A História antes da História

7 Se tudo pode, nada sentes.


Notas iniciais
Poder é diferente de fazer, e é sábio compreender que nem tudo que se pode se deve fazer.

Reinos foram erguidos pelas suas marionetes que se multiplicam como uma praga, infestando o que chamaste Éden outrora. Há, Pai, criaste estes seres para me humilhar ou para se humilhar?

Eu vejo sua criação errar aonde meus irmãos erraram, aonde eu errei, e vejo-o perder a paciência lentamente, Pai. E dia após dia fomentar sua vingança, és tu vingativo, pai? Sei que eu sou! Se é verdade que tudo sabe, então me diga, és Tu capaz de sentir algo quando trouxe dos céus e da terra água para lavar o mal da face do seu falho paraíso?

Quando inundaste o mundo, em irá com sua criação dotada de liberdade, já sabias que naquela construção erguida por Noé durante dezenas de anos eu colocaria também o próprio mal que inundou o mundo para destruir? Sim, é claro que sabia. Você sabe de tudo, não?

Então por que o fez? É verdade, eu perpetrei a maldade na mente torpe dos fracos homens e fiz reinos se erguerem um contra os outros, ambos em louvor de seu nome, mas nem todos eram monstros, até mesmo eu poderia encontrar na risada dos bebes perto do Nilo, nas crianças a brincar nos rios de Canaã, nos pássaros voando ao redor do Haliácmon, nos esquilos ao redor das florestas de Harã, eu poderia encontrar bondade, amor, compaixão, inocência. Mas não tu, porque havia pestilência em metade, todos tiveram que se afogar nas fétidas águas sulfurosas da punição.

E você sabia, sempre soube, que mesmo depois de chacina contra os pecadores, e contra os inocentes, depois de Noé e seu barquinho ridículo, depois de tudo isso eu ainda ganharia, e ainda existiria no mundo a mesma praga que antes havia, e mesmo que fosse Noé a mão da justiça, mesmo que fosse ele aquele responsável por pôr fim à maldade, então Noé, o puro, seria o próprio mal!

Perguntaria eu se tu não vês, mas agora sei que vês tudo! Então, Pai, o que sentiu? Foi pena? Dor? Ódio? Indiferença, eu aposto. Se já sabia disso, então duvido com todo o meu saber que você jamais sentiu algo por nenhuma daquelas pobres almas que agora são minhas para atormentar. Agora eu sei, você não sente nada, por isso é tão fácil ser todo poderoso!

E então, por fim, diga-me, Senhor Todo Poderoso, quando fará a única coisa que Tu não podes? A única forma do Deus da Bondade destruir o mal é me pedir para fazê-lo. Apenas eu posso destruir, apenas eu posso matar de fato, aniquilar, extinguir. Você arrasta as peças pelo tabuleiro, mas nunca as joga fora, não pode, se o fizer seria igual a mim! Então peça, Pai. Me peça para acabar com o mal dos homens, desça da sua morada de luz, abaixe sua cabeça coroada, e implore que eu destrua os ímpios que tu criaste para me humilhar. Só assim o homem será bom, não importa quantos dilúvios venham, você não pode destruir. Esse poder é só meu!

E então o desfecho trágico de seu plano sem brilho. Noé jaz morto, sua prole pecaminosa infesta a terra uma vez mais, e uma vez mais, o homem me surpreende. Olhe só que bela torre eles erguem, pai. Eles dizem que vão lhe alcançar, temo eu que queriam lhe destronar. Como o homem é rebelde. Desperta em mim até mesmo um sentimento nostálgico.

Sabe, começo até mesmo a gostar desse tal de Babel.