A História antes da História
2 O que habitará no vazio
Notas iniciais
Entre meus irmãos criados com esmero, mas sem metade de minha luz, eu sempre fui o preferido me sentando ao lado do Pai, olhando-o nos olhos a cada escolha e aprendendo com Ele o caminho da verdade, pois apenas Ele a sabe por completa, pois Ele vê, escuta e sabe tudo.
Na eternidade depositamo-nos a comungar sobre nossos deveres. Eu e meus irmãos. Via neles a inveja de minha luz, inveja que meu Pai disse ser pecaminosa e infectuosa. Certifiquei-me de que não ficassem impunes os ímpios e deles fiz exemplo para os ainda puros.
E assim o Pai me fez vigia sobre todos, e todos me notaram. E eu vi que era bom.
Sobre o véu da eternidade nossas existências eram vazias no vazio, ocupados de olhar a luz das estrelas que encimavam a abobada que levava ao trono do Criador.
E nesse momento perdido na eternidade, pode ter sido ontem ou a um trilhão de anos, meu pai criou orbitas e forças predominantes e primordiais para regerem não a nós, mas algo mais mundano.
Assim surgiu, como par às estrelas, os planetas e suas luas e nós as observávamos, gigantes olhando pequenezas que podíamos agarrar com uma mão, mas não devíamos, Ele nos disse.
Eram todos gelados e vazios como o antigo espaço aonde estavam e eu podia sentir neles tanto potencial desperdiçado. Então, em meu local ao lado do Criador lhe perguntei porque havia criado tudo aquilo, milhares de planetas vazios espalhados e separados em distâncias exorbitantes que nós, anjos, podíamos percorrer em segundos, mesmo sem sabermos o que segundos eram, pois, tempo não havia ainda.
E Ele me respondeu que havia um plano, seu sereno rosto sorriu o mais belo e cruel sorriso de quem sabia o destino daqueles planetas e sabia o meu destino.
Por que me criaste, Pai?
Haveria um plano. Era a resposta.
Então me calei e observei enquanto aleatoriamente planetas colidiam e explodiam e quasares destruíram outros, buracos negros engoliam a própria luz que de mim emanava e estrelas morriam em explosões tão poderosas que podíamos sentir no próprio firmamento.
E então observei enquanto o vazio se tornava habitado pelo frio e a sombra caia sobre o abismo.
Em silêncio, observei.
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