A História de Nós Dois
20 A Última Dança
Notas iniciais

Cap 20 — A Última Dança
Afrodite e o avô olhavam assustados a fisionomia de Camus. O ruivo tinha o pavor estampado nos olhos ao relatar a ameaça que Julian fez ao pequeno Hyoga. Pela primeira vez perceberam o medo real tomar conta do francês sempre tão decidido e seguro de si.
Mexer com Hyoga havia sido realmente um golpe duro e covarde para a qual Camus não estava preparado.
Dite e o avô já sabiam de Hyoga, sabiam do apego que Camus desenvolvera pelo menino. Ainda que tudo acontecesse em um momento delicado, com Milo desaparecido, sabiam que Camus não poderia simplesmente negligenciar uma criança que implorava por ajuda para não morrer.
— Você precisa esconder o garoto, Camus. Julian sabe onde você mora, pode mandar alguém pegar o menino e fazer uma maldade. Precisa tirar o pequeno de lá.
Dite apenas dizia o que Camus já sabia, mas este se perguntava "como" e "onde" esconder o garoto. Pobre Oga, já havia passado toda uma vida fugindo e sendo rejeitado, logo agora que Camus pretendia dar-lhe uma vida mais tranquila. Queria apenas proporcionar ao pequeno a alegria de ser uma criança de seis anos, e nada mais.
— Esconder, onde? — perguntava, segurando a xícara de chá com as mãos levemente trêmulas, olhando o líquido fumegante como se procurasse nele uma resposta
— Quer traze-lo pra cá, Camus? Podemos cuidar dele
A proposta do velho Svensson era tentadora, mas Camus não desejava dar mais trabalho do que já vinha dando aos suecos
— Não, não quero dar mais um problema á vocês. Já fazem muito por mim. Além do mais, eu já tenho uma saída pra isso — disse terminando de ter uma ideia de como esconder o pequeno sem ter de se afastar tanto dele.
Camus estava decidido, manteria Hyoga fora de casa, mas ao mesmo tempo perto o suficiente para vê-lo sempre, tomando os devidos cuidados. Se afastar do seu petit era algo que ele não pretendia.
Despediu-se rápidamente, agradecendo aos Svensson por permanecerem tão gentis e prestativos com seus tantos problemas e saiu ás pressas sem nem terminar de tomar o chá.
Depois de sair da livraria, caminhando sempre atento ás ruas e cuidando para não ser seguido, Camus rumou para a vila e foi direto a casa vizinha, lá encontrou Pandora distraindo com brincadeiras um Hyoga feliz e alheio a todos os acontecimentos.
— Papai!!
O menino gritou ao ver o ruivo entrar, atirando-se em seus braços. Camus retribuiu, abraçando o menino ainda mais forte do que de costume. Pandora logo notou nas feições de Camus uma angústia.
— Como passou o dia, mon petit? Fez tudo como combinamos?
— Sim pai, eu me comportei bem! Não foi, tia Pandy?
— É verdade, ele fez as lições, comeu e se comportou como um lordezinho — disse feliz e orgulhosa acariciando os fios loiros do menino
— Isso é ótimo. Agora deixe eu e Pandora a sós filho, vamos ter uma conversa de adultos.
A seriedade de Camus fez o menino obedecer imediatamente, indo para outro cômodo brincar com os irmãos mais novos de Pandora.
Os dois sentaram-se frente a frente e Camus relatou a Pandora sobre a ameaça sofrida e o risco de vida que Hyoga agora corria.
— Isso é terrível! — exclamou com as mãos na boca e os olhos ainda mais abertos
— Shiiii...fale baixo, por favor. Oga não pode saber disso, seria traumatizante demais pra ele — ele pediu, quase sussurrando
— Claro, claro. Camus, porque não deixa Hyoga comigo um tempo? Ele pode ficar morando aqui e você pode vê-lo sempre.
— Pandora, você faria mesmo isso por mim e pelo petit?
— Mas é claro!
A oferta de Pandora era tudo o que Camus precisava. Agradecido, ele aceitou e juntos explicaram ao garoto que agora ele moraria naquela casa por algum tempo.
A princípio a ideia de separar-se do pai fez o menino chorar e não querer entender, mas com muita paciência Camus o fez ver o lado bom, estaria na companhia de outras crianças e da tia Pandy que ele tanto adorava. Juntando-se a isso a promessa de sempre poder comer doces e bolos, o pequeno cedeu e ainda com os olhinhos inchados, aceitou resignado que aquele seria seu novo lar.
**
Julian observava o líquido verde vivo no copo. O último gole de absinto sempre descia mais forte. Com ele uma lembrança amarga:
A de ver seu criado, Sorento, nos braços de Milo.
Ainda que fosse apenas um abraço fraternal, era muito mais do que ele havia conseguido até então. Enquanto ele, o patrão, recebia apenas indiferença e desprezo, seu criado já tinha ganho até um abraço. Uma verdadeira afronta. Mais uma de muitas.
Logo toda sorte de absurdos começou a se desenhar na mente do cavaleiro...
"e se não foi só um abraço? E se não foi só fraternal? E se Sorento e Milo fazem algo mais quando meu vassalo vai servir o prisioneiro? E aquele banho? Milo estava nú...Sorento esteve com ele? E se os dois...."
Julian balançou a cabeça, afim de espantar tantos pensamentos. Não podia ser, não podia ser traído por seu empregado mais fiel.
— Sorento!
O grito ecoou na sala e logo o mordomo apareceu, pondo-se disponível para a ordem que fosse. Julian prosseguiu
— Já esteve com o prisioneiro hoje?
— Não senhor. Quer que vá vê-lo? — perguntou, inocente
— Você quer vê-lo? — devolveu com outra pergunta, em tom jocoso, ao qual Sorento não soube responder, permanecendo mudo — escute Sorento, não se iluda com o Milo. Ele é sedutor daquele jeito, envolvente, mas isso não significa nada. Acima de tudo em relação a um vassalo como você, um coitado. Certamente ele tem pena e por isso você ganhou a empatia dele. Mas não se deixe levar por isso.
— Si..sim senhor
— Não pense que tem qualquer chance com ele, ouviu bem? Milo não é pra você.
Sorento ouvia a tudo sentindo-se pequeno e ao mesmo tempo constrangido. Seu patrão dava uma demostração de ciume e insegurança, mas ao mesmo tempo usava um tom de ameaça, o que o deixava realmente com medo.
— De forma alguma senhor, jamais tive tal intenção.
Claro que Julian não se convenceu daquilo, mas dispensou Sorento deixando a conversa terminar com aquele recado.
"Sonso, inocente e idiotamente subserviente. Será que é isso que atrai meu prisioneiro? O que ele viu no imbecil do Sorento? Será que é desse tipo de homem que ele gosta? Talvez se eu for menos ameaçador, talvez..."
**
Pandora penteava devagar os fios loirinhos do pequeno, cuidando para desembaraçar sem lhe causar dor. Acariciava-lhe, fazendo não só por amor ao garoto por quem havia desenvolvido um carinho especial, mas por gostar também muito de seu pai. Fazia por saber que Camus ficaria feliz e agradecido por ver o filho bem cuidado.
E impressionar Camus não era uma tarefa das mais fáceis, mas Pandora sabia que se fazia bem ao menino, estava fazendo um bem para o pai.
— Pronto! Está de banho tomado, um rapazinho cheiroso e bem vestido. Seu pai ficará feliz em vê-lo tão alinhado
— Obrigado tia Pandy! Papai vai gostar de saber que cuida tão bem de mim
Pandora olhou o pequeno de expressivos olhinhos bem azuis e bochechas rosadas e redondas
— Você é mesmo lindo! Não gostaria de ter uma mãe?
A pergunta confundiu um pouco a cabeça do pequeno, que já tinha aprendido que sua familia era formada por ele e seus dois pais. Camus nunca havia mencionado uma mãe.
— Papai nunca falou que eu teria uma mãe — disse confuso
— Hum...talvez porque ele ainda não tenha encontrado uma para você. E se ele se apaixonasse por uma moça e essa pudesse ser sua mãe?
Hyoga olhou bem para Pandora, esperto, o menino logo notou onde a jovem desejava chegar
— E se essa moça fosse você?
— Eu? Er..bem...acha que seu pai se apaixonaria por mim, Oga?
— Eu acho que não
A sinceridade infantil e direta de Hyoga fez Pandora corar e ficar ligeiramente sem ação diante da segurança do garoto, que apenas continuou
— Papai não pode se apaixonar, ele já é apaixonado pelo meu outro pai.
— Um outro pai? Que história é essa, Oga?
Pandora agora estava realmente confusa. Mas a inocência de Hyoga logo lhe faria conhecer a verdade
— Você não sabe? Espera...
Hyoga tirou do bolso um pequeno papel que carregava sempre consigo. Era o desenho do rosto de Milo que Camus havia feito e que ficou com o garoto desde então
— Este é meu outro pai. O nome dele é Milo. Ele e papai já são apaixonados. Desculpe tia Pandy.
Sem ação, Pandora apenas olha o desenho do rosto feito á lápis de chumbo em um papel amassado. Um rosto bonito, ela admitiu a si mesma, mas ainda assustada com a informação de que Camus possuia outro homem como amante. Era algo que ele jamais havia contado a ela.
"Então este é o tal compromisso que ele tem, e que nunca quis me contar em detalhes"
Poucos dias depois, tomando os devidos cuidados para não ser visto, Camus foi á casa de Pandora visitar Hyoga.
Ele e o menino trocaram um longo abraço e o pequeno contou como ia sua rotina ao lado da familia Heinstein. Camus ouviu atentamente o relato do filho, prometendo voltar mais veses e enchendo-o de beijinhos, matando as saudades.
Camus agradeceu a Pandora mais uma vez pelo que ela vinha fazendo por ele e Hyoga, prometendo novas aulas de francês.
Após conversarem todos juntos e tomarem chá, Hyoga foi brincar com os irmãos de Pandora, deixando os dois sozinhos. Camus e Pandy rumaram para uma outra sala, onde pretendiam conversar um pouco mais
— Então o nome dele é Milo?
A pergunta de Pandora fez Camus fechar a fisionomia e um olhar gélido e cortante foi lançado sobre ela. Como Pandora poderia saber seu segredo? Não foi preciso pensar muito para saber como.
— Hyoga lhe contou?
— Sim, mas não brigue com ele. Foi de forma inocente, ele até me mostrou um desenho.
— É claro que foi de forma inocente, ele é uma criança. Mas não ia entrar nesse assunto á toa, porque ele contou?
Camus estava visívelmente furioso, não levantava a voz nem se alterava, mas seu rosto austero e fechado davam a dimensão de como aquilo o exasperava. Detestava ter sua vida devassada contra sua vontade.
— Me perdoe, eu entrei no assunto. Quis saber o que ele acharia de ter uma mãe e então...
— Eu já entendi — suspirou profundamente e levou uma das mãos á testa, descendo em seguida — não deveria ter tocado nesse assunto com ele. Mas agora está feito.
Pandora permaneceu em silêncio esperando mais alguma explicação, mais detalhes sobre a vida íntima de Camus. Mas ele nada mais disse, esperando que o assunto simplesmente morresse ali. Para Camus, Pandora já sabia mais do que deveria.
Já havia feito demais em contar a Matheo sobre ele e Milo, mas só o fez para ajudar Dite e porque se ele não contasse, Dite acabaria contando. Mas no caso de Pandora, ele realmente não pretendia falar nada. Ao menos não enquanto Milo não estivesse de volta.
— Camus, eu só quero que saiba que não lhe julgo. Eu espero que sejas feliz, espero sinceramente.
O ruivo apenas balançou a cabeça positivamente, pretendendo realmente terminar aquele assunto ali.
**
Sorento estava mais uma vez acendendo a lareira sob o olhar observador do prisioneiro. A noite logo cairia e a madrugada prometia ser fria com o começo de mais uma temporada em que a neve cobriria os telhados e as ruas da cidade.
Recolhido sobre a cama, Milo apenas observava Sorento, em silêncio.
— O sr. Julian gostaria que jantasse com ele esta noite, parece que deseja se desculpar pelos últimos acontecimentos.
Milo arqueou uma sobrancelha, surpreso
— Jantar? Mas ele sabe que não como, que convite é este?
Sorento se achegou a Milo, não a ponto de sentar-se na cama, mas parou ao seu lado e com um tom de súplica nos olhos, tentou fazê-lo aceitar o convite
— Pense que isso pode ser bom. Quem sabe se entendendo com ele, não tira da cabeça do sr. Julian a ideia de mantê-lo preso aqui.
Milo ponderou sobre aquela possibilidade. Julgava impossível que Julian mudasse de ideia mágicamente, mas ao mesmo tempo, se manter apenas fechado naquele quarto não lhe daria chance alguma. Apenas o próprio Julian poderia libertá-lo, e assim sendo, fazer o seu jogo poderia dar a ele a rara oportunidade de se livrar daquela prisão.
— Está bem — suspirou, resignado — avise ao seu senhor que eu irei jantar com ele.
Sorento sorriu, assim como Milo, sabia que era preciso muita psicologia e estratégia para lidar com alguém como Julian. E agir apenas duramente, recusando-se a comer, seria o caminho mais difícil e doloroso.
Só que para alguém como Milo, ceder era difícil. Era mais típico dele agir com sua força e determinação do que usando estratégia e paciência. Isso o fez pensar imediatamente em Camus. O ruivo era o tipo que agia assim, mais racionalmente. Milo precisou ser como ele, agir daquela forma mais fria seria a saída diante de um psicopata como Julian.
— Ele quer que use a farda, deve estar devidamente trajado.
— Hum..então ele quer jantar com o Segundo Tenente Bloedorn, não comigo — brincou, em um meio sorriso — está certo, assim será.
Na grande banheira de carvalho, Milo se banhou, fez a barba e vestiu a farda que estava devidamente preparada. A casaca pesada azul escuro em detalhes amarelos e dourados com as condecorações. A calça branca e as botas pretas até os joelhos. Deixou os fios soltos e levemente despenteados.
Quando surgiu a sua frente devidamente arrumado, Sorento estremeceu com a imponência da figura do Tenente diante dele. Era inacreditávelmente lindo.
— Estou bem?
— Estás muitíssimo bem, senhor. Lhe peço que tome cuidado, por favor — gaguejou, num misto de nervosismo e incredulidade em ver o homem que até poucos minutos parecia algum descamisado ou miserável sem eira nem beira, e agora transbordava poder e impunha respeito.
Sorento estava, agora sim, diante do verdadeiro Milo.
— Não se preocupe. Tudo isso vai acabar e vamos ser livres. Isso inclui você, Sorento.
**
POV Julian
Eu já não sabia precisar quanto tempo vinha mantendo Milo meu prisioneiro. Talvez dois meses, três ou mais. Minha preocupação é que em mais alguns meses meus pais estariam de volta e eu precisava por um fim naquilo.
De poucos dias pra cá, Milo já não mostrava mais qualquer resistência. Fora o fato de ainda fazer greve de fome, no resto ele parecia resignado. Já não mais se revoltava ou ameaçava quebrar as coisas. Ainda assim, eu sentia em seu olhar o desprezo e a repulsa toda vez que eu tentava me aproximar. E a forma ríspida com que era tratado por ele ma fazia reagir não da forma como eu queria. Eu terminava me armando e sendo também agressivo e logo estávamos novamente nos ofendendo e nos agredindo verbalmente.
Milo jamais me dava outra saída, jamais mudava sua conduta, jamais recuava.
Mas incrívelmente após suas conversas com Sorento ele parecia mágicamente disposto a colaborar. Eu me perguntava se ele estava tramando algo, mas logo notei o interesse repentino do meu mordomo em Milo e entendi aquele jogo. Sorento era doce, gentil, manso. E era disso que Milo gostava. Com sua mansidão conquistou o prisioneiro que passou a confiar nele. Aquilo era positivo pra mim, porque fazia com que ele não negasse mais todos os meus pedidos. Mas era ruim ao mesmo tempo, pois ele acabava por se aproximar de Sorento e não de mim.
Mas a quem desejo enganar? Não preciso sentir ciumes de Sorento, a verdade é que Milo ama desesperadamente aquele francês imprestável, no qual ele não deixa de pensar um minuto sequer. Eu sei disso. E é isso que me mata a cada dia.
A existência de Camus e desse amor.
Só existia uma saída. Milo e Camus não poderiam mais coexistir, o mundo havia se tornado pequeno para os dois.
Então, quando eu estava perdido em meus pensamentos, observando o mar verde no copo de absinto, cujo líquido parecia levemente amarelado pela luz do fogo que rescindia sobre ele, Milo finalmente surgiu. Meu prisioneiro saído do cativeiro depois de todo aquele tempo, viria jantar comigo na ampla sala de refeições.
A enorme mesa de madeira poderia comportar muitos convidados, mas seríamos só eu e ele. Nós dois e algumas garrafas de vinho e boa comida. Um banquete para alguém que sairia do seu jejum.
Então, daquele portal ele surgiu. Estava com a farda, devidamente paramentado. Logo o cheiro de sândalo e um leve toque cítrico tomaram o lugar. Perfumado e lindo, ali estava meu convidado. Nos olhos a mesma expressão que ele sempre tinha pra mim: uma mistura de desinteresse e repulsa. Mas eu já estava habituado. Estava terrívelmente habituado ao seu desprezo.
Lindo, imponente, sério. E mudo. Ele não disse uma única palavra. Mas eu precisava ouvir aquela voz de veludo, aquela voz masculina que dosava doçura e firmeza em um tom grave e másculo
— Obrigado por aceitar meu convite. Sente-se por favor. Posso servi-lo de vinho?
Ele sentou-se, mas recusou a bebida
— Não, obrigado. Pelo tempo que estou sem comer, uma taça de vinho cairia como uma bomba em meu estômago.
Eu sorri, me deliciando com seu jeito direto e seu humor por vezes mordaz.
Então eu olhei bem para meu prisioneiro. Milo parecia realmente debilitado. Não tinha a mesma força física que usou ao meu bater e me jogar no chão, me atirando mijo de cavalo em seguida. Agora ele estava fraco e vulnerável físicamente. Eu havia o destruído, era notório. A que fundo de poço eu o havia jogado. Ele permanecia lindo, mas vergonhosamente fraco. Até mesmo sua voz saía sem a força habitual.
— Como desejar. Milo, acho que chegamos em um momento crucial dessa nossa situação. Eu não posso mantê-lo aqui eternamente, nosso jogo precisa de um desfecho definitivo.
Ele arqueou uma sobrancelha e permaneceu atento ao que eu tinha a dizer, mas não sem me afrontar, claro
— Nosso jogo? Não, seu jogo, você deve dizer.
— Que seja o meu jogo então. E no meu jogo, você e Camus são duas peças que não podem conviver no mesmo tabuleiro. É necessário que uma seja eliminada.
Ele permaneceu me olhando, mas diferente do que eu esperava, não demostrou qualquer revolta ou indignação ao me ouvir tocar no nome do ruivo.
— E esta escolha é sua, Milo. Você irá escolher qual peça fica e qual sai de cena. Se escolher permanecer vivo, deve tirar Camus desse jogo, eliminando-o. Se escolher Camus, você deve sair. E então, qual sua escolha?
Eu sei, era uma atitude cruel. Eu ordenava a Milo que escolhesse antre a própria vida ou a vida daquele que amava. Mas eu não tinha outra saída, ele não me deixara outra saída. Eu não via outra forma de acabar com aquele casal. Se eu o libertasse simplesmente, seria a minha morte encarar a derrota de ver os dois juntos.
Todos podem achar que sou louco. Certamente me diriam para seguir minha vida e deixar que Milo seguisse a dele ao lado de quem ele desejar. Mas as pessoas não entendem que isso é inaceitável. Milo é uma alma pura, mas junto a Camus ele é sujo. Os dois são sujos, sodomitas, fazendo coisas pecaminosas. Dois pecadores cujo a morte pode remir os pecados.
Só a morte.
E lá estava ele, me observando. Então Milo me lançou um olhar sereno e disse sem se alterar
— Camus deve morrer.
Eu não podia crer no que meus ouvidos ouviam. Milo estava decretando a morte de Camus. Aquilo era música maravilhosa para mim! Musica de Bach, ou de Mozart. Algo como uma missa solene e fúnebre. Aqueles olhos azuis brilhavam e eu me deliciei com aquilo.
Com Camus morto, minha felicidade e triunfo estariam completos.
— Você tem certeza? Posso mandar que façam isso o quanto antes. Posso ordenar a execução dele hoje mesmo.
— Então faça
Ele respondeu convicto para eu, mais uma vez, me ver incrédulo com tal atitude.
E eu estava nas nuvens!
Mas eu queria mais, queria ainda mais.
— Faça amor comigo esta noite e poderá ter o que quiser, inclusive sua liberdade. Amanhã ao raiar do sol estará livre. Basta que me dê esta noite, meu querido.
Então eu vi se desenhar no rosto dele o sorriso mais bonito que eu já havia visto. Aquele sorriso só podia significar um "sim". Ainda que eu também me sentisse sujo, ao diabo com aquilo, com ele eu estava disposto a me sujar. Estava disposto a tudo.
Então brindamos nosso acordo, teriamos uma noite linda juntos e antes que o primeiro raio de sol surgisse anunciando um novo dia, eu teria uma ordem para um de meus homens executar Camus. Em seguida, eu o libertaria.
— Sorento! Toque uma valsa, quero dançar esta noite
Apesar da cara de susto do meu mordomo, ele me obedeceu prontamente. Levantei-me indo até Milo e toquei em sua mão, o puxando para mim. O braço dele envolveu minha cintura e nossos corpos ficaram próximos como não ficavam há muito tempo. Fui invadido pelo perfume maravilhoso que vinha dos cabelos dele e pelo hálito fresco que ele tinha. Pude olhar bem dentro de suas iris e me afogar naquela imensidão azul.
Bailávamos, deslizando pelo assoalho de madeira bem lustrado, ao som do piano dedilhado por Sorento.
Era meu triunfo.
Até que o azul daqueles olhos mudaram subtamente de cor. Pareciam escurecer, não só os olhos, mas tudo ao meu redor. Logo senti Milo se afastar e meu peito queimar de forma insuportável. Milo agora se resumia a um vulto, assim como Sorento. Não mais ouvia o som do piano. Tudo era silêncio e diante de meus olhos borrões multicor em lugar de imagens.
Olhei para baixo e ela estava transpassada em meu peito.
Minha espada.
POV Milo
Já estava ficando enjoado do balançar daquela valsa, a loucura de Julian estava a ponto de enlouquecer-me também. Precisava agir rápido e foi quando notei que Julian estava tão distraído que quase fechava os olhos. Ele portava uma espada e eu agi rápido.
A desembainhei, e em questão de segundos me lancei para trás, recuando meu braço já com a espada na mão e o lançando de volta, enterrando-a no peito dele.
O sangue correu quente, banhando a roupa e o chão.
Ele me olhou, não sabia exatamente se entendia o que havia acontecido, mas não durou muito e Julian desfaleceu caindo ao chão.
Sorento correu apavorado, tomando seu senhor nos braços. Eu permaneci de pé, olhando-o sem muita ação. Me sentia fraco, mas sabia que precisava correr, precisava sair dali o quanto antes.
Fiquei ali, parado apenas o tempo de ouvir Julian proferir suas últimas palavras
— Milo...eu...eu te amei — ele disse, já com a voz rouca e falhada
— Senhor...senhor!! Por favor, não diga nada
Sorento pedia apavorado, eu apenas os observava. Eu de pé, os dois no chão. Ele prosseguiu, agora olhando para Sorento
— Sorento...me perdoe
Após aquele pedido de perdão, Julian deu seu suspiro derradeiro e a vida o deixou.
Julian Taylor estava morto e eu o havia matado.
Com minha farsa eu o havia enganado de tal maneira que ele não cuidou de se desfazer da espada. Ele não imaginava o que eu pretendia fazer. Mas no momento em que ele me mandou escolher entre a vida de Camus ou a minha, eu escolhi.
Escolhi a dele.
— Milo, corra! Saia daqui rápido, aproveite que não há ninguém de vigilha, FUJA AGORA!!
O grito de Sorento ainda com Julian ensanguentado nos braços fez com que eu me movesse, saindo daquele transe em que eu estava.
Me sentindo fraco e muito zonzo eu corri o máximo que pude, atravessei os portões e a liberdade se desenhou diante de meus olhos confusos.
Eu estava livre!
(continua)
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