A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:

7 🌺Ninguém Senta Sozinha na Biblioteca:


O dia estava cinzento e a chuva escorria lenta pelas janelas da torre da biblioteca, transformando Hogwarts num sussurro de pingos, páginas e passos abafados. Amy estava sentada à mesa mais afastada, aquela perto da gárgula torta e da estante de Runas Antigas, com Mirra enrolada em seu colo como uma almofada de sombra.

No caderno à sua frente, Amy rabiscava frases que não pretendia mostrar a ninguém.

“Não são os gritos que incomodam.

São os silêncios depois deles.”

A voz de Rose Weasley a surpreendeu.

— A gárgula sempre parece que vai morder, mas nunca morde. Já testei três vezes.

Amy ergueu os olhos devagar. Rose estava ali, com um livro de Aritmancia embaixo do braço e um olhar mais hesitante do que o habitual. Seus cabelos estavam presos num coque bagunçado e havia um brilho de cansaço sob os olhos — típico de quem tentou argumentar com dois professores e um primo no mesmo dia.

— Se um dia ela morder, você vai merecer — respondeu Amy com um meio sorriso.

Rose riu, surpresa. Foi a primeira risada que Amy ouviu dela desde o início do ano que não soava forçada.

— Posso... — Rose apontou para a cadeira à frente. — Posso sentar?

Amy deu de ombros, mas havia um convite silencioso no gesto.

— É um espaço público. E a gárgula me protege de você, de qualquer forma.

Rose sorriu de novo e se sentou. Por um tempo, ficaram em silêncio. A chuva fazia um som confortável contra os vidros, e a presença de Rose ali era estranhamente… natural.

— Sabe — começou Rose, folheando o livro sem olhar de verdade —, eu não queria parecer uma idiota aquele dia no corredor. Sobre o Albus e o Scorpius.

Amy olhou para ela, sem interromper.

— É só que... eu passei a vida tentando fazer tudo certo, sabe? Ser uma boa aluna. Uma boa Weasley. Não decepcionar ninguém. Então quando eles... fizeram o que fizeram... e ainda por cima não tiveram punição eu senti como se tivessem virado o tabuleiro todo.

Amy apoiou o queixo na mão, observando Rose com curiosidade sincera.

— E você ficou com raiva por eles terem bagunçado as regras que você sempre seguiu.

Rose assentiu.

— Sim. E porque... porque eu ainda me importo com o idiota do meu primo. Talvez por isso tenha doído mais. Eu me afastei porque puni-lo, mas doeu em mim também. E você chegou... e foi gentil, e firme. E... você não teve medo de ser vista com eles.

Amy deu um pequeno sorriso.

— Eu não sigo o mesmo tabuleiro que você, Rose. Nunca segui.

— E mesmo assim você joga melhor que a maioria. — Rose sorriu, sincera. — É irritante.

Amy riu, surpresa com a confissão.

— Você é diferente do que eu pensava — disse Rose.

— Você também.

Rose mordeu o lábio inferior, pensativa, e depois perguntou:

— Eu gosto mais de você do que da maioria das pessoas sabia? Você já teve uma amiga de verdade, Amy?

A pergunta pairou no ar como uma pena solta. Amy olhou para Mirra por um instante, depois ergueu os olhos para Rose.

— Acho que sim. Mas... acabei me afastando delas depois que descobri que era uma bruxa, muitos segredos entende?

Rose sorriu de um jeito tímido e bonito, como quem não sabe lidar com doçura de forma direta. Ela estendeu a mão por cima da mesa.

— Eu... eu ...- Rose mordeu os lábios enquanto Amy aguardo de forma paciente, nunca tinha visto a amiga sem palavras antes – Eu acho que nunca tive, pelo menos até começar a conversar com você no ano passado.

Amy soltou uma risada alta, não um daqueles risinhos contidos que costumava dar, mas uma DE VERDADE que fez com que os outros estudantes que estavam na biblioteca a olharem feio.

— Isso não pode ser sério – disse Amy ainda cobrindo a mão na boca para conter o riso – Toda vez que eu te vejo você está cercada por uma orla de pessoas. Sabia que antes de nós começarmos a conversar eu te chamava de senhorita popular? – completou ela já mais controlada.

— É que ... – começou Rose visivelmente envergonhada e Amy ficou se aprumou na mesma hora – eu sei lá, é como se eles não me vissem de verdade entende? Às vezes eu tenho a impressão de que eles só andam comigo porque eu ou “a filha dos heróis de guerra que ajudaram a derrotar Voldemort”.

— Bom, eu cresci no mundo trouxa então isso não significa para mim como significa para os outros estudantes.

Rose pareceu se animar um pouco. E Amy completou:

— Se essa é a sua maior preocupação pode ter certeza de que agora você tem uma amiga de verdade – e sorriu para a outra garota e viu os olhos dela marejarem.

— Então vamos estudar ou não? – disse Rose que aparentemente tentava se livrar dos sentimentos.

Amy olhou para a mão por um momento. Depois, fechou o caderno, limpou os farelos de biscoito de cima da mesa e apertou a mão da ruiva.

— Vamos.

Mirra ronronou em aprovação.