A História de Fátima Rosa
18 Capítulo 18 - Um fio de esperança
Notas iniciais

KERIM
Fomos detidos e interrogados. Vural protestava dizendo que o casaco era de Erdogan e que a droga não era dele. Eu sabia que muito provavelmente ele dizia a verdade, pois normalmente era Erdogan quem andava com essas coisas primeiro. Erdogan, por sua vez, disse aos policiais que pegara o casaco de um armário no barco sem saber de quem era. Mas os policiais não acreditaram neles e continuaram perguntando e perguntando. Eu e Selim também fomos interrogados. Todos reconhecemos que Vural estava bêbado e explicamos que foi essa a razão de o acompanharmos, esperando que a admissão desse erro fosse menos grave que o porte da droga. Depois, fizemos exames de sangue para verificar se havíamos usado substâncias ilícitas.
Selim ligou para seu tio, Munir, que veio socorrer o sobrinho e a todos nós mais uma vez, ainda que evidentemente muito contrariado por ser chamado no meio da noite para de novo resolver uma mancada do sobrinho e do resto da gangue, que eu, infelizmente, voltara a acompanhar naquela noite. Ele nos disse que mesmo que estivéssemos “limpos”, dormiríamos na cadeia até o dia seguinte, quando nossos exames de sangue seriam mostrados ao juíz que nos liberaria. Ou não.
Selim disse que não poderia ficar preso, pois estava sendo esperado para um jantar de família, ao que Munir lhe respondeu, ironicamente, que avisaria ao juiz que ele não poderia continuar na delegacia pois tinha coisa mais importante para fazer. Mesmo assim, eu e Selim fomos libertados ainda de madrugada, antes do dia seguinte, graças à intervenção de Munir e do futuro sogro de Selim. Mas Vural e Erdogan ficaram presos por mais tempo. Porém, embora não fosse nada fácil se livrar de uma condenação de alguns meses por porte de drogas em nosso país, mais tarde eu soube que Munir arranjou alguém para assumir o crime no lugar deles para que saíssem da cadeia em alguns dias.
Quando cheguei em casa, Meryem estava muito preocupada, claro. Quando ela me perguntou o que havia acontecido, eu lhe disse que havia conversado com Vural sem dizer do assunto ou de nossa detenção pela polícia. Ela detestaria saber dos detalhes e eu achei melhor poupá-la. Eu também ainda não sabia exatamente o que faria diante daquela revelação, exceto que gostaria muito que Fatmagül soubesse, ainda que isso não me inocentasse diante dela. Mas ao menos agora eu me sentia um pouco melhor do que antes, quando ficava imaginando o pior por não conseguir me lembrar com clareza. Decidi que me empenharia para que ela soubesse da verdade antes que eu partisse.
FATMAGÜL
No dia seguinte, Mukaddes decidiu acompanhar Meryem a Ildir para resolver algo urgente relacionada à propriedade deles. Como precisaram ir de repente, foram de ônibus, o que faria a viagem ser mais longa. Rahmi ficou comigo e com Murat, a meu pedido, para que eu não ficasse sozinha com “aquele homem”. Fomos à feira local e encontramos o Sr. Ibrahim, o proprietário da casa onde estávamos, e seu filho Emrem. Eles perguntaram por “meu esposo” e eu, não suportando ouvir o nome dele, logo pedi para irmos embora. Eles me olharam com alguma estranheza, mas eu não me importava mais com o que qualquer pessoa pensasse. Ao menos, eu não seria obrigada a engolir todo o asco que aquele suposto casamento me causava.
Murat pedia para comprar todos os brinquedos que via e eu tentei acalmá-lo e me abaixei para amarrar seus sapatos. Em alguns instantes nos perdemos de Rahmi e uma sensação de desespero veio sobre mim. Desde aquela noite, eu me tornara uma pessoa muito mais assustada do que antes. Mas consegui me controlar, ainda que Murat chorasse sem parar depois de descobrir que nos havíamos perdido de seu pai. Voltamos sozinhos para casa, porque eu já sabia o caminho agora e “aquele homem” se aproximou enquanto eu destrancava a porta.
Ele consolou Murat, que ainda chorava dizendo que o pai havia se perdido. Quando meu sobrinho entrou e eu também ia passando pela porta ele se aproximou de mim, impedindo-me de entrar. Eu me assustei, mais ainda do que ao me perder de Rahmi, e disse-lhe entredentes que se afastasse. Ele insistiu em se dirigir a mim, dizendo que agora sabia que ele não havia feito nada naquela noite. Que eu havia desmaiado e por isso não me lembrava de que ele não havia me estuprado. Eu desejei poder matá-lo ao escutá-lo falar daquela noite, mas tudo que pude fazer foi pedir outra vez que ele fosse embora.
Nesse momento, para meu alívio, Rahmi chegou, acompanhado do filho do Sr. Ibrahim, Emrem. Murat estava certo em seus receios, pois Rahmi confessou que havia se perdido. Emrem foi apresentado “àquele homem” e eu pude entrar em casa para guardar as compras e ficar longe dele. Mas depois que Rahmi e Murat entraram, ele entrou na cozinha para guardar as últimas sacolas e insistiu em falar comigo novamente.
Quando ele disse meu nome, não consegui suportar mais ouvir sua voz. Não depois de tudo que acontecera. A mera presença dele ao meu lado me tirava do sério. Mas ouvi-lo dizer meu nome era demais. Disse-lhe que não pronunciasse meu nome. Nunca mais. Gritei que ele fosse embora. Ele saiu, contrariad e batendo a porta com força. Quisesse fosse embora para nunca mais.
KERIM
Mais algum tempo se passou. A casa estava praticamente pronta e eu estava quase terminando de aprontar o quarto dos fundos, onde eu dormia. Em um desses dias, fomos eu, Rahmi e Murat pescar com Emrem, o filho do Sr. Ibrahim, que deixou o seu barco ancorado no rio que corria nos fundos do quintal da casa, oferecendo-o para quando quiséssemos usar. Sempre que podia, eu ficava olhando Fatmagül através da janela da cozinha, que dava diretamente para o quintal. Mas ela sequer me enxergava, a não ser para lançar olhares de desprezo. Onde quer que eu chegasse, ela ia embora. Uma vez, tentei me aproximar dela quando estava bordando na mesa do jardim e ela rapidamente juntou suas coisas e foi embora quando cheguei. Ela não me ouviria, era inútil.
Mas foi nessa ocasião que ela deixou para trás uma corrente de pequenas flores tecidas em crochê que resolvi guardar comigo. Era a única coisa que eu tinha dela por enquanto. Aquele pequena corrente de linhas tão delicadas poderia ser um fio de esperança? Nada de bom parecia possível entre nós, mas ainda assim eu não desistiria de fazê-la saber que eu não fizera o pior com ela, ao contrário do que ela pensava.
Depois disso, Meryem e Mukaddes chegaram de Ildir com um caminhão de mudança trazendo os móveis de Ebbe Nine. A casa ficou muito mais bonita e confortável e aquela atitude não deixava dúvida da intenção de minha mãe adotiva em permanecer com a família de Famatgül, mesmo quando eu partisse.
No dia seguinte, eu estava vendo fotos da família que o pequeno Murat me mostrava. Uma das fotos era de Fatmagul em seu noivado, ao lado do tão famoso Mustafá, que eu vira apenas uma vez no jardim dos Yasaran, na noite de noivado. Inocentemente o garotinha disse que naquela foto Mustafá ainda era o tio dele, mas que agora seu verdadeiro tio era eu.
Fatmagül deve ter ouvido o que o garotinho dizia no corredor, pois logo entrou e tirou todas as fotos das mãos do sobrinho, guardando-as de novo em uma caixa. Ela agora havia me dado o troco por ter espiado as minhas fotografias antes e eu nem podia reclamar. Mas poderia ser útil para mim saber como era o rosto de seu ex-noivo. Experimentei uma sensação de profundo e injustificado ciúme ao pensar em como ela ainda devia amá-lo. Eu havia participado daquela noite que destruíra sua vida, não tinha direito a ela, havia decidido me divorciar e partir, mas era obrigada a admitir que se ela desse um único sinal de que me aceitaria, por menor que fosse, eu ficaria ao lado dela para sempre.
FATMAGÜL
As coisas pareciam estar mais tranquilas, exceto pelas esporádicas tentativas “daquele homem” de se aproximar de mim com a intenção de mentir sobre aquela noite outra vez. Era uma ofensa a minha inteligência ele considerar que eu seria capaz de perdoá-lo para vivermos felizes para sempre. E me assustava pensar que isso pudesse significar que ele não iria embora, como havia dito antes.
Em uma noite fresca de outono, fomos jantar no quintal e eu brincava com Murat no barco ancorado nas márgens do rio. Normalmente “aquele homem” não ficava por perto nessas horas se eu estava presente. Ele só tentava se aproximar de mim quando eu estava sozinha, claro. Mas nessa ocasião ele saiu de seu quarto nos fundos da casa e se encaminhou diretamente para onde estávamos. Mukaddes lhe pediu então que tirasse Murat do barco antes que ele pudesse cair na água. Ele tirou Murat do barco um pouco bruscamente e deu partida no motor antes que eu fosse capaz de sair para a margem.
Ele disse que queria apenas conversar. Fiquei apavorada com o que ele pudesse fazer. Afinal, eu sabia quem ele realmente era por trás daquela capa de aparente bom moço que apresentava ao mundo. Ele conduziu o barco por mais algum tempo, até que ancorâssemos na saída para o Bósforo. Era noite e eu não poderia fugir para lugar algum. Mas ao menos Rahmi e todos os demais haviam nos visto sair. Preferi acreditar que não era possível que ele estivesse planejando me ferir outra vez, apesar de toda minha angústia. Mas decidi que ao menos não cederia ao medo diante dele.
Enquanto o barco deslizava conosco diante da Torre da Donzela, ele começou a falar.
“Não quero assustá-la. Mas você precisa me ouvir. Precisa acreditar em mim.”
Eu cuspi no rosto dele em resposta.
“Eu vou embora, Fatmagül. Recebo meu passaporte na segunda-feira. Depois só dependerei do visto. Nunca mais vou aborrecer você.”
“Vá para o inferno!”. Completei.
“Mas quero que saiba que não fiz nada com você. Eu juro!”
Como não fizera nada comigo? Mesmo que ele não ... Quer dizer, foi ele quem me segurou primeiro naquela noite, antes que... Tapei os ouvidos, pois eu não queria mais ouvir, não queria lembrar! O ruído baixo da água do mar, sempre presente em minha vida desde a infância, me pareceu cheio da minha tristeza por minha vida ter sido atada á dele daquela forma tão cruel.
“Você precisa me escutar!” Eu me assustei com o movimento brusco que ele fez ficando em pé no barco. Acho que ele percebeu o medo em meus olhos e se sentou outra vez.
“Eu não toquei em você, Fatmagül.” Ele insistiu. “Eu juro pelo coisa mais importante em minha vida, eu juro pela memória de minha mãe!”
Ele parou um pouco de falar e ficamos em silêncio. Eu esperava que ele agora encerrasse sua “confissão” para podermos ir embora. Mas ainda não era tudo.
“Sou culpado! É verdade. Sou tão culpado quanto aqueles cretinos! Sou culpado porque eu estava lá! Sou culpado por não impedi-los! E por ter deixado destruírem sua vida.”
A lembrança ainda recente de tudo que eu sofrera me encheu de dor outra vez e eu não consegui conter um choro sentido.
“Eu espero que Deus me castigue por isso, pois não há desculpa nem reparação. Eu sinto a dor que você está sentindo. ”
Não, ele não sentia nem nunca poderia sentir. E eu precisava liberar a minha dor ou ela me esmagaria de uma vez.
“Você destruiu a minha vida!” Eu bradei. “Destruiu a minha alma! Acabou com meus sonhos e matou meus sentimentos. Vocês todos destruíram minha vida, que agora é negra!!! Tiraram todas as cores dela. Não podiam ter feito isso!”
“Eu não fiz nada! Você desmaiou!” Ele insistia.
“Você está errado. Você foi um dos que tirou tudo o que eu tinha, deixando apenas o ódio e o medo. Você é um dos meus inimigos.”
“Pelo menos, acredite no que eu disse, Fatmagül.”
“Só quero que você me leve de volta!” Consegui dizer em meio às lágrimas de dor que me descontrolavam.
Depois disso voltamos para casa.
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