Notas iniciais
Olá leitores! Bem vindos ao último capítulo deste arco da fanfiction. Com ele vamos encerrar uma fase e começar outra, com novos dilemas, novas situações e alguns novos personagens. Agradeço mais uma vez o carinho de cada um que favoritou e tem comentado. Cada comentário tem sido de extrema importância para mim, obrigada!! Bom, eu quase fiz um bolão com o tema "Camus vai ou não casar?", a maioria das leitoras acreditou que ele não casaria e conseguiria alcançar Milo. Mas algumas acharam que ele não conseguiria e acabaria se casando. Então vamos tirar a dúvida e esclarecer esta parte da estória! Antes disso, apenas um alerta: o capítulo contém acontecimentos envolvendo simbolos do catolicismo que podem chocar algum leitor. Deixo claro que não desejo desrespeitar qualquer religião nem seus simbolos sagrados. Boa leitura!

Cap 10 — Crime e Castigo

A movimentação da estação de trem de Aix-en-Provence aumentava á medida em que se aproximava a hora do próximo trem partir.
Pessoas circulavam como um formigueiro entre a plataforma e o saguão amplo, familiares se despediam, baús e caixas eram colocados no trem e os passageiros já começavam a embarcar. O trem á vapor estava pronto para partir com destino á Paris levando centenas de passageiros, cargas, saudades e sonhos.

Na plataforma, um homem sentia seu coração apertar mais do que todos os outros. Um coração alheio á todo aquele caos, pois o caos dentro dele era ainda mais intenso. Milo olhava o trem parado diante dele, retirou do bolso o relógio e verificou, restavam apenas poucos minutos para a hora da partida. Os últimos passageiros, alvoroçados no mar de cartolas embarcavam apressados.
Na noite anterior, Milo, Camus e Krest traçaram um plano que poderia destruir suas relações com suas familias, mas seria a única forma de unir os dois. Uma fuga.

Era arriscado, mas o dia do casamento era o dia perfeito, por estarem todos atarefados com os preparativos, seria mais fácil. Krest iria primeiro, levando as bagagens para a estação e já deixando-as no trem. Depois ele voltaria e iria Milo, já para aguardar Camus. Por último, Camus sairia depois que todos os convidados já estivessem na capela, e em lugar de ir para lá, ele pegaria um cavalo direto para a estação, chegando á tempo de embarcar. Depois Krest buscaria os animais e avisaria ás familias o cancelamento do casamento.

O plano estava funcionando até então, mas Camus havia se colocado em uma situação de risco ao confrontar Natassia.

— Larga essa navalha, Natassia. Não vai conseguir me ferir com isso, não quero ter que usar mais a força contra você.

Na mira de sua noiva, Camus observava seus gestos descontrolados e seu olhar perdido e desesperado

— Eu o amava...e ele me abandonou. — ela falava baixo, olhando para o nada e ainda com a navalha em mãos — eu o amava como uma mulher ama um homem, eu o desejei. Eu cometi o pior dos pecados, eu o desejei, como desejei você, Camus.

A boca de Camus entreabriu e seu olhar frio deu lugar a um franzir de testa que mostrava o quanto estava incrédulo com aquela revelação. Um incesto, ainda que não concretizado.

— Desejou seu irmão? Quis amar como mulher seu irmão de sangue, isso é terrível, é detestável. Pobre Milo, deve ter sofrido tanto e eu não sabia...ah meu amor

Natassia sentiu seu peito doer ao ouvir aquele "meu amor" que não era direcionado á ela. Agora que sabia de tudo e tudo estava revelado, Camus não se preocupava mais em esconder sua ligação com Milo.

— Como pôde fazer isso com quem devotou toda a vida á você? A te dar toda proteção e carinho que uma irmã merece ter. Que ser triste você é. — Camus continuava a maltratar Natassia com palavras. Apesar do susto, tentou não transparecer e se manter calmo e frio. Pensava em uma forma de tirar o artefato das mãos da noiva sem se machucar e sem que ela se machucasse.

Logo as lágrimas de Natassia não podiam mais ser contidas, ela ajoelhou-se e chorou

— O amor que eu sonhava que pudessem sentir por mim, vocês sentem um pelo outro, em um mundo que é só de vocês dois, onde não há lugar pra mim. É tão lindo, doce, cheio de desejo e carinho — enquanto as lágrimas desciam intermináveis, ela jogou a navalha em um canto, desistindo de impedir Camus de sair. Apenas o olhava entre lágrimas.

Camus a observava, precisava sair rápido pois teria pouco tempo. Todos já estavam na igreja e logo alguém viria para buscar os noivos. Precisava sair antes disso.

— Camus!! Você ainda está aqui? Vá agora mesmo, você tem pouquíssimo tempo, corra!!!

Krest apareceu e apressou Camus, que antes de ir olhou uma última vez para aquela que deixaria para trás, e cruzou a porta. Natassia nada fez, apenas o viu partir e entregou-se a um choro desesperado.

Ao descer, a casa estava vazia, todos o aguardavam na capela para a cerimônia. O ruivo pegou o cavalo que Krest já havia deixado encilhado e cavalgou o mais rápido que pôde.

**

O trem a vapor já havia sinalizado sua saída, a plataforma antes lotada agora estava vazia.

Apenas um homem ainda esperava.

— Senhor, se pretende embarcar neste trem, peço que o faça imediatamente, vamos partir.

O maquinista veio tentar fazer o único que faltava embarcar, Milo o olhou e olhou o relógio

— Ainda são 4:29, temos um minuto. Eu vou esperar aqui. — disse muito sério e levemente desesperado

O maquinista bufou e pacientemente esperou com Milo que aquele minuto passasse.

No coração de Milo confusão e angústia, sentia o choro lhe subir pela garganta em um nó sofrido, mas segurou-se

"Ele não vem....ele não virá"

Tentava se acostumar com a ideia de entrar sozinho naquele trem e voltar para Londres. Nunca mais veria Camus outra vez, teria que riscá-lo definitivamente de sua vida. E aquilo doía, uma dor aguda, silenciosa e cortante que agora fazia com que desejasse se jogar embaixo daquele trem.

— Agora são 4:30 senhor, iremos partir, o senhor virá?

O maquinista tentava manter a paciência, e Milo não teve outra saída. Olhou uma última vez para a estação, pelo lado de onde vinham os que embarcariam e nada. Nem uma sombra de Camus.

Embarcou, entrou em sua cabine e quando o trem começou a deslizar nos trilhos, as lágrimas mornas desceram pelo rosto trincado de sofrimento. Era a dor mais insuportável que já havia sentido.

— Milo...

Mas ela foi substituida pelo calor daquela voz por trás dele, e daquelas mãos lhe tocando. Pela primeira vez estavam mornas. Aquelas mãos lhe viraram o corpo e a figura do jovem ruivo estava alí, sorrindo e permitindo que as lágrimas também vertessem mornas pelo seu rosto

— Camus...por Deus, quase me mata de desespero. Achei que não vinha, o trem já saía e eu senti o chão se abrir abaixo de mim. Meu amor, você está aqui..

— É claro que estou mon ange, acha que eu lhe deixaria partir sozinho? Eu jurei que nunca lhe abandonaria, me perdoe se lhe assustei mas eu corri o máximo que pude

Os dois se falavam bem próximos, sussurrando, se olhando profundamente nos olhos. As respirações ofegantes e as lágrimas incontidas. Finalmente se abraçaram apertado e por longos minutos, agarrados um ao outro sentindo o trem balançar e ganhar velocidade levando-os pra longe dali.

— Aquele pesadelo acabou, estamos livres!

Camus sussurrou no ouvido do seu amado, e Milo lhe tomou a boca em um beijo cheio de esperança. Os dois tenentes fardados se beijavam e se acariciavam, toda quela angústia havia passado.

— Uma nova vida nos espera, Camus. Uma nova etapa irá começar para nós dois, sei que devem estar nos odiando neste momento, mas foi preciso. Compramos uma briga enorme com nossos pais, mas eu te agradeço por estar comigo nisso

Milo acariciava o rosto de Camus e este fazia o mesmo com os fios loiros do amado

— Eu confio em você e sei que o que nos espera daqui pra frente não vai ser fácil. Vamos ser caçados, eles não vão deixar isso barato, mas o importante é que vamos enfrentar tudo juntos.

Naquela cabine do trem, dois jovens namorados carregavam a esperança de poderem viver seu grande amor em paz. Sabiam que em tempos como aqueles, o amor entre dois homens era inaceitável, mas enfrentariam o que fosse. Deixavam para trás suas casas, suas familias e entes que amavam para buscarem a felicidade que tanto almejavam juntos.
Aquele amor puro compensava qualquer sacrifício.

De Paris tomariam um outro trem para Port de Calais e de lá o navio para Dover, já na Inglaterra e de lá outro trem para Londres.

**

Krest entrou no quarto já sabendo o que encontraria. Natassia estava desolada e desesperada. Súbitamente a jovem aprumou-se, colocou novamente a grinalda e o véu, enxugou as lágrimas e recuperando sua postura ia saindo rumo á porta

— Onde vai Natassia, fique aqui — pediu o moreno no intuito de ajudá-la

— Oras, onde vou Krest. Vou casar-me, vamos, a capela deve estar cheia e Camus deve estar cansado de esperar

Krest a olhou atônito, ela parecia ter abstraído tudo o que havia acontecido na última hora

— Natassia, Camus se foi. Não haverá casamento algum. Fique aqui que irei avisar á todos

— Cale-se! — Krest se assustou mais uma vez com a postura insisiva da jovem noiva — já disse que vou me casar!

Sem que ele pudesse impedir, Natassia saiu descendo as escadas e caminhando na direção da carruagem que a levaria á capela. Ordenou que o cocheiro a levasse e foi o que ele fez, alheio aos acontecimentos. Krest os seguiu á cavalo pressentindo que aquela tarde não acabaria bem.

Ao chegar á capela, Natassia entrou.

Todos se levantaram assustados, a noiva não poderia entrar sem que o noivo estivesse á sua espera. Richard correu e refreou a filha

— Natassia, não pode entrar agora, Camus ainda não chegou. Onde ele está?

Krest que chegava logo em seguida, desceu do cavalo a tempo de responder a pergunta

— Senhor Bloedorn, eu sinto muito mas não haverá casamento algum. O noivo se foi, Camus partiu no último trem.

Gerrard e Anete que chegavam para ver o burburinho na porta da capela ouviram incrédulos a notícia

— Camus! — Gerrard berrou o nome do filho ferido em ódio, sentindo-se traído

— Meu filho, Camus...o que fizeste, meu Deus.. — Anete chorava incrédula e temendo pelo futuro de seu caçula

— E Milo? Onde está Milo? — a pergunta de Richard tinha um tom de furia assustadora, o velho inglês estava vermelho e transtornado

— Milo embarcou com ele, senhor. Milo e Camus fugiram juntos por estarem desesperados, eles não viram outra saída.

A afirmação de Krest provocou ira e desespero nos mais velhos, Anete chorava, e todos dentro da capela tentavam entender o que acontecia. O burburinho crescia e o falatório já começava com os convidados especulando o que estava havendo. Zaph se manteve próximo de Krest para lhe dar apoio, sabia que as próximas horas seriam muito difíceis.

Natassia, que até então apenas observava toda a confusão, passou brutamente por todos e caminhou a passos firmes para dentro da capela. Todos passaram a olhar a noiva que entrava sozinha, sem seu noivo á sua espera e visívelmente transtornada. Ela parou diante da imagem da Virgem Santa no altar e olhando para ela, passou a falar em voz alta para todos ouvirem

— A Senhora viu o que me fizeram? O que a Senhora vê? Uma noiva abandonada no altar, abandonada no dia mais importante de sua vida, porque? Porque o amor não era para ela! Uma desgraçada, é isso que sou, uma desgraçada!!

Todos olhavam assustados, Richard correu até a filha para tentar tirá-la dali, mas Natassia não estava disposta a parar

— Natassia, vamos embora, pare com isso

— Me larga!!! A culpa é sua! Você não soube ser um pai e delegou ao meu irmão esse papel, por isso ele cuidou de mim, e cuidou tão bem, mas tão bem que eu...me apaixonei!

Agora todos estavam ainda mais perplexos, aquela revelação deixou Richard horrorizado e os Garret a olhavam assustados

— Por Deus, o que está dizendo?

Diante da incredulidade do pai e dos olhares de reprovação de todos, Natassia sorrindo continuou vomitando suas mágoas a quem quisesse escutar, diante das imagens de santos e do sacerdote que faria o casamento.

— Estou dizendo o que sou papai. Sou uma vadia que se apaixonou por dois homens, sendo um deles meu irmão. Eu os desejei, desejei tê-los para mim...ao mesmo tempo, intensamente!

Natassia começava a falar e fazer gestos eróticos diante de todos, deixando transparecer seu desejo

— Os dois me possuindo, me tomando, me fazendo mulher..ahhhhh!! — o gemido feminino e sexy ecoou entre as fileiras da capela, fazendo corar as senhoras puritanas presentes.

Richard se apoiou em uma das fileiras de bancos para não cair, sentindo uma pontada dolorida. Gerrard percebendo que o amigo passava mal foi acudi-lo, com ajuda de Krest. Os demais convidados apenas olhavam horrorizados aquela cena

— DEMÔNIA!! PECADORA!!!

Uma mulher gritou no meio dos convidados e outros gritos saíram do meio deles

— TEM QUE SER EXCOMUNGADA! ENDEMONINHADA!!

— VADIA!! MERETRIZ!!

Os xingamentos iam aumentando e quanto mais xingavam, mais Natassia ria debochada, sem se importar. E mais Richard passava mal. Diante disso, Gerrard e Krest tiraram Richard dalí, levando-o para casa. Anete, mais piedosa, foi até Natassia tentar ajudá-la

— Filha, venha comigo. Já chega, vamos sair daqui

— Me solta, sua velha!!

Anete se assustou e Natassia pegou um crucifixo de madeira que estava sobre o altar junto a uma bilblia. Com o artefato em mãos, passou a esfregá-lo em seu ventre, fazendo dele um objeto fálico

— Ohhhh....assim...os dois falos em mim, desse jeito...ahhhh...Milo, Camus! Uhhh....

Ela erguia o vestido e mostrava as pernas, continuando a esfregar o crucifixo em seu sexo virgem como se estivesse sendo tomada pelos dois amados. Anete estava em choque.

Ela rebolava, esfregando ainda mais o crucifixo, gemia alto e repetia o nome dos dois homens que amava em meio aos gemidos, chamando por eles desesperadamente. Falando palavrões e termos obscenos.

Na mente de Natassia, flashes de lembranças de quando viu Milo banhar-se e pôde vislumbrar o sexo do irmão, de reparar o volume visível entre as pernas de Camus quando este sentava-se, de flagrar os dois se beijando e reparar como seus lábios se provavam e suas línguas podiam ás vezes ser vistas naquela dança erótica, de como o corpo de Milo cheirava á sexo, cheirava á Camus naquela noite, de como Camus lambia os próprios lábios ao olhar para o loiro e este lhe retribuía o mesmo gesto, de como esfregavam-se quando se encontravam no estábulo, roçando suas ereções dentro das calças, dos sorrisos um para o outro, as palavras sempre sussurradas em segredo, as inúmeras trocas de olhar...tudo isso estava gravado em sua mente, imagens que ela viu e ninguém reparou que ela havia visto.

Ela os havia observado, o tempo todo.

— PUTA! VADIA! RAMPEIRA! HEREGE!!!

Os xingamentos aumentavam mais, até que o padre decidiu por um fim em toda aquela blasfêmia. Ele andou firme até Natassia que caiu ao chão ao ter sua fronte tocada pelas mãos do sacerdote

— Já chega! Está na hora de deixar esta pobre alma em paz, saia em nome de Deus!

Natassia permanecia rindo, e agora sentada passava as mãos pela vagina, se masturbando diante de todos

— Camus...ahhhhh...Milo...uhhh!!!

— Pare com isso!!! Deixe esta pobre alma em paz! SAIA AGORA!

Subitamente ela largou o crucifixo e parou. Seu riso debochado foi substituído aos poucos por um choro copioso e envergonhado. Anete a abraçou, descendo o vestido e cobrindo seu ventre e pernas que estavam á mostra.

As senhoras mais conservadoras estavam de pé, com pedras e paus nas mãos e prontas para o linchamento da jovem que seria massacrada. Anete se desesperou e para sorte delas, Krest e Zaph estavam de volta para protegê-la. Natassia estava apavorada e chorando muito, encolhida nos braços de Anete.

— Ninguém vai fazer linchamento aqui, não permitirei tal barbárie

Zaph ameaçou as senhoras, fazendo-as recuarem. Krest sorriu orgulhoso de seu sargento.

— Acabou, vão embora! Vão para suas casas e eu contarei com a sabedoria cristã que eu espero que cada um aqui ainda possua!

O sacerdote dispensou á todos e os orientou a não espalharem comentários sobre o acontecido. Mas era tarde, a vergonha que as familias Garret e Bloedorn passaram já havia entrado para a história da pequena Aix-en-Provence e não se falaria em outra coisa nos próximos meses.

A noiva abandonada e luxuriosa seria assunto por muito, muito tempo.

Anete e o sacerdote levaram Natassia para a sacristia, Krest foi com elas e Zaph o esperou do lado de fora para garantir que ninguém entraria ou tentaria contra a vida da jovem, cujo neste momento muitos queriam ver morta.
A jovem noiva, antes imponente, linda e com beleza exuberante, agora com seu vestido sujo e rasgado, os cabelos desgranhados, os olhos inchados de chorar. Encolhida, prostrada, desesperada. A dor estava em seus olhos. Aninhada no colo de Anete, ainda soluçava com o rosto úmido e o nariz avermelhado.

— Natassia, minha querida, eu sinto muito — Krest falava calmamente, agachado para poder olhar em seus olhos — Milo e Camus não tem culpa do amor que nasceu entre eles, foi inesperado. Eles sofreram muito e eu fui testemunha disso, em especial o seu irmão. Milo sofreu demais e você precisa entendê-lo. Apesar de tudo, ele ama você, ele pediu que eu lhe protegesse.

Anete ouvia aquilo assustada e muito preocupada. Jamais renegaria um filho, aceitaria que Camus fosse gay, assim como Krest, isso para ela não era problema. Mas se preocupava com Gerrard e com o que o marido poderia fazer. Não sabia como defenderia Camus da ira do Almirante.

— Sim Krest, eu entendo — Natassia agora era outra, falando novamente com a mansidão e o jeito cálido que possuía no princípio — eu fiz muito mal ao meu irmão e só há um modo de me purificar novamente. Quero entregar minha vida á Deus. Padre, quero ir para um convento e passar o resto de minha vida a serviço dos mais necessitados para espiar meus terríveis pecados.

Anete e Krest se olharam incrédulos. O sacerdote sorriu

— Menina, creio que o Senhor já lhe ouviu! Estarei indo amanhã mesmo para o Convento das Madelonnettes, em Paris. Farei uma breve vistita á Madre Marguerite de Gondi, se quiser me acompanhar, poderá fazer os votos e ingressar na abnegada vida religiosa.

O sacerdote falava com entusiasmo, como se Natassia fosse para algo próximo ao céu.

Aquela idéia pareceu maravilhosa para Natassia, que desejou aceitar o convite imediatamente. No entanto, Anete a lembrou de algo

— Natassia, precisamos falar com seu pai. Precisa da permissão dele, vamos para casa. Ele não estava passando bem, vocês conversam e então decidem o que fazer. O que acha?

— É verdade querida, ouça a Senhora Garret. Se decidir embarcar comigo, sairei no trem noturno para a capital, terá bastante tempo. Mas pense nisso como um bom sinal! — incentivou o sacerdote.

Apesar de acatar a ideia de Anete, Natassia já havia decidido e nada iria demovê-la da ideia de entregar-se ao sacerdócio.

**

— Não mesmo! Se trancar em um convento, enlouqueceu?

Richard ainda se recuperava do mal súbito, por estar debilitado, ainda não haviam lhe contado o motivo da fuga do filho mais velho. Mas a mais nova já lhe garantia dor de cabeça suficiente.

— Seu irmão me traiu, e penso sériamente em deserdá-lo. Se você se trancar em um convento, quem herdará meu império? As indústrias e tudo aquilo? Precisarei de você Natassia, devo prepará-la para tomar o lugar de seu irmão

A jovem ouvia aquilo mas ainda assim não voltaria atrás. Natassia poderia se tornar a mulher mais poderosa de Londres, detentora de uma fortuna milionária, mas ela estava decidida a declinar.

— Sinto muito papai, mas farei voto de pobreza e castidade. Não quero nada para mim, se desejar me dar algo, darei aos pobres. Cada centavo.

Richard não podia crer no que ouvia. Quem em sã consciência recusaria uma fortuna? Ainda ofereceu liberar a herança da menina antes mesmo de sua morte, mas nem assim ela aceitou. Afirmou que se recebesse herança agora, doaria tudo. Temeroso, Richard voltou atrás.
Triste e decepcionado, não viu outra saída se não acatar a decisão da filha.

Richard se viu totalmente sozinho, sem herdeiros, sem seus filhos.
Depois que todos sairam, sentiu novamente as fortes dores.

"Milo...Milo...porque fizeste isso comigo? Eu te dei tudo, tudo. Eu te ofereci o mundo
Catherine, meu amor, volte pra mim. Eu preciso de você. Eu perdi nossos filhos..."


Encolheu-se chorando e implorando pela presença de sua falecida esposa. Nunca sua amada lhe havia feito tamanha falta.

Mais tarde, coube a Krest reunir a familia e contar a todos os motivos que levaram Camus e Milo a fugirem juntos. Escolhendo bem as palavras e tendo o devido cuidado para não chocar demais os mais velhos, ele explicou sobre o amor que nasceu entre os dois militares e que se tornou tão forte e tão presente, que os levou a cometerem a loucura de fugir no dia do casamento.

Anete ficou desolada, Richard e Gerrard revoltados. Cúmplices, os dois patriarcas decidiram que aquela imprudência não poderia ficar sem um castigo á altura. Para ambos, era inaceitável que seus dois filhos arrastassem os nomes de suas familias na lama. Para eles, se tratavam de dois aventureiros irresponsáveis que deveriam pagar caro pela rebeldia que cometeram.

— Milo será deserdado, não deixarei um único centavo para aquele que um dia chamei de filho. Aquele que eu preparava para ser meu substituto em tudo, agora não terá nada. Se quiser rebelar-se, que o faça na mais absoluta miséria pois de mim nada mais terá. Nem mesmo poderá chamar-me de pai. Eu esquecerei que um dia tive um filho.

As palavras de Richard eram duras e as de Gerrard não foram mais brandas

— Pois o mesmo valerá para Camus. Deixarei para Krest tudo o que tenho, pois apesar de tudo, nunca foi capaz de tal traição. Eu fiz todas as vontades de Camus desde menino, ele quis a Marinha e eu o enviei. Agora ordenarei que as portas se fechem e ele será exonerado definitivamente. Não haverá mais lugar para Camus na Marinha da França e nem nesta casa.

Os dois homens estavam irredutíveis e implacáveis. Anete olhava aquilo apavorada

— Gerrard, como pode deixar nosso filho na miséria? Senhor Bloedorn, o senhor também deve pensar melhor, são nossos filhos!

A mãe tentava argumentar, mas nada adiantava. Até mesmo Krest interveio

— Pai, não quero herdar nada sozinho. Metade de tudo isso é de Camus e assim deve ser. Não faça isso, não cometa tal loucura!

Vendo que os argumentos e apelos de nada adiantavam, Anete desesperou-se e subiu as escadas rumo ao quarto que era do filho caçula, em prantos. Abriu o armário e ainda haviam algumas mudas de roupa que Camus deixara para trás. Chorosa, a mãe cheirou cada uma delas, aspirando o cheiro de seu amado filho e molhando o tecido com as lágrimas mornas. A visão do pequeno ruivinho, ainda com os passinhos vacilantes pelos primeiros meses de vida lhe vinham á mente com clareza. Ele corria com os bracinhos abertos e um lindo sorriso em sua direção, feliz, chamando "mamãe"

"Meu Camus, meu menino...onde está meu menino"

Quando já estava um pequeno rapazinho de dez anos, inteligente e muito carinhoso com sua mãe, Camus fora embora de casa, fazendo Anete mergulhar em anos de saudade para que ele seguisse seu sonho. Mal havia voltado a ter seu caçula nos braços e este novamente se ia, fazendo-a morrer um pouco mais.
Apesar de ser o culpado por levar seu filho outra vez, Anete não tinha ódio de Milo. Via no jovem loiro o grande amor que todo homem sonha viver e seu Camus estava vivendo. Sentiu um suspiro de felicidade lhe tomar ao pensar nisso. Milo era lindo, doce, educado. Anete havia se encantado por ele e não negava que era uma felicidade tê-lo como genro.

"Meu menino agora é um homem e está amando...ah meu Camus! Você ainda vai ser tão feliz, meu amor"

A certeza intuitiva de mãe de que o filho encontraria a felicidade aqueceu o coração de Anete.

**

O trem á vapor fumegava pela estrada de ferro, na paisagem o verde desbotado em tons de amarelo típico daquele fim de outono, uma casinha ou outra ao longe e no horizonte montanhas longínquas com seus picos brancos em neve.

Camus estava recostado no peito de Milo, havia acordado ha pouco do cochilo que o balançar do trem o fez tirar. Como numa transmissão de pensamento, pensou em sua mãe. Era duro deixa-la para trás, como era sofrido deixar Krest. A mãe e o irmão que tanto amava. O ruivo sentiu uma súbita vontade de chorar mas segurou-se. Lembrou que diferente dele, Milo não tinha o amor de mãe e nem mesmo tinha mais o da irmã, que havia se virado contra ele.

O que para Camus era saudade, para Milo era vazio.

E no entanto, em meio a tanto sofrimento, Milo ainda queria dar-lhe colo, consolo, apoio.

Camus ergueu a cabeça e olhou o rosto do seu amor. Os olhos estavam fechados e a fisionomia serena.

— Milo, vamos trocar um pouco? — sussurrou baixinho, fazendo-o despertar

— Trocar?

— Sim, quero que deite aqui.

Camus se recostou e abrindo os braços convidou o loiro a deitar em seu peito. Camus desejou dar á Milo seu calor e proteção

— Me deixe fazer isso dessa vez, me deixe cuidar de você. Você está sempre me cuidando e me protegendo. Agora quero ser eu a fazer isso. Vem..

Milo cedeu ao convite irresistível e recostou-se no peito do ruivo. Camus estava quente e o envolveu nos braços, acariciando seus fios loiros e depositando um beijo em sua testa

— Posso ouvir seu coração.

— Está acelerado?

— Não, ele bate devagar, bem tranquilo

Milo disse sorrindo e fez Camus sorrir também. Era gostoso ter o loiro nos braços, o jeito protetor de Milo e a ausência de amor materno o fizeram se esconder debaixo de uma casca de força bruta, auto confiança, explosão e uma certa dureza. Era como se desse colo a um trovão, uma tormenta, uma avalanche. Mas nos braços de Camus tudo aquilo se desarmava e Milo se tornava um menino precisando de carinho.

Novamente adormeceram com o balançar do trem.

**

Londres

Ao fim da cansativa viagem, Milo e Camus desembarcaram na estação lotada. Bem maior que a de Aix-en-Provence e tão grande quanto a de Paris, o alvoroço de gente indo e vindo, vendedores e todo tipo de gente marcavam a chegada dos dois á capital inglesa, que agora, passaria a ser a cidade em que viveriam.

Camus aspirou o ar londrino, era gelado, denso. Aquilo o agradou, e começou a simpatizar com a ideia de ser um francês vivendo na terra da Rainha. Graças á boa educação que teve, sabia falar a lingua inglesa fluentemente. Viver ali não seria um problema.

— Pra onde vamos, Milo? — perguntou ajudando a pegar os baús de madeira puxados por cordas

— Não podemos ir para minha casa, mas sei de um lugar onde poderemos nos abrigar.

Milo estava em sua cidade, seu habitat natural. Sabia se virar ali perfeitamente. Conhecia uma pequena vila na periferia, próxima ao porto. Era o lugar mais barato, e apesar de não ser tão bem frequentado, era onde poderiam se esconder.
Os dois fecharam suas casacas, puseram suas cartolas e tomaram uma carruagem alugada rumo ao lugar onde agora iriam viver.

**

Naquela tarde, Natassia partiu com o sacerdote para o convento. Richard não havia conseguido tirar a ideia da cabeça da filha.

A jovem pensava em seu irmão, arrependida por ter sido tão ingrata, tão cruel. Seu amor ainda queimava, orava á Deus que lhe curasse daquele mal, mas apesar de ainda nutrir desejos pelo prórpio irmão, desejava um dia redimir-se com ele.

"Milo, querido. Um dia terei coragem de lhe ver frente a frente, de te olhar nos olhos e pedir seu perdão. Antes disso, necessito purificar-me entregando minha vida ao Senhor, pois ainda não sou digna de voltar a ser sua irmã. Rezarei todos os dias por você e Camus, para que os santos e anjos os protejam de todo perigo"

Abnegada e conformada, Natassia deixou seu coração de fechar para as coisas carnais e se abrir apenas para o que era sagrado. Uma vida de negação e serviço ao próximo era o remédio que ela necessitava para curar-se de seu mal.

**

— Vamos Krest, diga logo, para onde eles foram?

Gerrard pressionava o filho, com ajuda de Richard. Os dois mais velhos o pressionavam e o fariam falar. Krest não tinha saída, se não fosse por ele, saberiam de outra forma.

— Eles foram pra Londres

Gerrard deu um murro na mesa e Richard sorriu

— Londres? Ótimo! Será muito fácil achar estes dois. Milo não seria tão tolo de voltar para casa, mas com minha influência posso descobrir onde estes ratos se esconderam.

A palavra ratos fez o coração de Gerrard pesar. Depois de ameaçar seu caçula com uma arma agora o chamava de rato. Aquilo era demais pra um pai, mas Richard dominava Gerrard de tal maneira que este não teve coragem de reagir. Apenas engoliu a seco a ofensa, mas não iria mais aturar o amigo em sua casa, precisava tirá-lo de lá.

— Richard, devemos partir para Londres o quanto antes. Eu irei com você.

Richard concordou sem saber que, na verdade, Gerrard estava indo garantir que o patriarca Bloedorn não fizesse nada a seu filho. Gerrard estava odiando seu caçula, mas não permitiria que ninguém fizesse mal a ele.
Richard era perigoso e Gerrard já não sabia mais do que ele era capaz.

**

Milo e Camus chegaram a um aglomerado de casas. Nos fundos da vila se estendia um terreno gigantesco contendo uma enorme fábrica. A poluição podia ser vista á distância, o céu cinza e a paisagem escura e nebulosa eram assustadoras. Não haviam plantas, parques ou praças naquela região.

Se aproximou deles um homem de meia idade, a quem Milo pediu informação

— Boa tarde senhor, estas casas pertencem ainda á familia Clark? O senhor sabe se existe alguma vazia? Desejamos alugar uma delas.

Enquanto Milo interagia com o homem, Camus observava o lugar, que era o extremo oposto de sua verdejante e florida Aix.

— Familia Clark? Não, não, todo este lugar foi comprado, incluindo aquela fábrica lá. Tudo isso agora pertence a outra familia. Está sentindo o cheiro de sardinhas em conserva? Aquela fábrica agora faz parte do império dos...

— Bloedorn

Milo completou incrédulo. Naquele meio tempo, seu pai havia adquirido toda aquela parte junto ao porto, incluindo as casas e a fabrica.

— Isso mesmo! Como sabe? — o velho perguntou curioso. Camus sentiu vontade de rir, era uma coincidência absurda

— Eu sou um Bloedorn...merda!

O velho tremeu-se inteiro, gagejando tentou perguntar o que o jovem queria ali

— Ma...mas a entrada da diretoria da fábrica não é por aqui meus jovens, acho que erraram de lugar, e....

— Não há nada errado, eu quero uma casa. Quem cuida disso, o senhor? Pois bem, me alugue uma sem fazer perguntas.

Milo foi mais incisivo e o velho os levou a única casa que estava desocupada. Ela ficava aos fundos, era a menor e a mais velha de todas.
O velhote não sabia o que fazer, o que pensar.

Milo e Camus apenas olharam o casebre escuro, se olharam e sorriram.

Iriam recomeçar suas vidas juntos, e o que viam não era um casebre velho e sujo, mas a liberdade para viver

e amar.


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Notas finais
Chega ao fim o primeiro arco de A História de Nós Dois. A partir do próximo capítulo, começaremos o segundo arco da estória. Ele irá se passar em Londres e teremos a entrada de novos personagens. Milo e Camus terão uma nova vida que não será fácil e ainda existe a ameaça de Richard. Galera, me perdoem só ter entregue 2 lemons no primeiro arco, prometo que no segundo colocarei todos os outros que planejo!! Então, até o segundo arco que sairá logo!!