A História de Fátima Rosa
21 Capítulo 21 - A despedida
Notas iniciais

Eu havia acordado de madrugada para tomar o avião e já saía de casa levando apenas uma bagagem de mão, quando surpreendentemente Fatmagül estava de pé me esperando...
“Eu já vou. Pensei que não fosse te ver mais.” Eu lhe disse.
“Eu te esperei.” Ela replicou com simplicidade.
“Lamento que você tenha me conhecido assim. Há tantas coisas que eu repito para mim mesmo, mas não consigo dizer para você...”
Fiz uma pequena pausa antes de resumir em poucas palavras o que realmente eu queria falar.
“Desculpe. Eu sinto muito.”
Ela nada respondeu, mas não se afastou. Eu me aproximei um pouco mais dela e tomei coragem.
“Estou pedindo que me perdoe, por favor. Será que você consegue?”
Ela desviou o olhar e parecia pensar no assunto.
Eu precisava ir ou perderia o voo, então caminhei em direção ao portão. Estava convencido de que ela não me perdoaria, mas ao menos havia dito isso a ela.
“Kerim!”
Ela me chamou de volta, mas eu não tive ânimo para encará-la outra vez.
“Eu perdoo você.”
Eu me virei para olhá-la, sem acreditar.
“Agora você pode ir.” Ela completou.
Sua expressão estava séria, mas não havia mais ódio em seu rosto. Eu tomei suas mãos e as beijei com muita delicadeza, agradecendo o perdão imerecido que ela me concedera.Depois a abracei com ternura naquela madrugada gelada. E depois acordei...
KERIM
É muito triste sonhar com algo bom para despertamos e descobrir que não era verdade. Foi esse o sentimento de decepção me tomou quando acordei sobressaltado após sonhar que Fatmagül me perdoava, a realidade lembrando-me que o que acontecia era exatamente o oposto.
Na véspera, eu havia demorado a dormir, angustiado com minha iminente viagem. E para piorar, sabia que Ebbe Nine estava chorando às escondidas. Eu sabia que ela não queria que eu fosse embora, o que partia meu coração, mas minha decisão havia sido tomada. Claro, eu poderia levar minha mãe comigo, porém ela já havia dito que estava decidida a ficar por aqui, inclusive para tomar conta de Fatmagül. Sentiria falta dela, mas por outro lado me tranquilizava saber que Ebbe Nine estaria perto de Fatmagül para ajudá-la quando eu estivesse longe, ao menos por algum tempo. Mais tarde eu poderia convencê-la a juntar-se a mim, quando as coisas estivessem mais calmas.
Por isso quando acordei naquele dia de manhã eu me dirigi a Fatmagül para lhe dizer que ia embora definitivamente. Entreguei a ela uma procuração para que ela pudesse se divorciar de mim mais facilmente depois que eu partisse. Mostrei-lhe também minha passagem para a Bélgica e meu passaporte com o visto, mas pedi que ela não revelasse nada a ninguém, apenas depois que eu partisse. Ela não disse nada, mas pareceu aliviada. Não posso dizer que conversamos, pois ela nada me respondeu. No entanto, eu ainda tentei falar mais alguma coisa a ela, como um tipo de despedida, pois aquela poderia ser a última ocasião em que estaríamos a sós antes que eu fosse.
“Eu só queria dizer que não gostaria de ter entrado em sua vida desse jeito, Fatmagül. Ser o homem que você odeia está me matando... Na verdade eu...”
Eu ia completar a frase dizendo-lhe que meu verdadeiro desejo seria poder ficar ao seu lado, ajudando-a no que ela precisasse, ainda que sem esperar seu perdão. Quem sabe ela permitisse, um dia...
Mas não houve tempo. Emren chegou de barco com uma moça. Eu disse a ela que guardasse a procuração com cuidado enquanto eu os recebia. Depois Emren nos apresentou sua amiga, que se chamava Enice, parecendo empolgado pela bela companhia que trazia. Diante da situação, eu e Fatmagül precisaríamos fingir que fingir que estava tudo bem entre nós mais uma vez. Quisera fosse verdade.
FATMAGÜL
Enfim “ele” iria embora. Ebbe Nine estava muito triste, mas para mim era a melhor notícia dos últimos tempos. Só que naquele dia eu ainda precisaria aguentar fingir mais um pouco que realmente estávamos casados diante do filho do proprietário da casa, Emren, com fizéramos ao visitar seus pais. Ela havia trazido uma amiga consigo e ambos insistiram de tal modo que fôssemos passear pela cidade todos juntos, que não houve como evitar, por mais que eu tentasse.
Não posso negar que foi agradável poder sair um pouco e conhecer a beleza de Istambul, mas foi um passeio no mínimo estranho. A namorada de Emren, Enice, foi quem mais pediu que nós que fôssemos, alegando que sua tia só permitiria que ela fizesse o passeio se estivesse conosco, ao invés de sair sozinha com um rapaz. Mas embora ela fosse muito simpática, não pude evitar a nítida sensação de que ela constantemente me observava detidamente, como se estivesse me analisando em cada detalhe. No entanto, procurei não levar isso em conta, porque talvez fosse apenas impressão minha, uma vez que eu havia simpatizado com a gentileza dela.
Mas quanto a “ele”, não havia dúvidas, pois amiúde me lançava olhares de curiosidade, sem perder aquela expressão de remorso que sempre ostentava quando estava perto de mim, provavelmente para fazer parecer aos outros que era inocente. “Ele” parecia não acreditar que por algum tempo mais eu havia concordado com boa vontade em manter a farsa de marido e mulher enquanto fazíamos aquele passeio inesperado. Porém, ele mesmo havia me dado uma razão para estar menos aborrecida do que antes naquele dia: afinal, agora eu tinha certeza de que me veria livre daquele casamento muito em breve!
KERIM
Parecia um presente de despedida no qual eu não podia acreditar... Poder ver Fatmagül sorrir. Como ela ficava linda sorrindo! Fazer de conta por algum tempo que estávamos juntos de verdade... Um dia bem mais feliz que os demais e que passou muito depressa. Porém, ao final, bastou Emren e Enice se despedirem de nós para que Fatmagül me tratasse com a frieza habitual de sempre, andando dois passos à frente para que eu não a acompanhasse. Essa era nossa realidade, eu não devia esquecer para não fraquejar.
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