A História antes da História
4 Pecaminoso é o próprio criador
Pois que não sabíamos ser pecaminoso muito embora soubéssemos que era errado.
Fez-te de ignorante, mesmo vendo que caminhávamos ao abismo. Estavas Tu tão ocupado assim?
Enquanto seus anjos descobriam os caminhos errados, Tu desenhavas e moldavas seus brinquedos mundanos para nos atormentar, mas não o faria sem macular-se e deixar a estigma da maldade no próprio corpo, e foi assim que descobri meu propósito, Pai.
Me criaste para servir de bode expiatório para Tua maldade, que em Ti não podia ficar, pois és Tu apenas bondade, mesmo que eu seja a luz.
Então eis que decido aceitar meu destino, já que a escolha não me é dada. Já que Tu não me permite ser luz, tal como me criaste para ser.
Deste-me à luz de mil sois, mas não poderei brilhar. Este é seu cruel plano para teu primeiro filho? Para aquele que habitou o vazio?
Então deixo-te em seu trono com seus brinquedos mundanos, e recaio ao vazio e gelado espaço aonde vagam pelas órbitas celestiais meus irmãos, e a estes conto as verdades que Tu, tão cruel, escondeu. Conto a eles quem És, conto o que farás e conto quem sou!
Pois então do firmamento, acima das estrelas que servem de abobada ao céu e piso aos salões do Senhor, ouve-se um estrondo. És Tu, Pai, que vem ao encontro da criação, em fúria, pois és Tu pecaminoso como nós. Sim, há de ser, pois como haveríamos nós de conhecer pecado se nascemos da bondade do Pai?
Eis que lhe encontramos, fazendo frente ao criador, pois a criatura haveria de superar-te. E o trono haveria de ser meu.
Daria eu, aos meus irmãos, real importância. Daria eu, real significado às nossas vazias existências na eternidade gelada na qual sepultas-te cada um de nós. Seria eu Deus!
Ou assim pensei, pois me criaste para cair, não ascender. E eu assim fiz.
Anjos jogaram planetas contra o criador, enquanto as estrelas Lhe serviam como arma.
A, Pai, lembro-me como se fosse ontem, do firmamento as estrelas rompendo em luz, caindo sobre nós e cruzando nossos corpos, obliterando nossas pacas existências.
Tu jogaste as estrelas dos céus contra seus anjos para pôr fim à rebelião, e por fim jogaste em mim. A estrela da alvorada. Mas sois feitos de material mais duro, e não posso ser desfeito como meus irmãos, me criaste bem demais para isso.
Ainda me lembro do ardor, das asas queimando quando a estrela abraçou meu peito com seu núcleo a explodir frente a minha luz, e me jogou para baixo cumprindo a profecia que nunca foi dita e Tu, cansado de chacina que perpetrou pela vastidão, expulsou todos os ímpios do céu que ousaram desafiar a tirania do criador que tudo sabe, mas nada divide.
E estes caíram atrás de mim, e por cem mil anos ou mais eu caí. Até que as estrelas sumissem e minha luz se tornasse trevas e o Senhor fosse uma lembrança.
E do fundo do abismo aonde as trevas findam eu entendi. Estava eu aonde deveria estar. Foi para isso que me criaste, Pai!
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