A História De Roberto
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Esta é a história de Roberto, um jovem de vinte e tanto anos, metido à herói. Nessa história, Roberto irá se apaixonar por uma doce moça chamada Julia, mas ele ainda não sabe disso. Roberto e Júlia irão se conhecer no que, para eles, é amanhã, mas que para mim será hoje e para você pode ser qualquer dia desses ou, simplesmente, dia nenhum.
Será amor à primeira vista e amor icorrespondido! Roberto passará toda a história tentando conquistá-la até que, no final, se entregará nos braços da morte na esperança de que, pelo mesmo essa, lhe leve até a mulher amada.
Roberto não sabe, mas tem toda a sua história de vida traçada. Aliás, ele nem sequer suspeita que isso possa acontecer: não acredita em destino e se recusa a creer que há uma força superior capaz de controlar sua vida.
Pobre Roberto... Não sabe que é personagem! Se soubesse, talvez conseguisse evitar seu trágico destino suicida. Imagina só: evitando a própria morte. Se soubesse, talvez evitasse se apaixonar por Júlia. Ou, pelo menos, desistiria antes que a moça se tornasse, para ele, uma obsesão tão grande que o levaria à morte.
Ou talvez nem fosse capaz de mudar nada. Afinal, quem o criou fui eu. Quem define o que ele pensa e escolhe em sua vida sou eu. E somente eu poderia escolher o que lhe acontece.
Mas se ele soubesse da minha existência... Talvez se rebelasse contra essa força que o corrompe para a ação em seu destino. E se ele conseguisse, de fato, se livrar de mim e se tornar um personagem, finalmente, dependente... Seria o primeiro personagem fictício a ter livre-árbitrio e de, verdadeiramente, definir o seu destino.
Uau. Essa seria uma inovação ainda maior que as de Machado de Assis. Estamos falando de algo realmente grande!
Preciso avisar Roberto.
~ Enquanto isso, em um universo alternativo muito semelhante ao nosso ~
Na rua de seu trabalho, Roberto andava distraído com os seus próprios pés. Depois que seu priminho nerd de treze anos lhe dissera que só é possível caminhar ao empurrar o chão para trás, o ato de dar alguns passos ganhara ares de grande curiosidade. De alguma forma, Roberto tentava caminhar sem pressionar o chão para trás... E a frustração de suas tentativas só o fazia desejar mais ainda completar a sua tarefa tão difícil.
Seus passos o entretinham bastante quando uma voz misteriosa vinda sabe-se lá da onde o chamou.
– Roberto? Pode me ouvir? Roberto?
O rapaz procurou saber de onde vinha a tal voz. Olhou para trás, para os lados... e como não encontrou ninguém, voltou a sua atenção aos seus pés.
– Roberto? Por quê está fingindo que não me ouviu? Não vai me responder? — se irritou a voz.
– Tudo bem... — falou confuso — onde você está?
– Estou... Bem, para você, devo estar no céu... Ou algo assim.
– Hm... — disse descrente — quer dizer que você é um espírito?
– Não, claro que não.
– Um anjo?
– Não... Nem espírito, nem anjo. Sou a sua criadora.
– Ah... Entendi... — falou em tom de ironia — Mas eu sempre achei que Deus tivesse voz de homem.
– Não sou Ele, também.
– Realmente, pela voz, parece mais ser... "ela" que "ele".
– Quis dizer que não sou Deus. — perdia a paciência com o personagem — Apesar de ter te criado...
– Mamãe? — perguntou o homem confuso.
– Não, meu querido. Sou a sua autora. E você é o meu personagem.
Roberto segurou o riso.
– Tudo bem, então, "minha autora", já que eu sou "seu personagem" e esse mundo foi "criado por você"... Você poderia tomar forma humana e vir aqui conversar comigo? Gosto mais de conversas olho-no-olho, sabe como é?
– Claro que sim. Só um instante.
Na mesma rua, atrás de Roberto, uma menina de cabelos castanhos e olhos azuis surge. Ela o cutuca com um sorriso infantil no rosto.
– Olá! — diz ela — Era comigo que você falava...
– Muito bem — disse Roberto olhando para a garotinha que aparentava ser bem mais nova que ele — e como é o seu nome?
– Emily — disse simplesmente.
– Ótimo, Emily. Deixe eu te explicar uma coisa. Eu não faço ideia de como você descobriu meu nome, nem como fez para que eu não te visse aí, mas não estou a fim de brincadeiras. Arrume outro cara para brincar de Deus com você, está bem? Não tenho tempo para isso, estou atrasado para o trabalho.
– Não está não. Seu trabalho começa as oito e ainda são seis. Olhe no seu relógio.
Roberto olhou para o próprio pulso e verificou que o relógio marcava exatamente seis horas. Olhou, então, para a garota, com certa desconfiança, mas sem perder a pose de adulto-superior-que-precisa-ir-para-o-trabalho.
– Tenho certeza de que sai de casa às sete. É impossível que sejam ainda seis horas. Meu relógio deve ter parado.
Emily (o que parece ser uma personagem com o mesmo nome que o meu) fez um bico.
– Pergunte, então, para qualquer pessoa na rua! Olha, aquela menina ruiva, por exemplo. — disse apontando para Júlia — Ela tem um relógio. Pergunte a ela que horas são.
Mas Roberto não se convencia:
– Deve ser uma das suas amigas. Parece combinado. Conheço o tipo. De toda a forma, estou atrasado. Não tenho tempo para brincar disso.
Roberto fez cara de bravo e saiu andando em direção ao trabalho. Mas, por trás daquela expressão de moço sério, estava mesmo muito confuso. Mal havia conseguido aceitar o fato de andar empurrando o chão para trás e já lhe colocaram na cabeça a ideia de ser personagem de uma história... E, por mais absurda que as duas ideias parecessem, ele já começava a cogitar a possibilidade de serem reais.
Emily pensou em surgir novamente em sua frente e impedi-lo. Mas achou melhor deixar que as coisas ficassem mesmo como estavam. Voltou ao seu universo, normalizou o tempo no mundo de Roberto e deixou que o ele fosse ao trabalho.
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