A Herdeira Silenciosa

1 A Herdeira Silenciosa


“Rostos que o mundo reconhece (e ela, não)”

Por volta de 1º de setembro, 2019

Estação King's Cross, Londres — Plataforma 9¾

O vapor escapava da locomotiva como se o próprio ar respirasse em sussurros. Amy Caroline Thompson Moore apertou a alça da mala com mais força e observou os outros alunos embarcando. Pais acenavam, irmãos se abraçavam, corujas piavam — e ela estava só.

Não completamente — Mirra, sua gata preta, que carregava no colo a observava de com os olhos amarelos, desconfiados de tudo e todos, quem diria... aquele filhote carente e cheio de pulgas que Amy tentou se livrar de todas as formas há um ano e que insistia em segui-la para todos os lugares agora era o único ponto de apoio de Amy. Somente o falo de estar se agarrando a Mirra com toda a força possível e a sua presença sólida fazia a garota acreditar que ainda não havia perdido a cabeça completamente e que estava vivendo em algum de seus sonhos malucos. Quer dizer magia, escola de magia, pessoas que atravessam a parede para pegar um mantido trem, ....

Amy engoliu em seco. Tinha lido todos os livros que o professor Longbottom lhe dera após buscá-la no orfanato. Sabia o nome das casas, dos feitiços, das regras não escritas de Hogwarts, sabia que o pelo de unicórnio na sua varinha fazia com que ela fosse inadequada para magia das trevas e infinitamente leal ao seu dono. Sabia até como andar com a capa escolar sem tropeçar.

Mas não sabia como se sentir pertencente a nada daquilo.

"A magia vai parecer estranha no começo", o professor Longbotton lhe dissera ao deixá-la. "Mas ela já é parte de você, mesmo que você ainda não saiba como." Ela carregava aquele conselho como um feitiço silencioso no peito e esperava que fosse verdade.

Quando o trem finalmente chegou seu vapor preenchia o ar como uma névoa e o som agudo do apito a chamava para esse mundo que não era dela, ela ainda podia recuar, voltar para trás, voltar para sua vida comum no interior e das as costas para toda essa loucura. Mas... não ia fazer isso, por mais que detestasse admitir para si mesma ela sempre fora muito curiosa e isso, todos os livros que tinha lido, ela mal podia esperar para ver todas essas coisas pessoalmente.

Amy segurava Mirra com ambas as mãos, firme como se fosse um escudo, finalmente decidiu que era hora de deixa-la na gaiola, a gata grunhiu em protesto mas Amy a trancou imediatamente sem tempo a perder. As rodas de madeira da mala batiam no chão irregular enquanto ela caminhava com passos pequenos, os olhos varrendo a multidão com a atenção de quem não se permitia errar.

Foi então que notou.

Uma família.

Não por estarem no centro da plataforma, mas porque as pessoas olhavam para eles demais. Como se tivessem acabado de sair de um dos livros que ela costumava pegar escondido no orfanato. Todos desviavam o olhar rápido demais quando cruzavam com aquele grupo.

Um homem de óculos, com um semblante calmo e cansado. A mulher ruiva ao lado dele falava com firmeza, mas sorria como quem sabia que estava sendo observada. E ao lado deles outro casal –um homem ruivo meio desajeitado (talvez parente da outra mulher) e uma mulher com um ar decidido, como se o mundo fosse um problema que ela já tivesse resolvido e arquivado.

As crianças que os acompanhavam estavam prestes a embarcar no trem. Um menino moreno e uma menina ruiva de expressão determinada que pareciam ter a sua idade.

Amy observou a cena em silêncio. Ela não sabia os nomes. Mas sentia. Eles eram importantes. Talvez não para ela. Mas para o mundo em que estava entrando.

"Todo mundo fica encarando como se eles fossem parte da decoração da estação," comentou uma voz do lado — uma garota loura com sardas, que passou apressada com um monte de corujas em gaiolas flutuando atrás dela.

Amy ficou parada por mais um momento.

O menino e a menina abraçaram os pais. A mulher de cabelo castanho acariciou os cabelos da menina antes de lhe dar um beijo rápido na testa. Algo dentro de Amy se contorceu. Uma memória que não existia. Um desejo por algo que nunca teve.

Mirra, dentro da gaiola, soltou um miado baixo e quase zangado.

Amy sacudiu a cabeça, ajeitou os ombros, e subiu no trem sem olhar para trás.

Ainda não sabia os nomes.

Ainda não sabia o que a esperava.

Mas sabia que tudo — absolutamente tudo em sua vida— estava prestes a mudar.

A Travessia do Lago

A água do lago refletia a lua como um olho antigo e atento. Amy sentou-se num dos barquinhos guiados por Hagrid (um nome que ela julgou ser tão engraçado quando o próprio homem que conduzia o barco), ao lado de uma garota ruiva que falava pelos cotovelos — Rose Weasley, se lembrava de ouvir, a garota da estação.

Amy apenas assentia, mais interessada nas sombras das montanhas que cercavam o castelo e na visão de tirar o folego que estava tendo.

Por um instante, viu algo. Um vulto de mulher sobre as águas, os braços erguidos, cabelos como serpentes flutuando na névoa. Ela piscou — e desapareceu.

"Você também viu aquilo?" sussurrou, sem perceber que dissera em voz alta.

— Viu o quê? — perguntou Rose, franzindo o cenho.

Amy balançou a cabeça. — Nada. Devo ter imaginado.

Mas Mirra arqueou o dorso e rosnou baixo.

O Salão Principal

O teto encantado mostrava um céu nublado, com estrelas tentando furar o véu de nuvens. As velas flutuantes lançavam uma luz suave que fazia a pedra antiga do castelo parecer viva. Amy observava tudo com o olhar de quem não queria esquecer um detalhe sequer.

O professor Longbotton sorriu para ela da mesa dos docentes. Havia outros rostos: uma mulher idosa com feições de águia (a diretora, certamente), uma exótica professora com colares coloridos que sorria demais, e um homem gordo e muito velho – o professor de poções, Amy se lembrava de ter lido algo sobre ele em algum lugar.

Amy sentiu uma vertigem súbita, como se o tempo curvasse ao seu redor quando seu nome foi chamado.

"Moore, Amy Caroline." – disse a direta com uma voz firme

O chamado ecoou pelo salão. Ela sentiu todos os olhares virarem-se para si. Mas era só mais uma órfã entre muitos — ninguém saberia. Ninguém lembraria dela.

Ela caminhou devagar até o banco, sentou-se com as costas eretas, e o Chapéu Seletor foi colocado sobre sua cabeça.

O Diálogo com o Chapéu

— Ora... — murmurou o Chapéu em sua mente. — Que presença curiosa... você é cheia de silêncios gritantes. Hmm.... mas que personalidade interessante você tem mocinha...

Amy apertou os dedos do banco.

— Coragem você tem, sim. E uma ousadia que queimaria qualquer sala da Grifinória... mas você se cala onde outros berrariam. Não, Grifinória não. Seria um erro.

Uma pausa. Longa. Tensa.

— Lufa-Lufa... ah, o coração leal e muito justa. A capacidade de ouvir antes de falar, a honestidade... Lufa-Lufa seria bom Mas você... você guarda demais, não confia facilmente Você pensa. E sonda. E vê além.

Mais silêncio.

— Corvinal. Claro. Mas não apenas pelos livros que você tanto ama. Você lê as pessoas. Vê padrões onde outros veem caos. Há algo em você... como se fosse feita de memórias que não viveu.

Amy sentiu um calor na palma da mão. Como se algo nela despertasse em resposta. Estava ficando tensa, já fazia mais de 5 minutos, nenhum outro aluno havia demorado tanto, as pessoas estavam começando a reparar. Ela engoliu em seco.

O Chapéu murmurou:

— Há magia muito antiga em você, menina... algo que nem eu consigo nomear.

Não sei se isso será bênção ou maldição. Mas onde houver busca, haverá resposta.

Corvinal!

Depois da Escolha

A mesa azul e bronze a aplaudiu com polidez. Amy sentou-se no fim da fileira. Rose Weasley olhou para ela do outro lado do salão com curiosidade, mas não deu muita atenção, logo em seguida se virou para conversar com uma menina que estava ao seu lado.

Amy não devolveu os olhares curiosos. Estava com a mão pousada sobre o colo, a palma virada para cima. Ali, onde ninguém podia ver, havia um calor persistente — e uma espiral quase invisível, desenhada como se estivesse adormecida sob a pele.

Enquanto todos celebravam, ela olhou para o teto. As nuvens haviam se aberto ligeiramente. Uma estrela brilhou por um segundo. E então se apagou.

Um sussurro ecoou em sua mente, sem dono e sem língua:

"A herdeira desperta. E o espelho do esquecimento voltará a se partir."

Amy estremeceu.

E soube, instintivamente, que aquela escola não seria só uma escola.

Era o começo de algo muito maior.



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