A Herdeira do Quarto Trono
9 A Arte de Acreditar
Notas iniciais
“As nossas cicatrizes têm o poder de nos recordar que o passado foi real”
Red Dragon
“Só porque não vimos, não significa que não tenha acontecido realmente”. Este foi meu pensamento em boa parte do tempo em que estive na Scotland Yard, acompanhando Bernard Evans, meu chefe, para todos os efeitos, e coisas estranhas eram o que não faltavam para serem ouvidas.
Bernard Evans, a quem dei o apelido de Ben, tem 46 anos, cabelos escuros, mas com alguns fios grisalhos e várias marquinhas de expressão aqui e ali surgindo-lhe, denunciando sua idade e toda carga acumulada durante a vida (fosse no lado profissional ou pessoal), é um sujeito calmo, alguém que precisa de grandes eventos ruins para lhe tirar a paciência e provas incontestáveis para que uma teoria seja aceita.
Mas também tinha seus defeitos. Se tirarmos o bom humor, Bernard é também alguém muito inflexível, e ele fica pior ainda quando está de mau humor e ainda mais insuportável quando é pago para defender alguém que não tem como provar que é inocente. Para minha infelicidade, foi exatamente a soma desses fatores, as coisas estranhas que vinham acontecendo e o o mau de Bernard que eu tive de aturar durante duas horas e meia.
—Você só pode estar de brincadeira, Richards! -Ruge Bernard para seu cliente, um senhor, que estava ali representando uma empresa de linha de corte e fabricação de móveis de madeiras raras. -Se nem eu, que sou o advogado de sua empresa, acredito nessa histórinha que está me contando, quem dirá o tribunal que está sendo preparado para lhes julgar?
—Mas esta é a verdade! -Insistiu o homem. -Eu juro que foi exatamente isso aconteceu!
—Então você está me dizendo que… -Bernard hesita, arrumando o óculos de leitura na ponte de seu nariz ao ler o rascunho de sua anotações feitas durante os últimos vinte minutos -abre aspas: “Um grande pássaro negro, semelhante à um corvo, do tamanho de uma águia, entrou voando pela porta do galpão e, sem mais cerimônias, empurrou o operário John Calssom para cima da mesa de serra enquato este trabalha em uma peça de madeira. Os operários que estava por perto, Kal Eriotom e Jacob Thompson afirmam não terem visto a ave até ouvirem o grito de Calssom e, ao se virarem, tiveram tempo apenas de ver o grande corvo grasnar e fugir pela porta do galpão novamente”. -O bloco de anotações de Ben voltaram a cair sobre a mesa com um baque surdo. — É isso mesmo?
O homem, Richards, engoliu em seco e assenou uma confirmação com a cabeça.
—E enquato um dos homens tentava capturar o corvo, o outro tentou retirar Calssom de cima da serra e prestar os primeiros socorros, mas quando isso foi feito, o Sr. Calsson já tinha ido à óbito. Isso?
Richards voltou a confirmar com veemência.
—E vocês acreditam mesmo nos seus homens?
—Sim. -A firmeza na voz de Richards me fez acreditar em duas coisas. A primeira, era que este homem dizia a verdade e a segunda era que esta é uma empresa mais que rara. Qualquer outra teria sido a primeira a acusar um funcionário, mesmo que este pudesse provar que é inocente.
Bernard respirou fundo, se recostando à sua cadeira. Durante todo esse tempo, estivesse sentanda numa cadeira ao lado de Ben, me empenhei em tirar minhas próprias anotações, a agora minha caneta estava parada sobre a folha de papel e minha mão estava escondida sob a mesa, coçando, irritada, passei as unhas de uma mão na palma da outra, tentando aplacar o incomodo. Olhei de Bernard para o senhor Richards e a tensão entre eles era quase visível.
O dedos de Bernard batucaram por vários minutos na mesa à nossa frente e o rosto dele era algo que eu não tinha ideia do que transmitia. Um longo silêncio se estabeleceu ali e a cada segundo que se passava eu me sentia mais desconfortável.
—Laura, preciso conversar com você -diz Bernard se levantando de repente -por favor, acompanhe.
Antes que pudesse responder, Ben já saia da sala. Olhei para o Sr. Richards ao me levantar. Ele estava ansioso, mas também estava resoluto no que dizia. Eu até queria dar-lhe um sorriso tranquilizador, mas pensei melhor e vi que não seria uma boa ideia.
—Com licença... -Murmuro, ao caminhar em direção à saída da sala.
Assim que saí da sala de interrogatórios para o corredor, onde várias pessoas perambulavam, Bernard fechou a porta, para que o Sr. Richards não pudesse nos ouvir. Bernard encostou-se à parede, cruzando os braços na frente do corpo, sério. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, dois policiais passaram por ali conversando. Um deles disse:
—Como é possível que o homem tenha sido atacado por um cachorro grande sendo que ele estava num abrigado para gatos? Isso não faz sentido, mas as marcas de garras e dentadas eram inconfundíveis.
—Pois é. –Respondeu outro policial, dando um gole de seu café. -Afinal o que está acontecendo com esta cidade? A mulher que eu fui socorrer afirmou que foi atacada por um urso! As margens do Tâmisa, perto do Parlamento! –Respondeu o outro.
—Charles afirma ter visto lobos gigantes atacarem um grupo de hippies no parque central...
—Qual Charles?
—O delegado, Phill, o delegado Charles... –Ambos os policiais viraram o corredor, de modo que suas vozes começam a sumir. Arregalei os olhos diante disso, Ben franziu ainda mais o cenho.
—Laura, me diga uma coisa... –Bernard diz, massageando as têmporas – você deseja ser juíza, não é? –Assenti com a cabeça e ele continuou. –Pois bem, se um advogado defendendo uma empresa com a que o senhor Richards representa, num caso com este que acabamos de ouvir, sabendo que toda a Londres está passando por uma espécie de, não sei, epidemia animalesca, ou uma onda de loucura coletiva, qual seria o seu parecer inicial?
—Bem – hesitei, inconscientemente, uni as mãos na frente do corpo, por causa da coceira em minha mão direita, sem conseguir disfarçar meu incomodo-, se não fosse verdade o que ele está dizendo, por que se empenhar tanto em defender funcionários, mesmo sem provas, sabendo que isso contraria a lógica? Sem mencionar que esse não parece ser um caso isolado. Desde que chegamos aqui só ouvimos falar de ataques de animais, o que me faz pensar de que o que o Sr. Richards diz é verdade.
—Mesmo sem prova alguma? –Ben arqueia uma sobrancelha e sinto a coceira em minha mão se intensificar.
—Sim – admito, cravando as unhas na palma da mão -, e não é a primeira vez que eu ouço algo como o que o senhor Richards disse hoje. Meu amigo, Victor, esta manhã, disse que uma espécie de corvo furioso se chocou contra o vidro da sala de aula dele na universidade, parecendo tentar entrar na sala. Victor disse-nos que somente ele viu isso. Se não foi o único mesmo, provavelmente foi o único a dar atenção á isso. E eu acreditei nele, pois Victor odeia mentiras, por menor que elas sejam.
—Entendo, mas, me desculpe perguntar, no entanto, eu preciso saber se esse seu amigo não usa entorpecentes ou tem algum problema psicológico.
—Victor? Ter algum desses problemas? – Sorri sarcástica. –É mais fácil um dragão entrar nesta delegacia agora mesmo e matar todo mundo. –E essa frase sai antes que eu perceba, mas seu sentido teve o efeito desejado, ou seja, queria dizer que tal coisa era muito absurda.
—Eu ainda não sei se devemos aceitar esse caso. Não tenho certeza se a reputação que á anos venho construindo vale o dinheiro que eles estão pagando... Não sem provas concretas.
—Com todo o respeito, Bernard, mas acho que nem tudo o que acontece neste mundo deixa rastros para contar história. –Retruco, não é justo com ele, eu sabia disso, mas se Ben visse o que eu vi, provavelmente enlouqueceria tentando descobrir com tais coisas são possíveis.
—Não foi isso que o mais de vinte e cinco anos na advocacia me ensinou. –Responde ele num resmungo, inflexível. Como exatamente meus tios e Bernard se tornaram amigos, eu não consigo imaginar, mas certamente não fazia sentido para mim.
—Talvez seja porque você só aprendeu aquilo que você conseguia compreender. –Digo, na lata, mesmo sabendo que eu poderia ser demitida por isso ainda hoje, mas eu tinha que arriscar. Bernard me encarou por um momento, atônito.
Por fim, ele balançou a cabeça, em negação, apesar de um sorriso mínimo aparecer em seu rosto.
—Você é mesmo uma Pevensie... –Murmurou ele, para si mesmo. –Então, você pensa que devemos pegar esse caso?
Cruzo os braços na frente do corpo e respiro fundo.
—Sim – respondo por fim -, e já que mencionou minha família, devo dizer que, com uma notável exceção, se tem uma coisa que ela me ensinou, essa coisa foi acreditar.
—Tudo bem – Bernard respirou fundo -, eu ainda acho que esta é uma causa perdida, mas vamos ao menos tentar e ver o que conseguimos fazer.
Assenti com a cabeça, Bernard abriu a porta e entrou na sala novamente, eu estava para segui-lo, se a coceira em minha mão não tivesse chamado minha atenção novamente, agora a coceira havia evoluído para uma ardência incomum. Arquejo de raiva e olho para minha mão direita, notando pela primeira vez a linha tênue e vermelha, parecendo uma cicatriz, atravessando a palma de minha mão. Lembro-me então de que fora exatamente ali que eu havia me cortado quando descia das costas do dragão, dentro da brecha do tempo. Meus olhos se arregalaram de surpresa.
—Está tudo bem, Laura? –Perguntou Bernard, parado á porta, segurando-a para eu pudesse entrar, hesito por um momento.
Neste exato momento, vejo um policial passar por perto no corredor, com uma caixa de evidencias em mãos, tão cheia que a tampa de papelão mal cobria o que havia ali dentro, vi que em sua lateral estava o nome da empresa que o Sr. Richards representa, assim como pude ver que, em um dos sacos plásticos de evidencias, visível sob a tampa, havia penas negras de um grande pássaro, com gotas sangue respingadas sobre elas.
—Está sim... –Digo, fechando o punho e abaixando a mão, entrando na sala novamente.
§
Ainda que meu interior se contorcesse de frustração, por causa da ardência em minha mão e de não saber o que fazer com a cicatriz que surgiu ali, eu não poderia me sentir mais tranquila ao sair da Scotland Yard, pois logo depois que Bernard anunciou para o Sr. Richards que pegaria o caso da empresa dele, o mesmo policial que eu vira com a caixa de evidencias bateu á porta, pedindo para falar com Bernard e o senhor Richards á sós, então, precisei me retirar da sala e esperar do lado de fora. Foi o que eu fiz, tanto que tive tempo de ir ao banheiro, lavar as mãos com a esperança de parar com aquela ardência –mas sem muito sucesso- e voltar. Quando aquela reuniãozinha acabou, já estava mais que na hora de eu ir para casa, mas pelo menos, Bernard estava muito mais tranquilo agora que sabia da existência das penas de uma grande ave no local da morte do operário.
No entanto, esta tranquilidade não durou tanto tempo quanto eu imaginava.
Ao passarmos pelo hall da delegacia, vimos que ainda havia muitas pessoas esperando para dar queixas de ataques de animais e até para prestar depoimento de mortes causadas, tanto por ataques de animais quanto por pessoas tendo ataques cardíacos por verem coisas que, pela lógica, não deveriam existir. Foi um sufoco sair dali e mais difícil ainda foi sair sem se perguntar o que raios estava acontecendo em Londres.
Já na rua, mesmo com o céu fechado pelas nuvens e pela neve que caia sem cessar, ainda não era muito notado o fato de as ruas estarem mais escuras, a tarde já chegava ao seu fim. Segurando minha bolsa firmemente junto ao corpo, caminho ao lado de Bernard, que estava calado desde que atravessamos a recepção da Scotland Yard.
—Está tudo bem, Bernard? –Pergunto, quando atravessamos a rua. Ele, por sua vez, esperou que chegássemos á outra calçada para responder-me.
—Está sim, Laura, é que eu estava pensando... Você acreditou em Richards antes mesmo que aparecessem as evidências, então só posso perdi-lhe desculpas por ter duvidado de você. Você estava certa, eu realmente não aprendi a simplesmente acreditar, mas minha mente simplesmente não consegue aceitar isso, entende? Acho que... Fé é uma dádiva, e eu não fui agraciado com ela. – Diz-me ele, olhando para o chão enquanto caminhava. Eu o olhei, querendo dizer algo, mas não pude, pois ele continuou logo em seguida: — Então, você deve entender que é difícil para mim, toda essa situação. Pessoas estão morrendo assassinadas, Laura, e ver evidencias de que os assassinos não são pessoas me assusta.
Neste momento, chegamos ao carro dele, dei um suspiro.
—Também me assusta – admito, por fim, antes que Bernard destravasse as portas do carro. –Mas como dizia minha tia, “se o problema tem uma causa, também tem uma solução”.
—“O Trono de Vidro”?
—O quê?
—O Trono de Vidro, é nesse livro que sua tia menciona essa frase?
—Não, mas acho que foi no livro “A Arte de Acreditar”.
—Ah, sim. Eu não li esse. –O admitiu, dando de ombros. Mas jurei ter visto uma pontada de tristeza em seu olhar.
“Deveria ler”, penso, mas não digo nada. Abro a porta do carro e entro, sentando-me logo em seguida. Coloco o sinto de segurança, enquanto Ben também entrava no carro. Logo, ele deu a partida.
Por todo o trajeto até minha casa, falamos pouco, e esse pouco nada tinha em relação aos acontecimentos estranhos por toda a Londres e, sem querer, olhávamos com atenção para as ruas e calçadas, buscando acontecimentos estranhos. Mas nenhum de nós viu nada.
Dez minutos depois de sairmos da Scotland Yard, o carro de Bernard estava parando bem à frente da porta de entrada da frente da minha casa. Tiro o sinto de segurança e pego a minha bolsa.
—O livro da Lúcia é bom? -Perguntou Ben de repente. Olho para ele e o vejo com as mãos no volante, sua cabeça pousava sobre suas mãos e ele mantinha os olhos fechados.
—Qual... -hesito em responder. -Qual deles?
—A Arte de Acreditar. Esse livro é bom?
—Bom ao ponto de ter estado quinze semanas consecutivas no topo da lista de mais vendidos do The New York Times. -Respondi, com não mais que um murmúrio.
—Mas este foi o último que Lú publicou. -Bernard diz, mas esta não é uma pergunta.
—Sim. -Digo. Ele ainda não se moveu. -Ben? -Eu era a única que o chamava de Ben, todas as outras pessoas que o conhecem de longa data o chamam de Bern. -Ben, o que foi?
—Não entendo, Laura -murmurou ele- já se passaram oito anos. Oito anos! E eu ainda não suporto ouvir falar de Lúcia. Quando ela vivia, amava outro homem e depois de sua morte, seus livros não saiam do topo das listas dos mais vendidos.
—O que você está dizendo Ben? Você... Você gostava da minha tia?
—Gostar? -Ele riu, sem humor. -Eu a amava. Mas do que isso me adiantava se ela nunca percebeu? Ela amava outro homem, nunca consegui descobrir quem, mas, certamente, não era eu. Acho que isso me fez ter uma certa aversão à pessoas otimistas de mais e mais ainda à acreditar sem provas, porque ela era ambas as coisas sem perceber... Mesmo com meu bom humor, eu fui o oposto de Lúcia durante o tempo que convivemos.
Que estranho, observei, parece que quase todos com quem convivo, seja na universidade ou no trabalho, tem alguma afeição ou uma história para contar sobre meus tios e/ou minha tia.
—Você sabia que você se parece muito com a Lú? -Perguntou ele, me olhando agora. -O tom de seu cabelo, mesmo que o tom também tenha algo de Maicon, me lembra muito mais ela. Mas seu rosto é muito mais o de Susana... -Ele se cala por um segundo, antes de rir de si mesmo. -Espero que você não ache essa observação estranha.
—De forma alguma. Você conviveu com minha família por muitos anos, Ben, é normal sentir falta dela .
—Mesmo depois de todos esses anos? -A sobrancelha dele se arqueou.
—Bom, eu ainda sinto. -Digo-lhe, sincera. -E depois, você não pode me vir com uma dessa de “observação estranha” depois de me contratar como sua estagiária à quase um ano.
Ele deu risada.
—Quanto à isto, sou culpado da acusação, sim, excelência. Mesmo assim, devo dizer, em minha defesa que, seu a contratei, foi porque vi em você qualidades que eu prezo e que são, ou eram, comuns aos Pevensie.
—Jura? Como quais?
—Você sabe quais são, Laura, não me venha com essa.
—Não me venha com essa você, Ben, começou, agora termine.
—Me dê um tempo para lembrar, ao menos…
Olho por um segundo para minha casa, as janelas do primeiro andar já todas acessas, assim como a luz da varanda e as luzes do jardim, parercia que minha casa iria festejar o Natal fora da época devido à tanta iluminação. Já nos andares superiores, somente as luzes do quarto dos meus pais estava acesa. Só faltou a sombra da minha mãe na janela, espiando para ver que horas eu entraria em casa…
—Vamos, Ben, fale logo! -Respondo, tornando à olhá-lo novamente. -Eu não tenho muito tempo, daqui a pouco minha mãe aparece aqui, para me arrastar para dentro de casa.
Ele sorriu novamente.
—Bom... Você é audaciosa como Lúcia, inteligente como Edmundo, observadora como Susana e decidida como Pedro. Claro, havia um pequeno defeito à todos, que era duvidar de suas próprias capacidades, mas com o amadurecer, eles começaram a desevolver melhor a autoconfiança; eu vejo que você está passando por esta mesma fase de transição. E também sei que, somando com a sabedoria de Maicon, você vai passar por esta fase e não vai ficar se gabando por isso depois.
—Não posso garantir nada.
—Engraçadinha... -Ele riu. -Agora vá, mocinha, antes que Susana queira fazer uma reclamação formal contra mim por fazer você chegar atrasada ao sagrado compromisso formal de Susana Pevensie Willians. Eu... vou voltar para a Scotland e tentar descobrir o que se passa por Londres.
Foi minha vez de dar risada. Saio do carro logo em seguida dizendo à ele:
—Boa sorte com isso então, Ben. Amanhã você me conta o que descobriu?
—Certamente, madame.
—Ok, mantenha os olhos bem abertos, heim? Boa noite Ben... -Sorri e ascenei.
—Boa noite, Laura. -Bernard se despede com asceno de cabeça e, dando a partida no carro, logo ele sumia rua abaixo. Respiro fundo antes de me virar e caminhar até a porta. A única coisa que não me fazia querer me virar e simplesmente ir até a casa de Jessica e ficar por lá até a hora do fim desse jantar era saber que meu pai precisa de mim e que Nathan dissera que me daria respostas. E só.
Ao entrar no hall da entrada, já me deparo com a casa impecavelmente limpa, organizada de forma que nossos melhores objetos de decoração estavam à mostra. Atravessei a sala de estar e notei que, no lugar onde antes estava a minha coleção de livros raros, que Edmundo deixou para mim, estavam três estátuas feias de uma matéria-prima escura e que em nada tinha de harmonioso com o ambiente iluminado que era a sala. Franzindo o cenho, me direciono à cozinha.
—Elena, o que está acontecendo aqui? Onde está os livros que meu tio deixou para mim? -Pergunto à primeira criada que vejo ao entrar na cozinha, onde ela e mais outras duas, Heather e Louisa, se empenhavam tanto para fazer nosso jantar e manter a casa em ordem. Elena leva um susto ao me ver.
—Ah, Srta. Willians, que bom que chegou! Sua mãe já estava ficando ansiosa por sua chegada. -Diz-me Elena, visivelmente cansada de um longo dia de trabalho.
—Tudo bem, mas onde está os meus livros?
—Os da sala?
—Sim.
—Estão em cima da sua mesa de escrivaninha, em seu quarto.
—Mas por quê?
—Porque sua mãe ordenou. Desculpe-nos, Srta., nós sabíamos que você não iria gostar disso, mas se não obedecêssemos...
—Compreendo. Mas não o que eu não entendo é o por que disso.
—Nós também não. Mas Susana disse que as estátuas, no lugar de seus livros, dariam um ar mais sofisticado à sala de estar. -Elena revela, limpando as mãos num pano branco.
—O que têm de sofisticado naquelas estátuas horrorosas?
Elena franziu os lábios e ergueu as mãos no ar, como quem que dizer “Eu não sei!”. Suspiro, massageando as têmporas.
—Tudo bem, deixe para lá. Minha mãe esta no andar de cima?
—Sim.
—Ok, eu vou lá então, conversar com ela.
Sem mais delongas, saio da cozinha, atravesso a sala de jantar e, ao chegar á sala, subo as escadas que levam ao andar superior, em passos arrastados. Eu não queria, mas eu teria de encarar minha mãe uma hora ou outra. Nos últimos degraus que daria acesso ao segundo andar, abro minha bolsa, meus dedos passam sobre a superfície reconfortante, fria e liza da lanterna, enquanto eu tentava decidir se contaria tudo à ela ou não.
Por fim, pensei que seria melhor esperar por enquanto e, na hora mais propícia, eu contaria para ela e ao meu pai tudo o que aconteceu hoje de manhã na biblioteca e talvez darei um jeito de Nathan estar por perto nesse momento.
Atravesso o corredor e, quando chego ao quarto de minha mãe, hesito, mas logo bato à porta.
—Entre. -Escuto a voz de minha mãe, grave e suave. Respiro fundo e entro.
—Oi mãe. -Digo, e logo eu a vejo sentada à mesa de sua penteadeira, colocando um brinco dourado em seu lóbulo direito, já vestida com um elegante vestido azul marinho longo, salto altos pretos e seu cabelo descia em seus ombros em anéis negros. Seu rosto não tinha muita maquiagem, devido ao rosto belo que ela possui naturalmente. Ela realmente parecia uma rainha.
—Laura! Que bom que chegou, filha, achei que você não viria. -Minha mãe levantou e aproximou-se de mim em passadas rápidas. Colocando uma mão em ombro, ela me olhou bem. -Você precisa tomar um banho antes de se vestir. Olhe só para o seu cabelo, está todo embaraçado…
—Somando o fato de eu ter levantado tarde e que nevou o dia inteiro hoje, não estou surpresa com isso. -Hesito por um segundo, mas eu tinha que tirar minha dúvida. -Mãe, por que você mandou tirarem meus livros da estante da sala?
—É só por hoje. -Garante ela.
—Sim, mas eu quero saber por quê.
—Porque sua coleção de livros foi lhe dada como herança de Edmundo, e com os Crawford aqui, desejo que haja o mínimo de lembranças possíveis de Ed, Lú e Pedro espalhados por todo o primeiro andar. Pois, pelo que me lembro, George e Evelym nunca gostaram muito de seus tios e eu estou tentando deixar nossa casa o ambiente mais agradável possível aos nossos convidados.
George e Evelym Crawford são os pais de Nathan, sendo que Georgie trabalha para o Parlamento e a Evelym é a coordenadora de uma revista de conteúdos gerais de Londres. Ambos se merecem, duas pessoas desagradáveis e que não tem o menor senso de humor.
Ainda com a mão dentro de minha bolsa, fecho os dedos de minha mão, que ainda ardia, firmente em volta da lanterna, me segurando para não explodir de raiva.
—Esta é nossa casa! Se eles querem um ambiente que não lembre meus tios, SEUS IRMÃOS, deveriam ter marcado esse jantar num restaurante!
—Acho que agora é um tanto tarde para mudar. -Diz ela, dando um ligeiro passo para trás, olhando-me melhor. Um segundo depois ela comenta:- Há algo diferente em seu olhar, Laura. Aconteceu alguma coisa?
—Aconteceu muita coisa hoje, mãe. -Retruco, começando demonstrar meu mau humor. -Bem, se me der licença, agora vou tomar um banho…
—Apenas mais uma coisa, Laura. -Diz minha mãe, quando eu estava por sair de seu quarto. Parei junto ao batente da porta e a olhei, já estando um pouco impaciente. -O que há em sua bolsa de tão importante que você parece segurar com tamanha firmeza?
“Droga”, penso, fechando os olhos por um breve segundo. Admito que neste exato momento eu não queria mostrar à ela a lanterna, pois eu não sabia qual seria sua reação. Mas minha mãe foi rainha em Nárnia, mesmo que ela mesma se recuse a acreditar em seu ppassado e, ainda que ela possa reagir mal, ela ainda é minha mãe, tem todo o direito de saber.
Respiro fundo e puxo a lanterna para fora da bolsa. No mesmo momento, minha mãe me olhou com os olhos arregalados, apavorados, recuou alguns passos para trás e uma mão subiu a boca, tampando-a. Foi a mesma coisa que se eu tivesse tirado o pino de uma granada e jogado dentro do quarto dela.
Minha mãe ficou histérica, o que me assustou, de forma que eu recuei para o corredor, mas minha mãe não ousou se aproximar muito de mim ou tentou tirar o equipamento prateado de minhas mãos. Obviamente, ela reconheceu a lanterna, de onde ela veio, as marcas em sua estrutura deixavam claro que esta lanterna sofrera vários impactos de batalhas que não se vivem em nosso mundo.
—Onde você conseguiu isso?! -Minha mãe exclamou. Distraidamente, ligo e desligo o brilho do equipamento, para testar se ela ainda funciona na frente de minha mãe, eu não queria fazer isso para ser maldosa, apenas queria que ela visse que esta é uma prova real de que o passado dela também é real, ela acreditando nisso ou não.
—Como acha que ela veio parar em minha posse, mãe?
—Isso é impossível!
—Já ouvi algo parecido hoje. -Respondo, irônica. Minha mãe ficou em silêncio por vários minutos, olhando fixamente para a lanterna em minhas mãos.
—Ah, Edmundo… -Sussurrou tristemente minha mãe, sua histeria se acalmou por um momento, minha mãe estendeu a mão, como se quisesse pegar a lanterna, mas sua mão hesita.
—Não, não, não... -Minha mãe recolhe sua mão e a outra a segura, junto ao corpo dela. Minha mãe estava se impedindo de aceitar isso. -Não pode ser real!
—Mas ela é, mãe!
—Não, não é! -Exclama ela.
—Mãe, tome, segure ela... -Digo, tentando ser delicada e estendo o objeto à ela. — Segure-a, veja, ela é real.
Ao invés de fazer o que eu pedia, minha mãe recuou, como se eu tivesse uma doença grave e estivesse tentando a infectar de propósito.
—Não! Tire isso da minha frente, guarde-a e não torne a me mostrar novamente!
—Mas mãe...
—AGORA LAURA! E NÃO OUSE MOSTRAR ISSO AO SEU PAI OU A NATHAN ESTA NOITE, OU EU JURO QUE A FAREI SE ARREPENDER!
Com isso, minha mãe entra em seu quarto, fechando a porta com força.
§
De olhos arregalados, ainda assustada com a reação de minha mãe, fico paralisada no meio do corredor, juro que tentei não ficar magoada com a atitude dela, mas foi difícil. Por outro lado, agora, sei como meus tios se sentiam quando minha mãe fingia não saber de nada relacionado à Nárnia. Cabisbaixa e em silêncio, caminho todo o restante do corredor até meu quarto, onde me tranco. Apoio as costas na madeira, o frio da lanterna já não conseguia aplacar meu incomodo, sinto então meus olhos arderem mais que minha mão durante esta tarde.
—Eu só queria que minha mãe voltasse a ser como as histórias dizem que ela era em Nárnia -sussuro, olhando para o objeto prateado numa mão e a cicatriz ardente na outra. As lágrimas não sairam e eu não permiti que as fizessem. Por mais triste que eu estivesse, precisei lembrar que meu tempo antes do jantar estava se esgotando e era lá que eu teria o apoio de duas pessoas que realmente acreditam (meu pai e Nathan), então seria nisso que eu teria de me agarrar, por enquanto.
Após um silencioso e longo banho, onde eu esperava que a água relaxasse meus músculos e acalmasse a angústia em meu peito, tento me secar e me vestir da forma mais arrastada possível. Depois de pentear meu cabelo, decidindo deixá-lo secar naturalmente e de colocar um vestido elegante, vermelho, decorado com redas e pedrinhas de brilhantes na cintura, de mangas compridas, cuja barra da saia batia em meus joelhos, enrolando uma echarpe, também vermelha, em volta do pescoço, me sento em minha cama, virada para a janela que dava vista para o jardim da frente. Quando eu terminava de calçar meus sapatos, brancos e de salto baixo, pude ouvir um carro estacionando na rua, em frente à minha casa. Olho para a janela e vejo que era o carro de meu pai.
Eu ainda estava olhando para fora quando meu pai, que usava calças sociais pretas, camisa social branca e um colete também preto por cima, saiu do carro, deu um passo para trás e abriu a porta traseira do carro, de onde meu irmãozinho, Liam, em seu uniforme de “mini-empresário”, que era obrigatório em sua escolinha, saltou logo em seguida, correndo pelo jardim com seu avião de brinquedo na mão esquerda.
Liam correu em círculos pelo gramado coberto de neve, deixando para trás um verdadeira trilha caótica de pegadas, e fazendo barulhos engraçados de avião com os lábios. Meu pai, apesar de estar visívelmente cansado, riu. Virando-se para o banco traseiro, tirou de lá o casaco do seu terno e mais uma pequena pilha de pastas e arquivos.
Ao caminhar metade do trajeto até a porta da frente, papai diz, sua voz grave e forte foi facilmente ouvida ainda daqui:
—Venha Liam, vamos entrar.
—Ah, pai… -Liam reclamou fazendo um som de tristeza, ainda assim, ele correu para junto de meu pai, obediente. Colocando as pastas e o casaco no mesmo braço, meu pai pega Liam no colo.
—Hoje papai tem visitas -diz ele calmamente para Liam -, então se você se comportar direirtinho, ganhará sobremesa em dobro hoje.
—Eba! Soblemesa em doblo! -Exclama meu irmãozinho, batendo palminhas.
Tanto eu quanto meu pai damos risadas. Me levanto e corro porta a fora, mesmo de salto e me apresso para chegar á sala, para recepcioná-los.
—Oi, pai, oi Liam… -Digo, quando chego à sala e vejo meu pai entrando pela porta da frente com Liam ainda nos braços.
—Oi Lala- diz Liam fofuchamente. Dei um beijo na bochechinha gordinha de meu irmãozinho, que riu.
—Oi querida, você está linda. -Diz meu pai enquanto ele deixava Liam no chão e sacudia o cabelo para que a neve que caíra ali caísse no chão. Dou um belo sorrido e pego as pastas e arquivos da mão dele e, com o outro braço livre, o abracei.
—Obrigada pai -sorri, feliz por vê-los bem. -Vou deixar essa sua papelada no seu escritório. Ah, e a mamãe está trancada no quarto.
—Obrigado, mas... aconteceu alguma coisa à ela?
—Depende. Se a mamãe quiser admitir que eu mostrei algo à ela que a perturbou. Mas eu não vou falar nada a respeito, pelo menos por enquanto. -Dou de ombros e volto-me para subir as escadas, agora tanto com Liam quanto com meu pai em meu encalço.
—Lala, sabia que o papai vai dexa eu comer soblemesa em doblo hoje? -Diz Liam, puxando a barra da saia de meu vestido para chamar minha atenção.
—É mesmo, Liam? -Perguntei, animada. É tão difícil ficar de mau humor perto de Liam e toda sua fofura.
—É, mas ele disse que seria isso se eu me compotasse. -Liam responde.
—Exatamente, mas filho, por que você não vai ver se o jantar está pronto? -Diz meu pai, antes que começássemos a subir as escadas. -Você pode aproveitar e ver o que teremos de sobremesa hoje.
—Legal, tomala que seja chocolate quente... -Liam exclamou, correndo até a cozinha.
—Então querida, como foi o seu dia? -Perguntou meu pai, enquanto subíamos as escadas. Tento pensar um pouco antes de responder.
—Agitado, acho que esta é a palavra certa. Muita coisa estranha aconteceu hoje.
—Ah é? -Diz ele arqueando uma sobrancelha. -Como o quê? Ataques de feras?
—Tem algo em relação à isso sim. -Digo. Então, as notícias dos ataques chegou ao Parlamento. Ele parou no meio da escada para me olhar.
—Você está bem? Algo te machucou?
—É mais dificil do que o que eu posso lhe explicar agora pai.
—Ahã… Então essa cicatriz em sua mão tem uma explicação, não?
Ergo minha mão com a cicatriz, surpresa. Meu pai não deixa escapar nada.
—É uma longa história pai, uma que talvez você não acredite.
—Querida, depois de hoje, eu não duvido de mais nada. -Ele revela, num tom de voz baixo, como se quisesse deixar isso em segredo. -Meus colegas do Parlamento pretendiam deixar todos os ataques estranhos que vinham acontecendo na cidade nas mãos da Scotland Yard, isso até que nós fossemos atacados hoje por aves e feras negras grandes, felizmente, ninguém morreu, mas muitas pessoas ficaram feridas. Foi um verdadeiro caos!
—Caramba, mas, pai, por que está me contando isso como se fosse segredo?
—Aí é que está minha filha! Durante o ataque, foi se ouvido um rugido por todo o local, e todas aquelas criaturas fugiram em disparada, tanto pelas portas quanto pelas janelas, alguns homens tentaram capturar algumas delas, mas foi impossível! Fora a bagunça deixa para trás, não havia vestígios dos animais! Fomos mandados recolher nossos materiais, pastas e arquivos, voltar para casa e não falar nada para ninguém, querem manter isso tudo em sigilo. Por isso estou te contando. Sinto que você é a única em nossa casa a quem posso confiar essa informação. Sua mãe certamente não acreditaria em mim e seu irmão é pequeno de mais para entender o que eu digo. E por fim, tem mais uma coisa. Eu vi um leão dourado caminhar pelo andar onde trabalho quando todos estavam recolhendo suas coisas. Tenho certeza de que fui o único a vê-lo, pois ninguém mais o reparou, como se este foi invisível à todos, menos à mim! E por onde ele passava, meus colegas se tranquilizavam ou ficavam mais inquietos. Eles o sentiam, mas não podiam o ver! Eu mal pude acreditar em meus próprios olhos! Um leão andando pelo Parlamento sem ser notado, mas tão à vontade… De repente, o leão parou e me olhou, sem dizer nada, comecei a me sentir calmo e feliz, do nada, no momento seguinte, ele já havia desaparecido! Eu nunca vi coisa parecida a não ser… -ele hesitou, tomando fôlego- a não ser nas histórias de Nárnia que Ed, Lú e Pedro contavam.
Ele me olhou, vendo minha reação, talvez fosse algo bom, já que ele se encheu de coragem e diz:
—Laura, eu sei que não estou louco, mas ainda não acredito que eu vi Aslam em pessoa!
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