A História de Fátima Rosa

11 Capítulo 11 - Uma quase vingança


Notas iniciais
Bem-vinda(o), espero que goste de conhecer esta história, que é contada a partir do ponto de vista dos dois protagonistas. Para quem conheceu antes a história original, fica a homenagem para que possamos passar mais tempo com esses personagens inesquecíveis...

KERIM

Eu havia acabado aceitando o envelope de dinheiro que Munir me oferecera. Pretendia gastá-lo apenas com as despesas essenciais de nossa ida a Istambul, uma vez que eu não dispunha de recursos próprios, para depois entregar o restante a Fatmagül. Precisaria usar um pouco para pagar a hospedagem, pois não era barato ficar em qualquer lugar de Istambul, mesmo em um hotel mais simples como aquele. Só havia um último quarto de casal disponível e eu não conhecia outro local próximo para nos hospedarmos. De qualquer modo ficarmos em um quarto só seria conveniente, pois eu precisaria ficar de olho em Fatmagül e era melhor não chamarmos muito a atenção, por isso precisei calar os protestos dela diante do recepcionista do hotel.

Embora fosse contra a vontade dela, havia vários motivos para eu não deixá-la sozinha, inclusive o risco dela tentar se matar de novo. Segurei seu braço e levei-a de lado para lhe dizer que era perigoso ela ficar sozinha e que este seria um arranjo temporário até que seu irmão chegasse. Ela respondeu minha advertência com uma sonora ofensa, a qual eu retruquei nada mais do que um “assim seja”, pois reconhecia que o ódio que ela sentia por mim era plenamente justificado. Mas acabamos ficando em um mesmo quarto, que o atendente alegremente nos oferecera achando que estávamos em lua de mel ao ver nossa identificação.

Eu estava preocupado com Ebe Nine e assim que cheguei no quarto liguei para ela para saber se estava tudo bem. Disse-lhe que estava em Istambul com Fatmagül. Como não havia trazido meu carregador, não pude falar por muito tempo com ela e precisei sair para comprar um carregador novo.

Tranquei o quarto para que ela não fugisse e depois de comprar o carregador para o telefone, impulsivamente decidi procurar pelos outros canalhas que também haviam transtornado a vida dela para sempre para dizer-lhes que nunca mais queria vê-los e que também haviam estragado minha vida para sempre. Eu me odiava cada vez mais pelo que havia feito e os olhos acusadores de Fatmagül estavam me matando aos poucos. Porém, mais do que a mim mesmo, eu odiava a gangue, porque eles haviam tomado a iniciativa do estupro e porque eu eu estava assumindo a culpa sozinho por tudo.

No entanto, desabafar com aqueles cafajestes não fez muita diferença. Eu ainda não era capaz de enfrentar aqueles olhos outra vez. Covardemente, pedi uma bebida em um bar próximo do hotel. Bebi algumas vezes. Não, bebi muitas vezes. Mais vezes do que deveria. Eu nunca mais deveria fazer isso depois daquela noite, mas era fraco demais. Depois disso, não sei mais o que aconteceu naquela noite.

FATMAGÜL

O hotel tinha uma aspecto respeitável, mas só havia um último quarto de casal para nos hospedarmos. Maldito fosse “ele” se pensasse que dormiríamos na mesma cama! Eu morreria ou o mataria antes que isso acontecesse. Mas fui obrigada a aceitar aquilo, ao menos até meu irmão chegar. Quando entramos, eu me tranquei no banheiro para não ter que suportar o mesmo ambiente que “ele”. Mas ele logo saiu do quarto, dizendo que iria comprar um carregador para o telefone. Fui conferir a porta, mas ele havia me trancado no quarto!

“Ele” demorou bastante e começava a anoitecer quando a camareira abriu a porta para trocar os lençóis e eu aproveitei para sair um pouco. Mas ao andar de novo pelas ruas semiescurecidas àquela hora, a quantidade de pessoas que circulava por ali e os homens que me assediavam com gracinhas por eu estar sozinha me amedrontaram um pouco, então decidi voltar à suposta segurança do quarto do hotel.“Ele” não havia voltado ainda. Será que havia fugido? Não seria de se estranhar para um homem que já se mostrara tão covarde.

Eu não havia comido quase nada o dia inteiro, por isso decidi comer uns biscoitos que havia no quarto. À medida que a noite avançou e aquele homem não voltou, o cansaço acabou me fazendo dormir em uma poltrona até o dia seguinte. Quando acordei, “ele” estava dormindo na cama, com a mesma roupa da véspera, e o odor de álcool empesteava todo o quarto, enojando-me. Aquele cheiro sempre me perseguiria depois daquela noite maldita! Abri todas as janelas para que entrasse ar e olhei para aquele homem por algum tempo. Ele devia ter bebido muito na noite passada, por isso havia demorado a voltar. Que covarde! Como eu o odiava... Percebi que seria capaz de matá-lo! E o que me impedia de fazê-lo? Nada. Sim, eu poderia matá-lo... Fazer justiça com minhas próprias mãos, já que não podia confiar na justiça humana.

Decidi que ele não merecia viver depois do que fizera. No quarto havia uma faca que fora trazida pela camareira com o lanche. Não era muito afilada, mas deveria servir. Teria que ser agora, que ele estava dormindo um sono ainda pesado. Então tomei da faca. Seria só apontar para o coração dele e desferir um único golpe certeiro... Eu me aproximei o mais silenciosamente possível e ergui meu braço segurando firmemente a faca, mas infelizmente nesse momento ele acordou e me empurrou para longe com força. Ele havia escapado dessa vez. Mas não escaparia para sempre.

Notas finais
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