Capítulo III

Brincou com a caneta entre os dedos, virando-a numa posição e depois noutra, esperando que aquela brincadeira idiota a fizesse lembrar alguma coisa inútil chamada Escalonamento de matrizes. Estava fazendo uma prova de Matemática, mas pela primeira vez na vida estava indo mal. Inúmeras vezes pôs culpa no homem da noite anterior que a obrigou a passar a noite inteira no hospital e durante a madrugada procurar rastros de algum parente que ele pudesse possuir e só voltou para casa a tempo de tomar um banho e sair para a escola.


Às vezes parecia que algumas pessoas existiam somente para complicar ainda mais a vida de outros, nesse caso, a sua.


Olhou para o relógio Rolex no pulso esquerdo. Faltavam dez minutos para o encerramento da prova e a sala ainda estava cheia. Foda-se. Pensou e rabiscou qualquer coisa no lugar para resposta e se levantou para entregar a prova a fiscal. Sorriu seu melhor sorriso nos lábios pintados de batom pêssego e saiu da sala enquanto os olhares seguiam o trajeto de seus cabelos longos e escuros pelo corpo esguio.


No corredor, finalmente respirou aliviada e sorriu um sorriso bobo que só ria quando estava sozinha e caminhou sem um rumo definido pelo pátio, mas quando percebeu estava na entrada da biblioteca de frente para um rapaz bonito que acabava de sair de lá.


Epa, não o conhecia. Tremendo desperdício de músculos ele estar segurando tantos livros e tentando se equilibrar enquanto puxava a maçaneta, se esforçando para não fazer barulho. Quando a viu quase caiu para trás, mas a porta preta o deteve.


- Oi. – disse tentando parecer simpática. – Não conheço você.


- Meu nome é Tales.


Tinha cabelos escuros e despentados e uma pele bronzeada que ela adoraria morder cada pedaço, bem devagar, tentando se lembrar do que o gosto a fazia recordar. O uniforme também estava bagunçado e caso ele não fosse tão nerd pensaria que tinha acabado de dar uns amassos com alguém entre as estantes empoeiradas da biblioteca.


- Legal. – e dessa vez realmente o quis dizer. – Ei, estava pensando em dar uma festa esse final de semana. Anota aí meu telefone num desses livros e me liga para perguntar a hora, que tal?


Ele lhe emprestou uma caneta e ela anotou com sua letra redonda e bonita os números de seu celular e sorriu novamente antes de dar meia volta e fazer o caminho de volta.


É, uma festa não era má idéia afinal. O pai sairia mesmo naquele final de semana para uma reunião com os ex-amigos da Liga da Justiça e só retornaria na segunda-feira. Parecia que tudo coincidia para dar-lhe um fim de semana perfeito com um cara quase perfeito – ele só tinha de ser menos mané e mais gato, mas ela sabia que era o tipo de garota por quem alguém hipotecaria até a casa, quanto mais mudar o estilo de se vestir.


No decorrer da semana providenciou tudo sem se importar com o dinheiro que estava gastando. Informou os empregados da festa e continuou cumprindo seus deveres de super-heroína, revezando essa tarefa com os trabalhos de casa e as últimas provas do semestre. Saiu para comprar um vestido novo e após dias de procura decidiu-se por um curto de alças finas rendado e assinado por algum estilista famoso, que combinaria perfeitamente com o novo par de botas que acabara de comprar.


No dia da festa recebeu o telefonema que tanto (e não tão tanto) aguardara.


- Eeei! – exclamou realmente feliz e jogou-se na poltrona da loja enquanto analisava suas pernas no espelho de corpo inteiro. – Estou feliz que tenha ligado. Me dá seu endereço e mando um convite para você hoje mesmo.


Na volta a casa passou no salão e cortou o cabelo em camadas e enquanto esperava sua vez para a manicure ligou para a gráfica e providenciou para que entregassem um convite na casa de Tales, para a festa do dia seguinte.


Contou as horas como se fossem segundos e quando se deu conta já havia se despedido do pai havia horas e estava de frente para o espelho no quarto observando como os cabelos caiam nos ombros e depois nas costas nuas pelo decote traseiro do vestido. As pernas tão longas brilhavam de brancura e se contrapunham às botas de cano longo pretas que batiam nos joelhos. Mordeu metade do dedo indicador de excitação e correu para baixo, para o jardim, onde começou a dançar sem se importar que estivesse sozinha. Fechou os olhos e sentiu a música tomar conta de cada célula heterotrófica em seu corpo e quando os abriu novamente o lugar já estava lotado de pessoas num caos ordenado e glamuroso.


Levantou os braços para o ar e jogou o champagne da taça nos próprios cabelos enquanto fechava os olhos novamente e sentia o líquido correr por seu rosto e então sentiu alguém cutucar-lhe o ombro. Virou-se para trás e não precisou abrir os olhos. Jogou-se nos braços de Tales e o beijou como nunca beijara ninguém e antes que pudesse se dar conta estavam os dois deitados nus em sua cama e havia uma gritaria enorme do lado de fora da casa.


Imediatamente seu instinto de heroína se aguçou e começou a catar suas roupas pelo quarto, ignorando completamente o que o rapaz balbuciava da cama, mas antes de sair lembrou-se de mandá-lo trancar-se no quarto enquanto ela ia ver o que era, pois os gritos a aterrorizavam demais para mandá-lo vestir-se e sair junto a ela.


A cena do lado de fora era assustadora. Os herdeiros ricos de Gotan corriam pelo jardim em busca de uma saída enquanto eram perseguidos por homens encapuzados. Saído de lugar algum um helicóptero sobrevoou o local e de repente saíram pessoas com trajes coloridos que começaram a lutar contra os encapuzados.


Observando aquela cena e sem saber o que fazer, alguém atirou sem querer champagne em seu vestido e dessa vez a sensação era mil vezes incomparável a da anterior. Estava sem ação e só podia observar o jardim de sua casa voltar aos poucos à normalidade, com pessoas desmaiadas no chão e um grupo colorido de pessoas se aproximando dela.


- Somos a Liga da Justiça. Você é a dona da casa? – perguntou um rapaz com uma fantasia parecida demais com a do Superhomem, mas que Lara sabia não pertencer a ele porque já tinha visto fotografias demais do Homem de aço para confundi-lo com aquela criatura raquítica.


Perdeu o chão e as palavras lhe faltaram na boca à menção do nome Liga da Justiça. Estava ferrada, era só no que conseguia pensar, mas conseguiu reunir palavras e dizer que sim, era a dona da casa e perguntar pelo que acontecera.


- Ainda não sabemos. Seu pai está em casa? – o rapaz perguntou novamente e dessa vez os olhos de Lara se voltaram não para ele, mas para um outro encapuzado atrás de todos no grupo. Apesar do capuz, tinha certeza de ele não ser o vilão. Era herói demais e seus olhos verdes por trás do capuz brilhavam afirmando isso a todo momento.


Ah sim, e mais ferrada do que estava impossível.