A História de Fátima Rosa
12 Capítulo 12 - Com o pé esquerdo
Notas iniciais

KERIM
Não sei como voltei para o hotel. Mas acordei no dia seguinte, com Fatmagül tentando me esfaquear. Ao despertar, instintivamente a empurrei para longe e ela caiu ao lado da cama. Logo depois, tentei ajudá-la a se levantar, mas ela continuou repelindo qualquer aproximação física entre nós, preferindo permanecer prostrada no chão, embora machucada com a queda. Sem dúvida, não era o melhor momento, mas eu decidi tentar esclarecer o dilema que me remoía o tempo todo:
“Eu fiz alguma coisa para você... quero dizer... naquela noite?”
As memórias sobre tudo o que acontecera ainda eram muito confusas para mim. Por mais que fosse difícil para ela, eu precisava perguntar-lhe.
“Fique quieto!”
“Você precisa acreditar em mim, eu não...”
“Cale a boca!”
“Fatmagül...”
“Não pronuncie meu nome!!!”
Ela agora chorava dolorosamente, mas eu precisava ir até o fim no que havia começado.
“Eu juro que nunca faria uma coisa dessas!”
“Pare! Não quero ouvir sua voz!!!”
“Não estou dizendo que sou inocente. Eu poderia tê-los impedido...”
Ainda no chão, ela segurou o tampo de vidro do criado mudo e fez menção de atirá-lo em minha direção.
“Juro que mato você, se não ficar longe de mim.”
Nesse momento alguém bateu à porta. Estávamos gritando um com o outro, então alguém certamente viera chamar nossa atenção. Eu abri a porta e garanti ao funcionário do hotel que faríamos silêncio. Logo depois atendi o celular que também tocava sem parar: eram a cunhada e o irmão de Fatmagül, avisando que estavam a caminho. Afinal, aquela era uma boa notícia para nós dois: ambos esperávamos ansiosos que eles chegassem para que minha “esposa” não mais fosse obrigada a tolerar minha insuportável presença.
FATMAGÜL
Depois de tudo que acontecera e dos momentos tão ruins naquele quarto, foi um alívio ouvir a voz de meu irmão ao telefone e saber que logo ele chegaria a Istambul, livrando-me de ficar mais tempo a sós com aquele homem. Depois que falei com Rahmi, consegui coragem para me levantar, confirmando que meu tornozelo havia sofrido alguma lesão quando aquele homem havia me empurrado.
Todo o meu corpo ainda doía da violência recente daquela noite e talvez por isso a dor no tornozelo parecesse ainda mais aguda do que eu alguma vez havia sentido. Estiquei minha perna em uma cadeira e improvisei uma bolsa de água gelada com um copo de água mineral do frigobar enrolada em meu casaco, mas não fez muita diferença.
Enquanto eu tentava cuidar de meu tornozelo, “ele” saiu do banheiro e tentou me convencer a acompanhá-lo para tomar o café da manhã, mas logicamente não aceitei. Após ele ter descido, decidi tomar um banho e trocar-me como fosse possível, lavando parte de minhas roupas, já que havíamos viajado praticamente com a roupa do corpo. “Ele” demorou um tempo razoável para voltar, e quando retornou, trazia algumas coisas para eu comer, nas quais não toquei, e algumas roupas para eu vestir, que também não usei. Eu permaneceria firme em minha intenção de não aceitar nada que viesse de suas mãos sujas, mesmo que fosse desmaiar de fome.
Infelizmente, quando Mukaddes ligou mais tarde para dizer que havia chegado à entrada de Istambul, foi isso o que aconteceu quando fui falar outra vez com ela ao telefone.
KERIM
Eu insistira inutilmente com ela que fôssemos a um médico para ver o que havia acontecido com seu pé. Outras tantas vezes durante aquele dia, a aconselhara a comer, sem que ela se decidisse sequer encostar na comida.
Agora mais essa: ela havia desmaiado no chão do quarto enquanto falava ao telefone. Desliguei o aparelho logo depois de dizer nada sério havia acontecido e que logo ligaria outra vez para a cunhada e o irmão, sem revelar a verdade para não preocupá-los.
Tentei reanimá-la respingando água em seu rosto. Seu rosto úmido das gotículas que eu havia derramado recordou-me outra vez do que havia acontecido na praia em Ildir, sua fragilidade torturando minha consciência. A lembrança de que ela também havia desfalecido naquela noite, depois de ser violentada por três homens me abalava como um raio atravessando meu corpo! Sobretudo porque eu sabia que não os havia impedido, quedando-me paralisado a sua frente enquanto ela era cruelmente maltratada. A culpa e o remorso me consumiam. Ver o quanto ela ainda sofria e nada poder fazer agora rasgava meu coração.
Graças a Deus, ela logo voltou a si, recuando assustada quando se deu conta de que eu estava próximo. Eu lhe disse que nada demais havia ocorrido, apenas um desmaio. Como ela não permitiria que eu fizesse nada para ajudá-la, decidi sair para procurar por seus parentes. Seria melhor eles virem logo para o hotel: só assim ela admitiria verdadeiramente se alimentar e descansar naquela noite.
Eu os busquei de táxi, encontrando-os sem muita dificuldade. Quando o cunhado dela chegou ao hotel com a esposa e o filho, Fatmagül ficou muito feliz e sorriu pela primeira vez desde que viéramos de Istambul. Ela abraçou demoradamente o irmão e o pequeno sobrinho, mas observei que ela não cumprimentou a cunhada de modo muito efusivo, o que me levou a concluir que ela a incluía entre os responsáveis pelo esquema que havia inocentado seus algozes. Trama esta da qual eu infelizmente também havia participado.
Sua cunhada parecia mesmo ser uma mulher inconveniente, a julgar pelas piadas de mau gosto que fizera sobre como teríamos passado a noite anterior no quarto sozinhos, como se toda aquela situação não fosse difícil e constrangedora por si só, especialmente para Fatmagül, que imediatamente protestou, informando a todos que de modo algum passaria outra noite sozinha comigo.
Eu ainda decidia o que fazer de agora em diante, levando em conta que Fatmagül não estava mais sozinha agora que sua família havia chegado. Se eu considerasse qual seria a atitude correta a tomar, estar longe de Fatmagül provavelmente seria o maior favor que eu pudesse lhe prestar, levando em conta o quanto ela havia demonstrado que me odiava. Fatmagül ratificou minhas impressões, afirmando que eles não precisavam de minha ajuda e que eu poderia ir embora sem problemas.
Mas sua cunhada, Mukaddes, exigiu minha permanência ao lado deles para apoiá-los, responsabilizando-a, assim como a mim, pela mudança forçada de toda a família e pelas dificuldades que vinham enfrentando desde então. Infelizmente, Fatmagül, a maior vítima de tudo que ocorrera, tornava-se culpada aos olhos daquela mulher. Por aquela amostra, considerei o quanto devia ter sido difícil para ela ter vivido ao lado da cunhada por tanto tempo.
Refleti um pouco e decidi permanecer ao lado deles, ao menos enquanto eu pudesse ser útil. Apesar dos maus modos da cunhada, ela não estava completamente errada. Istambul era uma das maiores metrópoles do mundo e não seria fácil para eles, que haviam passado toda a vida em uma aldeia, se adaptarem àquele novo ambiente sem terem alguma ajuda.
Como se pudesse nos escutar a distância, minha mãe adotiva, Meryem, me ligou para dizer que Mestre Gallip havia recomendado a um amigo seu em Istambul que nos ajudasse a encontrar acomodações. A voz dela ao telefone estava muito triste, mas esse estado de espírito dela era uma constante desde que tudo aquilo começara, por isso não fiz muitas perguntas, mesmos quando surpreendentemente ela disse que também estava de partida de Izmir e que viria ficar comigo em Istambul. Meryem era uma das pessoas mais sensatas e equilibradas que eu conhecera, além de me amar com todo o seu coração. Seria bom para mim tê-la por perto. Eu só não sabia se naquele contexto tão difícil e depois do que eu fizera, também seria bom para ela vir ficar comigo.
FATMAGÜL
Quando meu irmão chegou, “ele” parecia inclinado a ir embora, mas infelizmente Mukaddes havia insistido e reclamado que precisava de sua ajuda, desejando livrar-se da suposta responsabilidade que teria comigo. Assim sendo, desafortunadamente “ele” continuava conosco e eu seria obrigada a suportá-lo por mais tempo, esperando que isso não fosse durar muito, pois eu não sabia o quanto seria capaz de aguentar.
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