A Hipótese da Magia Viva

3 A Vista de Brockburrow


Uma semana desde sua promoção e Aggy descobrira uma coisa curiosa: não eram apenas os bruxos comuns que desconheciam a identidade dos Inomináveis. Os próprios Inomináveis pareciam não saber quem eram seus colegas.

Durante sete dias, cruzara corredores silenciosos, portas sempre fechadas e salas vazias. Nunca via ninguém entrar ou sair. Ás vezes tinha a impressão de ser a única pesquisadora em todo o Departamento de Mistérios.

Até então, seu único colega conhecido era John Bates. E ele estava longe e ser uma boa companhia. Quieto, de poucas palavras e dono do habito irritante de surgir sem fazer o menor ruido, John aparecia de repente para deixar uma pilha de documentos sobre sua mesa ou recolher algum relatório, desaparecendo logo em seguida sem explicar absolutamente nada.

Se, durante anos, Aggy sonhara em trabalhar cercada por grandes pesquisadores, debatendo teorias e compartilhando descobertas, a realidade era bem diferente. Conversava mais com a pata de coelho do que com qualquer ser humano.

Registro nº 4 — Observações sobre a Magia Viva

Data: 29 de agosto de 1993.

Observa-se que a magia no Ministerio é diferente. É pesada, quase palpável, mas contida. Ela não reage a mim como a magia fora dessas paredes. Os objetos permanecem inertes até que sejam encantados deliberadamente. Será devido ao Ministro?

Hipótese 1: a elevada concentração de feitiços permanentes interfere na manifestação espontânea da magia.

Hipótese 2: a presença constante de milhares de bruxos cria uma espécie de "ruído mágico", dificultando a percepção de reações individuais.

Hipótese 3: seria possível que a magia respondesse à autoridade? O Ministério, por concentrar leis, poder e controle, alteraria seu comportamento?

Aggy releu a última hipótese e fez uma careta.

— Isso soa ridículo... — Rabiscou um ponto de interrogação ao lado da frase. — ...o que normalmente significa que vale a pena investigar!

Molhou a pena no tinteiro e continuou a observação:

Hipótese 4: Eles não acreditam na magia viva, mas na magia como ferramenta o que causa a não reação espontânea dela.

A porta de sua sala abriu sem cerimônia. John Bates entrou, os braços carregando uma pilha de pergaminhos que lançou na mesa de Aggy. A bruxa tirou com dificuldade suas anotações debaixo da pilha e tirou o tinteiro antes que caísse no chão.

— Bom dia John! — Cantarolou. — É bom ver seu sorriso.

— Não estou sorrindo.

— Fisicamente, não. — O rosto dele era de poucos amigos. — Mas espiritualmente? Tenho certeza que está radiante.

Ele piscou uma única vez.

— Não. — Descansou a mão sobre a pilha de pergaminhos. — Leia esses pergaminhos o mais possível.

Tirou das vestes um estojo retangular de veludo preto com fechos de prata. Ao lado dele, um colocou um documento dobrado com a cera vermelha de Hogwarts. Os olhos de Aggy brilharam.

— Hogwarts!

John aquiesceu.

— O Ministério está operando em capacidade reduzida no setor de entregas especiais por conta da caçada a Sirius Black — começou Bates, no seu tom habitual de monotonia. — E Alvos Dumbledore enviou um pedido de extrema prioridade.

Aggy ajeitou-se na cadeira, os olhos brilhando de curiosidade. A pata de coelho até então dentro da bolsa pulou para fora, tão empolgada quanto a dona. John franziu o cenho, mas ignorou.

— Um pedido?

— A Vice-Diretora de Hogwarts, Professora McGonagall, solicitou a concessão e a regulamentação de um Vira-Tempo de classe três para o novo ano letivo — explicou ele, batendo o indicador sobre a caixa de veludo. — O artefato será designado a uma aluna autorizada sob critérios rigorosos de segurança. Cabe a você levar o relógio pessoalmente, ajustar os selos de contenção e registrar o termo de responsabilidade. A leitura desses pergaminhos é para deixar familiarizada com o processo.

— Eu? — Aggy piscou, surpresa. — Quer dizer... eu vou a Hogwarts? Mas eu sou da Sala do Cérebro, não do Tempo.

John suspirou.

— Todos os Inomináveis da Sala do Tempo estão ocupados. —Fez uma breve pausa. — E porque você mora mais perto de Hogwarts do que qualquer outro funcionário disponível. Você deverá estar lá antes do período letivo e instrua a Professora McGonagall sobre os limites temporais.

Aggy olhou para a caixa de veludo. Tocar em um artefato temporal era uma responsabilidade gigante, mas a ideia de pisar novamente nos corredores de Hogwarts — o lugar onde sua magia costumava ser mais vibrante e onde guardava tantas memórias — fez seu coração acelerar.

— Entendido, senhor Bates — respondeu ela, pegando a caixa com cuidado.

No momento em que seus dedos tocaram o veludo, a chama da única vela sobre a mesa aumentou rapidamente. Percy apenas arqueou uma sobrancelha para a vela, depois voltou o olhar sério para Aggy.

— Tenha cuidado, Docherty. Com Sirius Black à solta, Hogwarts estará cercada por Dementadores. Não se distraia.

Ele deu meia-volta e saiu da sala com a mesma discrição com que entrara. O clique da fechadura ecoou no silêncio que se seguiu. Aggy encarou a caixinha em suas mãos e depois olhou para a pata de coelho, que pulava empolgada.

— Bom, pequeno... — murmurou ela, um misto de ansiedade e nostalgia apertando seu peito. — Espero que ela seja gentil conosco desta vez.

Usando o Pó de Flu para retornar para casa após o expediente, Aggy fora recebida com agitação pela residência, feliz pelo trabalho recebido. Da janela da sala, pode ver o espantalho pular para fora de sua horta para acena freneticamente para ela.

— Obrigada, querido. — Rumou para cozinha, olhando para os armários suspenso na parede de cores verde e creme. As portas do móvel abriram sozinhas, revelando um pote de farinha, açúcar e uma garrafa de conhaque. — Concordo, hoje merecemos um bolo de morango com conhaque!

O batedor saiu saltitando da gaveta, a tigela deslizou até a bancada e o saco de farinha mergulhou sobre ela, despejando uma quantidade considerável.

— Mas, por favor… desta vez sem explodir a cozinha.

O fouet parou no ar por um instante, como se tivesse ficado ofendido.

— Tinha farinha no meu quarto e dentro do meu chapéu da última vez! — O fouet girou lentamente no ar, como se recusasse admitir que tinha culpa.

Soltando uma risada, Aggy deixou a cozinha e abriu a porta da frente.

O jardim era pequeno, mas muito bem cuidado. O gramado de um verde intenso cercava canteiros de abóboras, repolhos e cenouras, enquanto algumas flores balançavam suavemente ao vento. O espantalho retomara seu posto entre a horta, ereto como um sentinela orgulhoso.

Mas o que Aggy mais gostava naquele lugar era a vista. A poucos quilômetros dali, erguia-se a cadeia de montanhas que separava Brockburrow dos campos de Hogwarts. E, acima das copas das árvores e das encostas rochosas, a silhueta inconfundível do castelo despontava contra o céu do fim de tarde. As torres ainda eram visíveis daquela distância.

Aggy apoiou os cotovelos na cerca de madeira e sorriu sem perceber. Do outro lado da cerca, os filhos da vizinha passaram correndo pelo chão de terra, com vassouras pequenas entre as pernas. Atrás dele, um pufoso cor roxo pulava atrás deles.

— Mais rápido! — gritou o mais velho.

— Você roubou! — respondeu a irmã entre gargalhadas.

O pufoso soltou um guincho indignado ao ser deixado para trás, fazendo Aggy rir baixinho.

O riso das crianças ecoou pela pequena vila bruxa. Por um instante, Aggy teve a impressão de ouvir outro grupo de estudantes atravessando os jardins de Hogwarts, muitos anos antes. Sacudiu a cabeça. Ainda não era hora de revisitar aquelas lembranças.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.