A Herdeira do Caos ☥
2 Camille ☥
A manhã do novo dia que começava a despontar em Nova Orleans era exatamente igual à todas as outras: com raios de sol se camuflando por entre as nuvens, deixando de exercer sua única obrigação de iluminar a rua movimentada abaixo e as pessoas que passavam por ela, apressadas, preocupadas, atrasadas como sempre. Uma brisa suave, típica do outono, desprendia muitas folhas coloridas e pétalas secas de flores, que voavam preguiçosamente dos galhos das árvores para o chão e traziam a sensação de melancolia à tona.
Camille poderia passar horas observando a paisagem monótona de sua janela, no quarto 33 do terceiro andar do orfanato da cidade. Ainda mais com a visão do lindo e majestoso falcão que sobrevoava os arredores do local todos os dias, parecendo querer dar bom dia para ela. A garota tinha um carinho especial pelo animal. Nunca teve a oportunidade de se aproximar dele, mas se sentia segura e protegida quando ele estava por perto, como se a ave zelasse por ela.
Mesmo ciente de que já deveria estar se arrumando para descer até o salão principal, a garota procrastinava o máximo que podia, tentando evitar essa temível hora do dia que já era rotina há 16 anos.
Desistindo de ficar mais tempo na cama, Camille se levantou e pegou suas coisas para ir até o banheiro e se preparar para o café da manhã e as visitas e entrevistas do dia. Calçou os chinelos e foi caminhando no que parecia um corredor infinito até a pequena porta, e quando finalmente chegou, sentiu um empurrão e foi jogada de lado, recebendo uma porta fechada em sua cara logo depois de ouvir de sua colega de quarto, Lexa, um debochado “Opa, está ocupado.”
— Ah, ótimo. E lá vamos nós pra mais um dia. – Já completamente desperta, a garota caminhou novamente até sua cama e levantou uma das pontas do colchão, pegando um pequeno caderno azul, já bem desgastado pelo tempo.
No criado ao lado, pegou uma caneta, e, se sentando novamente na cama, começou a escrever.
Alguns minutos depois, Lexa abre a porta do banheiro, e, vendo a cena à sua frente, cruza os braços e encosta na parede, com um sorriso maldoso nos lábios.
— Querido diário, – A garota começou num tom de voz provocativo – Hoje eu vou ser notada, porque eu vou dar a patinha, sorrir, e fazer pose para os meus futuros papais. Porque eu sou uma boa cadelinha. – Lexa caiu na gargalhada após suas palavras e balançou a cabeça em sinal de negação. – Você é patética.
Camille parou o que estava fazendo e levantou a cabeça para encarar Lexa, retribuindo no mesmo tom:
— Querido diário, eu não tenho esperança nenhuma de encontrar uma família, então eu vou atazanar a vida de qualquer um que esteja feliz do meu lado, porque eu sou um ser das trevas que se alimenta de maldade no café da manhã. – A mais nova sorriu com raiva. – Pelo menos eu não estou à alguns meses de fazer dezoito anos e ser chutada daqui sem nenhuma perspectiva de uma boa vida lá fora, Lexa.
Levantando-se ainda com o diário em mãos, ela foi até o banheiro, imitando o gesto da mais velha e esbarrando nela propositalmente ao passar do seu lado e fechar a porta.
Camille nunca entendeu o motivo de Lexa ser tão baixo astral e de mal com a vida. A garota era amarga com todos à sua volta, tratando com grosseria desnecessária qualquer um que passasse do seu lado à qualquer hora do dia. Ouviu algumas histórias que rondavam a boca das crianças que moravam ali também, mas não se importava com isso.
Depois de fazer sua higiene matinal e trocar de roupa, a garota saiu do banheiro e abriu a porta do quarto, pronta para ir para o refeitório.
— Boa sorte no dia do “Adote o seu Cãozinho”. Tomara que você ache uma família com vale Pet Shop pra comprar vários lacinhos que combinem com seu pêlo exoticamente laranja. – Lexa riu alto ao se referir à cor do cabelo da mais nova.
— Você não vai estragar o meu dia, Lexa. – Camille falou simplesmente e bateu a porta do quarto, saindo irritada de lá.
Respirando fundo e pisando forte, a garota quase atropelou alguém que passava pelo corredor.
— Uau, estou atrapalhando o furacão de seguir seu curso natural e levar tudo que vê pela frente junto com ele? – Uma voz doce e conhecida fez Camille relaxar e suspirar aliviada.
— Atrapalhando? Você está é me salvando de cometer um assassinato. Eu odeio aquela menina. – Melanie quase perdeu o ar com o abraço inesperado de Camille. – Por que aquela desgraça tem que ser tão mal humorada e querer estressar qualquer um que tenha o mínimo de felicidade e alegria que ela não tem naquele coração sombrio dela?
A gargalhada da amiga resultou em um olhar fulminante.
— Fala sério, o que seria desse lugar sem as brigas de vocês? Única coisa animada que acontece constantemente por aqui! Não me imagino sem. Sério, vocês são as melhores.
— Você acaba de entrar para o segundo lugar na minha lista de homicídios para hoje. – Camille tentou sem sucesso ficar séria ao dizer aquilo, caindo na risada logo depois.
— Para, você não seria nada sem mim! – Melanie sorriu jogando os cabelos em um gesto teatral e indicou o caminho com a cabeça para que elas continuassem seguindo. – O que ela fez dessa vez?
— Argh, nasceu. E ela tem uma fixação estranha com cachorros, já aviso. Mas dane-se também. Meu estômago tá roncando e ele não merece essa perda de tempo.
— Essa definitivamente foi a única coisa sensata e útil que saiu da sua boca em todo esse tempo que eu estive aqui. – A voz de Lexa ecoou atrás das amigas que se viraram imediatamente para encará-la. – E sobre os cachorros... Eu prefiro gatos. Cachorros fedem. – A garota fez uma pausa, olhando-as de cima a baixo. – E acho que um perfume cairia bem.
Lexa enfiou as mãos nos cabelos castanhos e jogou-os para as costas, passando ao lado delas como se as mesmas nem estivessem ali. Camille a encarou com ódio, desejando do fundo do coração que ela caísse e arrebentasse a cara no chão.
Alguns segundos depois, Lexa tropeçou em seus próprios pés e perdeu o equilíbrio, mas não chegou a cair, recuperando a pose logo depois como se nada tivesse acontecido.
Melanie lançou um olhar para Camille, que ainda fuzilava a morena pelas costas, e riu alto, já vermelha de tanto segurar.
— Eu não sei como você não se diverte com ela, chega a ser hilário. – A amiga comentou baixo para que Lexa não ouvisse. Percebendo alguns segundos depois que a ruiva não a acompanhava na risada por estar em uma espécie de transe, Melanie chacoalhou a mão na frente do rosto de Camille. – Ei, terra chamando Camille. Você está bem?
Perdendo o foco por alguns instantes, a ruiva desviou o olhar e encarou a amiga, rindo.
— O poder da força do pensamento é sensacional. – Disse se referindo ao que havia acabado de acontecer. – Eu não poderia estar melhor.
— Você não existe. – Ainda rindo, as duas finalmente seguiram para o refeitório, dessa vez sem interrupções.
O refeitório não tinha nada de especial ou diferente do padrão de outros lugares: era um ambiente relativamente grande, com paredes brancas com alguns quadros de frutas as enfeitando e algumas mesas espalhadas pelos cantos. No centro havia uma mesa maior que as outras, onde ficavam distribuídas as refeições do dia, como em um self-service.
— Guarda na sua bolsinha pra mim? Até esqueci que ainda estava com ele nas mãos. – Camille se referiu ao diário.
— Claro, sem problemas. – Melanie riu fraco e pegou o pequeno caderno, guardando o mesmo consigo. – Só me lembra de devolver depois, sabe como é a minha memória.
— Pode deixar – Camille acompanhou a risada da amiga e as duas foram se servir na mesa central.
Sentindo a barriga roncar, as amigas pegaram bolinhos, pães e o que mais havia por ali. Sentaram-se juntas em uma mesa, comendo e conversando alegremente, até notarem Lexa, pensativa, sentada sozinha e isolada num canto.
Percebendo que as duas a olhavam, a morena se levanta com raiva e sai do lugar indo para o jardim externo do orfanato, mas não sem antes derrubar de propósito sua bandeja de comida em alguns garotos que estavam comendo em uma das mesas.
— Qual é o problema dessa garota? Definitivamente ela não é normal. – Camille comenta com desprezo ao ver a atitude dela.
— Sei lá. Deve ser frustrada com a vida e desconta isso em quem não tem nada a ver. – Melanie respondeu dando de ombros. – O que acha que vai ser do dia de hoje? – Perguntou mordendo um bolinho.
— Não sei, mas espero que algo bom aconteça pra compensar essa onda ruim. – Concordando com a cabeça, a morena riu.
— Que horas será que são?
Camille olhou pra fora e deu de ombros.
— Pela posição do sol acho que já são dez e meia. – Disse olhando para fora e vendo de relance o mesmo falcão de antes voar para cima de Lexa no jardim, desviando e deixando de atacá-la no ultimo instante, indo pra longe. A garota soltou um sorriso fraco.
— Que foi? – Melanie olhou pra mesma direção que a amiga fitava.
— Nada, só lembrei de uma coisa. – Mentiu. – Enfim, tá quase na hora das famílias chegarem. Está nervosa?
— Não é como se fosse novidade, fazemos isso todo dia. – A amiga respondeu sem expressão. – To acostumada.
— Tem razão.
As duas terminaram de comer e levaram as bandejas até a cozinha. Depois de um tempo voltaram e sentaram novamente na mesma mesa, esperando mais alguns minutos para as visitas entrarem.
Camille começou a batucar os dedos num gesto de ansiedade e nervoso e a amiga riu vendo a cena. Ia falar alguma coisa para acalmá-la, mas a voz da dona do orfanato, Sra. Moore, soou no microfone, cortando-a antes mesmo de começar:
— Crianças, as famílias vão entrar. Quem tiver entrevista marcada pode comparecer a minha sala e aguardar enquanto faço a recepção dos visitantes. Os demais podem permanecer onde estão, pois todo dia é dia de esperança. – A Sra. Moore era uma mulher de meia idade, baixinha e gorducha. Era muito simpática com todos ali, e sempre estava sorrindo esperançosa pelas crianças. Ela mantinha o alto astral do lugar mesmo nos dias mais tristes, e, independente da situação, ela sempre achava um jeito de estar perto das crianças e ajuda-las no que precisassem.
Camille e Melanie puderam perceber pela voz da mulher que ela sorria ao falar aquilo no microfone.
Alguns segundos depois, a Sra. Moore apareceu e abriu as portas do lugar, deixando que as famílias interessadas em uma possível adoção entrassem e conhecessem as crianças.
— E aí? Tá vendo alguém que parece ser uma alma boa olhar pra você? – Camille perguntou olhando em volta, observando todos os rostos ali. Depois encarou Melanie.
— Hm, to sim... Coincidentemente estou falando com ela! – A morena coloca a mão no peito fingindo cara de surpresa e cai na risada. – Mas falando sério, ainda não, e você?
— Ah, olha pelo lado bom! Se nada der certo, a gente sai daqui e vamos morar juntas. – A ruiva diz pensando nos filmes clichês que a Sra. Moore já havia passado algumas vezes nas tardes de sábado. – Não também. Mas fé. – Ela continuou, sem se deixar abalar.
— Isso é sério? – Melanie deixou um sorriso espontâneo nascer em seu rosto. – Porque se for, eu super topo! – Em um gesto sonhador, a garota colocou as mãos no queixo e os cotovelos nos joelhos, vendo todas aquelas famílias conversando animadas com as crianças ali ao redor. – Mas isso aí, Mille. Fé. Qualquer coisa, sempre tem outro dia, outra pessoa e outra oportunidade. Se não der certo hoje, a gente dá um jeito de entrar na cozinha e pegar um monte de comida gostosa pra afogar as mágoas. – Ela dá uma piscada e ri.
— Claro que é sério! Não é como se a gente tivesse que esperar uma eternidade, né? – Camille fala pensando nos dois longos anos pela frente e tenta não fazer uma careta. – Que ideia maravilhosa! – Ela continua se referindo à cozinha e a comida. – Mas tenho uma ideia melhor.
Melanie arqueou as sobrancelhas com a cara da amiga.
— E qual seria? – Perguntou animada.
— Na hora certa você descobre! – Fazendo uma cara misteriosa, Camille ri vendo que deixou a amiga curiosa. – Você não perde por esperar.
As duas amigas continuaram ali, sem se deixar abalar, conversando e rindo por mais um longo tempo, esperando na esperança de que alguma família fosse até elas naquele dia.
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