A História de Fátima Rosa
10 Capítulo 10 - Marido e mulher
Notas iniciais

FATMAGÜL
“Fatmagül Ketenci, de livre e espontânea vontade e sem sofrer a influência de ninguém, aceita este homem como seu legítimo esposo?”
Enquanto o juiz fazia essa pergunta, eu pensava em como teria sido meu casamento se aquela noite horrível não houvesse acontecido. Recordava a voz de Mustafá me dizendo que eu estaria de branco segurando um buquê vermelho e que depois da festa ele me levaria no colo antes de entrarmos em casa.
Agora não havia mais vestido branco nem buquê e nossa casa havia sido queimada. Mas eu ainda podia dizer não ao juiz. Considerava seriamente a possibilidade de fazê-lo. Porém, enquanto eu pensava nisso uma pergunta me incomodava: o que mais me restava agora? Muito pouco. Ou quase nada.
Assim, depois de o juiz repetir a pergunta mais uma vez, eu disse sim e assinei minha sentença no livro de registro. Ao sairmos do cartório, o Sr. Munir mostrou passagens de avião e disse que deveríamos ir o quanto antes para o aeroporto tomarmos o avião para Istambul. Rahmi e Mukaddes ficaram muito surpresos. Quanto a mim, embora eu não houvesse pensado muito no que aconteceria comigo depois do casamento, não havia passado pela minha cabeça que eu seria obrigada a sair de Izmir ou a conviver diretamente com aquele estranho com quem eu havia casado e que também parecia não ver essas possibilidades com bons olhos.
Enquanto almoçávamos, o Sr. Munir insistiu na urgência de nossa mudança, dizendo que havia prometido ao delegado que não permaneceríamos na cidade para evitar mais problemas com Mustafá. Diante dessa advertência, Mukaddes e Rahmi acabaram concordando em ir para Istambul. Eu preferi não me envolver na discussão, pois ainda me sentia mal devido à decisão de aceitar aquele casamento. Mas o pior era estar assentada à mesma mesa que aquele homem, a quem eu sequer conseguia olhar, ainda mais sabendo que ele agora era legalmente meu marido. Quando ele estendeu o braço para se servir, eu identifiquei no braço dele a marca da mordida que eu lhe dera naquela noite e o encarei com todo o ódio que ainda sentia.
Ao menos, ele pareceu intimidado e escondeu o braço com a manga da camisa. Mas como eu poderia ficar perto dele me sentindo daquele jeito? Eu havia visto quando aquele homem assim como Mukaddes haviam recebido o dinheiro que o advogado lhes prometera para me envolver naquele esquema sórdido. Então por que não me deixavam em paz? Era tudo que eu desejava.
KERIM
Não estava previsto que precisaríamos sair às pressas de Izmir logo depois do casamento, por isso fiquei surpreso om as passagens para Istambul que Munir nos apresentou. Eu só desejava que tudo aquilo acabasse para que ir embora. Porém, ao invés de partirmos para nossas casas, fomos almoçar todos juntos para discutirmos aquela possível mudança. Fatmagül não me olhava, exceto quando estendi o braço e ela viu a marca de sua mordida que eu escondi rapidamente. Minha presença parecia estar fazendo cada vez mais mal à Fatmagül e eu me sentia péssimo por causa disso
Depois disso, quando Munir mencionou o passaporte que eu receberia para ir para o exterior, a cunhada dela protestou imediatamente, o que me levou a concluir que não seria muito fácil terminarmos aquele compromisso de aparência como eu havia imaginado:
“Eu não sabia de nada disso. Não vou tomar conta de uma mulher sem marido! A Fatmagül agora está casada. Ela deve ir aonde o marido for!”
O nome da antipática cunhada que não parecia nutrir grande carinho por Fatmagül era Mukaddes. Em cada palavra sua, pude vislumbrar o quando deveria ser difícil conviver com ela.
“Você destruiu a minha vida! O que mais você quer? Não vou para lugar nenhum.” Respondeu corajosamente Fatmagül. Eu a admirei aquele ser aparentemente frágil que ainda tentava ser forte, a despeito de tudo o que havia sofrido.
“Ele vai para o exterior. O que você fará sem ninguém?” Retrucou a cunhada.
“Ele pode ir para onde quiser, eu não me importo. Agora eu vou me cuidar sozinha!”
Eu não queria pensar muito em como seria difícil para Fatmagül sobreviver sozinha dali por diante, mas essa possibilidade me preocupava. Nesse momento, Ebe Nine me ligou, mostrando-se triste e revoltada ao saber que o casamento havia sido celebrado. Ela frisou que não me daria sua bênção e me advertiu que não fizesse Fatmagül sofrer mais do que já sofrera. Enquanto nos falávamos ao telefone, entretanto, percebi que algo estranho havia acontecido, pois ouvi ruídos de vidros se quebrando e a ligação caiu. Depois de algum tempo, consegui ligar para Meryem outra vez, descobrindo que Mustafá havia tentado invadir nossa casa, ameaçando me matar.
Eu disse a Ebe Nine que iria socorrê-la imediatamente, mas ela insistiu que estava bem e me implorou que não fosse, pois seria muito perigoso. Mesmo assim, depois que desliguei o telefone, eu me dirigi à saída do restaurante quando Munir me interrompeu.
“Onde você pensa que vai?”
“Não ouviu o que aconteceu? Mustafá foi a minha casa, quebrou tudo e maltratou Meryem!”
“Não faça isso, Kerim, ele vai matar você! E você precisa viajar!”
“Não vou para lugar nenhum, Munir! Não consigo viver assim! Ou ele me mata ou eu vou matá-lo!”
Eu estava descontrolado emocionalmente. Ninguém conseguiria me deter. Exceto uma delicada voz feminina que me surpreendeu e desarmou nessa hora.
“Não vá.” Era Fatmagül falando. “Preciso que você me leve para Istambul.”
Eu não poderia dizer não a nada que ela me pedisse. E assim partimos para uma estranhíssima viagem de lua-de-mel, em que a noiva odiava o noivo, mas mesmo assim havia lhe pedido que ficasse ao seu lado.
FATMAGÜL
Depois de me despedir de meu irmão, que iria para Istambul com Mukaddes e Murat apenas depois que resolvessem as coisas em nossa propriedade, entrei em um avião pela primeira vez em minha vida. Fossem outras as condições, eu estaria feliz por poder viajar assim, algo que nossas condições financeiras nunca haviam nos permitido. Mas eu estava acompanhada daquele homem com quem fora obrigada a me casar.
Seu toque me causava repulsa e fiquei satisfeita que ele percebesse isso quando esbarrou em mim no assento e eu me afastei. Desde que tudo acontecera, eu me sentia vazia e desejava morrer, mas o ódio que sentia por ele e pelos outros ainda era algo que me fazia sentir forte. Era necessário que ficasse bem claro que eu havia pedido a ele para irmos a Istambul apenas para preservar minha família. Por isso, quando ele tentou me auxiliar a ajustar o cinto de segurança, eu disse que não desejava a ajuda dele para nada, pois ele era um dos meu quatro inimigos. E que assim seria enquanto eu vivesse. Felizmente, havia um assento vago em nossa fileira onde ele foi sentar-se longe de mim durante o restante da viagem.
Quando chegamos a Istambul, o trânsito e o barulho me impressionaram, por mais que sempre houvesse ouvido falar do tamanho daquela grande cidade, uma das maiores de todo o mundo. Eu preferia me manter distante “dele” quando caminhávamos, mas fui obrigada a caminhar ao seu lado depois de me enganar ao atravessar uma rua e quase ser atropelada. No final das contas, infelizmente eu dependia “dele”, que conhecia a cidade enquanto eu nunca havia estado ali.
Mas sua presença ao meu lado só me fazia odiá-lo ainda mais, por fazer-me lembrar o tempo todo do que acontecera. Para ter coragem de continuar, eu precisava lembrar a mim mesma o tempo todo que só estava suportando aquilo para preservar minha família. E também para preservar Mustafá, eu precisava reconhecer. Por mais que ele houvesse me magoado, ele também era vítima de tudo aquilo e o que eu pudesse fazer para que ele não se transformasse em um assassino, eu faria. Inclusive suportar o insuportável: a presença daquele homem ao meu lado por mais tempo.
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