A História de Fátima Rosa
5 Capítulo 5 - O Dia Seguinte
Notas iniciais
KERIM
Com o dia amanhecendo, deixamos os Yasaran em sua mansão e fui com Vural para sua casa, todos sem dizer uma palavra sequer. À medida que o torpor provocado pelo álcool e pela droga em meu corpo foi se reduzindo, fui sentindo uma ira profunda e silenciosa me invadir por eu haver me permitido chegar a tal ponto naquela noite. Eu não me lembrava do que havia acontecido com clareza, mas tinha maus pressentimentos ao mesmo tempo em que temia perguntar por detalhes, receoso do que fosse ouvir em resposta.
Vural havia mergulhado de roupa e tudo na piscina, como se tentasse se limpar rapidamente de algo que o sujava. Quando olhei para os calçados sujos de areia que ele havia tirado para entrar na água, lampejos aleatórios em minha consciência me levaram a rever mentalmente a face aterrorizada da jovem que eu abordara na festa. Da jovem que fora violada por Erdogan, Selim, Vural. E talvez por mim, embora eu não me lembrasse. Horrorizado ao ter certeza de que aquilo de fato acontecera, partir da casa dos Namli em direção à praia. No caminho, ouvi um homem desesperado perguntar a todos que encontrava se haviam visto sua irmã. Eu então soube seu nome, me lembrando de que ela fora chamada de Fatmagül pelo homem que viera buscá-la no final da festa. Fatmagül. Eu nunca mais me esqueceria desse nome, porém infelizmente não seria pelas razões pelas quais antes eu desejava me lembrar.
Quando cheguei à praia não havia mais ninguém. Eu temia pelo paradeiro e pela vida da moça, mas não tinha ideia de como agir. Meryen tentava falar comigo, mas eu não atendia, envergonhado demais do que fizera e consciente de que não conseguiria esconder dela o que eu se passava em minha alma nem mesmo por telefone. Eu me sentia sujo como nunca antes em minha vida e mergulhei na água gelada sem sequer tirar minhas roupas. Mas aquela sensação de imundície não me abandonaria tão facilmente.
Enquanto eu ainda estava na praia, Erdogan me ligou dizendo que a polícia estivera na mansão dos Yasaran investigando sobre a moça e que precisávamos nos reunir para decidir o que fazer. Advertiu-me ainda, naquele seu tom autoritário característico, que eu não falasse nada com ninguém mais antes que nos encontrássemos.
FATMAGÜL
O sol já brilhava, mas a noite que agora vivia dentro de mim parecia que nunca ia terminar. Ouvi uma voz distante que tentava me despertar, mas eu simplesmente não tinha forças para abrir os olhos e responder. Depois veio o som de uma ambulância que me prestou os primeiros socorros e me levou ao hospital onde fui gradativamente recuperando a consciência e me dando conta do que acontecera. Em desespero ao acordar, precisei ser imobilizada para ser examinada mais detidamente por uma médica da emergência e depois por um ginecologista que colheu material para exames.
Quando fui para o quarto, a mulher que me socorrera na praia tentava me acalmar até que meu irmão e Mukaddes chegaram. Minha cunhada exigia impiedosamente que eu lhe desse detalhes do que acontecera, repetindo que eu agora eu estaria perdida como ela sempre previra e que tudo havia ocorrido por conta de minha imprudência.
“Como vamos viver com essa vergonha? Ninguém mais vai comprar nada de nós por sua causa. O que vamos comer?”
“Percebe o que está dizendo?” A Sra. Meryen, a mulher que me encontrou na praia, tentava fazer com que ela parasse, mas por experiência própria eu sabia que era impossível fazer Mukaddes parar de falar quando ela começava assim.
“Você nos desgraçou! Fatmagul, sua falsa... Eu disse a ela que não fosse dormir por aí. Onde você foi quando saiu de madrugada? Sua sem-vergonha! Fatmagul, você mereceu isso! Acha que Mustafá vai se casar com você agora? Você agora precisará se cuidar sozinha.”
“Tenha um pouco de misericórdia e deixe essa moça em paz. Já disse para ficar quieta!”
Tentou detê-la outra vez a Sra. Meryen, mas Mukaddes respondeu-lhe que aquela situação não era da conta dela e prosseguiu disparando seus desaforos.
Meu irmão ficou ao meu lado me consolando, mas, como sempre, não era capaz de fazer a minha cunhada. Só me restava continuar calada e poder chorar silenciosamente. Eu pensava em Mustafá, desejando que ele estivesse comigo, que ele pudesse me salvar daquele abismo de dor em que eu fora lançada. Graças a Deus, Meryen, meu irmão e Mukaddes foram chamados para que a reconstituição do crime fosse feita pela polícia. Aplicaram-me uma injeção e eu adormeci, sem nenhuma vontade de acordar outra vez.
KERIM
Sem enxergar muitas alternativas sobre o que deveria fazer, resolvi ir embora da praia e retornar à casa de Vural, onde já se encontrava Erdogan esperando por Selim, que estava tomando café da manhã com a família de sua noiva. Os pais de Vural estavam a caminho e Erdogan reclamava sem parar do primo que não chegava, dos problemas que ele e nós teríamos por causa do que havia acontecido e de como ele, Erdogan, acabaria tendo que resolver tudo sozinho. Eu me irritei com seu tom arrogante e puxando-o pela gola disse que ele é quem havia começado tudo aquilo.
“E eu fui o único cretino?” Perguntou Erdogan enquanto se soltava de minhas mãos. “Você não fez nada, Kerim?”
“Cale a boca! Já chega!” Eu o interrompi, outra vez aterrado com o que eu conseguia me lembrar.
“Todo mundo participou, somos todos culpados!” Insistiu Erdogan. “Não somos?” Ele se dirigia a Vural agora.
“Se houve um crime, somos todos culpados.” Respondeu Vural, que até então se mantinha silencioso.
Profundamente envergonhado, eu disse que não me lembrava de nada do que acontecera quando havia me aproximado da moça, depois deles a terem violado. Mas, para meu desespero, Vural então disse que se lembrava perfeitamente de me ter visto estuprá-la, indiferente a seus gritos, como todos eles, e eu me senti mergulhar definitivamente no abismo que se tornara minha vida desde a noite anterior.
“Ela estava gritando, Kerim. Você não se importou.”
Derrotado pelas duras palavras de Vural, eu mal conseguia ouvir o que Erdogan dizia agora, algo sobre precisarmos agir de forma inteligente, pensando cuidadosamente no que iríamos fazer. Ele se justificava alegando que estávamos drogados, então não sabíamos o que estávamos fazendo e portanto não deveríamos ser punidos.
Os pais de Vural então chegaram, e todos conversavam, tentando manter as aparências, exceto eu, que fiquei sentado em um canto, sem conseguir falar nada. Os Namli contaram então que Vural havia sido aprovado para o mestrado na Universidade de Cambridge. Quando Vural abraçou seus pais, em seus olhos víamos o futuro de nossas vidas desperdiçadas por causa da loucura da noite anterior.
Os pais de Vural estranharam meu comportamento, perguntando o que havia comigo, e Erdogan respondeu que eu estava assim por causa de uma garota. Naquele momento, tive a impressão de que ele havia dito isso como a primeira desculpa que lhe ocorreu. Só bem mais tarde entendi que ele começava a tecer em sua mente um plano insidioso para que eles se safassem ilesos do que havia acontecido.
Os Namli foram dormir, cansados após as longas horas do voo internacional e logo depois Ebe Nine me ligou e eu não podia mais deixar de atender. Quando falei com ela, disfarcei o quanto podia, enquanto ela me contava que havia encontrado e socorrido uma moça, praticamente uma menina, que havia sido estuprada.
“Eles são uns monstros malditos!” Ela dizia entre lágrimas. “Venha agora para casa, preciso de sua ajuda, Kerim.”
Nesse momento, Vural, Selim e Erdogan se aproximaram querendo saber com quem eu estava falando.
“Onde está a moça?” Eu indaguei, reprimindo minhas emoções com dificuldade.
“A Fatmagul?... Está no hospital. Onde mais ela poderia estar?” Meryen pareceu estranhar a pergunta, mas não fez outros comentários, apenas pediu que eu não demorasse a chegar em casa.
Eu desliguei o telefone e contei a eles que Ebe Nine havia encontrado a garota e que a polícia havia realizado uma análise do cenário do crime, colhendo as digitais nas garrafas que havíamos deixado na praia. Selim e Vural ficaram desesperados com as notícias, enquanto Erdogan parecia considerar friamente a situação para descobrir o que fazer. Ficou então decidido, por sugestão de Erdogan, que Selim faria contato com seu tio, que era advogado, a fim que ele nos ajudasse.
Se é que ainda restava alguma possibilidade de ajuda para nós.
FATMAGÜL
“Quando você decidiu que deveria ser casar comigo?”
Mustafá sorriu e não disse nada enquanto remava.
“Eu quero saber... Quando foi?”
“Uma vez, quando você passou de tranças em frente à minha casa e ainda era criança eu pensei: ela ainda vai preparar pratos deliciosos para mim.”
“Eu não acredito.” Respondi, examinando seu rosto para saber se ele dizia a verdade.
Estávamos em um barco e começamos a brincar de jogar água um no outro para depois mergulharmos e selamos aquele momento com um beijo.
Durante as primeiras horas que acordei após aquela noite, passei a maior parte do tempo pensando nos bons momentos que havia vivido com Mustafá. Eu ansiava por sua presença, esperando que ele pudesse, de alguma forma, me resgatar daquele pesadelo. Suas doces palavras de amor ressoavam em meus ouvidos, prometendo que não deixaria nada de mal me acontecer e dizendo que em breve nós nos casaríamos.
Mukaddes voltou a me pressionar a falar do que havia acontecido e a contar quem era responsável, mas graças a Deus foi retirada pela enfermeira quando começou a gritar muito alto. Uma psicóloga logo veio conversar comigo, mas eu ainda não conseguia falar nada, simplesmente não encontrando forças para reviver aqueles terríveis momentos, por isso decidi continuar calada. Depois disso, enquanto meu irmão tentava me consolar, Mustafá chegou. Eu me senti profundamente aliviada ao vê-lo e disse seu nome, desejando que ele me abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem agora que ele estava a meu lado.
“Mustafá, fizeram algo muito ruim para a Fatmagul, Mustafá. Fizeram uma coisa muito ruim para todos nós...” Disse-lhe meu irmão Rahmi, convidando-o a entrar no quarto.
Mustafá aproximou-se lentamente do leito hospitalar onde eu estava e perguntou:
“Quem fez isso?”
Eu não consegui responder, embora os rostos daqueles monstros passassem o tempo todo pela minha memória, mesmo quando eu tentava esquecê-los.
“Eu perguntei: quem fez isso? Me diga quem fez isso, Fatmagul...”
“Ela não consegue falar, Mustafá.”
Ele se inclinou em minha direção e repetiu a pergunta mais uma vez. Quando eu não respondi, ele me sacudiu com força pelos ombros, perguntando várias vezes quem havia feito aquilo e depois, muito irritado com meu silêncio, derrubou a mesa de apoio para refeições do quarto, enquanto meu irmão tentava contê-lo. As enfermeiras vieram e Mustafá saiu do quarto, depois de ter destruído a última esperança de alívio que eu antes achava que havia me restado.
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