A História de Fátima Rosa
13 Capítulo 13 - Casa nova
Notas iniciais

FATMAGÜL
No dia seguinte, fomos ao hospital e minha perna foi imobilizada, mas eu ainda podia caminhar com a bota ortopédica removível que me colocaram. Depois, fomos todos de táxi em busca de uma casa para alugar que havia sido indicada por um conhecido “dele”. Esse foi praticamente nosso primeiro passeio por Istambul, mas eu não prestava muita atenção aos belos cenários que se descortinavam da janela do carro. Ao invés disso, minha mente se enchia com a lembrança de Mustafá me dizendo que nossas compras de casamento e nossa lua de mel seriam naquela grande cidade, antes de me dar um beijo terno. Por que tudo acabara assim? Onde ele estaria agora? Seu coração ainda estaria tomado pelos ciúmes e pela revolta? Istambul era tão grande, havia tantas pessoas... Nãu pude deixar de pensar com certa tristeza que com aquela multidão ao nosso redor seria difícil sermos encontrados por ele.
KERIM
Mestre Gallip havia sido um segundo pai para mim. Na verdade, um primeiro pai, pois desde que eu era bem pequeno, meu verdadeiro pai havia me abandonado, e agora, passado tanto tempo, eu sequer me lembrava de seu rosto. Assim como Meryem fora uma mãe maravilhosa, ele havia preenchido o vazio de minha orfandade de pai vivo, aconselhando-me sabiamente em muitas ocasiões e me ensinando a profissão de ferreiro, para depois oferecer-me sociedade em sua oficina.
Gallip certamente era o homem mais bondoso e justo que eu conhecia. E mesmo a distância, como agora, sua mão amiga continuava a se estender, recomendando alguém para nos ajudar. Só que no futuro seria diferente: ele nunca mais estaria conosco.
“Ele me ligou ontem, a gente não se falava há muitos anos. Eu ouvi sua voz pela última vez. E ele falou comigo como se fizesse seu último pedido. Como se achasse que ia morrer... Lamento sua perda!”
Foi assim que eu soube do que acontecera pela voz de seu antigo amigo, que achou que já estávamos cientes daquele triste acontecimento antes de ir falar com ele. Gallip havia morrido na véspera daquele dia, após sofrer um trágico acidente de carro, sobre o qual pairava a suspeita de que não fora apenas um acidente. Enquanto eu recebia aquela notícia terrível e inesperada, o enorme e profundo vazio que que tomava minha alma nos últimos dias se abria ainda mais, engolindo minha dor e minhas lágrimas.
FATMAGÜL
Será que os crápulas também têm coração? Era a pergunta que eu me fazia enquanto via “aquele homem” chorar depois de saber da morte de seu amigo, Mestre Gallip. Eu não me permitiria sentir nenhuma compaixão por ele, mas não podia evitar alguma empatia pela perda de quem quer que fosse. Meus pais haviam falecido quando eu tinha apenas doze anos, então eu compreendia perfeitamente o que era aquela dor para qualquer pessoa, mesmo para “ele”. Mas isso não o tornava menos crápula. Nem reduziria uma migalha do ódio que eu cultivaria para sempre em relação a “ele”.
KERIM
Quando soube da morte de Gallip, compreendi porque a voz de Meryem ao telefone me parecera tão triste naquele dia. Só não entendi porque ela não havia me contado imediatamente. Talvez porque ela preferisse me revelar uma verdade tão dura apenas pessoalmente. Eu me sentia profundamente abatido, mas não poderia me deixar paralisar por aquela dor, pois precisávamos conseguir um lugar para a família de Fatmagül morar ou eu seria obrigado a suportar seu olhar furioso clamanda por justiça por muito mais tempo ainda.
Fomos à casa que nos foi indicada, que indubitavelmente precisava de obras, mas decidimos alugá-la mesmo assim, pois se localizava em um ponto bem acessível da cidade e o aluguel não era caro. Além do mais, sendo a casa relativamente pequena, o proprietário também havia incluído no aluguel um pequeno quarto separado da casa, mas localizado no mesmo terreno, o que seria útil para que eu pude estar por perto ajudando, mas não precisasse ficar exatamente sob o mesmo teto que Fatmagül
FATMAGÜL
Foi decidido que aguardaríamos no hotel enquanto “ele” fazia as reformas mais urgentes que a casa precisava. O imóvel se encontrava praticamente abandonado, mas ao menos ficava à margem de um belo rio de águas calmas que desaguavam no Bósforo. Eu ficaria menos triste se aquele homem partisse quando acabasse de preparar a casa, mas isso não parecia provável uma vez que sua mãe adotiva, a mulher que me socorrera na praia, também viria morar conosco.
Eu me lembrava do quanto ela havia sido gentil comigo, mas mesmo assim não podia evitar um sentimento de repulsa por ela desde que soubera que era a mãe “dele”. Havia sido coincidência demais exatamente ela me encontrar. Muito provavelmente o covarde, depois de tudo que fizera, havia pedido à mãe para me procurar e levar ao hospital. E agora ela também estaria por perto, junto com aquele homem, me obrigando a lembrar daquilo tudo todos os dias.
KERIM
Quando Meryem chegou, lamentamos juntos a morte de Gallip. Depois eu lhe disse que havia alugado a casa indicada pelo amigo dele e perguntei-lhe quanto tempo ela ficaria em Istambul. Embora ela respondesse que ficaria apenas pelo tempo necessário, percebi que ela ficou surpresa e um pouco magoada com essa pergunta, demonstrando que preferia ficar ao meu lado, apesar de tudo que acontecera. Mas a questão é que eu não tinha ideia de aonde iria no futuro e se haveria condições de levar Meryem para o lugar onde eu fosse. Também havia um misto de tristeza, culpa e ressentimento me envenenando por dentro que contaminavam minhas palavras, portanto preferi falar o menos possível dali por diante, para não magoá-la mais sem que ela merecesse. Eu só precisava deixar claro que aquela não era uma situação comum, que não havia chances de eu permanecer ao lado de minha esposa recém-casada e vivermos juntos e felizes para sempre. A longo prazo, não havia lugar para nenhum de nós dois junto dela.
Ao entrarmos no hotel e cumprimentarmos sua família, Fatmagül ostensivamente evitou se dirigir a Meryem, evidentemente por minha causa. Meryem queria cuidar do pé dela, mas eu lhe disse que ela não aceitaria sua aproximação. Quando chegamos ao nosso quarto, Meryem novamente me pressionou a falar sobre aquela noite.
“Foi o Gallip quem falou com o jornalista?” Perguntei-lhe fazendo referência à possível notícia no jornal que ela mencionara para mim ao telefone.
“Sim. Mas não adiantou nada porque recolheram todos os jornais.”
“Talvez não tenha sido publicado porque acharam que era mentira.”
“Você ainda tenta protegê-los...”
“Não, Meryem, não estou protegendo ninguém.”
“Afinal, você foi o único culpado? Ninguém mais fez nada? Eu não quero acreditar nisso. Responda, por favor, meu filho. Você fica em silêncio. Fatmagül fica em silêncio. Como eles te convenceram? Se você não é culpado, vamos lutar com eles. Do que você tem medo?”
Meryem sempre fora muito sagaz e não seria diferente quanto àquele assunto. Ela intuía a forma como tudo acontecera, embora eu não confirmasse sua versão. Eu não podia dizer-lhe muita coisa, primeiramente porque ainda não tinha certeza de meu papel exato em tudo aquilo, uma parte daquela noite semiapagada de minha memória. E depois, porque mesmo que eu fosse inocente de tê-la violentado, de qualquer modo eu era responsável por não tê-los impedido, então eu também era culpado, adiantando pouco eu incriminar Vural e os Yasaran.
“Eu não tenho medo de nada.”
“Então o que você age dessa forma?”
“É por causa dela. Eu destruí sua vida. Nunca me perdoarei por isso.”
Meryem respirou fundo e sentou-se, conformando-se agora com a ideia de que eu havia participado de alguma forma do que acontecera, por mais que ela não quisesse acreditar naquilo.
“Não se perdoe mesmo. A Fatmagul nunca vai te perdoar. Nem eu. Infelizmente, você vai sofrer por isso até o dia de sua morte.”
“Eu sei disso, Meryem. Ela me odeia. Por isso, depois que eles se instalarem, vou ter que ir embora daqui. E você vai precisar voltar para sua casa.”
“Casa? Que casa? Você não entendeu ainda o que aconteceu... Eu agora sou considerada inimiga por toda nossa cidade. Eles não confiam mais em mim para curá-los. Eles queriam me matar. Então preste atenção no seguinte: eu não posso voltar e você não pode ir embora. Você é responsável pela vida da Fatmagül, agora. Prometa que ficará aqui para ajudá-la. Pois eu ficarei aqui para ver você fazer o que tem que ser feito. A partir de agora vou viver para isso.”
Eu também preferiria estar ao lado dela e protegê-la, ao menos para amenizar minha culpa. Porém isso só aconteceria se ela permitisse, o que não parecia nem um pouco provável.
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