lo tão fraco, tão frágil. Nem de longe era o imponente e austero e empresário que estava acostumado a ver.
— Milo,meu filho — a voz do mais velho saiu fraca, rouca, porém bem audível por ainda ser uma voz imponente e grave — eu estou...morrendo
— Não! Não pai, não diga isso. O senhor está sendo assistido por um ótimo médico, eu soube que o Dr. Aiacos esteve aqui, vai ficar tudo bem
Milo segurava ainda mais forte a mão do pai, tentando passar para ele alguma segurança, tentava de todas as formas encorajá-lo. Naquele momento as diferenças entre pai e filho era o que menos importava, Milo só desejava que seu pai vivesse
— Não, meu filho...eu realmente estou partindo. É chegada a minha hora, sua mãe já está aqui comigo
Neste momento, Richard desviou o olhar, como se houvesse outra pessoa no quarto. Milo olhou em volta e não havia ninguém, apenas ele e o pai. Mas Richard insistia em olhar para aquele ponto, como se alguém ali estivesse além deles. Ele sorria levemente
— Catherine...
— Papai!!
— Minha Cath...
Milo notava que seu pai estava cada vez mais naquele outro mundo que apenas ele era capaz de ver. Então o Dr. Aiacos entrou no quarto, guiado pelos gritos de Milo
— Milo, Milo...filho, acalme-se — pediu o médico tirando-o de perto da cama
— Papai!! Ele não pode morrer, faça alguma coisa Dr — pedia desesperado ao ver o pai fechar os olhos, desacordado.
Aiacos conferiu o pulso, ainda pulsava. Richard ainda estava vivo
— Acalme-se Milo. Seu pai dormiu, ele fez muito esforço e precisa descansar. Deixe-o dormir um pouco agora
Do lado de fora do quarto, ainda na sala, Camus permanecia agora com Hyoga á espera de notícias sobre Richard quando Mayura cruzou o salão indo atender a alguém que batia á porta. Camus ficou observando e viu entrar na mansão um homem que nunca havia visto antes.
O tal homem lançou para ele um olhar sério e cortante que foi devolvido por Camus no mesmo tom. O pequenno Hyoga se encolheu, tímido e com medo do estranho. O homem tinha um belo porte, longos cabelos loiros divididos ao meio e que caíam levemente sobre os solhos azuis em um tom mais escuro do que os de Hyoga ou Milo. Possúía um porte elegante e estava muito bem vestido em uma casaca azul marinho com detalhes prateados
Nem dera tempo de ele ou Camus romperem o silêncio e logo Milo surgiu, visívelmente atordoado e emocionado. Camus levantou-se e Milo mergulhou nos braços do amado, ignorando o visitante que o observava
— Camus...meu pai....meu pai — os olhos de Milo já estavam úmidos e continham desespero. Camus o acariciou e o acalmou
— Acalme-se ange, eu estou aqui, nós estamos. Como ele está?
— Mal, muito mal...
Camus queria beijar e acariciar Milo sem pudores, queria dar-lhe todo seu amor, mas a presença daquele homem estranho o intimidou. Milo abraçou Hyogaa e notou que Camus desviara seu olhar para o homem que se aproximava
— Senhor Milo Niickolas, lastimo profundamente que este encontro se de em hora tão sofrida para o senhor. Meus sentimentos
Milo só agora se dava conta daquela presença, encarou o estranho, sem entender do que se tratava. Apertou o olhar o encarando, seu rosto não era estranho de todo, tinha uma vaga lembrança dele mas não conseguia decifrar quem era
— Perdoe-me, o senhor é...
— Não lembra de mim? Eu entendo, já fazem muitos anos, a última vez que nos vimos éramos moleques. Sou Kanon, seu primo.
Milo abriu a boca e ergueu uma sobrancelha, foi sua reação natural e perplexa diante do primo que ele não via de fato desde a infância
— Kanon...não estavam em Manchester? Como está o tio John e a tia Marie?
— Estão bem. Eu estou aqui já há alguns anos, você não soube pois esteve afastado de casa. Eu estou trabalhando com seu pai, na indústria, e vim em uma missão especial a pedido dele mesmo
Milo ainda o encarava perplexo e Camus ainda mais sério. O ruivo apenas assitia aquela conversa, encarando Kanon e tentando decifrá-lo. Alguma coisa nele não soava tão bem quanto parecia. Hyoga também apenas olhava os adultos..
— Uma missão especial? Não entendo...
— Você entenderá primo, basta que venha comigo. Vamos á fábrica, eu tenho ordens do seu pai para te levar até lá.
Milo e Camus franziram o cenho, porque Richard teria dado ordens á Kanon para levar Milo á fábrica??
— Bom, antes permita-me apresentá-los: este é Camus, meu companheiro. E este é Hyoga, nosso filho — disse com naturalidade
Kanon não demostrou qualquer espanto e trocou aperto de mãos com ambos, esboçando um meio sorriso que não foi retribuído por nenhum dos dois
— Eu sinto muito Kanon, mas não posso deixar meu pai agora
— Milo, eu insisto, realmente é de suma importância que venha comigo
Percebendo o impasse entre primos, Camus decidiu interferir ajudando o namorado
— Ange, pode ir. Eu e Oga ficaremos aqui, qualquer coisa te mandamos avisar
— Meu amor, faria isso por mim? — levou as mãos ao rosto do ruivo, acariciando-o
— É claro, vá tranquilo. Se anoitecer, nos vemos em casa.
Milo concordou, agradecendo mais uma vez. Beijou Camus e Hyoga e saiu junto á Kanon rumo á fábrica.
Ao chegarem á suntuosa fábrica de enlatados, as Industrias Bloedorn, um conglomerado de prédios industriais com suas muitas chaminés, um complexo a perder de vista de tão imenso, foram direto ao local onde ficava a alta cúpula: as salas de diretores e do presidente.
Milo conhecia aquelas dependências, sabia que estava sendo levado para a sala que era de seu pai. A medida que avançava pelos corredores, com Kanon logo á sua frente, sentia apertar a preocupação por seu velho pai. Se arrependia um pouco por tê-lo deixado, mas confiava em Camus caso algo ocorresse.
Entraram então na última e maior sala: a do presidente.
A enorme mesa de cedro talhado tinha muitos papéis e contratos sobre ela. Tapetes persa forravam o chão e um divã bem acolchoado serviria paa alguns minutos de relaxamento em um dia mais estressante. De frente para a mesa uma vidraça grande cujo através dela poderia se ver do alto parte da linha de produção com suas centenas de operários trabalhando.
Kanon chamou Milo para olhar através daquele vidro
— Há quanto tempo não pisa neste lugar?
— Já fazem muitos anos. Isso aqui não mudou nada — disse pesaroso e preocupado — Kanon, eu realmente preferia estar com meu pai agora. Porque me trouxe aqui?
— Olhe para estes homens, Milo.. — disse se referindo aos muitos operários que trabalhavam lá embaixo junto ás máquinas — o gado não pode ficar sem a liderança do seu dono, ele se perde e morre. Foram ordens expressas de seu pai, ele acaba de passar tudo isso para o seu nome, Milo.
O seu lugar agora é aqui, chegou a sua hora de assumir o que é seu
Senhor Presidente.
Milo olhou para Kanon, para os trabalhadores e depois para a mesa e seu coração veio á boca ao ver talhado na madeira, logo abaixo da palavra "presidente" o seu nome: Milo Nickolas Bloedorn.
Ficha de Personagem
Kanon Van Pelt Bloedorn — Kanon é um jovem primo de Milo e Natassia, filho de John Paul Bloedorn, irmão de Richard. O lindo jovem de longos fios loiros e belos olhos azuis possui um porte esbelto, assim como o do primo. Kanon começou a trabalhar em uma posição humilde, como operário nas Industrias Bloedorn, ele vem de Manchester, onde mora, especialmente para trabalhar. Em poucos anos, conseguiu galgar uma posição de chefia, ficando abaixo apenas de seu tio, Richard. Sempre solitário e misterioso, Kanon é uma incógnita até para os familiares mais próximos. Pouco se sabe sobre ele e dizem até que ele almeja usurpar de Milo sua fortuna, se tornando herdeiro de todo o império de Richard. O que se sabe de fato é que Kanon é um homem inteligente e se suas intenções são boas ou ruins, só o tempo dirá.
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